Introdução
As análises de cariz histórico e sociocultural da actual situação do cristianismo, em contexto europeu ocidental, são bastante conhecidas e corroboradas pelos documentos oficiais da Igreja e por muitos agentes da pastoral.
Em termos genéricos, apontam para uma acentuada secularização, subjectivismo, probabilismo, pluralismo radical e isolamento cultural da Igreja.
No que à fé diz respeito, vivemos num tempo marcado por muitos obstáculos e contradições. A fé parece interessar pouco os homens e mulheres de hoje, que vivem na indiferença face à fé cristã e, mais geralmente, são indiferentes à própria busca de Deus. Mas não é tudo. Aqueles que se dizem crentes e cristãos mostram uma fé débil, sem grande fôlego, incapaz de expressar a força que muda a vida, a maneira de pensar, de sentir e agir. Cada vez mais, nós, cristãos, somos uma minoria numa sociedade plural entre outras crenças religiosas, expressões éticas e espirituais que não fazem qualquer referência a Deus nem às vias tradicionais.
A transmissão da fé tornou-se difícil, e as novas gerações parecem incapazes de receber esse legado de fé e cultura que durante séculos marcou o nosso povo. Falta de afeição pela Igreja. Falta o sentido de comunhão.
Até há pouco a formação procurava cumprir tarefas de informação e adestramento (transmissão de conhecimentos, proporcionar hábitos, induzir comportamentos). Hoje a formação nos mais diversos âmbitos, ganha novos contornos: transformação, adaptação às mudanças, tutoria na construção de identidades e escolhas fundamentais. Passa por um trabalho de representações simbólicas.
O plano da comunicação: alguns quadros da comunidade cristã; a iniciação cristã; catequese e comunidade; pistas de reflexão.
1. A comunidade cristã
a) Consciência missionária
O tema escolhido para o próximo sínodos dos Bispos «Nova Evangelização para a transmissão da fé, indica a necessidade de um novo dinamismo missionário.
O caminho que está a ser percorrido pela Igreja portuguesa, expresso, por exemplo no programa em curso, Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal” mostra a «consciência missionária e evangelizadora» e a necessidade de ser criativa, recuperar o ardor sobrenatural e recuperar com ousadia a dimensão profética: «ser voz de esperança e sinal de amor que abala a indiferença e o comodismo… voz que denuncia os atentados à dignidade humana»
Esta "consciência de evangelização" da Igreja portuguesa, mostra o sentido da "distância" que foi criado entre a fé cristã e a mentalidade moderna. Esta distância é uma oportunidade para marcar a diferença e a especificidade, contra a atitude de auto-suficiência que está a gerar um novo estilo de vida, marcado pela razão calculista e instrumental, que absolutiza a liberdade individual como fonte dos valores éticos.
Essa especificidade, no entanto, deve assumir uma dinâmica precisa. Não se trata de «ficar à espera», é necessário «ir» aos lugares onde se tece a vida e a história dos homens e mulheres de hoje. É na relação homem-mulher, no diálogo entre as gerações, nas relações sociais, no empenho pelas situações de carência…
b) O testemunho comunitário
Historicamente, a Igreja portuguesa tem uma dimensão popular. Não quer dizer baixo nível, cristianismo de mínimos, mas uma fé que marcava toda a existência do povo português, que marcava o ritmo da vida, que plasmou a cultura e a história do nosso povo.
Como afirmou João Paulo II:
Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objecto de equívoco vendo nele um caminho extraordinário, percorrível apenas por algum « génio » da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um. Agradeço ao Senhor por me ter concedido, nestes anos, beatificar e canonizar muitos cristãos, entre os quais numerosos leigos que se santificaram nas condições ordinárias da vida. É hora de propor de novo a todos, com convicção, esta « medida alta » da vida cristã ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direcção.
O estilo próprio da Evangelização só pode ser comunitário. Com razão se fala hoje de sinodalidade: cada um com seus dons e reponsabilidades. Mão não se trata de uma opção entre outras. Ninguém pense que comunica Cristo por sua própria conta nem ninguém é discípulo de Cristo sozinho, isolado! Veja-se os apóstolos e as primeiras comunidades no encontro com Cristo ressuscitado.
O modo de se realizar o testemunho é pela redescoberta duma teologia do laicado que se funda no sacerdócio baptismal. Impregnar as realidades humanas (família, trabalho, ministérios eclesiais, voluntariado, empenho social e político, missão) .
C) Significativo para a pessoa
Uma pastoral que esteja ao serviço da unidade da pessoa humana. Só com gestos significativos, qualidade na relação, valor educativo, se pode transmitir o Evangelho de Jesus Cristo e a plenitude da vida e da esperança.
Não é com uma fé imatura, débil, «pequena» espécie de tranquilizante, que cura pequenas feridas… Onde está a fé «grande» que nos fala do fogo do Espírito, da presença actuante de Jesus Cristo, do pecado e da misericórdia, da cruz e da Ressurreição.
Que pedem os pais para os seus filhos no dia do baptismo? E quando os inscrevem na catequese para receberem os sacramentos? Pedem um apoio, uma ajuda na educação… Mas bastará pedir isso? Por muito nobre que seja, a vocação da Igreja é ser mais que um serviço social!
2.A Iniciação cristã
Algumas notas
1. A iniciação cristã é o primeiro e fundamental encontro do crente com a Igreja através do qual o crente é acolhido pela Igreja de modo decisivo e definitivo. O ser humano não se torna a si mesmo membro da Igreja, mas é feito membro. Não entra na igreja, mas é recebido na igreja. A voz passiva indica que o actor principal é o espírito Santo que actua simultaneamente no coração do crente que procura a Igreja e na comunidade que o acolhe. A Igreja toma assim consciência de que prolonga a acção de Cristo que atrai a si mesmo os homens para os tornar membros do seu corpo que é a Igreja. Pensa-se na conversão como um acto pessoal, vivido na intimidade de cada um com Deus. É verdade. Mas por iniciativa e graça de Deus. Disse-o Santo Agostinho: tudo provem da graça. A Igreja não está fora do processo como se colhesse um fruto que é a pessoa convertida. Não a Igreja na conversão está presente desde o início.
2. Quando se fala do pedido de um baptismo ou dos sacramentos de iniciação muitos pensam no que a Igreja deve exigir! As condições.
Pedir o baptismo á Igreja é pedir "a" Igreja: a sua fé, a sua oração, a comunhão e a participação na sua vida. Significa ser acolhido como um filho por sua própria mãe, gerado nela, no seu útero. Nesta perspectiva, pergunta não é: "O que exigir daqueles que pedem os sacramentos". Mas a pergunta certa será «como criar as condições, porque a Igreja seja capaz de acolher e acompanhar o que bate à sua porta.
Certamente, a Igreja sempre colocou condições para receber os sacramentos. A fé, em primeiro lugar. Não para afastar mas para se perceber que há escolhas a fazer.
3. Com a iniciação cristã a Igreja mãe gera os seus filhos e regenera-se. A paróquia é o lugar normal onde tudo acontece. Todavia em quantas das nossas paróquias se vê a falta de envolvimento da comunidade. Urge repensar a organização das nossas paróquias para manter a capacidade de oferecer a todos a oportunidade de aceder à fé, crescer na fé e testemunhá-la nas condições normais da vida. Quer isto dizer que a iniciação cristã deve estar no centro das preocupações da pastoral para que sejam esse seio materno onde nascem e se formam os novos cristãos. Essa é a sua missão prioritária.
4. «Tornamo-nos cristãos». Esta expressão indica um início e uma continuidade. Tal como a parábola da semente: «O Reino de Deus é como um hiomem que lança a semente à terra. Dorme, levanta-se de noite e de dia e a semente brota e cresce sem ele o perceber. Pois a terra por si mesma produz, primeiro, a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante na espiga» (Mc 4, 26-28).
5. Não seria razoável que a Igreja como mãe gerasse os filhos e não os alimentasse, educasse, ajudasse a atingir a maturidade. Por isso nasceu na Igreja o caminho da iniciação cristã. A nossa prática tem o baptismo de crianças, depois a Eucaristia e finalmente o Crisma. Aparecem «isolados», sem a ligação própria de um organismo vivo. Uma dificuldade que notamos é a tendência de desligar os momentos de catequese (de tipo escolar, realizada mais como instrução e actividades de grupo) dos momentos propriamente orientados para a participação na vida da comunidade cristã: vida litúrgica, oração, festas litúrgicas, experiências da vida de caridade… basta ver o número de crianças e jovens que desertam da Eucaristia Dominical e doutros momentos fortes.
6. Para o bom entendimento da Iniciação cristã é necessário pôr em confronto duas afirmações clássicas: na linha pastoral, «não nascemos cristãos, tornamo-nos cristãos» o que exprime o processo de crescimento com um itinerário e etapas e tempos próprios; na linha sacramental e iniciática, «não nascemos cristãos, somos feitos», que exprime que é O próprio Cristo que nos configura como cristãos pelos sacramentos.
3. A dimensão comunitária da catequese
Como descrever, de modo sintético, os laços existentes entre catequese e comunidade?
Uma passagem emblemática:
A comunidade paroquial deve continuar a ser a animadora da catequese e o seu lugar privilegiado. Precisa para isso de reencontrar a sua vocação neste aspecto, que é a de ser a casa de família, fraterna e acolhedora, onde os baptizados e confirmados tomam consciência de ser Povo de Deus (CT 6).
É a mesma Carta encíclica que especifica um pouco mais os laços entre a vitalidade catequética e a vitalidade da vida comunitária
Quanto mais a Igreja, a nível local ou universal, se mostrar capaz de dar prioridade à catequese — em relação a outras obras e iniciativas cujos resultados possam ser mais espectaculares — tanto mais encontrará na catequese o meio para a consolidação da sua vida interna como comunidade de fiéis, bem como da sua actividade externa missionária. (CT 15).
Já o Directório catequético de 1971 afirmava taxativamente que a catequese deveria ser «suportada» pelo testemunho duma comunidade cristã. É uma questão de coerência e credibilidade. O testemunho de vida – da comunidade e do catequista - é essencial, é o elemento que mais contribui para a que uma catequese seja eficaz. Por isso falava do catequista como «intérprete» da Igreja junto dos catequizandos. O catequista lê e ensina a ler os sinais da fé. O primeiro sinal é exactamente a própria Igreja como comunidade. Por isso é tão importante o espírito eclesial que deve animar cada comunidade que, sob a orientação dos Pastores, tem o dom de afastar e corrigir tudo o que desfigura a própria imagem da Igreja. E é isso que afasta e impede os homens e mulheres de hoje de abraçar a fé com encanto.
Este ponto é fundamental. Num tempo em que os nossos contemporâneos são tão sensíveis á prova da vida (ver para crer) acentuar o testemunho é decisivo.. um catequista não pode motivar, interessar, acompanhar, educar na fé se não tem uma comunidade como apoio, da qual ele é membro vivo e mais é delegado. Interroguemo-nos: como pode um catequista explicar a importância da oração, a leitura orante da bíblia, a fraternidade se o catequista não pode mostrar uma comunidade cristã que reze, que leia a sagrada Escritura, que tenha laços fraternos ?
O novo Directório aprofunda o lema clássico que dá o título a esta comunicação: a comunidade cristã, origem, lugar e meta da catequese.
É sempre da comunidade cristã que nasce o anúncio do Evangelho, que convida os homens e as mulheres à conversão e a seguirem Cristo. E é esta mesma comunidade que acolhe aqueles que desejam conhecer o Senhor e a comprometer-se numa vida nova. Ela acompanha os catecúmenos e os catequizandos, no seu itinerário catequético; e, com solicitude materna, chama-os a participar na sua própria experiência de fé e integra-os no seu seio (DGC 254).
Vejamos mais detalhadamente:
a) A comunidade, lugar natural da catequese
A comunidade cristã por aquilo que é, anuncia e celebra, realiza e permanece sempre como o lugar vital, indispensável e primário da catequese (DGC 141).
Pode-se afirmar que a qualidade da comunidade é o critério fundamental para se saber se existe meio ambiente para ser ou não um lugar de catequese.
b) A comunidade sujeito verdadeiro da catequese
Uma comunidade cristã activa e crente é o primeiro sujeito da transmissão da fé e o agente, digno de confiança e responsável da catequese. Ainda que tenha pessoas ou estruturas específicas para o efeito o verdadeiro sujeito é sempre a comunidade. A concepção vertical da catequese (relação professor - grupo de alunos) foi ultrapassada. Num contexto comunitário não existem os meros «receptores»: todos participam na catequese, todos são sujeitos da Palavra e da experiência; todos ensinam e aprendem, todos são agentes e receptores da actividade catequética, porque todos estamos ao serviço da Palavra que incarna nas nossas vidas.
c) A comunidade destinatária da catequese
A catequese não se dirige apenas aos indivíduos, mas também à comunidade. A catequese é esta acção eclesial que conduz a comunidade e os cristãos em particular á maturidade da fé. A relação pessaol do catequista com os catequizandos tem de ser integrada na comunidade. Isto leva a reflectir as actividades que fazemos com grupos específicos. Sem negar a sua utilidade, deveremos promovero clima cumunitário onde seja possível o diálogo entre participantes de condições e sensibilidades diferentes. Uma catequese que prive as crianças e os jovens do diálogo intergeracional revela-se ineficaz.
d) A comunidade objecto e meta da catequese
A comunidade é muito mais que uma condição de sucesso da catequese. É importante afirmar que a catequese cria, edifica a comunidade. Na catequese a Igreja constrói a Igreja. Esta perspectiva tem o seu fundamento na natureza da Igreja que é convocada pela proclamação da Palavra.
4. Algumas pistas para aprofundar
A Catequese actual, como nos disse Enzo Biemmi, no 50º aniversário dos Encontros de responsáveis da catequese, tem necessidade de três conversões. Passamos a citar:
a) Conversão missionária
Vivemos num país onde mais de 80% se consideram católicos e a prática cristã permanece relativamente elevada. As pessoas conhecem o cristianismo e a Igreja, talvez em demasia e mal. Mas não está garantido que a fé tenha tocado coração das pessoas. Aí está o sentido da expressão "toda a acção pastoral deve estar "irradiada" de primeiro anúncio". Por isso propõe chamar a este desafio "segundo anúncio", bem mais complicado que o primeiro, uma vez que se trata do confronto com toda uma série de visões destorcidas, de preconceitos, de resistências. É preciso ajudar a desaprender antes de ajudar a aprender.
b) Conversão iniciática
O Directório Geral da Catequese convida-nos a recuperar a inspiração do processo catecumenal e pôr em prática uma catequese que seja uma “verdadeira escola da fé". Este processo é qualificado pela "intensidade e integridade da formação; pelo seu carácter gradual, com etapas definidas; pela ligação aos ritos, símbolos e sinais, especialmente bíblicos e litúrgicos; pela referência constante à comunidade cristã..." (DGC91)). Trata-se de um verdadeiro "banho eclesial" na vida cristã. E qual a razão desta escolha? Muito simples. Num contexto social de cristandade a iniciação na fé dava-se nos ambientes da vida: a família, a escola, a aldeia. Nesse contexto e durante muitos séculos a catequese sofreu duas simplificações, duas reduções: foi reservada às crianças (embora nascida para os adultos) e tornou-se uma "catequese de boa preparação para os sacramentos", tendo sido uma catequese de iniciação à vida cristã. Ora, numa cultura de secularização, de globalização, de comunicação planetária, nem a família, nem a escola, nem a aldeia levam a cabo a iniciação sociológica à fé cristã. O contexto exige então uma conversão missionária da comunidade (primeira conversão) mas para que ela tenha lugar é necessário que a comunidade se torne, ela própria, um lugar iniciático, um meio portador da fé. Daí a segunda conversão da catequese: de uma catequese que prepara para bem receber os sacramentos a uma catequese que inicia na fé "pelos sacramentos" (a mudança é de envergadura!); de uma catequese reservada às crianças para uma que torne o adulto no sujeito e destinatário principal da catequese, mesmo no caso da catequese das crianças.
c) Conversão secular
Trata-se de reaprender a anunciar o Evangelho nas situações de vida das pessoas, nas passagens das suas vidas, em tudo o que as faz viver, sofrer, ter esperança: a experiência de se apaixonar, a paternidade e maternidade, o trabalho e a festa, a paixão pelas causas humanitárias ou sociais, toda a experiência de fragilidade, as rupturas familiares, as separações, os divórcios; os lutos, como a morte de um filho ou do companheiro; a doença, o sofrimento, a solidão; a velhice e a proximidade da morte. Há que anunciar um evangelho do amor, um evangelho da paternidade e da maternidade, um evangelho da paixão e da compaixão, um evangelho da fragilidade afectiva e física, um evangelho da ressurreição no coração de qualquer experiência de morte.
Trata-se de um verdadeiro êxodo para a comunidade cristã: uma passagem da linguagem, da organização e da proposta intra-eclesial a uma linguagem laica, a uma desorganização da nossa pastoral auto-referencial com vista a uma reorganização sobre os tempos e os ritmos da vida humana, a uma proposta da fé que toque as necessidades da vida das pessoas.
Acrescentamos ainda:
e) A conversão comunitária
A importância do grupo como lugar de catequese e das pequenas comunidades.
O grupo é importante do ponto de vista pedagógico: gera-se um processo que facilita a dinâmica educativa que motiva e ajuda a interiorizar os valores; tem pertinência eclesiológica - «Ibi tres, ecclesia est» - pois expressões como comunhão, responsabilidade e presença, tornam-se experiências vividas. Tem ainda pertinência catequética tornando-se referência na educação e maturação da fé, ambiente ideal para interiorizar atitudes. Aprende-se a dizer «creio» com os outros.
As pequenas comunidades podem ser «laboratórios», ecclesiola, onde se partilha fraternalmente, se estimula a criatividade, a busca em comum, facilitam a experiência da comunhão. Com algumas condições: estejam ligadas à comunidade alargada, permanecerem abertas e aceitem questionar-se permanentemente.
A insistência comunitária, exercitada com competência, é um salto qualitativo importante.
Permitirá uma nova compreensão da mensagem cristã e o diálogo fé-cultura.
Necessita de um novo tipo de catequista que seja acompanhante, animador. Trata-se de uma mudança substancial: não pode centrar-se em si mesmo (a sua personalidade, convicções, decisões, «culto da personalidade» …) mas nos outros e na caminhada em conjunto (acolhimento, abertura aos outros, facilita o caminho e o seguimento do Mestre…). Episódio bíblico sugestivo: Act 8 (Diácono Filipe e o eunuco).
Conclusão
Quando lemos o livro dos Actos dos Apóstolos notamos que existe um grupo que se reúne, cerca de 120 pessoas, com os Onze, e algumas mulheres, entre as quais Maria e os irmãos de Jesus (Act 1, 13-15). Reuniam-se nas casas e no templo (2,46). Estas testemunhas apoiam-se em três referências fundamentais: as Escrituras (1,20), o modo de ser e actuar de Jesus Cristo Nazareno (3,6) e uma força (dynamis) que é a força do Espírito Santo (1,8). É assim que a Igreja nasce. Não existe um programa previamente definido. Desenvolve-se ao ritmo dos acontecimentos pessoais e colectivos que vão surgindo, pela capacidade de os interpretar a partir do que lhes foi deixado pelo Ressuscitado e pela actuação consequente. A Igreja («assembleia») vai ganhando corpo e , assistida pelo Espírito Santo cresce como um edifício (9,31). À volta de 5 pilares:
Esta breve referência aos Actos dos Apóstolos ajuda-nos a perceber não apenas que a Igreja do 3º milénio terá necessariamente uma forma cultural específica, mas sobretudo que a igreja está continuamente a nascer e a crescer intrinsecamente ligada aos acontecimentos individuais e colectivos da vida humana. Aliás ela não existe para si mesma. A sua razão de ser é transmitir em nome e à maneira de Cristo a Boa Nova (Evangelho) sempre radical. Não o faz a partir do exterior, mas despertando o que está «adormecido» em toda as buscas de sentido da humanidade. Ou seja, existe um duplo trabalho: descobrir e reconhecer o «novo» que já está a operar no mundo e despertá-lo através de uma «presença» que lhe vem de Jesus Cristo.
A catequese, através duma iniciação cristã autêntica, função maternal da Igreja, há-de suscitar cristãos com esta mentalidade.
Manuel Queirós