A reforma catequética em Portugal
Conferência do Cardeal Patriarca de Lisboa na Assembleia dos bispos franceses, Lourdes, 7 de Novembro de 2001.

D. José Policarpo

A reforma catequética em Portugal

Conferência do Cardeal Patriarca de Lisboa na Assembleia dos bispos franceses
Lourdes, 7 de Novembro de 2001

I – Contexto da reforma catequética.

1. A catequese, enquanto realização da missão evangelizadora da Igreja e etapa do crescimento da fé e de iniciação à vida cristã, deve ter em conta a problemática de conjunto, quer da Igreja, quer da sociedade na sua evolução sociológica e cultural. Nada é mais ilusório do que uma iniciativa catequética fechada na sua pedagogia, sem tentar dar resposta aos problemas e aos pedidos das pessoas concretas, com as suas características específicas.
A sociologia portuguesa sofreu, nestes últimos anos, uma mutação social e cultural profunda e acelerada. País de tradição católica, com uma componente laica, anti-clerical e jacobina, esta mutação fez-se sentir no próprio interior da Igreja. Cerca de 90% da população ainda se declara católica (aguardamos os resultados do último recenseamento da população realizado no ano passado), de entre os quais 30% se declaram praticantes. Simultaneamente, efectuamos o recenseamento da prática dominical, cujos resultados ainda estão a ser estudados, mas os primeiros indicadores fazem-nos crer numa diminuição numérica, que deve ser comparada com os dados da população em geral.
No entanto, um dado é permanente: cerca de dois terços dos baptizados não têm uma fé vivida e celebrada e muitos deles não são crentes. Isto convida-nos a reflectir sobre a facilidade com que se baptizam as crianças e sobre a nossa incapacidade de ir ao encontro daqueles que baptizamos, para os introduzir numa verdadeira iniciação cristã, e encontrar caminhos missionários de anúncio de Jesus Cristo a esta multidão de baptizados não crentes ou muito pouco crentes.

2. Além disso, esta “comunidade eucarística” não é isenta de problemas. Só Deus conhece o número dos que procuram a santidade e crescem na caridade. Muitos destes cristãos praticantes não fizeram uma verdadeira iniciação cristã, o que os torna mais vulneráveis às modificações culturais e sociais.
Enumero rapidamente alguns aspectos da evolução da sociedade, que se repercutem facilmente na comunidade eclesial:

- A laicização da cultura que conduz a um naturalismo na interpretação da existência, marcado por uma espécie de racionalismo lógico, que influencia as opções éticas e põe em questão as normas morais; a perspectiva sobrenatural, essencial à visão cristã da santidade, enfraquece ou acaba por desaparecer.

- O culto da liberdade individual, muito acentuado no processo revolucionário que conduziu à democracia pluralista, leva a uma visão individual da verdade, da moral, da procura do sentido da vida. A consciência eclesial de um “nós” dissolve-se; a Igreja já não é considerada pessoa de verdade, de acção; ela é dificilmente aceite como “senhora da verdade”, sendo o seu magistério, frequentemente, reduzido ao nível da opinião.

- O culto do provisório, do mutável, que deixa muito pouco lugar a opções definitivas e à perenidade de certas dimensões da vida, sobretudo da vida cristã.

- A redução da expressão religiosa ao nível do privado, do subjectivo individual, minimizando a sua dimensão comunitária e as suas consequências sociais. A Igreja é confundida com a hierarquia; as suas tomadas de posição são aceites ao nível social, facilmente recusadas ao nível da moral pessoal. O próprio sentido do religioso dilui-se e torna-se sincrético. Há uma vaga de simpatia pelas religiões não-cristãs, como se todas as religiões fossem equivalentes.

- O enquadramento sociológico desempenha um papel cada vez menos importante na prática religiosa. Uma fé comprometida é, cada vez mais, uma opção pessoal da liberdade individual. Isto também tem que ver com o tratamento pastoral da “religiosidade popular”, elemento fortemente centrado nas tradições e que, por vezes, temos desvalorizado demais.

3. No interior da comunidade eclesial, sublinho os seguintes traços:

3.1. O reforço da dimensão comunitária da fé cristã. Existem comunidades vivas e responsáveis. A ideia da comunidade como verdadeiro sujeito da missão da Igreja começa a desenvolver-se, o que leva a um laicado cada vez mais participativo e responsável. A edificação de “comunidades evangelizadas e evangelizadoras” é, desde a “Evangelium Nuntiandi” o nosso “slogan” pastoral.

3.2. Verifica-se um enorme interesse pelos estudos bíblicos e teológicos. Mas facilmente se queimam as etapas, inserindo uma curiosidade racional a propósito das verdades da fé, na ausência de uma verdadeira iniciação cristã. Uma informação teológica sem uma verdadeira iniciação no mistério da experiência cristã pode levar a um criticismo mais racional do que crente.

3.3. Um fosso crescente entre a fé confessada e a fé vivida na novidade evangélica da experiência cristã.

3.4. A crise da família. Esta, enquanto primeira comunidade de comunicação da fé e de verdadeira iniciação cristã depois do baptismo, rareia cada vez mais. Uma grande percentagem das crianças que, apesar de tudo, se inscrevem na catequese paroquial, pertence a famílias separadas e nem sequer teve o primeiro anúncio da fé. Para mais, o enquadramento numa comunidade eclesial de fé ainda não é tão forte que possa substituir a família, mesmo havendo casos muito positivos, em que crianças se tornam verdadeiras evangelizadoras das suas próprias famílias.

II – Breve apanhado histórico sobre a reforma catequética em Portugal

4. Situo-me no quadro temporal da segunda metade do séc. XX, que está centrado no grande acontecimento do Concílio Vaticano II e no seu dinamismo de renovação.
O caminho percorrido vai de uma catequese das crianças, concebida fundamentalmente como preparação imediata para os sacramentos, sobretudo da Eucaristia (primeira comunhão) e da Reconciliação, a uma catequese concebida como iniciação cristã e formação permanente, orientada para toda a gente, todas as idades e todas as etapas da vida.

4.1. O ponto de partida deste longo caminho contava com a família cristã como primeira comunidade de fé, onde uma verdadeira iniciação à fé, sobretudo vivida, estava garantida. Uma preparação imediata para os sacramentos era feita, na maior parte dos casos, pelos próprios párocos ou por catequistas. Acentuava-se a memorização de fórmulas de fé e de oração (de que o catecismo de S. Pio X era o instrumento) e a comunicação da dimensão misteriosa dos sacramentos. Se não garantia uma grande compreensão da fé, esta catequese iniciava na fé e na oração, sendo seguro que era acompanhada pela prática dominical, pela oração em família e por uma iniciação às exigências morais.

4.2. A partir dos anos 50, dão-se grandes movimentos na Igreja que influenciam, directa ou indirectamente, a catequese: o desenvolvimento das ciências pedagógicas na educação; o alargamento progressivo da escolaridade obrigatória, aumentando progressivamente a sua duração (4 anos, 6 anos, 9 anos), o que condicionou a organização da própria catequese paroquial; os grandes movimentos eclesiais (reforma litúrgica, Acção Católica, vocações sacerdotais) influenciaram a catequese. Um laicado bem formado descobre a catequese como missão, etc.
Nesta etapa, ouso enumerar algumas características:

- A organização da catequese privilegia o esforço da compreensão sobre a memorização e a experiência religiosa;

- Verifica-se a primazia da pedagogia sobre os conteúdos;

- Os destinatários continuam a ser as crianças e, a partir de certa altura, os adolescentes. A oferta catequética segue de perto a escolaridade obrigatória (actualmente, a oferta catequética abrange um período de 10 anos);

- Faz-se um grande esforço na elaboração dos primeiros catecismos que, pela primeira vez, apresentam uma visão de conjunto das verdades da fé;

- Estrutura-se a formação de catequistas leigos; recebem “cursos” em que os aspectos pedagógicos são, frequentemente, preponderantes; elaboram-se os primeiros textos para catequistas; uma estruturação diocesana e nacional dá os seus primeiros passos.
A pedagogia catequética é complementada pelos movimentos para crianças e adolescentes: a “cruzada eucarística”, a Acção Católica para crianças e outros.

- Os aspectos mais negativos:

- A descontinuidade. A catequese é concebida para crianças e adolescentes, e não como um esforço contínuo, dirigido a toda a gente, de todas as idades. A ruptura entre o fim da catequese e a idade adulta era uma realidade. Praticamente ainda não se falava de catecumenado, porque os não baptizados eram raros e falar de catequese a um adulto era quase ofensivo.

- O facto da dimensão “ensino – conhecimento” prevalecer sobre o testemunho da fé, e a preocupação de uma espécie de “curriculum” dos sacramentos, e não o desejo de se iniciar na vida da fé, reduzem os frutos da caminhada catequética. Muitas crianças e jovens abandonam a prática religiosa depois de terem percorrido este “curriculum”. Interrogamo-nos se a catequese fez crescer a fé.

4.3. Nos anos 80, a Conferência Episcopal aprovou um novo plano catequético para todo o país. Nesta etapa (em que ainda estamos, de certo modo), sublinho os seguintes pontos:

- O plano catequético é concebido como uma caminhada (para 10 anos) em que a dimensão doutrinal aparece como instrução, mas sobretudo como iluminação duma experiência vital. O ritmo eclesial é acentuado, e os sacramentos da iniciação enquadram-se na progressão de um caminho a percorrer. A perspectiva bíblica e a pedagogia de história da salvação estão mais presentes.

- Novos catecismos e livros para o catequista foram elaborados de acordo com estes critérios. Procura-se valorizar a dimensão simbólica da fé e a descoberta da celebração da fé, através da liturgia;

- O “ministério” do catequista começa a definir-se como “vocação específica” e faz-se um grande esforço para a sua formação;

- O papel da memória é reabilitado no sentido duma tradição e duma continuidade da comunidade de fé. Volta-se a algumas “fórmulas” a aprender “par coeur”*, quer dizer, a guardar no coração;

- As ciências pedagógicas, entretanto, valorizaram o papel da memória como elemento estruturante do crescimento intelectual e espiritual. Aprender “as orações” é uma maneira de aprofundar a memória de Jesus e de todos os que nos precederam na confissão da fé e na oração;

- Devido ao facto dum itinerário catequético previsto para 10 anos, produz-se uma nova relação entre catequese e pastoral da juventude, mesmo que esta seja dificilmente concebida como continuidade da caminhada catequética. A idade da celebração do sacramento da Confirmação ainda hoje é uma “quaestio disputata”;

- O grande número de crianças não baptizadas (fenómeno dos anos 70) introduz a necessidade de um ritmo catecumenal no próprio seio da pedagogia catequética.

4.4. Durante este período, surgiram elementos novos, mudanças de sociedade e de Igreja:

- A crise da família acentua-se e a descristianização da sociedade aumenta. Muitas crianças chegam à catequese sem nunca terem ouvido o primeiro anúncio da fé. A primeira etapa da catequese torna-se kerigmática.

- Muitos pais já não são praticantes, o que torna difícil um caminho catequético concebido como iniciação à celebração e à oração. Começou-se um trabalho com os pais, que se revelou difícil e insuficiente.

- Os catequistas leigos são mais numerosos e não foi possível garantir a todos a formação adequada, sobretudo porque a sua persistência na função não é suficientemente duradoura. Acabam por não poder valorizar bem os elementos pedagógicos (catecismos e outros) postos à sua disposição. Em todo o caso, fez-se um grande esforço para a sua formação doutrinal, pedagógica e espiritual.

- A escola torna-se, para as crianças, cada vez mais pesada e cansativa. Escola mais “week-end” deixam pouco espaço para a catequese.

- A própria dimensão de organização levanta problemas novos. Numa diocese como a de Lisboa, temos mais de 10.000 catequistas, várias paróquias da periferia com mais de 1.000 crianças na catequese. Tudo isto exige uma grande organização, onde a qualidade e a autenticidade evangélicas nem sempre são fáceis.

III – O momento presente: as opções pastorais

5. Entramos, também nós, num período de revisão do processo catequético, no quadro do desafio duma “nova evangelização”.
Neste momento, apenas posso enunciar algumas opções fundamentais que representam outras tantas preocupações e intuições:

5.1. A catequese é um processo contínuo do cristão e da comunidade eclesial. Ainda é difícil interiorizar a perspectiva do Directório que considera a catequese dos adultos como o ponto de referência inspirador de todo o processo catequético. Passamos anos demais a tomar como referência a catequese das crianças e dos adolescentes. Mas a perspectiva começa a entrar nas mentalidades relativamente bem. Isto indica-nos que a grande renovação se deve situar ao nível da catequese dos adultos, na sua pluralidade metodológica.

5.2. Há um grande número de baptizados, crianças e adultos, que não estão preparados para iniciar um caminho catequético. Têm necessidade de um anúncio; a criatividade nos caminhos e nos métodos a seguir é um grande desafio. Não devemos queimar as etapas. A vida de fé tem o seu ritmo, o seu início, o seu crescimento, a sua alegria, a sua plenitude. A convergência harmoniosa entre uma pastoral kerigmática e a catequese é necessária.

5.3. O processo catequético deve ser concebido como uma verdadeira iniciação cristã, de inspiração baptismal, integrando harmoniosamente os múltiplos aspectos da experiência cristã: aprofundamento da fé, iluminação da fé pela doutrina, a fé celebrada e praticada na vida moral, a alegria da celebração e da oração, o compromisso na construção de um mundo novo, a experiência de comunhão e de fraternidade na comunidade eclesial.

5.4. Prioridade absoluta à dimensão comunitária da fé. A Igreja enquanto comunidade de fé é o verdadeiro sujeito da missão, o verdadeiro responsável da catequese, e o enquadramento no crescimento na fé. O enquadramento paroquial da catequese é uma opção principal, apesar de serem propostos dinamismos diocesanos na catequese dos adultos. As dioceses e as paróquias devem ser organizadas como “comunhão de comunidades”, devendo o ritmo comunitário estar presente em todas as iniciativas catequéticas. Acreditamos na fé em comunidade.

5.5. Uma continuidade harmoniosa das etapas do processo catequético deve ser procurada e mesmo uma convergência entre catequese dos adultos, dos jovens, das crianças. Ensaiamos experiências em que os pais aceitam fazer um caminho catequético ao mesmo tempo que os filhos, podendo fazer da catequese uma ocasião de diálogo e de partilha em família.

5.6. A preparação e formação contínua dos catequistas é crucial e decisiva. Não deve ser unicamente escolar e teórica. Esta formação deve ter, também ela, um ritmo de iniciação cristã e de catequese de adultos, em pequenas comunidades. É muito importante que os catequistas sejam testemunhas da fé; um ensino não comunica necessariamente a fé.
Pretende-se que pelo menos uma parte do itinerário de formação seja percorrido em conjunto por vários “servidores eclesiais”: catequistas, animadores de pequenas comunidades, ministros da Eucaristia e da liturgia, agentes da pastoral social, etc. A descoberta da fé e da Igreja é a mesma para todos.

5.7. O processo catequético deve respeitar e valorizar a pluralidade da Igreja, guardando a sua unidade. Esta variedade é a das pessoas, dos carismas, dos movimentos, dos métodos e das pedagogias. Nenhuma espécie de monolitismo eclesial pode favorecer a realização da missão evangelizadora da Igreja.

5.8. Só depois de tudo isto é que a produção de textos pedagógicos terá sentido. O Catecismo da Igreja Católica, garantia da unidade da fé, está concebido de modo a permitir uma variedade de textos pedagógicos, mesmo que um texto (catecismo) nacional continue a ter sentido e a ser necessário.

5.9. Tenho o sentimento de que estamos a percorrer caminhos novos, enriquecidos pelas nossas experiências e esforços passados, mesmo sendo imperfeitos. A atracção e a exigência de uma evangelização que seja verdadeiramente nova supõem criatividade e audácia, a coragem de nos fazermos ao largo, conduzidos pelo Espírito de Deus.

† José, Cardeal Patriarca de Lisboa

(*) Original em língua Francesa