CONGREGAÇÃO PARA O CLERO

DIRETÓRIO GERAL
PARA A CATEQUESE

DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO

 

AA: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o apostolado dos leigos, Apostolicam Actuositatem (18 de novembro de 1965)

AG: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre a atividade missionária da Igreja Ad Gentes (7 de dezembro de 1965)

CA: João Paulo II, Carta encíclica Centesimus Annus (1° de maio de 1991): AAS 83 (1991), pp. 793-867

CD: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o ofício pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus (28 de outubro de 1965)

CaIC: Catecismo da Igreja Católica (11 de outubro de 1992)

CCL: Corpus Christianorum, Series Latina (Turnholti 1953 ss.)

CIC: Codex Iuris Canonici (25 de janeiro de 1983)

ChL: João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici (30 de dezembro de 1988): AAS 81 (1989), pp. 393-521

COINCAT: Conselho Internacional para a Catequese, Orientações A catequese dos adultos na comunidade cristã, Libreria Editrice Vaticana 1990

CSEL: Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (Wn 1866 ss.)

CT: João Paulo II, Exortação apostólica Catechesi Tradendae (16 de outubro de 1979): AAS 71 (1979), pp. 1277-1340.

DCG (1971): Sagrada Congregação para o Clero, Directorium Catechisticum Generale Ad normam decreti (11 de abril de 1971): AAS 64 (1972), pp. 97-176

DH: Conc. Ecum. Vaticano II, Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis Humanae (7 de dezembro de 1965)

DM: João Paulo II, Carta encíclica Dives in Misericordia (30 de novembro de 1980): AAS 72 (1980), pp. 1177-1232

DS: H. Denzinger - A. Schönmetzer, Enchiridion Symbolorum, Definitionum et Declarationum de Rebus Fidei et Morum, Editio XXXV emendata, Romae 1973

DV: Conc. Ecum. Vaticano II, Constituição dogmática sobre a revelação divina Dei Verbum (18 de novembro de 1965)

EA: João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14 de setembro de 1995): AAS 88 (1996) pp. 5-82

EN: Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (8 de dezembro de 1975): AAS 58 (1976), pp. 5-76

EV: João Paulo II, Carta encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995): AAS 87 (1995), pp. 401-522

FC: João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981): AAS 73 (1981), pp. 81-191

FD: João Paulo II, Constituição apostólica Fidei Depositum (11 de outubro de 1992): AAS 86 (1994), pp. 113-118

GCM: Congregação para a Evangelização dos Povos, Guia para os catequistas. Documento de orientação em vista da vocação, da formação e da promoção dos catequistas nos territórios de missão que dependem da Congregação para a Evangelização dos povos (3 de dezembro de 1993), Cidade do Vaticano 1993

GE: Conc. Ecum. Vaticano II, Declaração sobre a educação Gravissimum Educationis (28 de outubro de 1965)

GS: Conc. Ecum. Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965)

LC: Congregação para a Doutrina da fé, Instrução Libertatis Conscientia (22 de março de 1986): AAS 79 (1987), pp. 554-599

LE: João Paulo II, Carta encíclica Laborem Exercens (14 de setembro de 1981): AAS 73 (1981), pp. 577-647

LG: Conc. Ecum. Vaticano II Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium (21 de novembro de 1964)

MM: João XXIII, Carta encíclica Mater et Magistra (15 de maio de 1961): AAS 53 (1961), pp. 401-464

MPD: Sínodo dos Bispos, Mensagem ao Povo de Deus Cum iam ad exitum sobre a catequese no nosso tempo (28 de outubro de 1977), Typis Polyglottis Vaticanis 1977

NA: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre as relações da Igreja com as Religiões não cristãs Nostra Aetate (28 de outubro de 1965)

PB: João Paulo II, Constituição apostólica Pastor Bonus (28 de junho de 1988): AAS 80 (1988), pp. 841-930

PG: Patrologiae Cursus completus, Series Graeca, ed. Jacques P. Migne, Parisiis 1857 ss.

PL: Patrologiae Cursus completus, Series Latina, ed. Jacques P. Migne, Parisiis 1844 ss.

PO: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o ministério e a vida dos presbíteros Presbyterorum Ordinis (7 de dezembro de 1965)

PP: Paulo VI, Carta encíclica Populorum Progressio (26 de março de 1967): AAS 59 (1967), pp. 257-299

RH: João Paulo II, Carta encíclica Redemptor Hominis (4 de março de 1979): AAS 71 (1979), pp. 257-324

OICA: Ordo Initiationis Christianae Adultorum, Editio Typica, Typis Polyglottis Vaticanis 1972

RM: João Paulo II, Carta encíclica Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990): AAS 83 (1991), pp. 249-340

SC: Conc. Ecum. Vaticano II, Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium (4 de dezembro de 1963)

SINODO 1985: Sínodo dos Bispos (reunião extraordinária de 1985), Relatório final Ecclesia sub verbo Dei mysteria Christi celebrans pro salute mundi (7 de dezembro de 1985), Cidade do Vaticano 1985

SCh: Sources Chrétiennes, Collection, Paris 1946 ss.

SRS: João Paulo II, Exortação apostólicaSollicitudo Rei Socialis (30 de dezembro de 1987): AAS 80 (1988), pp. 513-586

TMA: João Paulo II, Exortação apostólica Tertio Millennio Adveniente (10 de novembro de 1994): AAS 87 (1995), pp. 5-41

UR: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio (21 de novembro de 1964)

UUS: João Paulo II, Carta encíclica Ut Unum Sint (25 de maio de 1995): AAS 87 (1995), pp. 921-982

VS: João Paulo II, Carta encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993): AAS 85 (1993), pp. 1133-1228

PREFÁCIO

1. O Concílio Vaticano II prescreveu a redação de um « Diretório para a instrução catequética do povo ».(1) Em obediência a este mandato conciliar, a Congregação para o Clero valeu-se de uma especial Comissão de especialistas e consultou as Conferências Episcopais do mundo, as quais enviaram numerosas sugestões e observações em propósito. O texto preparado foi revisto por uma Comissão teológica ad hoc e pela Congregação para a Doutrina da Fé. No dia 18 de março de 1971 foi definitivamente aprovado por Paulo VI e promulgado no dia 11 de abril do mesmo ano, com o título Diretório Catequético Geral.

2. Os trinta anos transcorridos da conclusão do Concílio Vaticano II aos umbrais do terceiro milênio, constituem, sem dúvida, um tempo extremamente rico de orientações e promoções da catequese. Foi um tempo que, de qualquer modo, repropôs a vitalidade evangelizadora da primeira comunidade eclesial e que relançou oportunamente o ensinamento dos Padres e favoreceu a redescoberta do antigo catecumenato. Desde 1971, o Diretório Catequético Geral tem orientado as Igrejas particulares no longo caminho de renovação da catequese, propondo-se como válido ponto de referência tanto no que diz respeito aos conteúdos, quanto no que concerne à pedagogia e aos métodos a serem empregados.

O itinerário percorrido pela catequese neste período foi caracterizado, em todas as partes, por uma generosa dedicação de muitas pessoas, por iniciativas admiráveis e por frutos muito positivos para a educação e o amadurecimento na fé, de crianças, jovens e adultos. Todavia, não faltaram, contemporaneamente, crises, insuficiências doutrinais e experiências que empobreceram a qualidade da catequese, devidas, em grande parte, à evolução do contexto cultural mundial e a questões eclesiais de matriz não catequética.

3. O Magistério da Igreja não deixou jamais, nestes anos, de exercitar a sua solicitude pastoral em favor da catequese. Numerosos Bispos e Conferências dos Bispos, em todos os continentes, deram um notável impulso à ação catequética também através da publicação de válidos Catecismos e orientações pastorais, promovendo a formação de peritos e favorecendo a pesquisa catequética. Estes esforços foram fecundos e repercutiram favoravelmente na praxe catequética das Igrejas particulares. Uma particular riqueza para a renovação catequética é constituída pelo Ritual para a Iniciação Cristã dos Adultos, promulgado no dia 6 de janeiro de 1972, pela Congregação para o Culto Divino.

É indispensável recordar, de modo especial, o ministério de Paulo VI, o Pontífice que guiou a Igreja durante o primeiro período do pós-Concílio. A seu respeito, João Paulo II disse: « Com os seus gestos, com a sua pregação e com a sua interpretação autorizada do Concílio Vaticano II — que ele considerava como o grande catecismo dos tempos modernos — e ainda com toda a sua vida, o meu venerando Predecessor Paulo VI serviu a catequese da Igreja de modo particularmente exemplar ».(2)

4. Uma decisiva pedra miliária para a catequese foi a reflexão iniciada por ocasião da Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos sobre a evangelização do mundo contemporâneo, que se celebrou em outubro de 1974. As proposições de tal encontro foram apresentadas ao Papa Paulo VI, o qual promulgou a Exortação Apostólica pós-sinodal Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975. Este documento apresenta — entre outras coisas — um princípio de particular relevo: a catequese como ação evangelizadora no âmbito da grande missão da Igreja. A atividade catequética, de agora em diante, deverá ser considerada como permanentemente partícipe das urgências e das ânsias próprias do mandato missionário para o nosso tempo.

Também a última Assembléia Sinodal convocada por Paulo VI, em outubro de 1977, escolheu a catequese como tema de análise e de reflexão episcopal. Este Sínodo viu « na renovação catequética um dom precioso do Espírito Santo à Igreja nos dias de hoje ».(3)

5. João Paulo II assumiu esta herança em 1978 e formulou as suas primeiras orientações na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, datada de 16 de outubro de 1979. Tal Exortação forma uma unidade totalmente coerente com a Exortação Evangelii Nuntiandi e repõe plenamente a catequese no quadro da evangelização.

Durante todo o seu pontificado, João Paulo II ofereceu um magistério constante de altíssimo valor catequético. Entre os discursos, as cartas e os ensinamentos escritos, emergem as doze Encíclicas: da Redemptor Hominis à Ut Unum Sint. Estas Encíclicas constituem, por si mesmas, um corpo de doutrina sintético e orgânico, em vista da realização da renovação da vida eclesial, postulada pelo Concílio Vaticano II. Quanto ao valor catequético destes Documentos do magistério de João Paulo II, distinguem-se: a Redemptor Hominis (4 de março de 1979), a Dives in Misericordia (30 de novembro de 1980), a Dominum et Vivificantem (18 de maio de 1986), e, para a reafirmação da permanente validez do mandato missionário, a Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990).

6. Por outro lado, as Assembléias Gerais, ordinárias e extraordinárias, do Sínodo dos Bispos, tiveram uma particular incidência no campo eclesial da catequese. Por sua particular importância, devem ser destacadas as Assembléias Sinodais de 1980 e 1987, relativas respectivamente à missão da família e à vocação dos leigos batizados. Os trabalhos sinodais foram seguidos das correspondentes Exortações Apostólicas de João Paulo II, Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981) e Christifideles Laici (30 de dezembro de 1988). O próprio Sínodo Extraordinário dos Bispos, de 1985, influiu também, de maneira decisiva, sobre o presente e sobre o futuro da catequese do nosso tempo. Naquela ocasião, foi feito um balanço dos 20 anos de aplicação do Concílio Vaticano II e os Padres sinodais propuseram ao Santo Padre a elaboração de um Catecismo universal para a Igreja Católica. A proposta da Assembléia sinodal extraordinária de 1985 foi acolhida favoravelmente e assumida por João Paulo II. Terminado o paciente e complexo processo de sua elaboração, o Catecismo da Igreja Católica foi entregue aos Bispos e às Igrejas particulares mediante a Constituição Apostólica Fidei Depositum, do dia 11 de outubro de 1992.

7. Este evento, de tão profundo significado, e o conjunto dos fatos e das intervenções magisteriais precedentemente indicados, impunham o dever de uma revisão do Diretório Catequético Geral, com a finalidade de adaptar este precioso instrumento teológico-pastoral à nova situação e necessidade. Receber tal herança e organizá-la sinteticamente, em função da atividade catequética, sempre na perspectiva da atual etapa da vida da Igreja, é um serviço da Sé Apostólica para todos.

O trabalho para a nova elaboração do Diretório Geral para a Catequese, promovido pela Congregação para o Clero, foi realizado por um grupo de Bispos e por especialistas em teologia e em catequese. Foi, sucessivamente, submetido à consulta das Conferências dos Bispos e dos principais Institutos ou Centros de estudos catequéticos, e foi feito respeitando substancialmente a inspiração e os conteúdos do texto de 1971. Evidentemente, a nova redação do Diretório Geral para a Catequese teve que balancear duas exigências principais:

– de um lado, a contextualização da catequese na evangelização, postulada pelas Exortações Evangelii Nuntiandie Catechesi Tradendae

– por outro lado, a assunção dos conteúdos da fé propostos pelo Catecismo da Igreja Católica.

8. O Diretório Geral para a Catequese, embora conservando a estrutura de fundo do texto de 1971, articula-se do seguinte modo:

– Uma Exposição Introdutiva, na qual se oferecem orientações fundamentais para a interpretação e a compreensão das situações humanas e das situações eclesiais, a partir da fé e da confiança na força da semente do Evangelho. São breves diagnósticos em vista da missão.

– A Primeira Parte (4) é articulada em três capítulos e enraíza de forma mais acentuada a catequese na Constituição conciliar Dei Verbum, colocando-a no quadro da evangelização presente em Evangelii Nuntiandi e Catechesi Tradendae. Propõe, além disso, um esclarecimento da natureza da catequese.

– A Segunda Parte(5) consta de dois capítulos. No primeiro, sob o título « Normas e critérios para a apresentação da mensagem evangélica na catequese », com nova articulação e numa perspectiva enriquecida, reúnem-se, em sua totalidade, os conteúdos do capítulo correspondente do texto anterior. O segundo capítulo, completamente novo, serve à apresentação do Catecismo da Igreja Católica como texto de referência para a transmissão da fé na catequese e para a redação dos Catecismos locais. O texto oferece também princípios básicos em vista da elaboração dos Catecismos para as Igrejas particulares e locais.

– A Terceira Parte(6) mostra-se suficientemente renovada, formulando também as linhas essenciais de uma pedagogia da fé, inspirada à pedagogia divina; uma questão, esta, que diz respeito tanto à teologia como às ciências humanas.

– A Quarta Parte(7) tem por título « Os destinatários da catequese ». Em cinco breves capítulos, se presta atenção às situações bastante diferentes das pessoas às quais se dirige a catequese, aos aspectos relativos à situação sócio-religiosa e, de modo especial, à questão da inculturação.

– A Quinta Parte(8) coloca como centro de gravitação a Igreja particular, que tem o dever primordial de promover, programar, supervisionar e coordenar toda a atividade catequética. Adquire um particular relevo a descrição dos respectivos papéis dos diversos agentes (que têm o seu ponto de referência sempre no Pastor da Igreja particular) e das exigências formativas em cada caso.

– A Conclusão, que exorta a uma intensificação da ação catequética no nosso tempo, coroa a reflexão e as orientações com um apelo à confiança na ação do Espírito Santo e na eficácia da palavra de Deus semeada no amor.

9. A finalidade do presente Diretório é, obviamente, a mesma que norteava o texto de 1971. Propõe-se, efetivamente, fornecer « os princípios teológico-pastorais fundamentais, inspirados no Concílio Ecumênico Vaticano II e no Magistério da Igreja, aptos a poder orientar e coordenar a ação pastoral do ministério da palavra » e, de forma concreta, a catequese.(9) O intuito fundamental era e é o de oferecer reflexões e princípios, mais do que aplicações imediatas ou diretrizes práticas. Tal caminho e método é adotado sobretudo pelas seguintes razões: somente se desde o início se compreendem corretamente a natureza e os fins da catequese, assim como as verdades e os valores que devem ser transmitidos, poderão ser evitados defeitos e erros em matéria catequética.(10)

Cabe à competência específica dos Episcopados a aplicação mais concreta desses princípios e enunciados, através de orientações e Diretórios nacionais, regionais ou diocesanos, catecismos e todo outro meio considerado idôneo a promover eficazmente a catequese.

10. É evidente que nem todas as partes do Diretório têm a mesma importância. Aquelas que tratam da revelação divina, da natureza da catequese e dos critérios que presidem o anúncio cristão, têm valor para todos. As partes, ao invés, que se referem à presente situação, à metodologia e ao modo de adaptar a catequese às diferentes situações de idade ou de contexto cultural, devem ser acolhidas mais como indicações e como orientações fundamentais.(11)

11. Os destinatários do Diretório são principalmente os Bispos, as Conferências dos Bispos e, de modo geral, todos aqueles que, sob o mandato ou presidência dos primeiros, têm responsabilidades no campo catequético. É óbvio que o Diretório pode ser um válido instrumento para a formação dos candidatos ao sacerdócio, para a formação permanente dos presbíteros e para a formação dos catequistas.

Uma finalidade imediata do Diretório é ajudar a redação dos Diretórios Catequéticos e catecismos. Conforme sugestão recebida de muitos Bispos, incluem-se numerosas notas e referências que podem ser de grande utilidade para a elaboração dos mencionados instrumentos.

12. Uma vez que o Diretório é endereçado às Igrejas particulares, cujas situações e necessidades pastorais são muito variadas, é evidente que se pôde levar em consideração unicamente as situações comuns ou intermediárias. Isto acontece, igualmente, quando se descreve a organização da catequese nos diversos níveis. Na utilização do Diretório, deve-se ter presente esta observação. Como já se ressaltava no texto de 1971, o que será insuficiente naquelas regiões onde a catequese pôde alcançar um alto nível de qualidade e de meios, talvez poderá parecer excessivo naqueles lugares onde a catequese não pôde ainda experimentar tal progresso.

13. Ao publicar este texto, novo testemunho da solicitude da Sé Apostólica para com o ministério catequético, exprimem-se os votos de que ele seja acolhido, examinado e estudado com grande atenção, levando em consideração as necessidades pastorais de cada Igreja particular; e que ele possa também estimular, para o futuro, estudos e pesquisas mais profundas, que respondam às necessidades da catequese e às normas e orientações do Magistério da Igreja.

Que a Virgem Maria, Estrela da nova evangelização, nos conduza ao conhecimento pleno de Jesus Cristo, Mestre e Senhor.

« Quanto ao mais, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor continue o seu caminho e seja glorificada, como aconteceu entre vós » (2 Ts 3, 1).

Do Vaticano, 15 de agosto de 1997

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Darío Castrillón Hoyos
Arcebispo emérito de Bucaramanga
Pro-Prefeito

Crescenzio Sepe
Arcebispo tit. de Grado
Secretário

 

EXPOSIÇÃO INTRODUTIVA

O anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo

« Escutai: Eis que o semeador saiu a semear. E ao semear, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram.
Outra parte caiu no solo pedregoso e, não havendo terra bastante, nasceu logo, porque não havia terra profunda, mas, ao surgir do sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou.
Outra parte caiu entre os espinhos; os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto.
Outras caíram em terra boa e produziram fruto, crescendo e se desenvolvendo, e uma produziu trinta, outra sessenta e outra cem por cento » (Mc 4,3-8).

14. Esta exposição introdutiva pretende estimular os pastores e os agentes da catequese a tomarem consciência da necessidade de olhar sempre para o campo semeado, e a fazê-lo a partir de uma perspectiva de fé e de misericórdia. A interpretação do mundo contemporâneo, aqui apresentada, tem, obviamente, um caráter de provisoriedade, próprio da contingência histórica.

« Saiu o semeador a semear » (Mc 4,3)

15. Esta parábola é fonte inspiradora para a evangelização. « A semente é a palavra de Deus » (Lc 8,11). O semeador é Jesus Cristo. Ele anunciou o Evangelho na Palestina há dois mil anos e enviou os seus discípulos a semeá-lo pelo mundo. Jesus Cristo hoje, presente na Igreja por meio do Seu Espírito, continua a divulgar amplamente a palavra do Pai no campo do mundo.

A qualidade do terreno é sempre muito variada. O Evangelho cai « à beira do caminho » (Mc 4,4), quando não é realmente escutado; cai « em solo pedregoso » (Mc 4,5), sem penetrar profundamente na terra; ou « entre os espinhos » (Mc 4,7), e é imediatamente sufocado no coração dos homens, distraídos por muitas preocupações. Mas uma parte cai « em terra boa » (Mc 4,8), isto é, em homens e mulheres abertos à relação pessoal com Deus e solidários com o próximo, e produz frutos abundantes.

Jesus, na parábola, comunica a boa notícia de que o Reino de Deus chega, não obstante as dificuldades do terreno, as tensões, os conflitos e os problemas do mundo. A semente do Evangelho fecunda a história dos homens e preanuncia uma colheita abundante. Jesus faz também uma advertência: somente no coração bem disposto a palavra de Deus germina.

Um olhar ao mundo, a partir da fé

16. A Igreja continua a semear o Evangelho de Jesus no grande campo de Deus. Os cristãos, inseridos nos mais variados contextos sociais, olham o mundo com os mesmos olhos com que Jesus contemplava a sociedade do seu tempo. O discípulo de Jesus Cristo, de fato, participa, de seu interior, « das alegrias e das esperanças, das tristezas e das angústias dos homens de hoje »,(12) olha para a história humana, participa dela, não apenas com a razão, mas também com a fé. À luz desta, o mundo se mostra ao mesmo tempo « criado e conservado pelo amor do Criador, reduzido à servidão do pecado, e libertado por Cristo crucificado e ressuscitado, com a derrota do Maligno... ».(13)

O cristão sabe que a cada realidade e evento humano subjazem ao mesmo tempo:

– a ação criadora de Deus, que comunica a cada ser a sua bondade;

– a força que deriva do pecado, o qual limita e entorpece o homem;

– o dinamismo que nasce da Páscoa de Cristo, qual germe de renovação que confere ao crente a esperança de uma « consumação »(14) definitiva.

Um olhar ao mundo, que prescindisse de um desses três aspectos, não seria autenticamente cristão. É importante, portanto, que a catequese saiba iniciar os catecúmenos e os catequizandos a uma « leitura teológica dos problemas modernos ».(15)

O campo do mundo

17. Mãe dos homens, a Igreja, antes de mais nada, vê, com profunda dor, « uma multidão inumerável de homens e de mu-

lheres, crianças, adultos e anciãos, isto é, de pessoas humanas concretas e irrepetíveis, que sofrem sob o peso intolerável da miséria ».(16) Por meio da catequese, na qual o ensinamento social da Igreja ocupe o seu lugar,(17) ela deseja suscitar no coração dos cristãos « o empenho pela justiça »(18) e a « opção ou amor preferencial pelos pobres »,(19) de modo que a sua presença seja realmente luz que ilumina e sal que transforma.

Os direitos humanos

18. A Igreja, ao analisar o campo do mundo, é muito sensível a tudo aquilo que ofende a dignidade da pessoa humana. Ela sabe que desta dignidade nascem os direitos humanos,(20) objeto constante da preocupação e do empenho dos cristãos. Por isso, o seu olhar não abrange somente os indicadores econômicos e sociais,(21) mas também, sobretudo, os culturais e religiosos. O que ela busca é o progresso integral das pessoas e dos povos.(22)

A Igreja percebe, com alegria, que « uma corrente benéfica já se alastra e permeia todos os povos da terra, tornando-os cada vez mais conscientes da dignidade do homem ».(23) Esta consciência se exprime na viva preocupação pelo respeito dos direitos humanos e no mais decidido rechaço de suas violações. O direito à vida, ao trabalho, à educação, à criação de uma família, à participação na vida pública e à liberdade religiosa são hoje particularmente reivindicados.

19. Em numerosos lugares, todavia, e em aparente contradição com a sensibilidade pela dignidade da pessoa, os direitos humanos são claramente violados.(24) Dessa maneira, alimentam-se outras formas de pobreza, que não se colocam no plano material: trata-se de uma pobreza cultural e religiosa, que preocupa igualmente

a comunidade eclesial. A negação ou a limitação dos direitos humanos, de fato, empobrece a pessoa e os povos, tanto ou mais do que a privação dos bens materiais.(25)

A obra evangelizadora da Igreja, neste vasto campo dos direitos humanos, tem uma tarefa irrenunciável: promover a descoberta da dignidade inviolável de cada pessoa humana. « Em certo sentido, é a tarefa central e unificadora do serviço que a Igreja, e nela os fiéis leigos, são chamados a prestar à família dos homens ».(26) A catequese deve prepará-los para esta tarefa.

A cultura e as culturas

20. O semeador sabe que a semente penetra em terrenos concretos e tem necessidade de absorver todos os elementos necessários para frutificar.(27) Sabe também que, às vezes, alguns desses elementos podem prejudicar a germinação e a colheita.

A Constituição Gaudium et Spes sublinha a grande importância da ciência e da técnica na gestação e no desenvolvimento da cultura moderna. A mentalidade científica que delas emana, « modifica profundamente a cultura e os modos de pensamento », (28) com grandes repercussões humanas e religiosas. A racionalidade científica e experimental é profundamente enraizada no homem de hoje.

Todavia, a consciência de que este tipo de racionalidade não pode explicar todas as coisas, ganha sempre mais terreno. Os próprios homens da ciência constatam que, paralelamente ao rigor da experimentação, é necessário outro tipo de saber, para poder compreender em profundidade o ser humano. A reflexão filosófica sobre a linguagem mostra, por exemplo, que o pensamento simbólico é uma forma de acesso ao mistério da pessoa humana, contrariamente inacessível. Torna-se indispensável assim, uma racionalidade que não cinda o ser humano, que integre a sua afetividade, que o unifique, dando um sentido mais pleno à sua vida.

21. Juntamente com esta « forma mais universal de cultura »,(29) hoje se constata também um desejo crescente de revalorizar as culturas autóctones. A pergunta do Concílio é viva ainda: « Como se deve favorecer o dinamismo e a expansão duma nova cultura, sem que pereça a fidelidade viva para com a herança das tradições? ».(30)

– Em muitos lugares, se toma viva consciência de que as culturas tradicionais são agredidas por influências externas dominantes e por imitações alienantes de formas de vida importadas. Corroem-se assim, gradualmente, a identidade e os valores próprios dos povos.

– Constata-se também a enorme influência dos meios de comunicação, os quais, muitas vezes, em virtude de interesses econômicos ou ideológicos, impõem uma visão da vida que não respeita a fisionomia cultural dos povos aos quais se dirigem.

A evangelização encontra assim, na inculturação, um de seus maiores desafios. A Igreja, à luz do Evangelho, deve assumir todos os valores positivos da cultura e das culturas (31) e rejeitar aqueles elementos que impedem as pessoas e os povos de alcançarem o desenvolvimento de suas autênticas potencialidades.

A situação religiosa e moral

22. Entre os elementos que compõem o patrimônio cultural de um povo, o fator religioso-moral tem, para o semeador, um particular relevo. Na cultura atual existe uma persistente difusão da indiferença religiosa: « Muitos de nossos contemporâneos ... não percebem de modo algum esta união íntima e vital com Deus ou explicitamente a rejeitam ».(32)

O ateísmo, como negação de Deus, « conta entre os gravíssimos problemas de nosso tempo ».(33) Ele adota formas diversas, mas aparece hoje especialmente sob a forma do secularismo, que consiste numa visão autonomista do homem e do mundo « segundo a qual esse mundo se explicaria por si mesmo, sem ser necessário recorrer a Deus ».(34) No âmbito especificamente religioso, existem sinais de um « retorno ao sagrado »,(35) de uma nova sede de realidades transcendentes e divinas. O mundo atual atesta, de modo mais amplo e vital, « o despertar da procura religiosa ».(36) Certamente este fenômeno « não deixa de ser ambíguo ».(37) O amplo desenvolvimento das seitas e de novos movimentos religiosos e o redespertar do « fundamentalismo »(38) são dados que interpelam seriamente a Igreja e que devem ser atentamente analisados.

23. A atual situação moral procede de pari passu com a religiosa. Efetivamente, percebe-se um obscurecimento da verdade ontológica da pessoa humana. E isto acontece como se a rejeição de Deus quisesse significar a ruptura interior das aspirações do ser humano.(39) Assiste-se, assim, em muitos lugares, a um « relativismo ético que tira à convivência civil qualquer ponto seguro de referência moral ».(40)

A evangelização encontra no terreno religioso-moral um ambiente de atuação privilegiado. A missão primordial da Igreja, de fato, é anunciar Deus, testemunhá-Lo diante do mundo. Trata-se de fazer conhecer as verdadeiras feições de Deus e o Seu desígnio de amor e de salvação em favor dos homens, assim como Jesus o revelou.

Para preparar tais testemunhos, é necessário que a Igreja desenvolva uma catequese que propicie o encontro com Deus e fortaleça um vínculo permanente de comunhão com Ele.

A Igreja no campo do mundo

A fé dos cristãos

24. Os discípulos de Jesus estão imersos no mundo como o fermento mas, como em todos os tempos, não estão imunes de sofrer a influência das situações humanas.

É, por isso, necessário, interrogar-se sobre a atual situação da fé dos cristãos.

A renovação catequética, desenvolvida na Igreja durante as últimas décadas, está dando frutos muito positivos.(41) A catequese das crianças, dos jovens e dos adultos, nesses anos, deu origem a uma tipologia de cristão verdadeiramente consciente de sua fé e coerente com esta em sua vida. De fato, favoreceu neles:

– uma nova experiência vital de Deus, como Pai misericordioso;

– uma redescoberta mais profunda de Jesus Cristo, não apenas na sua divindade, mas também na sua verdadeira humanidade;

– o sentir-se, todos, co-responsáveis pela missão da Igreja no mundo;

– a tomada de consciência das exigências sociais da fé.

25. Todavia, diante do atual panorama religioso, os filhos da Igreja devem se examinar: « em que medida são tocados, também eles, pela atmosfera de secularismo e de relativismo ético? ».(42)

Uma primeira categoria configura-se naquela « multidão de homens que receberam o Batismo, mas vivem fora de toda a vida cristã ».(43) Trata-se, de fato, de uma multidão de cristãos « não praticantes », (44) ainda que, no fundo do coração de muitos, o sentimento religioso não tenha desaparecido de todo. Redespertá-los para a fé é um verdadeiro desafio para a Igreja.

Além desses, há ainda as « pessoas simples »,(45) que se exprimem, às vezes, com sentimentos religiosos muito sinceros e com uma « religiosidade popular » (46) muito enraizada. Possuem uma certa fé, mas « conhecem mal os fundamentos dessa mesma fé ».(47) Além disso, existem também numerosos cristãos, muito cultos, mas com uma formação religiosa recebida apenas na infância, e que necessitam reposicionar e amadurecer a sua fé « sob uma luz diversa ».(48)

26. Não falta, além disso, um certo número de cristãos batizados que, infelizmente, escondem a própria identidade cristã, ou por causa de uma errônea forma de diálogo inter-religioso ou por uma certa reticência em testemunhar a própria fé em Jesus Cristo na sociedade contemporânea.

Estas situações da fé dos cristãos reclamam do semeador, com urgência, o desenvolvimento de uma nova evangelização,(49) sobretudo naquelas Igrejas de antiga tradição cristã, onde o secularismo penetrou mais. Nesta nova situação necessitada de evangelização, o anúncio missionário e a catequese, sobretudo aos jovens e aos adultos, constituem uma clara prioridade.

A vida interna da comunidade eclesial

27. É importante considerar também a própria vida da comunidade eclesial, a sua íntima qualidade.

Uma primeira consideração é descobrir como, na Igreja, tenha sido acolhido e tenha dado frutos o Concílio Vaticano II. Os grandes documentos conciliares não permaneceram letra morta: constatam-se os seus efeitos. As quatro constituições — Sacrosanctum Concilium, Lumen Gentium, Dei Verbum e Gaudium et Spes — fecundaram a Igreja. De fato:

– A vida litúrgica é compreendida mais profundamente como fonte e vértice da vida eclesial;

– O povo de Deus adquiriu uma consciência mais viva do « sacerdócio comum », (50) radicado no Batismo. Ao mesmo tempo, redescobre sempre mais a vocação universal à santidade e um sentido mais profundo do serviço à caridade.

– A comunidade eclesial adquiriu um sentido mais vivo da Palavra de Deus. A Sagrada Escritura, por exemplo, é lida, saboreada e meditada de modo mais intenso.

– A missão da Igreja no mundo é sentida de maneira nova. Com base numa renovação interior, o Concílio abriu os católicos à exigência de uma evangelização ligada necessariamente com a promoção humana, à necessidade do diálogo com o mundo, com as diversas culturas e religiões e à urgente busca da união entre os cristãos.

28. Mas em meio a esta fecundidade, devem-se reconhecer também os « defeitos e dificuldades no acolhimento do Concílio ».(51) Malgrado uma doutrina eclesiológica tão ampla e profunda, enfraqueceu-se o sentido da pertença eclesial; constata-se freqüentemente uma « desafeição para com a Igreja »; (52) ela é contemplada, muitas vezes, de modo unilateral, como mera instituição, despojada do seu mistério.

Em algumas ocasiões, foram tomadas posições parciais e opostas na interpretação e na aplicação da renovação solicitada à Igreja pelo Concílio Vaticano II. Tais ideologias e comportamentos conduziram a fragmentações e a prejudicar o testemunho de comunhão, indispensável para a evangelização.

A ação evangelizadora da Igreja, e nesta a catequese, deve buscar mais decididamente uma sólida coesão eclesial. Para isso, é urgente promover e aprofundar uma autêntica eclesiologia de comunhão, (53) para gerar nos cristãos, uma profunda espiritualidade eclesial.

Situação da catequese: a sua vitalidade e os seus problemas

29. Muitos são os aspectos positivos da catequese nestes últimos anos, que mostram a sua vitalidade. Entre outros, devem ser destacados:

– O grande número de sacerdotes, religiosos e leigos que se consagram à catequese com grande entusiasmo e perseverança. É uma das ações eclesiais mais relevantes.

– Deve ser sublinhado também o caráter missionário da atual catequese e a sua propensão em assegurar a adesão à fé, dos catecúmenos e dos catequizandos, num mundo no qual o sentido religioso se obscura. Nesta dinâmica, tem-se uma clara consciência de que a catequese deve adquirir o estilo de formação integral e não reduzir-se a simples ensinamento: deverá esforçar-se, de fato, para suscitar uma verdadeira conversão. (54)

– Em sintonia com tudo o que já foi dito, assume extraordinária importância o incremento que vai adquirindo a catequese dos adultos (55) no projeto de catequese de muitas Igrejas particulares. Esta opção aparece como prioritária nos planos pastorais de muitas dioceses. Também em alguns movimentos e grupos eclesiais ela ocupa um lugar central.

– Favorecido, sem dúvida, pelas recentes orientações do Magistério, o pensamento catequético ganhou, nos nossos dias, uma maior densidade e profundidade. Neste sentido, muitas Igrejas locais já dispõem de idôneas e oportunas orientações pastorais.

30. Todavia, é necessário examinar, com particular atenção, alguns problemas, buscando encontrar uma solução para os mesmos:

– O primeiro diz respeito ao próprio conceito de catequese como escola da fé, como aprendizado e tirocínio de toda a vida cristã, que ainda não penetrou plenamente na consciência dos catequistas.

– No que concerne à orientação de fundo, o conceito de « Revelação » impregna ordinariamente a atividade catequética; todavia, o conceito conciliar de « Tradição » tem uma menor influência como elemento realmente inspirador. De fato, em muitas catequeses, a referência à Sagrada Escritura é quase que exclusiva, sem que a reflexão e a vida bimilenar da Igreja (56) acompanhem tal referência, de modo suficiente. A natureza eclesial da catequese se mostra, neste caso, menos clara. A inter-relação entre Sagrada Escritura, Tradição e Magistério, « cada qual segundo seu próprio modo »,(57) ainda não fecunda harmoniosamente a transmissão catequética da fé.

– No que diz respeito à finalidade da catequese, que visa promover a comunhão com Jesus Cristo, é necessária uma apresentação mais equilibrada de toda a verdade do mistério de Cristo. Às vezes, se insiste somente na sua humanidade, sem fazer explícita referência à sua divindade; em outras ocasiões, menos freqüentes nos nossos dias, a sua divindade é tão acentuada, que não se percebe mais a realidade do mistério da Encarnação do Verbo. (58)

– Em relação ao conteúdo da catequese, subsistem vários problemas. Há algumas lacunas doutrinais no que concerne à verdade sobre Deus e sobre o homem, sobre o pecado e a graça e sobre os Novíssimos. Há a necessidade de uma formação moral mais sólida; constata-se uma apresentação inadequada da história da Igreja e um escassa importância dada à sua Doutrina Social. Em algumas regiões, proliferam catecismos e textos de iniciativa particular, com tendências seletivas e acentuações tão diferentes, que prejudicam a necessária convergência na unidade da fé.(59)

– « A catequese é intrinsecamente ligada com toda a ação litúrgica e sacramental ».(60) Muitas vezes, porém, a praxe catequética apresenta uma ligação fraca e fragmentária com a liturgia: atenção limitada aos sinais e ritos litúrgicos, pouca valorização das fontes litúrgicas, percursos catequéticos que pouco ou nada têm a ver com o ano litúrgico, presença marginal de celebrações nos itinerários da catequese.

– No que concerne à pedagogia, após uma excessiva acentuação do valor do método e das técnicas, por parte de alguns, ainda não se presta a devida atenção às exigências e à originalidade da pedagogia própria da fé.(61) Cai-se facilmente no dualismo « conteúdo-método », com reducionismos num sentido ou no outro. No que diz respeito à dimensão pedagógica, não se exercitou sempre o necessário discernimento teológico.

– No que concerne à diferença das culturas em relação ao serviço da fé, constitui um problema saber transmitir o Evangelho no limite do horizonte cultural dos povos aos quais se dirige, de modo que ele possa ser apreendido realmente como uma grande notícia para a vida das pessoas e da sociedade. (62)

– A formação para o apostolado e para a missão é uma das tarefas principais da catequese. No entanto, enquanto na atividade catequética cresce uma nova sensibilidade em formar os fiéis leigos para o testemunho cristão, para o diálogo inter-religioso e para o compromisso secular, a educação para a dimensão missionária ad gentes mostra-se ainda fraca e inadequada. Com freqüência, a catequese ordinária reserva às missões uma atenção marginal e não constante.

A semeadura do Evangelho

31. Depois de ter analisado o terreno, o semeador envia os seus operários para anunciar o Evangelho por todo o mundo, comunicando-lhes a força do seu Espírito. Ao mesmo tempo, mostra-lhes como ler os sinais dos tempos e lhes pede uma preparação muito acurada para realizar a semeadura.

Como ler os sinais dos tempos

32. A voz do Espírito que Jesus, por parte do Pai, enviou a Seus discípulos ressoa também nos acontecimentos da história. (63) Por trás dos dados mutáveis da situação atual e nas profundas motivações dos desafios que se apresentam à evangelização, é necessário descobrir « os sinais da presença e do desígnio de Deus ». (64) Trata-se de uma análise que se deve fazer à luz da fé, com uma atitude de compaixão. Valendo-se das ciências humanas, (65) sempre necessárias, a Igreja busca descobrir o sentido da situação atual, no âmbito da história da salvação. Os seus juízos sobre a realidade são sempre diagnósticos para a missão.

Alguns desafios para a catequese

33. Para poder exprimir a sua vitalidade e a sua eficácia, a catequese, hoje, deveria assumir os seguintes desafios e orientações:

– antes de tudo, ela deve se apresentar como um válido serviço à evangelização da Igreja, com uma acentuada característica missionária;

– ela deve se dirigir aos seus destinatários privilegiados, como foram e continuam a ser as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos a partir, sobretudo, dos primeiros;

– seguindo o exemplo da catequese patrística, ela deve plasmar a personalidade daquele que crê e, portanto, deve ser uma verdadeira e própria escola de pedagogia cristã;

– deve anunciar os mistérios essenciais do cristianismo, promovendo a experiência trinitária da vida em Cristo como centro da vida de fé;

– deve considerar como tarefa prioritária a preparação e a formação de catequistas de fé profunda.

I PARTE

A CATEQUESE NA MISSÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA

A catequese na missão evangelizadora da Igreja

« Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura » (Mc 16,15)
« Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei » (Mt 28,19-20).
« Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas... até os confins da terra » (At 1,8).

O mandato missionário de Jesus

34. Jesus, após a sua ressurreição, enviou por parte do Pai o Espírito Santo para que realizasse, a partir de dentro, a obra da salvação e estimulasse os discípulos a continuarem a sua própria missão no mundo inteiro, como ele mesmo fora enviado pelo Pai. Ele foi o primeiro e o maior evangelizador. Anunciou o Reino de Deus,(66) como nova e definitiva intervenção divina na história e definiu este anúncio como « o Evangelho », ou seja, a boa nova. A este dedicou toda a sua existência terrena: deu a conhecer a alegria de pertencer ao Reino,(67) as suas exigências e a sua magna carta,(68) os mistérios que encerra,(69) a vida fraterna daqueles que nele entram,(70) e a sua plenitude futura.(71)

Significado e finalidade desta parte

35. Esta primeira parte pretende definir o caráter próprio da catequese.

O primeiro capítulo, relativo à estrutura teológica, recorda brevemente o conceito de Revelação exposto no Documento conciliar Dei Verbum. Ele determina, de maneira específica, o modo de conceber o ministério da Palavra. Os conceitos palavra de Deus, Evangelho, Reino de Deus e Tradição, presentes nessa Constituição dogmática, fundam o significado de catequese. Junto a esses, é referencial obrigatório para a catequese o conceito de evangelização. A sua dinâmica e os seus elementos são expostos com uma precisão nova e profunda, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi.

O segundo capítulo situa a catequese no quadro da evangelização e a coloca em relação com as demais formas de ministério da palavra de Deus. Graças a essa relação, descobre-se mais facilmente o caráter próprio da catequese.

O terceiro capítulo analisa mais diretamente a catequese enquanto tal: a sua natureza eclesial, a sua finalidade vinculativa de comunhão com Jesus Cristo, os seus deveres, e a inspiração catecumenal que a anima.

A concepção que se tem da catequese condiciona profundamente a seleção e a organização dos seus conteúdos (cognitivos, experienciais e comportamentais), precisa os seus destinatários e define a pedagogia que se exige para alcançar os seus objetivos.

O termo catequese sofreu uma evolução semântica durante os vinte séculos de história da Igreja. Neste Diretório, o conceito de catequese inspira-se nos Documentos do Magistério Pontifício pósconciliar e, sobretudo, na Evangelii Nuntiandi, na Catechesi Tradendae e na Redemptoris Missio.

I CAPÍTULO

A Revelação e a sua transmissão mediante a evangelização

« Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. (...) dando-nos a conhecer o mistério da sua vontade, conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar para levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo encabeçar todas as coisas... » (Ef 1,3-10).

A Revelação do desígnio providencial de Deus

36. « Deus, que cria e conserva todas as coisas por meio do Verbo, oferece aos homens, na criação, um perene testemunho de si mesmo ». (72) O homem, que por sua natureza e vocação é « capaz de Deus », quando ouve a mensagem das criaturas, pode atingir a certeza da existência de Deus como causa e fim de tudo e que Ele pode se revelar ao homem.

A constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II descreveu a Revelação como o ato mediante o qual Deus se manifesta pessoalmente aos homens. Deus se mostra, de fato, como Aquele que quer comunicar a Si mesmo, tornando a pessoa humana partícipe de sua natureza divina. (73) Dessa maneira, Ele realiza o seu desígnio de amor.

« Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade, pelo qual os homens... têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina ». (74)

37. Este desígnio providencial (75) do Pai, revelado plenamente em Jesus Cristo, realiza-se com a força do Espírito Santo.

Ele comporta:

– a revelação de Deus, da sua « verdade íntima »,(76) do seu « segredo », (77) da verdadeira vocação e dignidade do homem; (78)

– a oferta da salvação a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia de Deus, (79) que implica a libertação do mal, do pecado e da morte; (80)

– o definitivo chamado para reunir na família de Deus todos os filhos dispersos, realizando assim a união fraterna entre os homens. (81)

A Revelação: fatos e palavras

38. Deus, na sua imensidão, para se revelar à pessoa humana, utiliza uma pedagogia: (82) serve-se de eventos e de palavras humanas para comunicar o seu desígnio; e o faz progressivamente e por etapas, (83) para se aproximar melhor dos homens. Deus, de fato, age de maneira tal, que os homens cheguem ao conhecimento do seu plano salvífico através dos eventos da história da salvação e mediante as palavras divinamente inspiradas que os acompanham e os explicam.

« Este plano da Revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que

– as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras,

– enquanto as palavras, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido ».(84)

39. Também a evangelização, que transmite ao mundo a Revelação, realiza-se com obras e palavras. Ela é, ao mesmo tempo, testemunho e anúncio, palavra e sacramento, ensinamento e empenho.

A catequese, por sua vez, transmite os fatos e as palavras da Revelação: deve proclamá-los e narrá-los e, ao mesmo tempo, explicar os profundos mistérios que estes encerram. Além disso, sendo a Revelação fonte de luz para a pessoa humana, a catequese não apenas recorda as maravilhas de Deus operadas no passado mas, à luz da mesma Revelação, interpreta os sinais dos tempos e a vida presente dos homens e das mulheres, uma vez que, neles, realiza-se o desígnio de Deus para a salvação do mundo. (85)

Jesus Cristo, mediador e plenitude da Revelação

40. Deus revelou-se progressivamente aos homens, por meio dos profetas e dos eventos salvíficos, até à plenitude da Revelação com o envio de seu próprio Filho: (86)

« Jesus Cristo, pela plena presença e manifestação de Si mesmo, por palavras e obras, sinais e milagres, e especialmente por sua morte e gloriosa ressurreição dentre os mortos, enviado finalmente o Espírito de verdade, aperfeiçoa e completa a Revelação ».(87)

Jesus Cristo não é somente o maior dos profetas, mas é o Filho eterno de Deus, feito homem. Ele é, portanto, o evento último para o qual convergem todos os eventos da história da salvação.(88) Ele é, de fato, « a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai ». (89)

41. O ministério da Palavra deve ressaltar esta admirável característica, própria da economia da Revelação: o Filho de Deus entra na história dos homens, assume a vida e a morte humanas e realiza a nova e definitiva aliança entre Deus e os homens. É dever próprio da catequese mostrar quem é Jesus Cristo: a sua vida e o seu mistério, e apresentar a fé cristã como seqüela da sua pessoa.(90) Por isso, deve basear-se constantemente nos Evangelhos, os quais « são o coração de todas as Escrituras, uma vez que constituem o principal testemunho sobre a vida e a doutrina do Verbo encarnado, nosso Salvador.(91)

O fato que Jesus Cristo seja a plenitude da Revelação é o fundamento do « cristocentrismo » (92) da catequese: o mistério de Cristo, na mensagem revelada, não é um elemento a mais, junto aos demais, mas sim o centro a partir do qual todos os demais elementos se hierarquizam e se iluminam.

A transmissão da Revelação por meio da Igreja, obra do Espírito Santo

42. A revelação de Deus, culminada em Jesus Cristo, é destinada a toda a humanidade: « Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade » (1 Tm 2,4). Em virtude dessa vontade salvífica universal, Deus dispôs que a Revelação se transmitisse a todos os povos e a todas as gerações e permanecesse íntegra. (93)

43. Para cumprir este desígnio divino, Jesus Cristo instituiu a Igreja com fundamento nos apóstolos e, mandando sobre eles o Espírito Santo, por parte do Pai, enviou-os a pregar o Evangelho em todo o mundo. Os apóstolos, com palavras, obras e por escrito, executaram fielmente tal mandato.(94)

Esta Tradição apostólica perpetua-se na Igreja e por meio da Igreja. E esta, no seu todo, pastores e fiéis, vigia por sua conservação e transmissão. O Evangelho, de fato, conserva-se íntegro e vivo na Igreja: os discípulos de Jesus o contemplam e o meditam incessantemente, vivem-no na existência cotidiana e o anunciam na missão. O Espírito Santo fecunda constantemente a Igreja enquanto ela vive o Evangelho; faz com que ela cresça continuamente na compreensão do mesmo, e a impulsiona e sustenta na tarefa de anunciá-lo em todos os recantos do mundo.(95)

44. A conservação íntegra da Revelação, palavra de Deus contida na Tradição e na Escritura, assim como a sua contínua transmissão, são garantidas na sua autenticidade. O Magistério da Igreja, sustentado pelo Espírito Santo e dotado do « carisma da verdade », exercita a função de « interpretar autenticamente a Palavra de Deus ».(96)

45. A Igreja, « sacramento universal de salvação »,(97) movida pelo Espírito Santo, transmite a Revelação por meio da evangelização: anuncia a boa nova do desígnio salvífico do Pai e, nos sacramentos, comunica os dons divinos.

A Deus, que se revela, é devida a obediência da fé, pela qual o homem adere livremente ao « Evangelho da graça de Deus » (At 20,24), com pleno assentimento do intelecto e da vontade. Guiado pela fé, dom do Espírito, o homem chega à contemplar e a saborear o Deus do amor, que em Cristo revelou as riquezas da sua glória.(98)

A evangelização(99)

46. A Igreja « existe para evangelizar », (100) isto é, para « levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade ». (101)

O mandato missionário de Jesus comporta vários aspectos intimamente conexos entre si: « proclamai » (Mc 16,15), « fazei discípulos e ensinai », (102) « sereis minhas testemunhas », (103) « batizai », (104) « fazei isto em minha memória » (Lc 22,19), « amai-vos uns aos outros » (Jo 15,12). Anúncio, testemunho, ensinamento, sacramentos, amor ao próximo, fazer discípulos: todos estes aspectos são via e meios para a transmissão do único Evangelho, e constituem os elementos da evangelização.

Alguns deles se revestem de uma importância tão grande que, às vezes, se tende a identificá-los com a ação evangelizadora. Todavia, « nenhuma definição parcial e fragmentária, porém, chegará a dar razão da realidade rica, complexa e dinâmica que é a evangelização ». (105) Corre-se o risco de empobrecê-la e até mesmo de mutilá-la. Ao contrário, ela deve desenvolver a « sua totalidade » (106) e incorporar as suas intrínsecas bipolaridades: testemunho e anúncio, (107) palavra e sacramento, (108) mudança interior e transformação social. (109) Os agentes da evangelização devem saber agir com uma « visão global » (110) da mesma e identificá-la com o conjunto da missão da Igreja. (111)

O processo da evangelização

47. A Igreja, embora contendo em si, permanentemente, a plenitude dos meios da salvação, opera sempre de modo gradual. (112) O decreto conciliar Ad Gentes esclareceu bem a dinâmica do processo evangelizador: testemunho cristão, diálogo e presença da caridade (11-12), anúncio do Evangelho e chamado à conversão (13), catecumenato e iniciação cristã (14), formação da comunidade cristã por meio dos sacramentos e dos ministérios (15-18). (113) Este é o dinamismo da implantação e da edificação da Igreja.

48. De acordo com isso, é necessário conceber a evangelização como o processo através do qual a Igreja, movida pelo Espírito, anuncia e difunde o Evangelho em todo o mundo. Ela:

– impulsionada pela caridade, impregna e transforma toda a ordem temporal, assumindo e renovando as culturas; (114)

– dá testemunho, (115) entre os povos, do novo modo de ser e de viver que caracteriza os cristãos;

– proclama explicitamente o Evangelho, mediante o « primeiro anúncio », (116) chamando à conversão; (117)

– inicia na fé e na vida cristã, mediante a «catequese » (118) e os « sacramentos de iniciação », (119) aqueles que se convertem a Jesus Cristo, ou aqueles que retomam o caminho de sua seqüela, incorporando os primeiros na comunidade cristã e a ela reconduzindo os demais; (120)

– alimenta constantemente o dom da comunhão (121) nos fiéis, mediante a educação permanente da fé (homilia, outras formas do ministério da Palavra), os sacramentos e o exercício da caridade;

– suscita continuamente a missão, (122) enviando todos os discípulos de Cristo a anunciarem o Evangelho, com palavras e obras, em todo o mundo.

49. O processo evangelizador, (123) conseqüentemente, é estruturado em etapas ou « momentos essenciais »: (124) a ação missionária para os não crentes e para aqueles que vivem na indiferença religiosa; a ação catequética e de iniciação para aqueles que optam pelo Evangelho e para aqueles que necessitam completar ou reestruturar a sua iniciação; e a ação pastoral para os fiéis cristãos já maduros, no seio da comunidade cristã. (125) Esses momentos, no entanto, não são etapas concluídas: reiteram-se, se necessário, uma vez que darão o alimento evangélico mais adequado ao crescimento espiritual de cada pessoa ou da própria comunidade.

O ministério da Palavra de Deus na evangelização

50. O ministério da Palavra (126) é elemento fundamental da evangelização. A presença cristã, em meio aos diferentes grupos humanos, e o testemunho de vida precisam ser esclarecidos e justificados pelo anúncio explícito de Jesus Cristo, o Senhor. « Não há verdadeira evangelização se o nome, o ensinamento, a vida e as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem proclamados ». (127) Mesmo aqueles que já são discípulos de Cristo têm necessidade de ser alimentados constantemente com a palavra de Deus, para crescerem na sua vida cristã. (128)

O ministério da Palavra, no interior da evangelização, transmite a Revelação por meio da Igreja, valendo-se das « palavras » humanas. Estas, porém, são sempre em referência às « obras »: àquelas que Deus realizou e continua a realizar, especialmente nos sacramentos; ao testemunho de vida dos cristãos; à ação transformadora que estes, unidos a tantos homens de boa vontade, realizam no mundo. Esta palavra humana da Igreja é o meio de que o Espírito Santo se serve, para continuar o diálogo com a humanidade. Ele é, de fato, o principal agente do ministério da Palavra, aquele por meio do qual « a viva voz do Evangelho ressoa na Igreja, e por meio desta, no mundo ». (129)

O ministério da Palavra exercita-se « de muitas formas ». (130) A Igreja, desde a época apostólica, (131) no seu desejo de oferecer a palavra de Deus da maneira mais apropriada, tem realizado este ministério através das mais variadas formas. (132) Todas elas servem para veicular aquelas funções basilares que o ministério da Palavra é chamado a desempenhar.

Funções e formas do ministério da Palavra

51. As principais funções do ministério da Palavra são as seguintes:

Convocação e chamado à fé

É a função que mais imediatamente se deduz do mandato missionário de Jesus. Realiza-se mediante o « primeiro anúncio », dirigido aos não crentes: aqueles que fizeram uma opção de nãocrença, os batizados que vivem às margens da vida cristã, os praticantes de outras religiões... (133) O despertar religioso das crianças, nas famílias cristãs, é também uma forma eminente desta função.

A iniciação

Aqueles que, movidos pela graça, decidem seguir Jesus, são « introduzidos na vida religiosa, litúrgica e caritativa do Povo de Deus ». (134) A Igreja realiza esta função, fundamentalmente por meio da catequese, em estreita relação com os sacramentos da iniciação, tanto se estes devem ser ainda recebidos quanto se já o foram. Formas importantes são: a catequese dos adultos não batizados, no catecumenato; a catequese dos adultos batizados que desejam retornar à fé, ou daqueles que têm necessidade de completar a sua iniciação; a catequese das crianças e dos mais jovens, que por si só, já tem um caráter de iniciação. Também a educação cristã familiar e o ensino escolar da religião exercem uma função de iniciação.

A educação permanente à fé

Em diversas regiões, ela é chamada também de « catequese permanente ». (135)

Dirige-se aos cristãos iniciados nos elementos de base, que têm necessidade de alimentar e amadurecer constantemente a sua fé, durante toda a vida. É uma função que se realiza através de formas muito variadas: « sistemáticas e ocasionais, individuais e comunitárias, organizadas e espontâneas, etc. ». (136)

A função litúrgica

O ministério da Palavra compreende também uma função litúrgica, uma vez que, quando ele se realiza no âmbito de uma ação sacra, é parte integrante da mesma. (137) Ele se exprime de maneira eminente através da homilia. Outras formas são as intervenções e as exortações durante as celebrações da palavra. É preciso também fazer referência à preparação imediata aos diversos sacramentos, às celebrações sacramentais e, sobretudo, à participação dos fiéis na Eucaristia, como forma fundamental da educação da fé.

A função teológica

Ela busca desenvolver a compreensão da fé, colocando-se na dinâmica da « fides quaerens intellectum », ou seja, da fé que procura entender. (138) A teologia, para cumprir esta função, precisa confrontar-se ou dialogar com as formas filosóficas do pensamento, com os humanismos que conotam a cultura e com as ciências do homem. Articula-se em formas que promovem « a abordagem sistemática e a pesquisa científica das verdades da fé ». (139)

52. São formas importantes do ministério da Palavra: o primeiro anúncio ou pregação missionária, a catequese pré e pós-batismal, a forma litúrgica e a forma teológica. Acontece, com freqüência, que tais formas, por circunstâncias pastorais, devam assumir mais de uma função. A catequese, por exemplo, junto à sua função de iniciação, deve exercitar, freqüentemente, tarefas missionárias. A própria homilia, de acordo com as circunstâncias, será conveniente que assuma as funções de convocação e de iniciação orgânica.

A conversão e a fé

53. Ao anunciar ao mundo a Boa Nova da Revelação, a evangelização convida homens e mulheres à conversão e à fé. 140 O chamado de Jesus, « arrependei-vos e crede no Evangelho » (Mc 1,15), continua a ressoar hoje, mediante a evangelização da Igreja. A fé cristã é, antes de mais nada, conversão a Jesus Cristo, (141) adesão plena e sincera à sua pessoa, e decisão de caminhar na sua seqüela. (142) A fé é um encontro pessoal com Jesus Cristo, é tornar-se seu discípulo. Isso exige o empenho permanente de pensar como Ele, de julgar como Ele e de viver como Ele viveu. (143) Assim, o crente se une à comunidade dos discípulos e assume, como sua, a fé da Igreja. (144)

54. Este « sim » a Jesus Cristo, plenitude da Revelação do Pai, encerra em si uma dupla dimensão: o confiante abandono em Deus e a amorosa adesão a tudo aquilo que Ele nos revelou. Isto é possível somente mediante a ação do Espírito Santo: (145)

« Com a fé, o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando ao Deus revelador, um obséquio pleno do intelecto e da vontade, e dando voluntário assentimento à revelação feita por Ele ». (146)

« Crer, portanto, tem uma dupla referência: à pessoa e à verdade; à verdade por confiança na pessoa que a atesta ». (147)

55. A fé comporta uma transformação de vida, uma « metanóia », (148) ou seja, uma profunda transformação da mente e do coração; faz com que o crente viva aquela « nova maneira de ser, de viver, de estar junto com os outros que o Evangelho inaugura ». (149) Esta transformação de vida manifesta-se em todos os níveis da existência do cristão: na sua vida interior de adoração e de acolhimento da vontade divina; na sua participação ativa na missão da Igreja; na sua vida matrimonial e familiar; no exercício da vida profissional; no cumprimento das atividades econômicas e sociais.

A fé e a conversão brotam do « coração », isto é, do mais profundo da pessoa humana, envolvendo-a inteira. Encontrando Jesus e aderindo a Ele, o ser humano vê realizadas as suas mais profundas aspirações; encontra tudo aquilo que sempre buscou e o encontra abundantemente. (150) A fé responde àquela « ânsia », (151) freqüentemente inconsciente e sempre limitada, de conhecer a verdade sobre Deus, sobre o próprio homem e sobre o destino que o espera. É como uma água pura (152) que reaviva o caminho do homem, peregrino em busca de seu lar.

A fé é um dom de Deus. Pode nascer do íntimo do coração humano somente como fruto da « graça prévia e adjuvante » (153) e como resposta, completamente livre, à moção do Espírito Santo, que move o coração e o dirige a Deus, dando-lhe « suavidade no consentir e crer na verdade ». (154)

A Virgem Maria viveu, no modo mais perfeito, estas dimensões da fé. A Igreja venera n'Ela, « a mais pura realização da fé ». (155)

O processo da conversão permanente

56. A fé é um dom destinado a crescer no coração dos crentes. (156) A adesão a Jesus Cristo, de fato, inicia um processo de conversão permanente, que dura toda a vida. (157) Quem acede à fé é como uma criança recém-nascida (158) que, pouco a pouco, crescerá e se converterá num ser adulto que tende ao « estado de homem feito », (159) à maturidade da plenitude em Cristo.

No processo de fé e de conversão podem-se revelar, do ponto de vista teológico, diversos momentos importantes:

a) O interesse pelo Evangelho. O primeiro momento é aquele em que, no coração do não crente, do indiferente ou do praticante de outra religião, nasce, como conseqüência do primeiro anúncio, um interesse pelo Evangelho, sem ser ainda uma decisão firme. Aquele primeiro movimento do espírito humano para a fé, que já é fruto da graça, recebe diversos nomes: « propensão à fé », (160) « preparação evangélica », (161) inclinação a crer, « procura religiosa ». (162) A Igreja denomina « simpatizantes » (163) aqueles que mostram essa inquietação.

b) A conversão. Este primeiro interesse pelo Evangelho necessita de um tempo de busca (164) para poder-se transformar em uma opção sólida. A decisão para a fé deve ser avaliada e amadurecida. Tal busca, movida pelo Espírito Santo e pelo anúncio do kerigma, prepara a conversão que será — certamente — « inicial », (165) mas que já traz consigo a adesão a Jesus Cristo e a vontade de caminhar na sua seqüela. Esta « opção fundamental » funda toda a vida cristã do discípulo do Senhor. (166)

c) A profissão de fé. O abandonar-se a Jesus Cristo gera nos crentes o desejo de conhecê-Lo mais profundamente e de identificar-se com Ele. A catequese os inicia no conhecimento da fé e no aprendizado da vida cristã, favorecendo um caminho espiritual que provoca uma « progressiva transformação de mentalidade e costumes », (167) feita de renúncias e de lutas, mas também de alegrias que Deus concede sem medida. O discípulo de Jesus Cristo torna-se, então, idôneo a fazer uma viva, explícita e operante profissão de fé. (168)

d) O caminho rumo à perfeição. Esta maturidade de base, da qual nasce a profissão de fé, não é o ponto final no processo permanente de conversão. A profissão de fé batismal coloca-se como fundamento de um edifício espiritual destinado a crescer. O batizado, impulsionado sempre pelo Espírito Santo, alimentado pelos sacramentos, pela oração e pelo exercício da caridade, e ajudado pelas múltiplas formas de educação permanente da fé, procura tornar seu o desejo de Cristo: « Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito ». (169) É o chamado à plenitude que se dirige a cada batizado.

57. O ministério da Palavra está a serviço deste processo de conversão plena. O primeiro anúncio tem a característica de chamar à fé; a catequese, a de dar um fundamento à conversão e uma estrutura de base à vida cristã; e a educação permanente à fé, na qual se distingue a homilia, a de ser o nutrimento constante do qual cada organismo adulto necessita para viver. (170)

Diversas situações sócio-religiosas diante da evangelização

58. A evangelização do mundo tem diante de si um panorama religioso muito diversificado e mutável, no qual se podem distinguir fundamentalmente « três situações » (171) que requerem respostas adequadas e diferenciadas.

a) A situação daqueles « povos, grupos humanos, contextos socioculturais onde Cristo e o seu Evangelho não são conhecidos, onde faltam comunidades cristãs suficientemente amadurecidas para poderem encarnar a fé no próprio ambiente e anunciá-la a outros grupos ». (172) Esta situação postula a « missão ad gentes » (173) com uma ação evangelizadora centrada, preferivelmente, nos jovens e adultos. A sua peculiaridade consiste no fato de que se dirige aos não cristãos, convidando-os à conversão. A catequese, nesta situação, desenvolve-se ordinariamente no interior do Catecumenato batismal.

b) Existem, além disso, situações nas quais, num determinado contexto sociocultural, estão presentes, de maneira muito significativa, « comunidades cristãs que possuem sólidas e adequadas estruturas eclesiais, são fermento de fé e de vida, irradiando o testemunho do Evangelho no seu ambiente, e sentindo o compromisso da missão universal ». (174) Estas comunidades necessitam de uma intensa « ação pastoral da Igreja », visto que são constituídas por pessoas e famílias com um profundo senso cristão. Em tal contexto, é necessário que a catequese às crianças, adolescentes e jovens desenvolva verdadeiros processos de iniciação cristã bem articulados, que lhes permitam aceder à idade adulta com uma fé madura que, de evangelizados, os transforme em evangelizadores. Mesmo nessas situações, os adultos são destinatários de modalidades diversas de formação cristã.

c) Em muitos países de tradição cristã e, às vezes, também nas Igrejas mais jovens, existe uma « situação intermédia », (175) onde « grupos inteiros de batizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do Seu Evangelho ». (176) Esta situação requer uma « nova evangelização ». A sua peculiaridade consiste no fato de que a ação missionária se dirige aos batizados de todas as idades, que vivem num contexto religioso de referências cristãs, percebidos apenas exteriormente. Nesta situação, o primeiro anúncio e uma catequese de base constituem a opção prioritária.

Mútua conexão entre as ações evangelizadoras correspondentes a estas situações

59. Estas situações sócio-religiosas são, obviamente, diferentes e não é justo equipará-las. Tal diversidade, que sempre existiu na missão da Igreja, adquire hoje, neste mundo em constante transformação, uma novidade. De fato, com freqüência, diversas situações convivem num mesmo território. Em muitas cidades grandes, por exemplo, coexistem simultaneamente a situação que postula uma « missão ad gentes » e outra que requer uma « nova evangelização ». Junto a estas, estão dinamicamente presentes comunidades cristãs missionárias, alimentadas por uma adequada « ação pastoral ». Hoje ocorre freqüentemente que, no território de uma Igreja particular, seja preciso enfrentar o conjunto dessas situações. « Os confins entre o cuidado pastoral dos fiéis, a nova evangelização e a atividade missionária específica não são facilmente identificáveis, e não se deve pensar em criar entre esses âmbitos barreiras ou compartimentos estanques ». (177) De fato, « cada uma influi sobre a outra, estimula e a ajuda ». (178)

Por isso, em vista do mútuo enriquecimento das ações evangelizadoras que convivem juntas, convém levar em consideração que:

– A missão ad gentes, qualquer que seja a área ou âmbito em que se realiza, é a responsabilidade missionária mais específica que Jesus confiou à Sua Igreja e, portanto, é o modelo exemplar do conjunto da ação missionária da Igreja. A « nova evangelização » não pode suplantar ou substituir a « missão ad gentes », que continua a ser a atividade missionária específica e a tarefa primária. (179)

– « O modelo de toda catequese é o Catecumenato batismal , que é formação específica, mediante a qual o adulto convertido à fé é levado à confissão da fé batismal, durante a vigília pascal ». (180) Esta formação catecumenal deve inspirar as outras formas de catequese, nos seus objetivos e no seu dinamismo.

– « A catequese dos adultos, uma vez que é dirigida a pessoas capazes de uma adesão e de um empenho realmente responsáveis, deve ser considerada como a principal forma de catequese, para qual todas as demais, não por isso menos necessárias, estão orientadas ». (181) Isso implica que a catequese das demais idades deve tê-la como ponto de referência e deve articular-se com ela, num projeto catequético de pastoral diocesana, que seja coerente.

Desse modo, a catequese, situada no âmbito da missão evangelizadora da Igreja como « momento » essencial da mesma, recebe da evangelização, um dinamismo missionário que a fecunda interiormente e a configura na sua identidade. O ministério da catequese mostra-se, assim, como um serviço eclesial fundamental na realização do mandato missionário de Jesus.

II CAPÍTULO

A catequese no processo da evangelização

« O que nós ouvimos e conhecemos, o que nos contaram nossos pais, não o esconderemos a seus filhos; nós o contaremos à geração seguinte os louvores de Iahweh e seu poder, e as maravilhas que realizou » (Sl 78,34).
« Apolo tinha sido instruído no caminho do Senhor e, no fervor do espírito, falava e ensinava com exatidão o que se refere a Jesus » (At 18,25).

60. Neste capítulo, mostra-se a relação da catequese com os demais elementos da evangelização, da qual ela é parte integrante.

Neste sentido, descreve-se, em primeiro lugar, a relação da catequese com o primeiro anúncio, que se realiza na missão. Mostra-se depois a íntima conexão entre a catequese e os sacramentos da iniciação cristã. Explica-se, a seguir, o papel fundamental da catequese na vida ordinária da Igreja no seu papel de educar permanentemente à fé.

Uma consideração especial é reservada à relação que existe entre a catequese e o ensino escolar da Religião, uma vez que ambas as ações são profundamente interligadas e, juntamente com a educação familiar cristã, mostram ser basilares para a formação da infância e da juventude.

Primeiro anúncio e catequese

61. O primeiro anúncio se dirige aos não crentes e àqueles que, de fato, vivem na indiferença religiosa. Ele tem a função de anunciar o Evangelho e de chamar à conversão. A catequese, « distinta do primeiro anúncio do Evangelho » (182) promove e faz amadurecer esta conversão inicial, educando à fé o convertido e incorporando-o na comunidade cristã. A relação entre estas duas formas do ministério da Palavra é, portanto, uma relação de distinção na complementariedade.

O primeiro anúncio, que cada cristão é chamado a realizar, participa do « ide » (183) que Jesus propôs a seus discípulos: implica, portanto, o sair, o apressar-se, o propor. A catequese, ao invés, parte da condição que o próprio Jesus indicou, « aquele que crer », (184) aquele que se converter, aquele que se decidir. As duas ações são essenciais e se atraem mutuamente: ir e acolher, anunciar e educar, chamar e incorporar.

62. Na prática pastoral, todavia, as fronteiras entre as duas ações não são facilmente delimitáveis. Freqüentemente, as pessoas que acedem à catequese, necessitam, de fato, de uma verdadeira conversão. Por isso, a Igreja deseja que, ordinariamente, uma primeira etapa do processo catequético seja dedicada a assegurar a conversão. (185) Na « missão ad gentes », esta tarefa se realiza no « pré-catecumenato ». (186) Na situação requerida pela « nova evangelização » esta tarefa se realiza por meio da « catequese kerigmática », que alguns chamam de « pré-catequese », (187) porque, inspirada no pré-catecumenato, é uma proposta da Boa Nova em ordem a uma sólida opção de fé. Somente a partir da conversão, isto é, apostando na atitude interior « daquele que crer », a catequese propriamente dita poderá desenvolver a sua tarefa específica de educação da fé. (188)

O fato de que a catequese, num primeiro momento, assuma estas tarefas missionárias, não dispensa a Igreja particular de promover uma intervenção institucionalizada de primeiro anúncio, como atuação mais direta do mandato missionário de Jesus. A renovação catequética deve basear-se nesta evangelização missionária prévia.

A Catequese a serviço da iniciação cristã

A catequese, « momento » essencial do processo de evangelização

63. A Exortação apostólica Catechesi Tradendae, colocando a catequese no âmbito da missão da Igreja, recorda que a evangelização é uma realidade rica, complexa e dinâmica, que compreende « momentos » essenciais e diferentes entre si. E acrescenta: « A catequese é... um desses momentos — e quanto ele há-de ser tido em conta! — de todo o processo da evangelização ». (189) Isto significa que há ações que « preparam » (190) a catequese, e ações que « derivam » (191) da catequese.

O « momento » da catequese é aquele que corresponde ao período em que se estrutura a conversão a Jesus Cristo, oferecendo as bases para aquela primeira adesão. Os convertidos, mediante « um ensinamento e um aprendizado devidamente prolongado no decorrer de toda a vida cristã », (192) são iniciados no mistério da salvação e num estilo de vida evangélico. Trata-se, de fato, de « iniciá-los na plenitude da vida cristã ». (193)

64. Ao realizar, de diferentes formas, esta função de iniciação do ministério da Palavra, a catequese lança os fundamentos do edifício da fé. (194) Outras funções deste ministério construirão depois os diferentes andares desse mesmo edifício.

A catequese de iniciação é, assim, o elo necessário entre a ação missionária, que chama à fé, e a ação pastoral, que alimenta continuamente a comunidade cristã. Não é, portanto, uma ação facultativa, mas sim uma ação basilar e fundamental para a construção, tanto da personalidade do discípulo, quanto da comunidade. Sem ela, a ação missionária não teria continuidade e seria estéril. Sem ela, a ação pastoral não teria raízes e seria superficial e confusa: qualquer tempestade faria desmoronar todo o edifício. (195)

Na verdade, « o crescimento interior da Igreja, a sua correspondência aos desígnios de Deus, dependem essencialmente da catequese ». (196) Neste sentido, a catequese deve ser considerada como momento prioritário na evangelização.

A catequese a serviço da iniciação cristã

65. A fé, mediante a qual o homem responde ao anúncio do Evangelho, exige o Batismo. A íntima relação entre as duas realidades tem sua raiz na vontade do próprio Cristo, que ordenou aos seus apóstolos que fizessem discípulos em todas as nações e os batizassem. « A missão de batizar, portanto, a missão sacramental, está implícita na missão de evangelizar ». (197)

Aqueles que se converteram a Jesus Cristo e foram educados à fé por meio da catequese, ao receberem os sacramentos da iniciação cristã, o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia, são « libertados do poder das trevas; mortos com Cristo, con-sepultados e coressuscitados com Ele, recebem o Espírito da adoção de filhos e com todo o Povo de Deus celebram o memorial da morte e da ressurreição do Senhor ». (198)

66. A catequese é, assim, elemento fundamental da iniciação cristã e é estreitamente ligada com os sacramentos de iniciação, de modo particular com o Batismo, « sacramento da fé ». (199) O elo que une a catequese com o Batismo é a profissão de fé que é, ao mesmo tempo, o elemento interior a este sacramento e a meta da catequese. A finalidade da ação catequética consiste precisamente nisso: em favorecer uma viva, explícita e operosa profissão de fé. (200) A Igreja, para alcançar esta finalidade, transmite aos catecúmenos e aos catequizandos, a viva experiência que ela tem do Evangelho, e a sua fé, a fim de que estes a façam própria, ao professá-la. Por isso, « a catequese autêntica é sempre iniciação ordenada e sistemática à revelação que Deus fez de Si mesmo ao homem, em Jesus Cristo; revelação esta conservada na memória

profunda da Igreja e nas Sagradas Escrituras, e constantemente comunicada, por uma « traditio » (tradição) viva e ativa, de uma geração para a outra ». (201)

Características fundamentais da catequese de iniciação

67. O fato de ser « momento essencial » do processo evangelizador, a serviço da iniciação cristã, confere à catequese algumas características. (202) Ela é:

– uma formação orgânica e sistemática da fé. O Sínodo de 1977 sublinhou a necessidade de uma catequese « orgânica e bem ordenada », (203) uma vez que o aprofundamento vital e orgânico do mistério de Cristo é aquilo que principalmente distingue a catequese de todas as demais formas de apresentação da Palavra de Deus.

– Esta formação orgânica é mais do que um ensino: é um aprendizado de toda a vida cristã, « uma iniciação cristã integral », (204) que favorece uma autêntica seqüela de Cristo, centrada na Sua Pessoa. Trata-se, de fato, de educar ao conhecimento e à vida de fé, de tal maneira que o homem no seu todo, nas suas experiências mais profundas, se sinta fecundado pela Palavra de Deus. Ajudar-se-á, assim, o discípulo de Cristo, a transformar o homem velho, a assumir os seus compromissos batismais e a professar a fé a partir do « coração ». (205)

– É uma formação de base, essencial, (206) centrada naquilo que constitui o núcleo da experiência cristã, nas certezas mais fundamentais da fé e nos mais basilares valores evangélicos. A catequese lança os fundamentos do edifício espiritual do cristão, alimenta as raízes da sua vida de fé, habilitando-o a receber o sucessivo alimento sólido, na vida ordinária da comunidade cristã.

68. Em síntese: a catequese de iniciação, sendo orgânica e sistemática, não se reduz ao meramente circunstancial ou ocasional; (207) sendo formação para a vida cristã, supera — incluindo-o — o mero ensino; (208) e sendo essencial, visa àquilo que é « comum » para o cristão, sem entrar em questões disputadas, nem transformar-se em pesquisa teológica. Enfim, sendo iniciação, incorpora na comunidade que vive, celebra e testemunha a fé. Realiza, portanto, ao mesmo tempo, tarefas de iniciação, de educação e de instrução. (209) Esta riqueza, inerente ao Catecumenato dos adultos não batizados, deve inspirar as demais formas de catequese.

A Catequese a serviço da educação permanente da fé

A educação permanente da fé na comunidade cristã

69. A educação permanente à fé segue a educação de base e a supõe. Ambas atualizam duas funções do ministério da Palavra, distintas e complementares, a serviço do processo permanente de conversão.

A catequese de iniciação lança as bases da vida cristã naqueles que seguem Jesus. O processo permanente de conversão vai além daquilo que fornece a catequese de base. Para favorecer tal processo, é necessária uma comunidade cristã que acolha os iniciados para sustentá-los e formá-los na fé. « A catequese corre o risco de se tornar estéril se uma comunidade de fé e de vida cristã não acolher o catecúmeno num certo estágio da sua catequização ». (210) O acompanhamento que a comunidade exercita em favor do iniciado, transforma-se em plena integração do mesmo na comunidade.

70. Na comunidade cristã, os discípulos de Jesus Cristo se alimentam em uma dúplice mesa: « da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo ». (211) O Evangelho e a Eucaristia são alimento constante na peregrinação rumo à casa do Pai. A ação do Espírito Santo faz com que o dom da « comunhão » e o empenho da « missão » sejam aprofundados e vividos de maneira sempre mais intensa.

A educação permanente da fé se dirige não apenas a cada cristão, para acompanhá-lo no seu caminho rumo à santidade, mas também à comunidade cristã enquanto tal, para que amadureça tanto na sua vida interior de amor a Deus e aos irmãos, quanto na sua abertura ao mundo como comunidade missionária. O desejo e a oração de Jesus ao Pai são um incessante apelo: « a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste ». (212) Aproximar-se, pouco a pouco, desse ideal, exige, na comunidade, uma grande fidelidade à ação do Espírito Santo, um constante alimentar-se do Corpo e Sangue do Senhor e uma permanente educação na fé, na escuta da Palavra.

Nesta mesa da Palavra de Deus, a homilia ocupa um lugar privilegiado, uma vez que « retoma o itinerário de fé proposto pela catequese e o leva ao seu complemento natural; ao mesmo tempo, ela impulsiona os discípulos do Senhor a retomarem cada dia o seu itinerário espiritual, na verdade, na adoração e na ação de graças ». (213)

Múltiplas formas de catequese permanente

71. Para a educação permanente à fé, o ministério da Palavra conta com muitas formas de catequese. Entre estas, podem ser evidenciadas as seguintes:

– O estudo e o aprofundamento da Sagrada Escritura, lida não somente na Igreja, mas com a Igreja e a sua fé sempre viva. Isto ajuda a descobrir a verdade divina, de modo a suscitar uma resposta de fé. A chamada « lectio divina » é forma eminente deste vital estudo das Escrituras. (214)

– A leitura cristã dos eventos, que é requerida pela vocação missionária da comunidade cristã. A este respeito, o estudo da doutrina social da Igreja é indispensável, visto que « sua finalidade principal é interpretar estas realidades (as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional), examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho ». (215)

– A catequese litúrgica, que prepara aos sacramentos e favorece uma compreensão e uma experiência mais profunda da liturgia. Ela explica o conteúdo das orações, o sentido dos gestos e dos sinais, educa à participação ativa, à contemplação e ao silêncio. Deve ser considerada como « uma eminente forma de catequese ». (216)

– A catequese ocasional, que em determinadas circunstâncias da vida pessoal, familiar, social e eclesial, busca ajudar a interpretar e viver tais circunstâncias, a partir da perspectiva da fé. (217)

– As iniciativas de formação espiritual, que fortalecem as convicções, abrem a novas perspectivas e fazem perseverar na oração e no compromisso da seqüela de Cristo.

O aprofundamento sistemático da mensagem cristã, por meio de um ensino teológico que eduque verdadeiramente à fé, faça crescer na compreensão da mesma e torne o cristão capaz de dar razões da sua esperança, no mundo atual. (218) Num certo sentido, é apropriado denominar tal ensino como « catequese de aperfeiçoamento ».

72. É de fundamental importância que a catequese de iniciação para adultos, batizados ou não, a catequese de iniciação para crianças e jovens e a catequese permanente sejam bem conexas no projeto catequético da comunidade cristã, a fim de que a Igreja particular cresça harmoniosamente e a sua atividade evangelizadora nasça de fontes autênticas. « É importante também que a catequese das crianças e dos jovens, a catequese permanente e a catequese dos adultos não sejam domínios estanques e sem comunicação... é necessário favorecer a sua perfeita complementaridade ». (219)

Catequese e ensino escolar da Religião

O caráter próprio do ensino escolar da Religião

73. Uma consideração especial merece — no âmbito do ministério da Palavra — o caráter próprio do ensino religioso na escola e a sua relação com a catequese das crianças e dos jovens.

A relação entre o ensino religioso na escola e a catequese é uma relação de distinção e de complementaridade: « Há um nexo indivisível e, ao mesmo tempo, uma clara distinção entre o ensino da religião e a catequese ». (220)

O que confere ao ensino religioso escolar a sua peculiar característica, é o fato de ser chamado a penetrar no âmbito da cultura e de relacionar-se com outras formas do saber. Como forma original do ministério da Palavra, de fato, o ensino religioso escolar torna presente o Evangelho no processo pessoal de assimilação, sistemática e crítica, da cultura. (221)

No universo cultural, que é interiorizado pelos alunos e que é definido pelas formas de saber e pelos valores oferecidos pelas demais disciplinas escolares, o ensino religioso escolar deposita o fermento dinâmico do Evangelho e busca « abranger realmente os outros elementos do saber e da educação, para que o Evangelho impregne a mentalidade dos alunos no ambiente da sua formação e para que a harmonização da sua cultura se faça à luz da fé ». (222)

É necessário, portanto, que o ensino religioso escolar se mostre como uma disciplina escolar, com a mesma exigência de sistema e rigor que requerem as demais disciplinas. Deve apresentar a mensagem e o evento cristão com a mesma seriedade e profundidade com a qual as demais disciplinas apresentam seus ensinamentos. Junto a estas, todavia, o ensino religioso escolar não se situa como algo acessório, mas sim no âmbito de um necessário diálogo interdisciplinar. Este diálogo deve ser instituído, antes de mais nada, naquele nível no qual cada disciplina plasma a personalidade do aluno. Assim, a apresentação da mensagem cristã incidirá na maneira com que se concebe a origem do mundo e o sentido da história, o fundamento dos valores éticos, a função da religião na cultura, o destino do homem, a relação com a natureza. O ensino religioso escolar, mediante este diálogo interdisciplinar, funda, potencia, desenvolve e completa a ação educadora da escola. (223)

O contexto escolar e os destinatários do ensino escolar da Religião

74. O ensino escolar da Religião desenvolve-se em contextos escolares diversos, o que faz com que este, embora mantendo o seu caráter próprio, adquira acentuações diversas. Estas dependem das condições legais e de organização, da concepção didática, dos pressupostos pessoais dos professores e dos alunos e da relação do ensino religioso escolar com a catequese familiar e paroquial.

Não é possível reduzir à uma única forma todos os modelos de ensinamento religioso escolar, desenvolvidas historicamente em seguida a Acordos com os Estados e às deliberações de cada Conferência dos Bispos. Todavia, é necessário esforçar-se para que, segundo os relativos pressupostos, o ensino religioso escolar responda às suas finalidades e características peculiares. (224)

Os alunos « têm o direito de aprender, de modo verdadeiro e com certeza, a religião à qual pertencem. Não pode ser desatendido este seu direito a conhecer mais profundamente a pessoa de Cristo e a totalidade do anúncio salvífico que Ele trouxe. O caráter confessional do ensino religioso escolar, realizado pela Igreja segundo modos e formas estabelecidas em cada País, é, portanto, uma garantia indispensável, oferecida às famílias e aos alunos que escolhem tal ensino ». (225)

Para a escola católica, o ensino religioso escolar, assim qualificado e completado com outras formas do ministério da Palavra (catequese, celebrações litúrgicas, etc.), é parte indispensável da sua tarefa pedagógica e fundamento da sua existência. (226)

O ensino religioso escolar, no contexto da escola pública e no da não confessional, lá onde as autoridades civis ou outras circunstâncias impõem um ensino religioso comum aos católicos e nãocatólicos, (227) terá uma característica mais ecumênica e de conhecimento inter-religioso comum.

Em outras ocasiões, o ensinamento religioso escolar poderá ter um caráter mais cultural, orientado para o conhecimento das religiões, apresentando, com o necessário realce, a religião católica. (228) Também neste caso, sobretudo se administrado por um professor sinceramente respeitoso, o ensino religioso escolar mantém uma dimensão de verdadeira « preparação evangélica ».

75. A situação de vida e de fé dos alunos que freqüentam o ensino religioso escolar é caracterizada por uma constante e notável transformação. O ensino religioso escolar deve levar em conta este dado, para poder atingir as próprias finalidades.

O ensino religioso escolar ajuda os alunos que têm fé a compreender melhor a mensagem cristã, em relação com os grandes problemas existenciais comuns às religiões e característicos de todo ser humano, com as visões da vida mais presentes na cultura, e com os principais problemas morais nos quais, hoje, a humanidade se encontra envolvida.

Os alunos, ao invés, que se encontram em uma situação de busca ou diante de dúvidas religiosas, poderão descobrir no ensino religioso escolar o que é, exatamente, a fé em Jesus Cristo, quais são as respostas que a Igreja oferece aos seus interrogativos, dando-lhes a oportunidade de perscrutar melhor a própria decisão.

Finalmente, quando os alunos não têm fé, o ensino religioso escolar assume as características de um anúncio missionário do Evangelho, em vista de uma decisão de fé, que a catequese, por sua parte, em um contexto comunitário, poderá em seguida fazer crescer e amadurecer.

A educação cristã familiar: catequese e ensino religioso escolar a serviço da educação na fé

76. A educação cristã na família, a catequese e o ensino da religião na escola, cada qual segundo as próprias características peculiares, são intimamente correlacionados com o serviço da educação cristã das crianças, adolescentes e jovens. Na prática, porém, é preciso levar em consideração diferentes variáveis que geralmente se apresentam, com o intuito de agir com realismo e prudência pastoral, na aplicação das orientações gerais.

Portanto, cabe a cada diocese ou região pastoral distinguir as diversas circunstâncias que intervêm, tanto no que concerne à existência ou não da iniciação cristã no âmbito das famílias, para os próprios filhos, quanto no que diz respeito às incumbências formativas que, na tradição ou situação locais, exercitam as paróquias, as escolas, etc...

E, conseqüentemente, a Igreja particular e a Conferência dos Bispos estabelecerão as orientações próprias para os diversos âmbitos, estimulando atividades que são distintas e complementares.

III CAPÍTULO

Natureza, finalidade e tarefas da catequese

« Para a glória de Deus, o Pai, toda língua confesse: Jesus Cristo é o Senhor » (Fl 2,11).

77. Depois de ter delineado o lugar da catequese no âmbito da missão evangelizadora da Igreja, as suas relações com os vários elementos da evangelização e com as outras formas do ministério da Palavra, neste capítulo se pretende refletir de modo específico sobre:

– a natureza eclesial da catequese, ou seja, o sujeito agente da catequese, a Igreja animada pelo Espírito;

– a finalidade que ela busca fundamentalmente, ao catequizar;

– as tarefas com as quais realiza esta finalidade, e que constituem os seus objetivos mais imediatos;

– as fases internas do processo catequético e a inspiração catecumenal que o anima.

Além disso, neste capítulo, aprofundar-se-á mais o caráter próprio da catequese, já descrito no capítulo precedente, onde foram especificadas as relações que ela estabelece com as demais ações eclesiais.

A catequese: ação de natureza eclesial

78. A catequese é um ato essencialmente eclesial. (229) O verdadeiro sujeito da catequese é a Igreja que, continuadora da missão de Jesus Mestre, e animada pelo Espírito, foi enviada para ser mestra da fé. Portanto, a Igreja, imitando a Mãe do Senhor, conserva fielmente o Evangelho no seu coração, (230) anuncia-o, celebra-o, vive-o e o transmite na catequese, a todos aqueles que decidiram seguir Jesus Cristo.

Esta transmissão do Evangelho é um ato vivo de tradição eclesial: (231)

– A Igreja, de fato, transmite a fé que ela mesma vive: a sua compreensão do mistério de Deus e do seu desígnio salvífico; a sua visão da altíssima vocação do homem; o estilo de vida evangélico que comunica a alegria do Reino; a esperança que a invade; o amor que sente pelos homens.

– A Igreja transmite a fé de modo ativo, semeia-a nos corações dos catecúmenos e catequizandos, para fecundar as suas experiências mais profundas. (232) A profissão de fé recebida da Igreja (traditio), germinando e crescendo durante o processo catequético, é restituída (redditio), enriquecida com os valores das diferentes culturas. (233) O catecumenato se transforma, assim, num centro fundamental de incremento da catolicidade, e fermento de renovação eclesial.

79. A Igreja, ao transmitir a fé e a vida nova — através da iniciação cristã — age como mãe dos homens, que gera filhos concebidos por obra do Espírito Santo e nascidos de Deus. (234) Precisamente, « por ser nossa mãe, a Igreja é também a educadora da nossa fé »; (235) é mãe e mestra ao mesmo tempo. Através da catequese, alimenta os seus filhos com a sua própria fé e os incorpora, como membros, na família eclesial. Como boa mãe, oferece-lhes o Evangelho em toda a sua autenticidade e pureza, o qual, ao mesmo tempo, lhes é dado como alimento adaptado, culturalmente enriquecido e como resposta às aspirações mais profundas do coração humano.

Finalidade da catequese: a comunhão com Jesus Cristo

80. « A finalidade definitiva da catequese é a de fazer com que alguém se ponha, não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo ». (236)

Toda a ação evangelizadora tem o objetivo de favorecer a comunhão com Jesus Cristo. A partir da conversão « inicial » (237) de uma pessoa ao Senhor, suscitada pelo Espírito Santo, mediante o primeiro anúncio, a catequese se propõe dar um fundamento e fazer amadurecer esta primeira adesão. Trata-se, então, de ajudar aquele que acaba de ser converter a « ...melhor conhecer o mesmo Jesus Cristo ao qual se entregou: conhecer o seu « mistério », o Reino de Deus que Ele anunciou, as exigências e as promessas contidas na Sua mensagem evangélica e os caminhos que Ele traçou para todos aqueles que O querem seguir ». (238) O Batismo, sacramento mediante o qual « configuramo-nos com Cristo », (239) sustenta, com a sua graça, esta obra da catequese.

81. A comunhão com Jesus Cristo, por sua própria dinâmica, impulsiona o discípulo a se unir com tudo aquilo com que o próprio Jesus Cristo sentiu-se profundamente unido: com Deus, seu Pai, que o enviara ao mundo, e com o Espírito Santo, que lhe dava impulso para a missão; com a Igreja, seu corpo, pela qual se doou, e com os homens, seus irmãos, cuja sorte quis compartilhar.

A finalidade da catequese se exprime na profissão de fé no único Deus: Pai, Filho e Espírito Santo

82. A catequese é aquela forma particular do ministério da Palavra, que faz amadurecer a conversão inicial, até fazer dela uma viva, explícita e operativa confissão de fé: « A catequese tem a sua origem na confissão de fé e leva à confissão de fé ». (240)

A profissão de fé, intrínseca ao Batismo, (241) é eminentemente trinitária. A Igreja batiza « em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo » (Mt 28,19), (242) Deus uno e trino, ao qual o cristão confia a sua vida. A catequese de iniciação prepara — antes ou após o recebimento do Batismo — para este decisivo empenho. A catequese permanente ajudará a amadurecer continuamente esta profissão de fé, a proclamá-la na Eucaristia e a renovar os compromissos que ela implica. É importante que a catequese saiba unir bem a confissão de fé cristológica, « Jesus é o Senhor », com a confissão trinitária, « Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo », uma vez que são tão somente duas modalidades para se exprimir a mesma fé cristã. Aquele que, pelo primeiro anúncio, se converte a Jesus Cristo e O reconhece como Senhor, inicia um processo, ajudado pela catequese, que desemboca necessariamente na confissão explícita da Trindade.

Com a confissão de fé no único Deus, o cristão renuncia a servir qualquer absoluto humano: poder, prazer, raça, antepassados, Estado, dinheiro..., (243) libertando-se de qualquer ídolo que o escravize. É a proclamação da sua vontade de servir a Deus e aos homens, sem nenhum laço. Proclamando a fé na Trindade, comunhão de pessoas, o discípulo de Jesus Cristo manifesta contemporaneamente que o amor a Deus e ao próximo é o princípio que informa o seu ser e o seu agir.

83. A confissão de fé é completa somente se é em referência à Igreja. Cada batizado proclama individualmente o Credo, uma vez que não há ação mais pessoal do que esta. Mas o recita na Igreja e através dela, já que o faz como seu membro. O « creio » e o « cremos » se implicam mutuamente. (244) Ao fundir a sua confissão com a confissão da Igreja, o cristão é incorporado à sua missão: ser « sacramento de salvação » para a vida do mundo. Quem proclama a profissão de fé, assume compromissos que, não poucas vezes, atrairão a perseguição. Na história cristã, os mártires são os anunciadores e as testemunhas por excelência. (245)

As tarefas da catequese realizam a sua finalidade

84. A finalidade da catequese realiza-se através de diversas tarefas, mutuamente relacionadas. (246) Para realizá-las, a catequese se inspirará certamente no modo mediante o qual Jesus formava os Seus discípulos: fazia-os conhecer as diversas dimensões do Reino de Deus (« a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos céus », Mt 13,11), (247) ensinava-os a rezar (« Quando orardes, dizei: Pai... », Lc 11,2), (248) inculcava-lhes atitudes evangélicas (« ...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração », Mt 11,29) e os iniciava na missão (« ...e os enviou dois a dois... », Lc 10,1). (249)

As tarefas da catequese correspondem à educação das diversas dimensões da fé, uma vez que a catequese é uma formação cristã integral, « aberta a todas as outras componentes da vida cristã ». (250) Em virtude da sua própria dinâmica interna, a fé exige ser conhecida, celebrada, vivida e traduzida em oração. A catequese deve cultivar cada uma dessas dimensões. A fé, porém, se vive na comunidade cristã e se anuncia na missão: é uma fé compartilhada e anunciada. Também estas dimensões devem ser favorecidas pela catequese.

O Concílio Vaticano II assim se expressou sobre essas tarefas: « A formação catequética, que ilumina e fortifica a fé, nutre a vida segundo o espírito de Cristo, leva a uma participação consciente e ativa no mistério litúrgico e desperta para a atividade apostólica ». (251)

As tarefas fundamentais da catequese: ajudar a conhecer, celebrar, viver e contemplar o mistério de Cristo

85. As tarefas fundamentais da catequese são:

Favorecer o conhecimento da fé

Aquele que encontrou Cristo deseja conhecê-Lo o mais possível, assim como deseja conhecer o desígnio do Pai, que Ele revelou. O conhecimento da fé (fides quae) é exigência da adesão à fé (fides qua). (252) Já na ordem humana, o amor por uma pessoa leva a desejar conhecê-la sempre mais. A catequese deve levar, portanto, a « compreender progressivamente toda a verdade do projeto divino », (253) introduzindo os discípulos de Jesus Cristo no conhecimento da Tradição e da Escritura, a qual é a « eminente ciência de Jesus Cristo » (Fil 3,8). (254)

O aprofundamento no conhecimento da fé ilumina cristãmente a existência humana, alimenta a vida de fé e habilita também a prestar razão dela no mundo. A entrega do símbolo, compêndio da Escritura e da fé da Igreja, exprime a realização desta tarefa.

A educação litúrgica

De fato, « Cristo está sempre presente em Sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas ». (255) A comunhão com Jesus Cristo leva a celebrar a sua presença salvífica nos sacramentos e, particularmente, na Eucaristia. A Igreja deseja ardentemente que todos os fiéis cristãos sejam levados àquela participação plena, consciente e ativa, que exigem a própria natureza da Liturgia e a dignidade do seu sacerdócio batismal. (256) Por isso, a catequese, além de favorecer o conhecimento do significado da liturgia e dos sacramentos, deve educar os discípulos de Jesus Cristo « à oração, à gratidão, à penitência, à solicitação confiante, ao sentido comunitário, à linguagem simbólica... », (257) uma vez que tudo isso é necessário, a fim de que exista uma verdadeira vida litúrgica.

A formação moral

A conversão a Jesus Cristo implica o caminhar na sua seqüela. A catequese deve, portanto, transmitir aos discípulos as atitudes próprias do Mestre. Eles empreendem assim, um caminho de transformação interior, no qual, participando do mistério pascal do Senhor, « passam do velho para o novo homem aperfeiçoado em Cristo ». (258) O Sermão da Montanha, no qual Jesus retoma o decálogo e o imprime com o espírito das bem-aventuranças, (259) é uma referência indispensável na formação moral, hoje tão necessária. A evangelização, « que comporta também o anúncio e a proposta moral », (260) difunde toda a sua força interpeladora quando, juntamente com a palavra anunciada, sabe oferecer também a palavra vivida. Este testemunho moral, para o qual a catequese prepara, deve saber mostrar as conseqüências sociais das exigências evangélicas. (261)

Ensinar a rezar

A comunhão com Jesus Cristo conduz os discípulos a assumirem a atitude orante e contemplativa que adotou o Mestre. Aprender a rezar com Jesus é rezar com os mesmos sentimentos com os quais Ele se dirigia ao Pai: a adoração, o louvor, o agradecimento, a confiança filial, a súplica e a contemplação da sua glória. Estes sentimentos se refletem no Pai Nosso, a oração que Jesus ensinou aos discípulos e que é modelo de toda oração cristã. A «entrega do Pai Nosso », (262) resumo de todo o Evangelho, (263) é, portanto, verdadeira expressão da realização desta tarefa. Quando a catequese é permeada por um clima de oração, o aprendizado de toda a vida cristã alcança a sua profundidade. Este clima se faz particularmente necessário quando o catecúmeno e os catequizandos encontram-se diante dos aspectos mais exigentes do Evangelho e se sentem fracos, ou quando descobrem, admirados, a ação de Deus na sua vida.

Outras tarefas fundamentais da catequese: iniciação e educação à vida comunitária e à missão

86. A catequese torna o cristão idôneo a viver em comunidade e a participar ativamente da vida e da missão da Igreja. O Concílio Vaticano II aponta a necessidade, para os pastores, de « desenvolver devidamente o espírito de comunidade » (264) e para os catecúmenos, de « aprender a cooperar ativamente na evangelização e na edificação da Igreja ». (265)

A educação para a vida comunitária

a) A vida cristã em comunidade não se improvisa e é preciso educar para ela, com cuidado. Para esta aprendizagem, o ensinamento de Jesus sobre a vida comunitária, narrado pelo Evangelho de Mateus, requer algumas atitudes que a catequese deverá inculcar: o espírito de simplicidade e de humildade (« se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças... », Mt 18,3); a solicitude pelos pequeninos (« Caso alguém escandalize um desses pequeninos que crêem em mim... », Mt 18,6); a atenção especial para com aqueles que se afastaram (« vai à procura da ovelha extraviada... », Mt 18,12); a correção fraterna (« ... vai corrigi-lo a sós », Mt 18,12); a oração em comum (« se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir... », Mt 18,19); o perdão mútuo (« até setenta e sete vezes... », Mt 18,22). O amor fraterno unifica todas estas atitudes: « Amai-vos uns aos outros como eu vos amei » (Jo 13,34).

b) Ao educar para este sentido comunitário, a catequese dará uma especial atenção à dimensão ecumênica, e encorajará atitudes fraternas para com os membros de outras Igrejas cristãs e comunidades eclesiais. Por isso, a catequese, ao procurar atingir esta meta, exporá com clareza toda a doutrina da Igreja Católica, evitando expressões que possam induzir ao erro. Favorecerá, além disso, « um bom conhecimento das outras confissões », (266) com as quais existem bens comuns, tais como: « a Palavra escrita de Deus, a vida da graça, a fé, a esperança, a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo ». (267) A catequese terá uma dimensão ecumênica, na medida em que saberá suscitar e alimentar « um verdadeiro desejo de unidade », (268) feito não em vista de um fácil irenismo, mas em vista da unidade perfeita, quando o Senhor assim o desejar e através das vias que Ele escolher.

A iniciação à missão

a) A catequese é igualmente aberta ao dinamismo missionário. (269) Ela se esforça por habilitar os discípulos de Jesus a se fazerem presentes, como cristãos, na sociedade e na vida profissional, cultural e social. Prepara-os também a prestarem a sua cooperação nos diferentes serviços eclesiais, segundo a vocação de cada um. Este empenho evangelizador origina-se, para os fiéis leigos, dos sacramentos da iniciação cristã e do caráter secular de sua vocação. (270) É também importante usar todos os meios disponíveis para suscitar vocações sacerdotais e de particular consagração a Deus, nas diversas formas de vida religiosa e apostólica e para acender no coração de cada um a vocação especial missionária.

As atitudes evangélicas que Jesus sugeriu aos seus discípulos, quando os iniciou na missão, são aquelas que a catequese deve alimentar: ir em busca da ovelha perdida; anunciar e curar ao mesmo tempo; apresentar-se pobres, sem posses nem mochila; saber assumir a rejeição e a perseguição; pôr a própria confiança no Pai e no amparo do Espírito Santo; não esperar outra recompensa senão a alegria de trabalhar pelo Reino. (271)

b) Ao educar para este sentido missionário, a catequese formará ao diálogo inter-religioso, que pode tornar os fiéis idôneos a uma comunicação fecunda com os homens e mulheres de outras religiões. (272) A catequese mostrará que os laços entre a Igreja e as outras religiões não cristãs são, em primeiro lugar, aqueles da origem comum e do fim comum do gênero humano, assim como também aqueles das múltiplas « sementes da Palavra », que Deus depôs naquelas religiões. A catequese ajudará também a saber conciliar e, ao mesmo tempo, a saber distinguir o « anúncio de Cristo » do « diálogo inter-religioso ». Estes dois elementos, embora conservem a sua íntima relação, não devem ser confundidos nem considerados equivalentes. (273) Com efeito,« o diálogo não dispensa da evangelização ». (274)

Algumas considerações sobre o conjunto destas tarefas

87. As tarefas da catequese constituem, conseqüentemente, um rico e variado conjunto de aspectos. Sobre este conjunto, é oportuno tecer algumas considerações:

– Todas as tarefas são necessárias. Assim como para a vitalidade de um organismo humano, é necessário que funcionem todos os seus órgãos, também para o amadurecimento da vida cristã, é preciso que sejam cultivadas todas as suas dimensões: o conhecimento da fé, a vida litúrgica, a formação moral, a oração, a pertença comunitária, o espírito missionário. Se a catequese transcurar uma dessas dimensões, a fé cristã não alcançará todo o seu desenvolvimento.

– Cada tarefa, à sua maneira, realiza a finalidade da catequese. A formação moral, por exemplo, é essencialmente cristológica e trinitária, plena de senso eclesial e aberta à dimensão social. O mesmo acontece com a educação litúrgica, essencialmente religiosa e eclesial, mas também muito exigente no seu empenho evangelizador em favor do mundo.

– As tarefas se implicam mutuamente e se desenvolvem conjuntamente. Cada grande tema catequético, por exemplo, a catequese sobre Deus Pai, tem uma dimensão cognoscitiva e implicações morais; interioriza-se na oração e se assume no testemunho. Uma tarefa chama outra: o conhecimento da fé torna idôneos à missão; a vida sacramental dá força para a transformação moral.

– Para realizar as suas tarefas, a catequese se vale de dois grandes meios: a transmissão da mensagem evangélica e a experiência da vida cristã. (275) A educação litúrgica, por exemplo, necessita explicar o que é a liturgia cristã e o que são os sacramentos; porém deve também fazer experimentar os diversos tipos de celebração, fazer descobrir e amar os símbolos, o sentido dos gestos corporais, etc... A formação moral não apenas transmite o conteúdo da moral cristã, mas cultiva também, ativamente, as atitudes evangélicas e os valores cristãos.

– As diferentes dimensões da fé são objeto de educação, tanto no seu aspecto de « dom » quanto no seu aspecto de « compromisso ». O conhecimento da fé, a vida litúrgica e a seqüela de Cristo são, cada uma, um dom do Espírito, que se recebe na oração e, ao mesmo tempo, um compromisso de estudo, espiritual, moral e testemunhal. Ambos os aspectos devem ser cultivados. (276)

– Cada dimensão da fé, assim como a fé no seu conjunto, deve enraizar-se na experiência humana, sem permanecer na pessoa como algo de postiço ou de isolado. O conhecimento da fé é significativo, ilumina toda a existência e dialoga com a cultura; na liturgia, toda a vida pessoal é uma oferta espiritual; a moral evangélica assume e eleva os valores humanos; a oração é aberta a todos os problemas pessoais e sociais. (277)

Como indicava o Diretório de 1971, « é muito importante que a catequese conserve esta riqueza de diversidade de aspectos, de forma que nenhum aspecto seja isolado, em detrimento dos demais ».

O catecumenato batismal: estrutura e fases

88. A fé, impulsionada pela graça divina e cultivada pela ação da Igreja, experimenta um processo de amadurecimento. A catequese, a serviço desse crescimento, é uma ação gradual. Uma oportuna catequese é disposta por graus. (278)

No catecumenato batismal, a formação se desenvolve em quatro etapas:

– o pré-catecumenato, (279) caracterizado pelo fato que nele se realiza a primeira evangelização, em vista da conversão, e se explicita o « kerigma » do primeiro anúncio;

– o catecumenato (280) propriamente dito, destinado à catequese integral e em cujo início tem lugar a « entrega dos Evangelhos »; (281)

– o tempo da purificação e iluminação, (282) que fornece uma preparação mais intensa aos sacramentos da iniciação, e no qual tem lugar a « entrega do Símbolo » (283) e a « entrega da Oração do Senhor »; (284)

– o tempo da mistagogia, (285) caracterizado pela experiência dos sacramentos e pelo ingresso na comunidade.

89. Estas etapas da grande tradição catecumenal, repletas de sabedoria, inspiram as fases da catequese. (286) Na época dos Padres da Igreja, de fato, a formação propriamente catecumenal se realizava mediante a catequese bíblica, centrada na narração de História da salvação; a preparação imediata ao Batismo, por meio da catequese doutrinal, que explicava o Símbolo e o Pai Nosso, recém entregues, com suas implicações morais; e a etapa que sucedia os sacramentos de iniciação, mediante a catequese mistagógica, que ajudava a interiorizar tais sacramentos e a incorporar-se na comunidade. Esta concepção patrística continua a ser uma fonte de luz para o Catecumenato atual e para a própria catequese de iniciação.

Esta, uma vez que é acompanhamento do processo de conversão, é essencialmente gradual; e uma vez que está a serviço daquele que decidiu seguir Cristo, é eminentemente cristocêntrica.

O Catecumenato batismal, inspirador da catequese na Igreja

90. Dado que a missão ad gentes é o paradigma de toda a missão evangelizadora da Igreja, o Catecumenato batismal, que lhe é inerente, é o modelo inspirador da sua ação catequizadora. (287) Por isso, é oportuno sublinhar os elementos do Catecumenato que devem inspirar a catequese atual e o significado metodológico dos mesmos. É preciso, todavia, colocar a premissa que entre os catequizandos e os catecúmenos, (288) e entre catequese pós-batismal e catequese pré-batismal, que lhes é respectivamente administrada, existe uma diferença fundamental. Ela provém dos sacramentos de iniciação recebido pelos primeiros, os quais « já foram introduzidos na Igreja e já foram feitos filhos de Deus por meio do Batismo. Portanto, o fundamento da sua conversão é o Batismo já recebido, cuja força devem desenvolver ». (289)

91. Diante desta substancial diferença, consideram-se a seguir alguns elementos do Catecumenato batismal, que devem ser fonte de inspiração para a catequese pós-batismal:

– O Catecumenato batismal recorda constantemente a toda a Igreja, a importância fundamental da função da iniciação, com os basilares fatores que a constituem: a catequese e os sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia. A pastoral de iniciação cristã é vital para toda Igreja particular.

– O Catecumenato batismal é responsabilidade de toda a comunidade cristã. De fato, « tal iniciação cristã não deve ser apenas obra dos catequistas e dos sacerdotes, mas de toda a comunidade de fiéis, e sobretudo dos padrinhos ». (290) A instituição catecumenal incrementa assim, na Igreja, a consciência da maternidade espiritual que ela exerce em toda forma de educação na fé. (291)

– O Catecumenato batismal é todo impregnado pelo mistério da Páscoa de Cristo. Por isso, « toda iniciação deve relevar claramente o seu caráter pascal ». (292) A Vigília pascal, centro da liturgia cristã, e a sua espiritualidade batismal, são inspiração para toda a catequese.

– O Catecumenato batismal é também, lugar privilegiado de inculturação. Seguindo o exemplo da Encarnação do Filho de Deus, feito homem num momento histórico concreto, a Igreja acolhe os catecúmenos integralmente, com os seus vínculos culturais. Toda a ação catequizadora participa desta função de incorporar na catolicidade da Igreja, as autênticas « sementes da Palavra » disseminadas nos indivíduos e nos povos. (293)

– Finalmente, a concepção do Catecumenato batismal, como processo formativo e verdadeira escola de fé, oferece à catequese pós-batismal uma dinâmica e algumas notas qualificativas: a intensidade e a integridade da formação; o seu caráter gradual, com etapas definidas; a sua vinculação com ritos, símbolos e sinais, especialmente bíblicos e litúrgicos; a sua constante referência à comunidade cristã...

A catequese pós-batismal, sem dever reproduzir mimeticamente a configuração do Catecumenato batismal, e reconhecendo aos catequizandos a sua realidade de batizados, deverá inspirar-se nesta « escola preparatória à vida cristã », (294) deixando-se fecundar pelos seus principais elementos caracterizadores.

II PARTE

A MENSAGEM EVANGÉLICA

A mensagem evangélica

« Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo » (Jo 17,3).
« Veio Jesus para a Galiléia, proclamando o Evangelho de Deus: "Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho" » (Mc 1,14-15).
« Lembro-vos, irmãos, o evangelho que vos anunciei... Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras » (1 Cor 15,1-4).

Significado e finalidade desta parte

92. A fé cristã, mediante a qual uma pessoa pronuncia o seu « sim » a Jesus Cristo, pode ser considerada sob um dúplice aspecto:

– como adesão a Deus que se revela, dada sob a influência da graça. Neste caso, a fé consiste em confiar na palavra de Deus e em abandonar-se a esta (fides qua);

– como conteúdo da Revelação e da mensagem evangélica. A fé, neste sentido, exprime-se no empenho em conhecer sempre melhor o sentido profundo daquela Palavra (fides quae).

Estes dois aspectos não podem, por sua própria natureza, ser separados. O amadurecimento e o crescimento da fé exigem o

seu orgânico e coerente desenvolvimento. Todavia, por razões de ordem metodológica, os dois aspectos podem ser considerados separadamente. (295)

93. Nesta segunda parte, abordar-se-á o conteúdo da mensagem evangélica (fides quae).

– No primeiro capítulo, serão indicadas as normas e os critérios que a catequese deve seguir para fundar, formular e expor os seus conteúdos. Toda forma de ministério da Palavra, de fato, ordena e apresenta a mensagem evangélica segundo o seu caráter próprio.

– No segundo capítulo, tratar-se-á do conteúdo da fé, assim como se encontra exposto no Catecismo da Igreja Católica, que é texto de referência doutrinal para a catequese. São apresentadas, por isso, algumas indicações que poderão ajudar a assimilar e a interiorizar o Catecismo, assim como a situá-lo no âmbito da ação catequizadora da Igreja. Além disso, são oferecidos alguns critérios, para que, em referência ao Catecismo da Igreja Católica, sejam elaborados, nas Igrejas particulares, Catecismos locais que, conservando a unidade da fé, levem na devida consideração, as diferentes situações e culturas.

I CAPÍTULO

Normas e critérios para a apresentação da mensagem evangélica na catequese

« Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Deus. Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas » (Dt 6,4-9).
« E o Verbo se fez carne e habitou entre nós » (Jo 1,14).

A Palavra de Deus, fonte da catequese

94. A fonte na qual a catequese haure a sua mensagem é a Palavra de Deus:

« A catequese há-de haurir sempre o seu conteúdo na fonte viva da Palavra de Deus, transmitida na Tradição e da Escritura, porque "a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito inviolável da Palavra de Deus, confiada à Igreja" ». (296)

Este « depósito da fé » (297) é como o tesouro do dono da casa, confiado à Igreja, família de Deus, do qual ela extrai continuamente coisas novas e coisas antigas. (298) Todos os filhos do Pai, animados pelo Seu Espírito, nutrem-se deste tesouro da Palavra. Eles sabem que a Palavra é Jesus Cristo, o Verbo feito homem, e que a Sua voz continua a ressoar por meio do Espírito Santo, na Igreja e no mundo.

A Palavra de Deus, por admirável « condescendência » (299) divina nos é dirigida e chega a nós por meio de « obras e palavras » humanas, « tal como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza humana, se fez semelhante aos homens ». (300) Sem deixar de ser Palavra de Deus, exprime-se na palavra humana. Embora próxima, ela permanece porém velada, em estado « kenótico ». Por isso, a Igreja, guiada pelo Espírito, precisa interpretá-la continuamente e, enquanto a contempla com profundo espírito de fé, « piamente ausculta aquela palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe ». (301)

A fonte e « as fontes » da mensagem da catequese (302)

95. A Palavra de Deus contida na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura:

– é meditada e compreendida sempre mais profundamente, por meio do senso de fé de todo o Povo de Deus, sob a orientação do Magistério, que a ensina com autoridade;

– é celebrada na liturgia onde, constantemente, é proclamada, ouvida, interiorizada e comentada;

– resplende na vida da Igreja, na sua história bimilenar, sobretudo no testemunho dos cristãos e particularmente dos santos;

– é aprofundada na pesquisa teológica, que ajuda os crentes a progredirem na compreensão vital dos mistérios da fé;

– manifesta-se nos genuínos valores religiosos e morais que, como sementes da Palavra, estão disseminados na sociedade humana e nas diversas culturas.

96. Todas estas são as fontes, principais ou subsidiárias, da catequese, as quais, de modo algum, devem ser entendidas em sentido unívoco. (303) A Sagrada Escritura « é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo »; (304) e a Sagrada Tradição « transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos, a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo ». (305) O Magistério tem a tarefa de « interpretar autenticamente a Palavra de Deus », (306) cumprindo, em nome de Jesus Cristo, um serviço eclesial fundamental. Tradição, Escritura e Magistério, intimamente conexos e unidos, são, « cada qual a seu modo », (307) as fontes essenciais da catequese.

As « fontes » da catequese têm, cada uma, uma linguagem própria, à qual se dá forma através de uma rica variedade de « documentos da fé ». A catequese é tradição viva de tais documentos: (308) perícopes bíblicas, textos litúrgicos, escritos dos Padres da Igreja, formulações do Magistério, símbolos da fé, testemunhos dos santos e reflexões teológicas.

A fonte viva da Palavra de Deus e as « fontes » que dela derivam e nas quais ela se exprime, fornecem à catequese os critérios para transmitir a sua mensagem a todos aqueles que amadureceram a decisão de seguir Jesus Cristo.

Os critérios para a apresentação da mensagem

97. Os critérios para apresentar a mensagem evangélica na catequese são intimamente correlacionados entre si, uma vez que brotam de uma única fonte.

– A mensagem centrada na pessoa de Jesus Cristo (cristocentrismo), por sua dinâmica interna, introduz à dimensão trinitária da mesma mensagem.

– O anúncio da Boa Nova do Reino de Deus, centrado no dom da salvação, implica uma mensagem de libertação.

O caráter eclesial da mensagem remete ao seu caráter histórico, uma vez que a catequese, como o conjunto da evangelização, realiza-se no « tempo da Igreja ».

– A mensagem evangélica, uma vez que é Boa Nova destinada a todos os povos, busca a inculturação, a qual poderá ser atuada em profundidade, somente se a mensagem for apresentada em toda a sua integridade e pureza.

– A mensagem evangélica é necessariamente uma mensagem orgânica, com uma própria hierarquia de verdade. É esta visão harmoniosa do Evangelho que o converte em evento profundamente significativo para a pessoa humana.

Ainda que estes critérios sejam válidos para todo o ministério da Palavra, eles serão agora desenvolvidos em relação à catequese.

O cristocentrismo da mensagem evangélica

98. Jesus Cristo não apenas transmite a Palavra de Deus: Ele é a Palavra de Deus. Por isso, a catequese, toda ela,diz respeito a Ele.

Neste sentido, o que caracteriza a mensagem transmitida pela catequese é, antes de mais nada, o « cristocentrismo », (309) que deve ser entendido em vários sentidos:

– Ele significa, em primeiro lugar que, no centro da catequese nós encontramos essencialmente uma Pessoa: é a Pessoa de Jesus de Nazaré, « Filho único do Pai, cheio de graça e de verdade ». (310) Na realidade, a tarefa fundamental da catequese é apresentar Cristo: todo o resto, em referência a Ele. Aquilo que, de forma definitiva, ela favorece, é a seqüela de Cristo, a comunhão com Ele: todo elemento da mensagem tende a isto.

– O cristocentrismo, em segundo lugar, significa que Jesus está no « centro da história da salvação », (311) apresentada pela catequese. Ele, de fato, é o evento último, para o qual converge toda a história sagrada. Ele, vindo na « plenitude dos tempos » (Gal 4,4), é « a chave, o centro e o fim da história humana ». (312) A mensagem catequética ajuda o cristão a situar-se na história e a inserir-se ativamente nesta, mostrando como Cristo é o sentido último desta história.

– O cristocentrismo significa, além disso, que a mensagem evangélica não provém do homem, mas é Palavra de Deus. A Igreja e, em seu nome, todo catequista, pode dizer, sem medo de errar: « Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou » (Jo 7,16). Por isso, tudo aquilo que a catequese transmite, são « os ensinamentos de Jesus Cristo, a Verdade que Ele comunica, ou, mais precisamente, a Verdade que Ele é ». (313) O cristocentrismo obriga a catequese a transmitir aquilo que Jesus ensina a propósito de Deus, do homem, da felicidade, da vida mortal, da morte... sem permitir-se mudar em nada o seu pensamento. (314)

Os Evangelhos, que narram a vida de Jesus, estão no centro da mensagem catequética. Dotados, eles próprios, de uma « estrutura catequética », (315) exprimem o ensinamento que se propunha às primeiras comunidades cristãs e que transmitia a vida de Jesus, a sua mensagem e as suas ações salvíficas. Na catequese, « os quatro Evangelhos ocupam um lugar central, já que Cristo Jesus é o centro deles ». (316)

O cristocentrismo trinitário da mensagem evangélica

99. A Palavra de Deus, encarnada em Jesus de Nazaré, Filho da Virgem Maria, é a Palavra do Pai, que fala ao mundo por meio do seu Espírito. Jesus remete constantemente ao Pai, de quem se sabe Filho Único, e ao Espírito Santo, do qual se sabe Ungido. Ele é o « caminho » que introduz no mistério íntimo de Deus. (317)

O cristocentrismo da catequese, em virtude da sua dinâmica interna, conduz à confissão da fé em Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. É um cristocentrismo essencialmente trinitário. Os cristãos, no Batismo, são configurados a Cristo, « Um da Trindade », (318) e esta configuração põe os batizados, « filhos no Filho », em comunhão com o Pai e com o Espírito Santo. Por isso, a sua fé é radicalmente trinitária. « O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã ». (319)

100. O cristocentrismo trinitário da mensagem evangélica induz a catequese a estar atenta, entre outras coisas, ao seguintes aspectos:

– A estrutura interna da catequese; toda modalidade de apresentação será sempre cristocêntrica e trinitária: « Por Cristo, ao Pai, no Espírito ». (320) Uma catequese que omitisse uma destas dimensões, ou desconhecesse a orgânica ligação das mesmas, correria o risco de trair da originalidade da mensagem cristã. (321)

– Seguindo a mesma pedagogia de Jesus, na sua Revelação do Pai, de Si mesmo como Filho, e do Espírito Santo, a catequese mostrará a vida íntima de Deus, a partir das obras salvíficas em favor da humanidade. (322) As obras de Deus revelam quem Ele é em Si mesmo, enquanto o mistério do seu ser íntimo ilumina a inteligência de todas as suas obras. Analogicamente, assim sucede nas relações humanas: as pessoas mostram-se através de suas ações e, quanto mais as conhecemos, tanto mais mais compreendemos suas ações. (323)

– A apresentação do ser íntimo de Deus revelado por Jesus, uno na essência e trino nas pessoas, mostrará as implicações vitais para a vida dos seres humanos. Confessar um único Deus significa que « o homem não deve submeter a própria liberdade pessoal, de maneira absoluta, a nenhum poder terreno ». (324) Significa, além disso, que a humanidade, criada à imagem de um Deus que é « comunhão de pessoas », é chamada a ser uma sociedade fraterna, composta de filhos de um mesmo Pai, iguais em dignidade pessoal. (325) As implicações humanas e sociais da concepção cristã de Deus são imensas. A Igreja, ao professar a fé na Trindade e ao anunciá-la ao mundo, se autocompreende como « um povo agregado na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo ». (326)

Uma mensagem que anuncia a salvação

101. A mensagem de Jesus sobre Deus é uma boa nova para a humanidade. Jesus, de fato, anunciou o Reino de Deus: (327) uma nova e definitiva intervenção de Deus, com um poder transformador tão grande e até mesmo superior àquele que utilizou na criação do mundo. (328) Neste sentido, « como núcleo e centro da sua Boa Nova, Cristo anuncia a salvação, esse grande dom de Deus que é não somente libertação de tudo aquilo que oprime o homem, mas é sobretudo libertação do pecado e do Maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser por Ele conhecido, de vê-Lo e de se entregar a Ele ». (329)

A catequese transmite esta mensagem do Reino, central na pregação de Jesus. E ao fazê-lo, a mensagem « será pouco a pouco aprofundada, desenvolvida nos seus corolários implícitos », (330) mostrando as grandes repercussões que tem, para as pessoas e para o mundo.

102. Nesta explicitação do kerigma evangélico de Jesus, a catequese sublinha os seguintes aspectos fundamentais:

– Jesus, com o advento do Reino, anuncia e revela que Deus não é um ser distante e inacessível, « uma potência anônima e longínqua », (331) mas sim o Pai, que está presente em meio às suas criaturas, operando com o seu amor e o seu poder. Este testemunho sobre Deus como Pai, oferecido de maneira simples e direta, é fundamental na catequese.

– Jesus, ao mesmo tempo, ensina que Deus, com o seu Reino, oferece o dom da salvação integral, liberta do pecado, introduz na comunhão com o Pai, concede a filiação divina e promete a vida eterna, vencendo a morte. (332) Esta salvação integral é, ao mesmo tempo, imanente e escatológica, já que « tem certamente o seu começo nesta vida, mas que terá realização completa na eternidade ». (333)

– Jesus, ao anunciar o Reino, anuncia a justiça de Deus: proclama o juízo divino e a nossa responsabilidade. O anúncio do juízo de Deus, com o seu poder de formação das consciências, é um conteúdo central do Evangelho e uma boa nova para o mundo. E o é tanto para aqueles que sofrem pela falta de justiça, quanto para aqueles que lutam para instaurá-la; o é, também, para aqueles que não souberam amar nem ser solidários, porque é possível a penitência e o perdão, já que na cruz de Cristo obtemos a redenção do pecado. O chamado à conversão e a crer no Evangelho do Reino, que é um reino de justiça, amor e paz e à luz do qual seremos julgados, é fundamental para a catequese.

– Jesus declara que o Reino de Deus se inaugura com Ele, na sua própria pessoa. (334) Revela, de fato, que Ele próprio, constituído Senhor, assume a realização daquele Reino, até que o entregue, plenamente consumado, ao Pai, quando virá de novo, na glória. (335) « O Reino já está presente, em mistério, aqui na terra. Chegando o Senhor, ele se consumará ». (336)

– Jesus ensina, igualmente, que a comunidade dos seus discípulos, a sua Igreja, « constitui o germe e o início deste Reino » (337) e que, como fermento na massa, o que ela deseja é que o Reino de Deus cresça no mundo, como uma imensa árvore, incorporando todos os povos e todas as culturas. « A Igreja está, efetiva e concretamente, a serviço do Reino ». (338)

– Jesus ensina, finalmente, que a história da humanidade não caminha rumo ao nada, mas sim que, com os seus aspectos de graça e pecado, é n'Ele assumida por Deus, para ser transformada. Ela, na sua atual peregrinação rumo à casa do Pai, já oferece uma pregustação do mundo futuro onde, assumida e purificada, alcançará a sua perfeição. « Por conseguinte, a evangelização não pode deixar de comportar o anúncio profético do além, vocação profunda e definitiva do homem, ao mesmo tempo em continuidade e em descontinuidade com a situação presente ». (339)

Uma mensagem de libertação

103. A Boa Nova do Reino de Deus, que anuncia a salvação, inclui uma « mensagem de libertação ». (340) Ao anunciar este Reino, Jesus se dirigia de maneira particularíssima aos pobres: « Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir! » (Lc 6,20-21). Estas bem-aventuranças de Jesus, dirigidas àqueles que sofrem, são o anúncio escatológico da salvação que o Reino traz consigo. Elas registram aquela experiência tão dilacerante, à qual o Evangelho é tão sensível: a pobreza, a fome e o sofrimento da humanidade.

A comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja, compartilha hoje a mesma sensibilidade que teve, então, o seu Mestre. Com profunda dor, ela volta a sua atenção para aqueles « povos comprometidos, como bem sabemos, com toda a sua energia no esforço e na luta por superar tudo aquilo que os condena a ficarem à margem da vida: penúrias, doenças crônicas e endêmicas, analfabetismo, pauperismo, injustiças nas relações internacionais,... situações de neocolonialismo econômico e cultural ». (341) Todas as formas de pobreza « não apenas econômica, mas também cultural e religiosa » (342) preocupam a Igreja.

Como dimensão importante da sua missão, « (a Igreja) tem o dever de anunciar a libertação de milhões de seres humanos, sendo muitos destes seus filhos espirituais; o dever de ajudar uma tal libertação a nascer, de dar testemunho em favor dela e de envidar esforços para que ela seja total ». (343)

104. Para preparar os cristãos a esta tarefa, a catequese estará atenta, entre outras coisas, aos seguintes aspectos:

– Situará a mensagem de libertação na perspectiva da « finalidade especificamente religiosa da evangelização », (344) já que esta perderia a sua razão de ser, « se se apartasse do eixo religioso que a rege: o Reino de Deus, antes de toda e qualquer outra coisa, no seu sentido plenamente teológico ». (345) Por isso, a mensagem da libertação « não pode ser limitada à simples e restrita dimensão econômica, política, social e cultural; mas deve ter em vista o homem todo, incluindo asua abertura para o absoluto, mesmo o Absoluto de Deus ». (346)

– A catequese, na tarefa da educação moral, apresentará a moral social cristã como uma exigência da justiça de Deus e uma conseqüência da « libertação radical realizada por Cristo ». (347) É esta, com efeito, a Boa Nova que os cristãos professam, com o coração repleto de esperança: Cristo libertou o mundo e continua a libertá-lo. Aqui é gerada a « praxis » cristã, que é o cumprimento do grande mandamento do amor.

– Da mesma forma, na tarefa da iniciação à missão, a catequese suscitará nos catecúmenos e nos catequizandos, a « opção preferencial pelos pobres » (348) que, « longe de ser um sinal de particularismo ou de sectarismo, manifesta a universalidade da natureza e da missão da Igreja. Esta opção não é exclusiva », (349) mas comporta « o empenho pela justiça, segundo o papel, a vocação e as circunstâncias pessoais ». (350)

A eclesialidade da mensagem evangélica

105. A natureza eclesial da catequese confere à mensagem evangélica transmitida um intrínseco caráter eclesial. A catequese tem sua origem na confissão de fé da Igreja e leva à confissão de fé do catecúmeno e do catequizando. A primeira palavra oficial que a Igreja dirige ao batizando adulto, depois de ter perguntado o seu nome, é: « O que pedes à Igreja de Deus? ». « A fé » é a resposta do batizando. (351) O catecúmeno, de fato, sabe que o Evangelho que ele descobriu e deseja conhecer, é vivo no coração dos crentes. A catequese não é outra coisa senão o processo de transmissão do Evangelho, tal como a comunidade cristã recebeu-o, compreende-o, celebra-o, vive-o e o comunica de diversos modos.

Por isso, quando a catequese transmite o mistério de Cristo, na sua mensagem ressoa a fé de todo o Povo de Deus, ao longo do curso da história: a fé dos apóstolos, que a receberam do próprio Cristo e da ação do Espírito Santo; a fé dos mártires, que a confessaram e a confessam com seu sangue; a fé dos santos, que a viveram e a vivem em profundidade; a fé dos Padres e dos Doutores da Igreja, que a ensinaram luminosamente; a fé dos missionários, que a anunciam continuamente; a fé dos teólogos, que ajudam a melhor compreendê-la; e enfim, a fé dos pastores, que a conservam com zelo e amor, e a interpretam com autenticidade. Na verdade, na catequese está presente a fé de todos aqueles que crêem e se deixam conduzir pelo Espírito Santo.

106. Esta fé, transmitida pela comunidade eclesial, é uma só. Ainda que os discípulos de Jesus Cristo formem uma comunidade espalhada por todo o mundo, e ainda que a catequese transmita a fé através de linguagens culturais muito diferentes, o Evangelho que se entrega é um só, a confissão de fé é única e um só é o Batismo: « um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos » (Ef 4,5).

A catequese é, portanto, na Igreja, o serviço que introduz os catecúmenos e os catequizandos na unidade da confissão de fé. (352) Por sua própria natureza, alimenta o vínculo de unidade, (353) criando a consciência de pertencer a uma grande comunidade, que nem o espaço nem o tempo conseguem limitar: « Desde o justo Abel até o último dos eleitos, até às extremidades da terra, até o fim do mundo ». (354)

O caráter histórico do mistério da salvação

107. A confissão de fé dos discípulos de Jesus Cristo nasce de uma Igreja peregrina, enviada em missão. Não é ainda a proclamação gloriosa do fim do caminho, mas aquela que corresponde ao « tempo da Igreja ». (355) A « economia da salvação » tem, por isso, um caráter histórico, uma vez que se realiza no tempo: « ...iniciou no passado, desenvolveu-se e alcançou o seu ponto mais elevado em Cristo, estende o seu poder no presente e espera por sua consumação no futuro ». (356)

Por isso, a Igreja, ao transmitir hoje a mensagem cristã, a partir da viva consciência que tem desta mensagem, « recorda » constantemente os eventos salvíficos do passado, narrando-os. Interpreta, à luz dos mesmos, os atuais eventos da história humana, nos quais o Espírito de Deus renova a face da terra, e permanece numa confiante expectativa da vinda do Senhor. Na catequese patrística, a narração (narratio) das maravilhas realizadas por Deus e a espera (expectatio) do retorno de Cristo acompanhavam sempre a exposição dos mistérios da fé. (357)

108. O caráter histórico da mensagem cristã obriga a catequese a considerar os seguintes aspectos:

– Apresentar a história da salvação por meio de uma catequese bíblica que faça conhecer as « obras e as palavras » com a quais Deus se revelou à humanidade: as grandes etapas do Antigo Testamento, mediante as quais preparou o caminho do Evangelho; (358) a vida de Jesus, Filho de Deus, incarnado no seio de Maria, e que, com suas ações e seu ensinamento, levou a cumprimento a Revelação; (359) e a história da Igreja, a qual transmite a Revelação. Também esta história, lida a partir da fé, é parte fundamental do conteúdo da catequese.

– Ao explicar o Símbolo da fé e o conteúdo da moral cristã, através de uma catequese doutrinal, a mensagem evangélica deve iluminar o « hoje » da história da salvação. De fato, « ...o ministério da palavra, além de recordar a revelação das admiráveis obras realizadas por Deus no passado... interpreta também, à luz desta revelação, a vida humana dos nossos dias, os sinais dos tempos e as realidades deste mundo, uma vez que é nele que se atua o projeto de Deus para a salvação do homem ». (360)

– Situar os sacramentos dentro da história da salvação, por meio de uma catequese mistagógica, a qual: « ...relê e revive todos estes grandes acontecimentos da história da salvação no "hoje" da sua liturgia ». (361) A referência ao « hoje » histórico-salvífico é essencial nesta catequese. Ajuda-se, assim, os catecúmenos e catequizandos, « ...a se abrirem a esta compreensão "espiritual" da Economia da salvação... ». (362)

– As « obras e palavras » da Revelação remetem ao « mistério contido nesta ». (363) A catequese ajudará a realizar a passagem do sinal para o mistério. Levará a descobrir, por detrás da humanidade de Jesus, a sua condição de Filho de Deus; por detrás da história da Igreja, o seu mistério como « sacramento de salvação »; por detrás dos « sinais dos tempos », as pegadas da presença de Deus e os sinais do Seu plano. A catequese mostrará, assim, o conhecimento típico da fé, « que é conhecimento através dos sinais ». (364)

A inculturação da mensagem evangélica (365)

109. A Palavra de Deus se fez homem, homem concreto, situado no tempo e no espaço, radicado numa cultura determinada: « Cristo..., por sua encarnação, se ligou às condições sociais e culturais dos homens com quem conviveu ». (366) Esta é a « inculturação » original da Palavra de Deus e o modelo de referência para toda a evangelização da Igreja « chamada a levar a força do Evangelho ao coração da cultura e das culturas ». (367)

A « inculturação » (368) da fé, pela qual se assumem, num admirável intercâmbio, « todas as riquezas das nações, herança de Cristo » (369) é um processo profundo e global e um caminho lento. (370) Não é uma simples adaptação externa que, para tornar mais atraente a mensagem cristã, limita-se a cobri-la, de maneira decorativa, com um verniz superficial.

Trata-se, ao contrário, da penetração do Evangelho nos estratos mais recônditos das pessoas e dos povos, alcançando-os « ...de maneira vital, em profundidade, isto é, até às suas raízes, a cultura e as culturas do homem » (371)

Neste trabalho de inculturação, todavia, as comunidades cristãs deverão fazer um discernimento: trata-se, por um lado, de « assumir» (372) aquelas riquezas culturais que sejam compatíveis com a fé; mas, por outro lado, trata-se também de ajudar a « purificar » (373) e « transformar » (374) aqueles critérios, modos de pensar e estilos de vida que estão em contraste com o Reino de Deus. Este discernimento é baseado em dois princípios de base: « a compatibilidade com o Evangelho e a comunhão com a Igreja universal ». (375) Todo o Povo de Deus deve participar deste processo, que « ...requer gradatividade, para que seja verdadeiramente uma expressão da experiência cristã da comunidade... (376)

110. Nesta inculturação da fé, apresentam-se concretamente, para a catequese, diversas tarefas. Entre estas, devemos ressaltar:

– Considerar a comunidade eclesial como principal fator de inculturação. Uma expressão e, ao mesmo tempo, um eficaz instrumento dessa tarefa, é representado pelo catequista que, juntamente com um profundo senso religioso, deverá possuir uma viva sensibilidade social e ser bem radicado no seu ambiente cultural. (377)

– Elaborar Catecismos locais, que respondam às exigências que provêm das diferentes culturas, (378) apresentando o Evangelho em relação às aspirações, interrogações e problemas que existem nessas mesmas culturas.

– Realizar uma oportuna inculturação no Catecumenato e nas instituições catequéticas, incorporando, com discernimento, a linguagem, os símbolos e os valores da cultura na qual vivem os catecúmenos e os catequizandos.

– Apresentar a mensagem cristã de modo a tornar aptos a « dar razão da vossa esperança » (1 Pd 3,15) aqueles que devem anunciar o Evangelho em meio a culturas freqüentemente pagãs e às vezes póscristãs. Uma apologética bem feita, que ajude o diálogo fé-cultura, torna-se hoje imprescindível.

A integridade da mensagem evangélica

111. Na tarefa da inculturação da fé, a catequese deve transmitir a mensagem evangélica na sua integridade e pureza. Jesus anuncia o Evangelho integralmente: « ...porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer » (Jo 15,15). Esta mesma integridade, Cristo a exige dos seus discípulos, ao enviá-los em missão: « ...ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei » (Mt 28,19). Por isso, um critério fundamental da catequese é o de salvaguardar a integridade da mensagem, evitando apresentações parciais ou deformadas do mesmo. « Para ser perfeita a oblação da sua fé, aqueles que se tornam discípulos de Cristo têm o direito de receber a « palavra da fé » não mutilada, falsificada ou diminuída, mas sim plena e integral, com todo o seu rigor e com o todo o seu vigor ». (379)

112. Duas dimensões, intimamente unidas, submetem-se a este critério. Trata-se, de fato, de:

– Apresentar a mensagem evangélica íntegra, sem deixar passar em silêncio nenhum aspecto fundamental, ou realizar uma seleção no depósito da fé. (380) A catequese, ao contrário, « deve preocupar-se com que o tesouro da mensagem cristã seja fielmente anunciado na sua integridade ». (381) Isto deve cumprir-se, todavia, gradualmente, seguindo o exemplo da pedagogia divina, mediante a qual Deus se revelou de modo progressivo e gradual. A integridade deve ser acompanhada pela adaptação.

A catequese, conseqüentemente, parte de uma simples proposição da estrutura íntegra da mensagem cristã e a expõe de modo apropriado à capacidade dos destinatários. Sem limitar-se a esta exposição inicial, a catequese, gradualmente, proporá a mensagem de maneira sempre mais ampla e explícita, de acordo com as capacidades do catequizando e o caráter próprio da catequese. (382) Estes dois níveis de exposição íntegra da mensagem são denominados « integridade intensiva » e « integridade extensiva ».

– Apresentar a mensagem evangélica autêntica, em toda a sua pureza, sem reduzir as suas exigências por medo de uma rejeição e sem impor pesados ônus que a mensagem não inclui, pois o jugo de Jesus é suave. (383)

O critério da autenticidade é intimamente ligado com o da inculturação, pois esta tem a função de « traduzir » (384) o essencial da mensagem, numa determinada linguagem cultural. Nesta necessária tarefa, ocorre sempre uma tensão: « A evangelização perderia algo da sua força e da sua eficácia, se ela porventura não levasse em consideração o povo concreto a que ela se dirige... » todavia porém, « ...correria o risco de perder a sua alma e de se esvaecer, se fosse despojada ou fosse desnaturada quanto ao seu conteúdo, sob o pretexto de melhor traduzi-la... ». (385)

113. Nesta complexa relação entre a inculturação e a integridade da mensagem cristã, o critério que se deve seguir é o da atitude evangélica de « abertura missionária pela salvação integral do mundo ». 386 Esta deve saber conjugar a aceitação dos valores verdadeiramente humanos e religiosos, para além de qualquer fechamento imobilista, com o empenho missionário de anunciar toda a verdade do Evangelho, sem cair em fáceis acomodações, que levariam a enfraquecer o Evangelho e a secularizar a Igreja. A autenticidade evangélica exclui ambas as atitudes, que são contrárias ao verdadeiro significado da missão.

Uma mensagem orgânica e hierarquizada

114. A mensagem que a catequese transmite possui um « caráter orgânico e hierarquizado », (387) constituindo uma síntese coerente e vital da fé. Ela se organiza em torno do mistério da Santíssima Trindade, numa perspectiva cristocêntrica, uma vez que é « a fonte de todos os outros mistérios da fé; é a luz que os ilumina... ». (388) A partir deste, a harmonia do conjunto a mensagem requer uma « hierarquia de verdades », (389) uma vez que é diversa a conexão de cada uma destas, com o fundamento da fé. Todavia, esta hierarquia « não significa que algumas verdades pertençam à fé menos do que outras, mas sim que algumas verdades se alicerçam sobre outras que são mais importantes e por elas são iluminadas ». (390)

115. Todos os aspectos e as dimensões da mensagem cristã participam desta dimensão orgânica e hierarquizada:

– A história da salvação, narrando as « maravilhas de Deus » (mirabilia Dei), aquilo que fez, faz e fará por nós, se organiza em torno de Jesus Cristo, « centro da história da salvação ». (391) A preparação ao Evangelho, no Antigo Testamento, a plenitude da Revelação em Jesus Cristo e o tempo da Igreja, estruturam toda a história salvífica, da qual a criação e a escatologia são o seu princípio e o seu fim.

– O Símbolo apostólico mostra como a Igreja tenha sempre querido apresentar o mistério cristão numa síntese vital. Este Símbolo é a síntese e a chave de leitura de toda a Escritura e de toda a doutrina da Igreja, que se ordena hierarquicamente em torno dele. (392)

– Os sacramentos são, também estes, um todo orgânico que, como força regeneradora, nascem do mistério pascal de Jesus Cristo, formando « um organismo no qual cada um especificamente tem o seu lugar vital ». (393) A Eucaristia ocupa, neste organismo, um posto único, para o qual os demais sacramentos são ordenados: ela se apresenta como « o sacramento dos sacramentos ». (394)

– O dúplice mandamento de amor a Deus e ao próximo é, na mensagem moral, a hierarquia dos valores que o próprio Jesus estabeleceu: « Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas » (Mt 22,40). O amor a Deus e o amor ao próximo, que resumem o decálogo, se vividos no espírito das bem-aventuranças evangélicas, constituem a Magna Carta da vida cristã que Jesus proclamou no Sermão da Montanha. (395)

– O Pai Nosso, resumindo a essência do Evangelho, sintetiza e hierarquiza as imensas riquezas de oração contidas na Sagrada Escritura e em toda a vida da Igreja. Esta oração, proposta aos discípulos pelo próprio Jesus, deixa transparecer a confiança filial e os desejos mais profundos com os quais uma pessoa pode dirigir-se a Deus. (396)

Uma mensagem significativa para a pessoa humana

116. A Palavra de Deus, ao fazer-Se homem, assume a natureza humana no seu todo, exceto o pecado. Deste modo, Jesus Cristo, que é a «imagem do Deus invisível » (Col 1,15), é também homem perfeito. É daí que se compreende que « na realidade, o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente, no mistério do Verbo encarnado ». (397)

A catequese, ao apresentar a mensagem cristã, não apenas mostra quem é Deus e qual é o seu desígnio salvífico mas, como o próprio Jesus fez, revela também plenamente o homem ao homem, e lhe descobre a sua altíssima vocação. (398) A Revelação, de fato, « ...não está isolada da vida, nem justaposta a ela de maneira artificial. Mas diz respeito ao sentido último da existência, que ela esclarece totalmente, para inspirá-la e para examiná-la à luz do Evangelho ». (399)

A relação da mensagem cristã com a experiência humana não é uma simples questão metodológica, mas germina da própria finalidade da catequese, a qual procura colocar em comunhão a pessoa humana com Jesus Cristo. Ele, na sua vida terrestre, viveu plenamente a sua humanidade: « Trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano ». (400) Portanto, « Tudo o que Cristo viveu foi para que pudéssemos vivê-lo n'Ele e para que Ele o vivesse em nós ». (401) A catequese trabalha por esta identidade de experiência humana entre Jesus Mestre e discípulo e ensina a pensar como Ele, agir como Ele, amar como Ele. (402) Viver a comunhão com Cristo é fazer experiência da vida nova da graça. (403)

117. Por este motivo, eminentemente cristológico, a catequese, apresentando a mensagem cristã, « deve, portanto, trabalhar para tornar os homens atentos às suas mais importantes experiências, tanto pessoais quanto sociais, e deve também esforçar-se por submeter à luz do Evangelho, as interrogações que nascem de tais situações, de modo a estimular nos próprios homens, um justo desejo de transformar a impostação de suas existências ». (404) Neste sentido:

– Na primeira evangelização, própria do pré-catecumenato ou da pré-catequese, catequese o anúncio do Evangelho se fará sempre em íntima conexão com a natureza humana e as suas aspirações, mostrando como ele satisfaz plenamente o coração humano. (405)

– Na catequese bíblica, se ajudará a interpretar a vida humana atual, à luz das experiências vividas pelo Povo de Israel, por Jesus Cristo e pela comunidade eclesial, na qual o Espírito de Cristo ressuscitado vive e opera continuamente.

– Na explicitação do Símbolo, a catequese mostrará como os grandes temas da fé (criação, pecado original, Encarnação, Páscoa, Pentecostes, escatologia...) são sempre fonte de vida e de luz para o ser humano.

– A catequese moral, ao apresentar no que consiste a vida digna do Evangelho (406) e ao promover as bem-aventuranças evangélicas como espírito que permeia o decálogo, radicar-las-á nas virtudes humanas, presentes no coração do homem. (407)

– Na catequese litúrgica, deverá ser constante a referência às grandes experiências humanas, representadas pelos sinais e símbolos da ação litúrgica, a partir da cultura judaica e cristã. (408)

Princípio metodológico para a apresentação da mensagem (409)

118. As normas e os critérios apresentados neste capítulo e « que dizem respeito à apresentação do conteúdo da catequese, devem estar presentes e ser atuantes nos diversos tipos de catequese: catequese bíblica e litúrgica, síntese doutrinal, interpretação das situações concretas da existência humana, etc... ». (410)

Destes critérios e normas, todavia, não se pode deduzir a ordem que se deve observar na exposição dos conteúdos. De fato, « é possível que a situação presente da catequese ou razões de método ou de pedagogia aconselhem o predispor a comunicação das riquezas do conteúdo da catequese de uma determinada maneira em vez de outra ». (411) Pode-se partir de Deus para chegar a Cristo e vice-versa; da mesma maneira, pode-se partir do homem para chegar a Deus, e inversamente. A adoção de uma ordem determinada na apresentação da mensagem, é condicionada pelas circunstâncias e pela situação de fé de quem recebe a catequese.

É preciso encontrar o método pedagógico mais apropriado às circunstâncias que caracterizam a comunidade eclesial ou os destinatários concretos aos quais se dirige a catequese. Daí a necessidade de pesquisar cuidadosamente e de encontrar as vias e modos que melhor respondam às diversas situações.

Cabe aos Bispos, neste campo, oferecer normas mais precisas e aplicá-las mediante Diretórios Catequéticos, Catecismos para as diversas idades e condições culturais, e com outros meios considerados mais oportunos. (412)

II CAPÍTULO

« Esta é a nossa fé, esta é a fé da igreja »

« Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra » (2 Tm 3,16).
« Portanto, irmãos, ficai firmes; guardai as tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito » (2 Ts 2,15).

119. Este capítulo reflete acerca do conteúdo da catequese tal como ele é exposto pela Igreja nas sínteses de fé que, oficialmente, elabora e propõe nos seus catecismos.

A Igreja sempre se valeu de formulações da fé que, em forma breve, contêm o essencial daquilo que crê e vive: textos neotestamentários, símbolos ou profissões, fórmulas litúrgicas, orações eucarísticas. Mais tarde, considerou-se também conveniente oferecer uma explicitação mais ampla da fé, na forma de uma síntese orgânica, mediante os Catecismos que em numerosas Igrejas locais foram elaborados nestes últimos séculos. Em dois momentos históricos, por ocasião do Concílio de Trento e nos nossos dias, decidiu-se ser oportuno oferecer uma exposição orgânica da fé, mediante um Catecismo de caráter universal, como ponto de referência para a catequese de toda a Igreja. Assim, de fato, quis proceder João Paulo II, com a promulgação do Catecismo da Igreja Católica, no dia 11 de outubro de 1992.

O presente capítulo procura situar estes instrumentos oficiais da Igreja, como o são os catecismos, em relação à atividade ou à prática catequética.

Em primeiro lugar, refletir-se-á sobre o Catecismo da Igreja Católica, procurando esclarecer o papel que lhe cabe no conjunto da catequese eclesial. Depois, analisar-se-á a necessidade dos Catecismos locais, que têm o objetivo de adaptar o conteúdo da fé às diferentes situações e culturas e propor-se-á algumas diretrizes para facilitar a elaboração dos mesmos. A Igreja, ao contemplar a riqueza de conteúdo da fé exposta nos instrumentos que os próprios Bispos propõem ao Povo de Deus, e que, como uma « sinfonia » (413) exprimem aquilo que ela crê, celebra, vive e proclama: « Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja ».

O Catecismo da Igreja Católica e o Diretório Geral para a Catequese

120. O Catecismo da Igreja Católica e o Diretório Geral para a Catequese são dois instrumentos distintos e complementares, a serviço da ação catequizadora da Igreja.

– O Catecismo da Igreja Católica é « uma exposição da fé da Igreja e da doutrina católica, atestadas e iluminadas pelas Sagradas Escrituras, pela Tradição Apostólica e pelo Magistério da Igreja ». (414)

– O Diretório Geral para a Catequese é a proposição dos « fundamentais princípios teológico-pastorais, inspirados no Magistério da Igreja e, de modo particular, no Concílio Vaticano II, aptos a poder orientar a coordenação » (415) da atividade catequética na Igreja.

Ambos os instrumentos, tomados cada um no seu próprio gênero e na sua específica autoridade, completam-se mutuamente.

– O Catecismo da Igreja Católica é um ato do Magistério do Papa, com o qual, no nosso tempo, ele sintetiza normativamente, em virtude de sua autoridade apostólica, a globalidade da fé católica e a oferece, antes de mais nada, às Igrejas, como ponto de referência para a exposição autêntica do conteúdo da fé.

– O Diretório Geral para a Catequese, por sua vez, tem o valor que a Santa Sé normalmente atribui a estes instrumentos de orientação, aprovando-os e confirmando-os. É um subsídio oficial para a transmissão da mensagem evangélica e para o conjunto do ato catequético.

O caráter de complementaridade de ambos os instrumentos justifica o fato, como dito no Prefácio, que o presente Diretório Geral para a Catequese não dedique um capítulo à exposição dos conteúdos da fé, como foi feito no Diretório de 1971, sob o título: « Os elementos essenciais da mensagem cristã ». (416) Por este motivo, no que concerne ao conteúdo da mensagem, o Diretório Geral Catequético remete simplesmente ao Catecismo da Igreja Católica, do qual pretende ser um instrumento metodológico para a sua aplicação concreta.

A apresentação do Catecismo da Igreja Católica que se expõe a seguir, não é elaborada nem para resumir, nem para justificar tal instrumento do Magistério, mas sim para facilitar uma melhor compreensão e recepção do mesmo, na prática catequética.

O Catecismo da Igreja Católica

Finalidade e natureza do Catecismo da Igreja Católica

121. É o próprio Catecismo da Igreja Católica a indicar, no seu Prefácio, a finalidade que o orienta: « Este Catecismo tem o objetivo de apresentar uma exposição orgânica e sintética dos conteúdos essenciais e fundamentais da doutrina católica, tanto sobre a fé como sobre a moral, à luz do Concílio Vaticano II e do conjunto da Tradição da Igreja ». (417)

O Magistério da Igreja, com o Catecismo da Igreja Católica, quis prestar um serviço eclesial para o nosso tempo, reconhecendo-o:

– « instrumento válido e legítimo a serviço da comunhão eclesial ». (418) Deseja fomentar o vínculo da unidade, facilitando nos discípulos de Jesus Cristo, « a profissão de uma única fé, recebida dos Apóstolos »; (419)

– « norma segura para o ensinamento da fé ».(420) Diante do legítimo direito de todo batizado, de conhecer da Igreja o que ela recebeu e aquilo em que ela crê, o Catecismo da Igreja Católica oferece uma resposta clara. É, por isso, um referencial obrigatório para a catequese e para as demais formas de ministério da Palavra;

– « ponto de referência para os catecismos ou compêndios que são preparados nas diversas regiões ». (421) O Catecismo da Igreja Católica, de fato, « não é destinado a substituir os catecismos locais », (422) mas sim « a encorajar e ajudar a redação de novos catecismos locais, que levem em consideração as diversas situações e culturas, mas que preservem com cuidado a unidade da fé e a fidelidade à doutrina católica ». (423)

A natureza ou caráter próprio deste documento do Magistério consiste no fato que ele se apresenta como síntese orgânica da fé, de valor universal. Neste aspecto, difere de outros documentos do Magistério, os quais não pretendem oferecer tal síntese. É diferente, por outro lado, dos catecismos locais que, embora na comunhão eclesial, são destinados a servir uma parte determinada do Povo de Deus.

A articulação do Catecismo da Igreja Católica

122. O Catecismo da Igreja Católica se articula em torno a quatro dimensões fundamentais da vida cristã: a profissão de fé, a celebração litúrgica, a moral evangélica e a oração. Estas quatro dimensões nascem de um mesmo núcleo: o mistério cristão. Este:

– « é o objeto da fé (primeira parte);

– é celebrado e comunicado nas ações litúrgicas (segunda parte);

– é presente para iluminar e amparar os Filhos de Deus em suas ações (terceira parte);

– é fundamento da nossa oração, cuja expressão privilegiada é o Pai Nosso, e constitui o objeto da nossa súplica, do nosso louvor e da nossa intercessão (quarta parte) ».(424)

Esta articulação quadripartita desenvolve os aspectos essenciais da fé:

– crer em Deus criador, Uno e Trino, e no seu desígnio salvífico;

– ser santificados por Ele, na vida sacramental;

– amá-Lo com todo o coração e amar ao próximo como a nós mesmos;

– rezar, na expectativa da vinda do seu Reino e do encontro face a face com Ele.

O Catecismo da Igreja Católica se refere, assim, à fé crida, celebrada, vivida e pregada, e constitui um chamado à educação cristã integral.

A articulação do Catecismo da Igreja Católica remete à profunda unidade da vida cristã. Nele se faz explícita a inter-relação entre « lex orandi », « lex credendi » e « lex vivendi ». « A liturgia é, ela própria, oração; a confissão da fé encontra o seu justo posto na celebração do culto. A graça, fruto dos sacramentos, é a condição insubstituível do agir cristão, assim como a participação na liturgia da Igreja, requer a fé. Se a fé não se realiza nas obras, é morta e não pode dar frutos de vida eterna ». (425)

Com esta articulação tradicional em torno das quatro colunas que sustentam a transmissão da fé (símbolo, sacramentos, decálogo e Pai Nosso), (426) o Catecismo da Igreja Católica se oferece como referência doutrinal na educação às quatro tarefas basilares da catequese (427) e para a elaboração dos Catecismos locais, embora não pretendendo impor, nem àquela primeira, nem a estes últimos, uma configuração determinada. O modo mais adequado de ordenar os elementos do conteúdo da catequese deve responder às respectivas circunstâncias concretas, e não deve ser estabelecido para toda a Igreja, através do Catecismo comum. (428) A perfeita fidelidade à doutrina católica é compatível com uma rica diversidade no modo de apresentá-la.

A inspiração do Catecismo da Igreja Católica: o cristocentrismo trinitário e a sublimidade da vocação cristã da pessoa humana

123. O eixo central do Catecismo da Igreja Católica é Jesus Cristo, « ...o Caminho, a Verdade e a Vida » (Jo 14,6).

O Catecismo da Igreja Católica, centrado em Jesus Cristo, orienta-se em duas direções: em direção a Deus e em direção à pessoa humana.

– O mistério de Deus, Uno e Trino, e a sua economia salvífica, inspira e hierarquiza, a partir do seu interior, o Catecismo da Igreja Católica, no seu conjunto e nas suas partes. A profissão de fé, a liturgia, a moral evangélica e a oração têm, no Catecismo da Igreja Católica, uma inspiração trinitária, que atravessa toda a obra, como fio condutor. (429) Este elemento inspirador central contribui a dar ao texto um profundo caráter religioso.

– O mistério da pessoa humana é apresentado nas páginas do Catecismo da Igreja Católica, sobretudo em alguns capítulos particularmente significativos: « O homem é capaz de Deus », « A criação do homem », « O Filho de Deus se fez homem », « A vocação do homem é a vida no Espírito »... e outros ainda. (430) Esta doutrina, contemplada à luz da natureza humana de Jesus, homem perfeito, mostra a altíssima vocação e o ideal de perfeição a que cada pessoa humana é chamada.

Na verdade, toda a doutrina do Catecismo da Igreja Católica pode ser sintetizada neste pensamento conciliar: « Na mesma revelação do mistério do Pai e de Seu amor, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação ». (431)

O gênero literário do Catecismo da Igreja Católica

124. É importante descobrir o gênero literário do Catecismo da Igreja Católica, para respeitar a função que a autoridade da Igreja lhe atribui, no exercício e na renovação da atividade catequética dos nossos dias.

Os traços principais que definem o gênero literário do Catecismo da Igreja Católica são:

– O Catecismo da Igreja Católica é, antes de mais nada, um catecismo; ou seja, um texto oficial do Magistério da Igreja que, com autoridade, reúne, de forma precisa, na forma de síntese orgânica, os eventos e as verdades salvíficas fundamentais, que exprimem a fécomum do povo de Deus e constituem a indispensável referência de base para a catequese.

– Pelo fato de ser um catecismo, o Catecismo da Igreja Católica encerra aquilo que é basilar e comum à vida cristã, sem apresentar como pertencentes à fé interpretações particulares, que não são senão hipóteses pessoais ou opiniões de alguma escola teológica. (432)

– O Catecismo da Igreja Católica é, além disso, um Catecismo de caráter universal, oferecido a toda a Igreja. Nele se apresenta uma síntese atualizada da fé, que incorpora a doutrina do Concílio Vaticano II e as interrogações religiosas e morais da nossa época. Todavia, « pela sua própria finalidade, este Catecismo não se propõe realizar as adaptações da exposição e dos métodos catequéticos exigidos pelas diferenças de culturas, de idades, da vida espiritual, de situações sociais e eclesiais daqueles a quem a catequese é dirigida. Tais adaptações indispensáveis adaptações cabem aos catecismos apropriados e, ainda mais aos que ministram instrução aos fiéis ». (433)

O « Depósito da fé » e o Catecismo da Igreja Católica

125. O Concílio Vaticano II se propôs como objetivo principal, o de melhor conservar e apresentar o precioso depósito da doutrina cristã, para torná-lo mais acessível aos fiéis de Cristo e a todos os homens de boa vontade.

O conteúdo de tal depósito é a Palavra de Deus, conservada na Igreja. O Magistério da Igreja, tendo-se proposto a finalidade de elaborar um texto de referência para o ensinamento da fé, escolheu deste precioso tesouro coisas novas e coisas antigas, que considerou mais convenientes para a finalidade prefixada. O Catecismo da Igreja Católica se apresenta, assim, como um serviço fundamental: favorecer o anúncio do Evangelho e o ensinamento da fé, que recebem a sua mensagem do depósito da Tradição e da Sagrada Escritura confiado à Igreja, para que se realizem com total autenticidade. O Catecismo da Igreja Católica não é a única fonte da catequese, uma vez que, como ato do Magistério, não é superior à Palavra de Deus, mas a Ela serve. Todavia, é um ato particularmente relevante de interpretação autêntica desta Palavra, em vista do anúncio e da transmissão do Evangelho, em toda a sua verdade e pureza.

126. À luz desta relação entre Catecismo da Igreja Católica e o depósito da fé, convém esclarecer duas questões de vital importância para a catequese:

– a relação entre a Sagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica, como pontos de referência para o conteúdo da catequese;

– a relação entre a Tradição catequética dos Padres da Igreja, com a sua riqueza de conteúdos, e de compreensão do processo catequético, e o Catecismo da Igreja Católica.

A Sagrada Escritura, o Catecismo da Igreja Católica e a catequese

127. A Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, sublinhou a importância fundamental da Sagrada Escritura na vida da Igreja. Ela é apresentada, junto com a Sagrada Tradição, como « regra suprema da fé », já que transmite imutavelmente « a própria palavra de Deus » e faz « ressoar nas palavras dos Profetas e dos Apóstolos a voz do Espírito Santo ». (434) Por isso, a Igreja quer que em todo o ministério da Palavra, a Sagrada Escritura tenha uma posição proeminente. A catequese, em síntese, deve ser « uma autêntica introdução à "lectio divina", isto é, à leitura da Sagrada Escritura feita "segundo o Espírito" que habita na Igreja ». (435)

Neste sentido, « falar da Tradição e da Escritura como fonte da catequese, quer dizer sublinhar que esta última deve embeber-se e permear-se com o pensamento, com o espírito e com as atitudes bíblicas e evangélicas, mediante um assíduo contato com tais textos; mas significa também, recordar que a catequese será tanto mais rica e eficaz, quanto mais ler os textos com a inteligência e o coração da Igreja ». (436) Nesta leitura eclesial da Escritura, feita à luz da Tradição, o Catecismo da Igreja Católica desempenha um papel muito importante.

128. A Sagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica se apresentam como dois instrumentos fundamentais para inspirar toda a ação catequizadora da Igreja no nosso tempo.

– A Sagrada Escritura, de fato, como « palavra de Deus escrita sob a inspiração do Espírito Santo » (437) e o Catecismo da Igreja Católica, enquanto relevante expressão atual da Tradição viva da Igreja e norma segura para o ensinamento da fé, são chamados, cada um a seu próprio modo e segundo a sua específica autoridade, a fecundar a catequese na Igreja contemporânea.

– A catequese transmite o conteúdo da Palavra de Deus, segundo as duas modalidades com que a Igreja o possui, o interioriza e o vive: como narração da História da Salvação e como explicitação do Símbolo da fé. A Sagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica devem inspirar tanto a catequese bíblica quanto a catequese doutrinal, que veiculam este conteúdo da Palavra de Deus.

– No desenvolvimento ordinário da catequese, é importante que os catecúmenos e os catequizandos possam valer-se tanto da Sagrada Escritura quanto do Catecismo local. A catequese, enfim, não é senão a transmissão, vital e significativa, destes « documentos de fé ». (438)

A Tradição catequética dos Santos Padres e o Catecismo da Igreja Católica

129. No depósito da fé, juntamente com a Escritura, está contida toda a Tradição da Igreja. « As asserções dos Santos Padres atestam a vivificante presença desta Tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante ». (439)

Em referência a tanta riqueza doutrinal e pastoral, alguns aspectos merecem atenção:

– A importância decisiva que os Padres atribuem ao catecumenato batismal na configuração das Igrejas particulares.

– A progressiva e gradual concepção da formação cristã, estruturada em etapas. (440) Os Padres configuram o catecumenato, inspirando-se na pedagogia divina. No processo catecumenal, o catecúmeno, como o Povo de Israel, percorre um caminho para chegar à terra prometida: a identificação batismal com Cristo. (441)

– A estruturação do conteúdo da catequese segundo as etapas daquele processo. Na catequese patrística, a narração da história da salvação tinha um papel primário. Em meados do período da Quaresma, se procedia às entregas do Símbolo e do Pai Nosso e à explicação dos mesmos, com todas as suas implicações morais. A catequese mistagógica, uma vez celebrados os sacramentos da iniciação, ajudava a interiorizá-los e a saboreá-los.

130. O Catecismo da Igreja Católica, por sua vez, leva à catequese a grande tradição dos catecismos. (442) Da grande riqueza desta tradição, também aqui cabe sublinhar alguns aspectos:

– A dimensão cognoscitiva ou verídica da fé. Esta não é somente adesão vital a Deus, mas também assentimento do intelecto e da vontade à verdade revelada. Os catecismos recordam constantemente à Igreja, a necessidade de que os fiéis, ainda que de forma simples, tenham um conhecimento orgânico da fé.

– A educação à fé, bem radicada em todas as suas fontes, abraça diferentes dimensões: uma fé professada, celebrada, vivida e orada.

A riqueza da tradição patrística e daquela dos catecismos conflui na atual catequese da Igreja, enriquecendo-a, tanto na suaprópria concepção, quanto nos seus conteúdos. Recordam à catequese os sete elementos basilares que a configuram: as três etapas da narração da história da salvação: o Antigo Testamento, a vida de Jesus Cristo e a História da Igreja; e as quatro colunas da exposição: o Símbolo, os Sacramentos, o Decálogo e o Pai Nosso. Com estas sete pedras fundamentais, base tanto de todo o processo da catequese de iniciação como do itinerário contínuo do amadurecimento cristão, podem-se construir edifícios de diversa arquitetura ou articulação, segundo os destinatários ou as diferentes situações culturais.

Os Catecismos nas Igrejas locais

Os Catecismos locais: a sua necessidade (443)

131. O Catecismo da Igreja Católica é oferecido a todos os fiéis e a cada homem que queira conhecer aquilo em que crê a Igreja Católica (444) e, de maneira toda especial, « é destinado a encorajar e ajudar a redação de novos Catecismos locais, que levem em consideração as diversas situações e culturas, mas que preservem com cuidado a unidade da fé e a fidelidade à doutrina católica ». (445)

Os Catecismos locais, de fato, elaborados ou aprovados pelos Bispos diocesanos ou pelas Conferências dos Bispos, (446) são inestimáveis instrumentos para a catequese « chamada a levar a força do Evangelho ao coração da cultura e das culturas ». (447) Por esta razão, João Paulo II dirigiu « um fervoroso encorajamento às Conferências dos Bispos de todo o mundo: que elas tomem a iniciativa, com paciência mas ao mesmo tempo com firme resolução, daquele grande trabalho a ser realizado, de acordo com a Sé Apostólica, qual é o de preparar verdadeiros catecismos, fiéis aos conteúdos essenciais da Revelação e atualizados no que se refere ao método, em condições de educar para uma fé vigorosa, as gerações cristãs dos tempos novos ». (448)

Por meio dos Catecismos locais, a Igreja atualiza a « pedagogia divina » (449) que Deus utilizou na Revelação, adaptando a sua linguagem à nossa natureza, com próvida solicitude. (450) Nos Catecismos locais, a Igreja comunica o Evangelho de maneira acessível à pessoa humana, a fim de que esta possa realmente apreendê-lo como Boa Nova de salvação. Os Catecismos locais se convertem, assim, em expressão palpável da admirável « condescendência » (451) de Deus e do seu amor« inefável » (452) pelo mundo.

O gênero literário de um Catecismo local

132. Três são os traços principais que caracterizam todo catecismo, assumido como próprio por uma Igreja local: o seu caráter oficial, a síntese orgânica e básica da fé que apresenta, e o fato de que seja oferecido, juntamente com as Sagradas Escrituras, como ponto de referência para a catequese:

– O Catecismo local, de fato, é texto oficial da Igreja. De algum modo, ele torna visível a « entrega do Símbolo » e a « entrega do Pai Nosso » aos catecúmenos e aos batizandos. Por isso, é a expressão de um ato de tradição.

O caráter oficial do Catecismo local estabelece uma distinção qualitativa em referência aos outros instrumentos de trabalhos, úteis na pedagogia catequética (textos didáticos, catecismos não oficiais, guias para os catequistas...)

– Além disso, todo Catecismo é um texto de caráter sintético e básico, no qual se apresenta, de maneira orgânica e no respeito pela « hierarquia das verdades », os eventos e as verdades fundamentais do mistério cristão.

– O Catecismo local apresenta, na sua organicidade, « um conjunto dos documentos da Revelação e da tradição cristã, (1)que são oferecidos na rica diversidade de « linguagens » em que se exprime a Palavra de Deus.

O Catecismo local se oferece, enfim, como ponto de referência que inspira a catequese. A Sagrada Escritura e o Catecismo são os dois documentos doutrinais de base no processo de catequização, a serem mantidos sempre à mão. Embora sendo, tanto um quanto outro, instrumentos de primária importância, não são, todavia, os únicos: são necessários, de fato, outros instrumentos de trabalho mais imediatos. (2) Por isso, é legítimo perguntar-se se um Catecismo oficial deva conter elementos pedagógicos ou, ao contrário, deva limitar-se a ser apenas uma síntese doutrinal, oferecendo somente as fontes.

Em todo caso, sendo o Catecismo um instrumento para o ato catequético, que é ato de comunicação, responde sempre a uma certa inspiração pedagógica e deve sempre fazer transparecer, nos limites do seu gênero, a pedagogia divina.

As questões mais claramente metodológicas são, ordinariamente, mais consoantes a outros instrumentos.

Os aspectos da adaptação num Catecismo local (3)

133. O Catecismo da Igreja Católica indica quais são os aspectos que devem ser levados em consideração no momento de adaptar ou contextualizar a síntese orgânica da fé, que todo Catecismo local deve oferecer. Esta síntese da fé deve realizar as adaptações que são exigidas « pelas diferenças de culturas, de idades, da vida espiritual, de situações sociais e eclesiais daqueles a quem a catequese é dirigida ».(4) Também o Concílio Vaticano II afirma com ênfase a necessidade de adaptar a mensagem evangélica: « Esta maneira apropriada de proclamar a palavra revelada deve permanecer como lei de toda a evangelização ».(5) Por isso:

– Um Catecismo local deve apresentar a síntese da fé em referência à cultura concreta em que se encontram os catecúmenos e os catequizandos. Incorporará, portanto, todas aquelas « expressões originais de vida, de celebração e de pensamento que são cristãos » (6) e que nasceram da própria tradição cultural e são fruto do trabalho e da inculturação da Igreja local.

– Um Catecismo local, « fiel à mensagem e fiel à pessoa humana »,(7) apresenta o mistério cristão de modo significativo e próximo à psicologia e à mentalidade da idade do destinatário concreto e, conseqüentemente, em clara referência às experiências fundamentais da sua vida.(8)

– É preciso cuidar de modo especial a forma concreta de viver o fato religioso numa determinada sociedade. Não é a mesma coisa fazer um Catecismo para um ambiente caracterizado pela indiferença religiosa, e fazê-lo para outro, cujo contexto é profundamente religioso.(9) A relação « fé-ciência » deve ser tratada com muito cuidado em cada Catecismo.

– A problemática social circunstante, ao menos no que diz respeito aos elementos estruturais mais profundos (econômicos, políticos, familiares...) é um fator muito importante para contextualizar o Catecismo. Inspirando-se na doutrina social da Igreja, o Catecismo saberá oferecer critérios, motivações e linhas de ação que iluminem a presença cristã em meio a tal problemática.(10)

– Finalmente, a situação eclesial concreta, que a Igreja particular vive, é sobretudo o contexto obrigatório ao qual o Catecismo deve referir-se. Obviamente, não as situações conjunturais, às quais se provê mediante outros documentos magisteriais, mas sim a situação permanente, que postula uma evangelização com acentos mais específicos e determinados.(11)

A criatividade das Igrejas locais em relação à elaboração dos Catecismos

134. As Igrejas locais, na tarefa de adaptar, contextualizar e inculturar a mensagem evangélica às diferentes idades, situações e culturas, por meio dos Catecismos, necessitam de uma criatividade segura e madura. Do depositum fidei confiado à Igreja, as Igrejas locais devem selecionar, estruturar e exprimir, sob a orientação do Espírito Santo, Mestre interior, todos aqueles elementos com que transmitir o Evangelho, na sua completa autenticidade, numa determinada situação.

Nesta árdua tarefa, o Catecismo da Igreja Católica é « ponto de referência » para garantir a unidade da fé. O presente Diretório Geral para a Catequese, por sua vez, oferece os critérios basilares que devem orientar a apresentação da mensagem cristã.

135. Na elaboração dos Catecismos locais, é conveniente recordar o seguinte:

– Trata-se, antes de mais nada, de elaborar verdadeiros Catecismos adaptados e inculturados. Neste sentido, é conveniente distinguir entre um Catecismo que adapta a mensagem cristã às diferentes idades, situações e culturas, e o que é uma mera síntese do Catecismo da Igreja Católica, como instrumento de introdução ao estudo do mesmo. São dois gêneros diferentes.(12)

– Os Catecismos locais podem ter caráter diocesano, regional ou nacional.(13)

– Em relação à estruturação dos conteúdos, os diversos Episcopados publicam, de fato, Catecismos com diversas articulações ou configurações. Como já foi dito, o Catecismo da Igreja Católica foi proposto como referência doutrinal, mas não se quer, com ele, impor a toda a Igreja uma determinada configuração de Catecismo. Assim, existem Catecismos com uma configuração trinitária, outros são estruturados segundo as etapas da salvação, outros segundo um tema bíblico e teológico de grande densidade (Aliança, Reino de Deus, etc.), outros segundo a dimensão da fé, e outros, ainda, seguindo o ano litúrgico.

– Quanto à maneira de exprimir a mensagem evangélica, a criatividade de um Catecismo incide também sobre a própria formulação do conteúdo.(14) Evidentemente, um Catecismo deve permanecer fiel ao depósito da fé, no seu método de exprimir a substância doutrinal da mensagem cristã. « As Igrejas particulares profundamente amalgamadas não apenas com as pessoas, mas também com as aspirações, as riquezas e os limites, os modos de rezar, de amar e de considerar a vida e o mundo, que distinguem um determinado ambiente humano, têm a tarefa de assimilar a essencial mensagem evangélica, de transfundi-la sem a mínima alteração da sua verdade fundamental, na linguagem compreendida por estes homens e, a seguir, de anunciá-lo na mesma linguagem ».(15)

O princípio a seguir, nesta delicada tarefa, é o que ensina o Concílio Vaticano II: « descobrir a maneira mais apropriada de comunicar a doutrina aos homens de seu tempo, porque uma coisa é o próprio depósito da fé ou as verdades, e outra é o modo de enunciá-las, conservando-se contudo o mesmo sentido e o mesmo significado ».(16)

O Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais: a sinfonia da fé

136. O Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais, naturalmente com a específica autoridade de cada um, formam uma unidade. São a expressão concreta da « unidade na mesma fé apostólica »(17) e, ao mesmo tempo, da rica diversidade de formulação da mesma fé.

O Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais, juntos, a quem contempla a sua harmonia, exprimem a « sinfonia » da fé: antes de mais nada, uma sinfonia interna ao próprio Catecismo da Igreja Católica, elaborado com a colaboração de todo o Episcopado da Igreja Católica; e uma sinfonia dele derivada e expressa nos Catecismos locais. Esta « sinfonia », este « coro de vozes da Igreja Universal » (18) manifestada nos Catecismos locais, fiéis ao Catecismo da Igreja Católica, tem um significado teológico importante:

– Manifesta, antes de mais nada, a catolicidade da Igreja. As riquezas culturais dos povos se incorporam na expressão da fé da única Igreja.

– O Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais manifestam também a comunhão eclesial da qual a « profissão da mesma fé » (19) é um dos vínculos visíveis. As Igrejas particulares, « nas quais e pelas quais existe a Igreja Católica una e única », (20) formam com o todo, com a Igreja universal, « uma peculiar relação de mútua interiorização ». (21) A unidade entre o Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais torna visível esta comunhão.

– O Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais exprimem, igualmente, de maneira evidente, a realidade da colegialidade episcopal. Os Bispos, cada qual na sua diocese e juntos como colégio, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a máxima responsabilidade pela catequese na Igreja.(22)

O Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais, por sua profunda unidade e rica diversidade, são chamados a ser o fermento renovador da catequese na Igreja. Ao contemplá-los com olhar católico e universal, a Igreja, isto é, toda a comunidade dos discípulos de Cristo, poderá dizer verdadeiramente: « Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja ».

III PARTE

A PEDAGOGIA DA FÉ

A Pedagogia da fé

« Fui eu, contudo, quem ensinou Efraim a caminhar, eu os tomei em meus braços... Com vínculos humanos eu os atraía, com laços de amor eu era para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto, eu me inclinava para ele e o alimentava » (Os 11,3-4).
« Quando ficaram sozinhos, os que estavam junto dele com os Doze o interrogaram sobre as parábolas. Dizia-lhes: « A vós foi dado o mistério do Reino de Deus... » « ...A seus discípulos, porém, explicava tudo em particular » (Mc 4,10.34).

« Só tendes um Mestre, o Cristo » (Mt 23,10)

137. Jesus cuidou atentamente da formação dos discípulos que enviou em missão. Propôs-Se a eles como único Mestre e, ao mesmo tempo, amigo paciente e fiel, (23) exerceu um real ensinamento mediante toda a sua vida, (24) estimulando-os com oportunas perguntas, (25) explicou-lhes de maneira aprofundada aquilo que anunciava à multidão, (26) introduziu-os na oração, (27) mandou-os fazer um tirocínio missionário, (28) primeiro prometeu e depois enviou o Espírito de seu Pai, para que os guiasse à verdade na sua totalidade, (29) e os amparou nos inevitáveis momentos difíceis. (30) Jesus Cristo é o « Mestre que revela Deus aos homens e revela o homem a si mesmo; o Mestre que salva, santifica e guia, que está vivo, fala, desperta, comove, corrige, julga, perdoa e marcha todos os dias conosco, pelos caminhos da história; o Mestre que vem e que há-de vir na glória ». (31) Em Jesus Senhor e Mestre, a Igreja encontra a graça transcendente, a inspiração permanente, o modelo convincente para toda comunicação da fé.

Significado e finalidade desta parte

138. Na escola de Jesus Mestre, o catequista une estreitamente a sua ação de pessoa responsável, com a ação misteriosa da graça de Deus. A catequese é, por isso, exercício de uma « pedagogia original da fé ».(32)

A transmissão do Evangelho através da Igreja é, antes de mais nada e sempre, obra do Espírito Santo, e tem na revelação, o testemunho e a norma fundamental (Capítulo I).

Mas o Espírito se vale de pessoas que recebem a missão do anúncio evangélico e cujas competências e experiências humanas entram na pedagogia da fé.

Daí nasce um conjunto de questões amplamente tocadas, na história da catequese, no que diz respeito ao ato catequético, às fontes, aos métodos, aos destinatários e ao processo de inculturação.

No segundo capítulo, não se pretende apresentar uma abordagem exaustiva, mas sim expor somente aqueles pontos que hoje se mostram como de particular importância para toda a Igreja. Caberá aos vários diretórios e aos outros instrumentos de trabalho das Igrejas particulares, afrontar os problemas específicos, de maneira apropriada.

I CAPÍTULO

A pedagogia de Deus, fonte e modelo da pedagogia da fé (33)

A pedagogia de Deus

139. « Deus vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? » (Hb 12,7). A salvação da pessoa, que é o fim da revelação, se manifesta como fruto também de uma original e eficaz « pedagogia de Deus » ao longo da história. Analogicamente ao uso humano e segundo as categorias culturais do tempo, Deus, na Escritura, é visto como um pai misericordioso, um mestre, um sábio(34) que assume a pessoa, indivíduo e comunidade, na condição em que se encontra, livra-a dos laços com o mal, a atrai a Si com vínculos de amor, faz com que ela cresça progressiva e pacientemente até à maturidade de filho livre, fiel e obediente à sua palavra. Com este objetivo, como educador genial e providente, Deus transforma os acontecimentos da vida do seu povo em lições de sabedoria, (35) adaptando-Se às diversas idades e situações de vida. A este Povo, confia palavras de instrução e catequese que são transmitidas de geração em geração, (36) adverte com a recordação do prêmio e do castigo, torna formativas as próprias provas e sofrimentos. (37) Verdadeiramente, fazer encontrar uma pessoa com Deus, que é tarefa do catequista, significa colocar no centro e fazer própria, a relação que Deus tem com a pessoa e deixar-se guiar por Ele.

A pedagogia de Cristo

140. Vinda a plenitude dos tempos, Deus mandou à humanidade Seu Filho, Jesus Cristo. Ele trouxe ao mundo o supremo dom da salvação, realizando a sua missão de redentor, no âmbito de um processo que continuava a « pedagogia de Deus » com a perfeição e a eficácia intrínsecas à novidade de sua pessoa. Das suas palavras, sinais e obras, ao longo de toda a sua breve mas intensa vida, os discípulos fizeram experiência direta das diretrizes fundamentais da « pedagogia de Jesus », indicando-as, depois, nos Evangelhos: o acolhimento do outro, em particular do pobre, da criança, do pecador, como pessoa amada e querida por Deus; o anúncio genuíno do Reino de Deus como boa nova da verdade e da consolação do Pai; um estilo de amor delicado e forte, que livra do mal e promove a vida; o convite premente a uma conduta amparada pela fé em Deus, pela esperança no reino e pela caridade para com o próximo; o emprego de todos os recursos da comunicação interpessoal tais como a palavra, o silêncio, a metáfora, a imagem, o exemplo e tantos sinais diversos, como o faziam os profetas bíblicos. Convidando os discípulos a segui-Lo totalmente e sem nostalgias, (38) Cristo entrega-lhes a sua pedagogia da fé como plena compartilha da sua causa e do seu destino.

A pedagogia da Igreja

141. Desde o princípio, a Igreja, que « é em Cristo como que um sacramento », (39) tem vivido a sua missão como prosseguimento visível e atual da pedagogia do Pai e do Filho. Ela, « sendo nossa Mãe, é também educadora da nossa fé ».(40)

São estas as razões profundas, pelas quais a comunidade cristã é, em si mesma, uma catequese viva. Por aquilo que é, anuncia e celebra, opera e permanece sempre o lugar vital, indispensável e primário da catequese.

A Igreja produziu, ao longo dos séculos, um incomparável tesouro de pedagogia da fé: antes de mais nada, o testemunho de catequistas e de santos. Uma variedade de vias e formas originais de comunicação religiosa, como o catecumenato, os catecismos, os itinerários de vida cristã; um precioso patrimônio de ensinamentos catequéticos, de cultura da fé, de instituições e de serviços da catequese. Todos estes aspectos fazem a história da catequese e entram, a pleno título, na memória da comunidade e na praxe do catequista.

A pedagogia divina, ação do Espírito Santo em todo cristão

142. « Feliz o homem a quem corriges, Iahweh, e a quem ensinas por meio de tua lei » (Sl 94,12). Na escola da Palavra de Deus acolhida na Igreja, graças ao dom do Espírito Santo enviado por Cristo, o discípulo cresce como o seu Mestre, « em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e diante dos homens » (Lc 2,52) e é ajudado a desenvolver em si a « educação divina » recebida, mediante a catequese e os recursos da ciência e da experiência. (41) Deste modo, conhecendo sempre mais o mistério da salvação, aprendendo a adorar a Deus Pai e « vivendo na verdade segundo a caridade », procura crescer « em tudo em direção àquele que é a cabeça, Cristo » (Ef 4,15).

A pedagogia de Deus pode-se dizer realizada quando o discípulo atinge « o estado de Homem Perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo » (Ef 4,13). Por isso, não se pode ser mestres e pedagogos da fé alheia, se não se é discípulo convicto e fiel a Cristo na Sua Igreja.

Pedagogia divina e catequese

143. A catequese, enquanto comunicação da divina revelação, inspira-se radicalmente na pedagogia de Deus como se desvela em Cristo e na Igreja, acolhe os seus parâmetros constitutivos e, sob a guia do Espírito Santo, faz uma sábia síntese da mesma, favorecendo assim, uma verdadeira experiência de fé, um encontro filial com Deus. Deste modo, a catequese:

– é uma pedagogia que se insere no « diálogo de salvação » entre Deus e a pessoa e, além de servir a este diálogo, ressalta devidamente a destinação universal de tal salvação; no que diz respeito a Deus, sublinha a iniciativa divina, a motivação amorosa, a gratuidade, o respeito pela liberdade; no que diz respeito ao homem, evidencia a dignidade do dom recebido e a exigência de crescer continuamente neste; (42)

– aceita o princípio da progressividade da Revelação, a transcendência e a conotação misteriosa da Palavra de Deus, assim como também a sua adaptação às diversas pessoas e culturas;

– reconhece a centralidade de Jesus Cristo, Palavra de Deus feita homem, que determina a catequese como « pedagogia da encarnação », razão pela qual o Evangelho deve ser proposto sempre para a vida e na vida das pessoas;

– valoriza a experiência comunitária da fé, própria do Povo de Deus, da Igreja;

– radica-se na relação interpessoal e faz próprio o processo de diálogo;

– faz-se pedagogia de sinais, onde se entrelaçam fatos e palavras, ensinamento e experiência; (43)

– sendo o amor de Deus a razão última da sua revelação, é do inexaurível amor divino, que é o Espírito Santo, que a catequese recebe a sua força de verdade e o constante empenho de dar testemunho do mesmo. (44)

A catequese configura-se assim, como processo, itinerário ou caminho na seqüela do Cristo do Evangelho, no Espírito, rumo ao Pai, caminho este empreendido para alcançar a maturidade da fé « pela medida do dom de Cristo » (Ef 4,7) e as possibilidades e as necessidades de cada um.

Pedagogia original da fé (45)

144. A catequese, que é portanto pedagogia da fé em ato, ao realizar as suas tarefas, não pode deixar-se inspirar por considerações ideológicas, ou por interesses puramente humanos, (46) não confunde o agir salvífico de Deus, que é pura graça, com o agir pedagógico do homem, nem tampouco os contrapõe e separa. É o diálogo que Deus vai tecendo amorosamente com cada pessoa, que se torna sua inspiração e sua norma; dele, a catequese se torna « eco » incansável, buscando continuamente o diálogo com as pessoas, segundo as grandes indicações oferecidas pelo Magistério da Igreja. (47)

Objetivos precisos que inspiram as suas escolhas metodológicas são:

– promover uma progressiva e coerente síntese entre a plena adesão do homem a Deus (fides qua) e os conteúdos da mensagem cristã (fides quae);

– desenvolver todas as dimensões da fé, razão pela qual esta se traduz em fé conhecida, celebrada. vivida e rezada; (48)