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CONGREGAÇÃO PARA O CLERO DIRETÓRIO GERAL DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO AA: Conc.
Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o apostolado dos leigos, Apostolicam
Actuositatem (18 de novembro de 1965) AG: Conc.
Ecum. Vaticano II, Decreto sobre a atividade missionária da Igreja Ad Gentes
(7 de dezembro de 1965) CA: João
Paulo II, Carta encíclica Centesimus Annus (1° de maio de 1991): AAS
83 (1991), pp. 793-867 CD: Conc.
Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o ofício pastoral dos Bispos na Igreja Christus
Dominus (28 de outubro de 1965) CaIC: Catecismo
da Igreja Católica (11 de outubro de 1992) CCL: Corpus
Christianorum, Series Latina (Turnholti 1953 ss.) CIC: Codex
Iuris Canonici (25 de janeiro de 1983) ChL: João
Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici (30 de
dezembro de 1988): AAS 81 (1989), pp. 393-521 COINCAT:
Conselho Internacional para a Catequese, Orientações A catequese dos
adultos na comunidade cristã, Libreria Editrice Vaticana 1990 CSEL: Corpus
Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (Wn 1866 ss.) CT: João
Paulo II, Exortação apostólica Catechesi Tradendae (16 de outubro de
1979): AAS 71 (1979), pp. 1277-1340. DCG
(1971): Sagrada Congregação para o Clero, Directorium Catechisticum Generale Ad
normam decreti (11 de abril de 1971): AAS 64 (1972), pp. 97-176 DH: Conc.
Ecum. Vaticano II, Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis
Humanae (7 de dezembro de 1965) DM: João
Paulo II, Carta encíclica Dives in Misericordia (30 de novembro de
1980): AAS 72 (1980), pp. 1177-1232 DS: H.
Denzinger - A. Schönmetzer, Enchiridion Symbolorum, Definitionum et
Declarationum de Rebus Fidei et Morum, Editio XXXV emendata, Romae 1973 DV: Conc.
Ecum. Vaticano II, Constituição dogmática sobre a revelação divina Dei
Verbum (18 de novembro de 1965) EA: João
Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14 de
setembro de 1995): AAS 88 (1996) pp. 5-82 EN: Paulo
VI, Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (8 de dezembro de 1975):
AAS 58 (1976), pp. 5-76 EV: João
Paulo II, Carta encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995): AAS
87 (1995), pp. 401-522 FC: João
Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Familiaris Consortio
(22 de novembro de 1981): AAS 73 (1981), pp. 81-191 FD: João
Paulo II, Constituição apostólica Fidei Depositum (11 de
outubro de 1992): AAS 86 (1994), pp. 113-118 GCM:
Congregação para a Evangelização dos Povos, Guia para os catequistas.
Documento de orientação em vista da vocação, da formação e da promoção dos
catequistas nos territórios de missão que dependem da Congregação para a
Evangelização dos povos (3 de dezembro de 1993), Cidade do Vaticano 1993 GE: Conc.
Ecum. Vaticano II, Declaração sobre a educação Gravissimum Educationis (28
de outubro de 1965) GS: Conc.
Ecum. Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo
contemporâneo Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965) LC:
Congregação para a Doutrina da fé, Instrução Libertatis Conscientia
(22 de março de 1986): AAS 79 (1987), pp. 554-599 LE: João
Paulo II, Carta encíclica Laborem Exercens (14 de setembro de 1981):
AAS 73 (1981), pp. 577-647 LG: Conc.
Ecum. Vaticano II Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium
(21 de novembro de 1964) MM: João
XXIII, Carta encíclica Mater et Magistra (15 de maio de 1961): AAS 53
(1961), pp. 401-464 MPD:
Sínodo dos Bispos, Mensagem ao Povo de Deus Cum iam ad exitum sobre a
catequese no nosso tempo (28 de outubro de 1977), Typis Polyglottis Vaticanis
1977 NA: Conc.
Ecum. Vaticano II, Decreto sobre as relações da Igreja com as Religiões não
cristãs Nostra Aetate (28 de outubro de 1965) PB: João
Paulo II, Constituição apostólica Pastor Bonus (28 de junho de 1988):
AAS 80 (1988), pp. 841-930 PG: Patrologiae Cursus completus, Series Graeca, ed. Jacques P.
Migne, Parisiis 1857 ss. PL: Patrologiae Cursus completus, Series Latina, ed. Jacques P.
Migne, Parisiis 1844 ss. PO: Conc.
Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o ministério e a vida dos presbíteros Presbyterorum
Ordinis (7 de dezembro de 1965) PP: Paulo
VI, Carta encíclica Populorum Progressio (26 de março de 1967): AAS 59
(1967), pp. 257-299 RH: João
Paulo II, Carta encíclica Redemptor Hominis (4 de março de 1979): AAS
71 (1979), pp. 257-324 OICA: Ordo
Initiationis Christianae Adultorum, Editio Typica, Typis Polyglottis
Vaticanis 1972 RM: João
Paulo II, Carta encíclica Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990):
AAS 83 (1991), pp. 249-340 SC: Conc.
Ecum. Vaticano II, Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium (4 de dezembro de 1963) SINODO
1985: Sínodo dos Bispos (reunião extraordinária de 1985), Relatório final Ecclesia
sub verbo Dei mysteria Christi celebrans pro salute mundi (7 de dezembro
de 1985), Cidade do Vaticano 1985 SCh: Sources Chrétiennes, Collection, Paris 1946 ss. SRS: João
Paulo II, Exortação apostólicaSollicitudo Rei Socialis (30 de dezembro
de 1987): AAS 80 (1988), pp. 513-586 TMA: João
Paulo II, Exortação apostólica Tertio Millennio Adveniente (10 de
novembro de 1994): AAS 87 (1995), pp. 5-41 UR: Conc.
Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio
(21 de novembro de 1964) UUS: João
Paulo II, Carta encíclica Ut Unum Sint (25 de maio de 1995): AAS 87
(1995), pp. 921-982 VS: João
Paulo II, Carta encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993):
AAS 85 (1993), pp. 1133-1228 PREFÁCIO 1. O
Concílio Vaticano II prescreveu a redação de um « Diretório para a instrução
catequética do povo ».(1) Em obediência a este mandato conciliar, a
Congregação para o Clero valeu-se de uma especial Comissão de especialistas e
consultou as Conferências Episcopais do mundo, as quais enviaram numerosas
sugestões e observações em propósito. O texto preparado foi revisto por uma
Comissão teológica ad hoc e pela Congregação para a Doutrina da Fé. No
dia 18 de março de 1971 foi definitivamente aprovado por Paulo VI e
promulgado no dia 11 de abril do mesmo ano, com o título Diretório
Catequético Geral. 2. Os
trinta anos transcorridos da conclusão do Concílio Vaticano II aos umbrais do
terceiro milênio, constituem, sem dúvida, um tempo extremamente rico de
orientações e promoções da catequese. Foi um tempo que, de qualquer modo,
repropôs a vitalidade evangelizadora da primeira comunidade eclesial e que
relançou oportunamente o ensinamento dos Padres e favoreceu a redescoberta do
antigo catecumenato. Desde 1971, o Diretório Catequético Geral tem orientado
as Igrejas particulares no longo caminho de renovação da catequese,
propondo-se como válido ponto de referência tanto no que diz respeito aos
conteúdos, quanto no que concerne à pedagogia e aos métodos a serem
empregados. O
itinerário percorrido pela catequese neste período foi caracterizado, em
todas as partes, por uma generosa dedicação de muitas pessoas, por
iniciativas admiráveis e por frutos muito positivos para a educação e o
amadurecimento na fé, de crianças, jovens e adultos. Todavia, não faltaram,
contemporaneamente, crises, insuficiências doutrinais e experiências que
empobreceram a qualidade da catequese, devidas, em grande parte, à evolução
do contexto cultural mundial e a questões eclesiais de matriz não
catequética. 3. O
Magistério da Igreja não deixou jamais, nestes anos, de exercitar a sua
solicitude pastoral em favor da catequese. Numerosos Bispos e Conferências
dos Bispos, em todos os continentes, deram um notável impulso à ação
catequética também através da publicação de válidos Catecismos e orientações
pastorais, promovendo a formação de peritos e favorecendo a pesquisa
catequética. Estes esforços foram fecundos e repercutiram favoravelmente na
praxe catequética das Igrejas particulares. Uma particular riqueza para a
renovação catequética é constituída pelo Ritual para a Iniciação Cristã
dos Adultos, promulgado no dia 6 de janeiro de 1972, pela Congregação
para o Culto Divino. É
indispensável recordar, de modo especial, o ministério de Paulo VI, o
Pontífice que guiou a Igreja durante o primeiro período do pós-Concílio. A
seu respeito, João Paulo II disse: « Com os seus gestos, com a sua pregação e
com a sua interpretação autorizada do Concílio Vaticano II — que ele
considerava como o grande catecismo dos tempos modernos — e ainda com toda a
sua vida, o meu venerando Predecessor Paulo VI serviu a catequese da Igreja
de modo particularmente exemplar ».(2) 4. Uma
decisiva pedra miliária para a catequese foi a reflexão iniciada por ocasião
da Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos sobre a evangelização do mundo
contemporâneo, que se celebrou em outubro de 1974. As proposições de tal
encontro foram apresentadas ao Papa Paulo VI, o qual promulgou a Exortação
Apostólica pós-sinodal Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975.
Este documento apresenta — entre outras coisas — um princípio de particular
relevo: a catequese como ação evangelizadora no âmbito da grande missão da
Igreja. A atividade catequética, de agora em diante, deverá ser considerada
como permanentemente partícipe das urgências e das ânsias próprias do mandato
missionário para o nosso tempo. Também a
última Assembléia Sinodal convocada por Paulo VI, em outubro de 1977,
escolheu a catequese como tema de análise e de reflexão episcopal. Este
Sínodo viu « na renovação catequética um dom precioso do Espírito Santo à
Igreja nos dias de hoje ».(3) 5. João
Paulo II assumiu esta herança em 1978 e formulou as suas primeiras
orientações na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, datada de 16
de outubro de 1979. Tal Exortação forma uma unidade totalmente coerente com a
Exortação Evangelii Nuntiandi e repõe plenamente a catequese no quadro
da evangelização. Durante
todo o seu pontificado, João Paulo II ofereceu um magistério constante de
altíssimo valor catequético. Entre os discursos, as cartas e os ensinamentos
escritos, emergem as doze Encíclicas: da Redemptor Hominis à Ut Unum Sint.
Estas Encíclicas constituem, por si mesmas, um corpo de doutrina sintético e
orgânico, em vista da realização da renovação da vida eclesial, postulada
pelo Concílio Vaticano II. Quanto ao valor catequético destes Documentos do
magistério de João Paulo II, distinguem-se: a Redemptor Hominis (4 de
março de 1979), a Dives in Misericordia (30 de novembro de 1980), a Dominum
et Vivificantem (18 de maio de 1986), e, para a reafirmação da permanente
validez do mandato missionário, a Redemptoris Missio (7 de dezembro de
1990). 6. Por
outro lado, as Assembléias Gerais, ordinárias e extraordinárias, do Sínodo
dos Bispos, tiveram uma particular incidência no campo eclesial da catequese.
Por sua particular importância, devem ser destacadas as Assembléias Sinodais
de 1980 e 1987, relativas respectivamente à missão da família e à vocação dos
leigos batizados. Os trabalhos sinodais foram seguidos das correspondentes
Exortações Apostólicas de João Paulo II, Familiaris Consortio (22 de
novembro de 1981) e Christifideles Laici (30 de dezembro de 1988). O
próprio Sínodo Extraordinário dos Bispos, de 1985, influiu também, de maneira
decisiva, sobre o presente e sobre o futuro da catequese do nosso tempo.
Naquela ocasião, foi feito um balanço dos 20 anos de aplicação do Concílio
Vaticano II e os Padres sinodais propuseram ao Santo Padre a elaboração de um
Catecismo universal para a Igreja Católica. A proposta da Assembléia sinodal
extraordinária de 1985 foi acolhida favoravelmente e assumida por João Paulo
II. Terminado o paciente e complexo processo de sua elaboração, o Catecismo
da Igreja Católica foi entregue aos Bispos e às Igrejas particulares
mediante a Constituição Apostólica Fidei Depositum, do dia 11 de
outubro de 1992. 7. Este
evento, de tão profundo significado, e o conjunto dos fatos e das
intervenções magisteriais precedentemente indicados, impunham o dever de uma
revisão do Diretório Catequético Geral, com a finalidade de adaptar este
precioso instrumento teológico-pastoral à nova situação e necessidade. Receber
tal herança e organizá-la sinteticamente, em função da atividade catequética,
sempre na perspectiva da atual etapa da vida da Igreja, é um serviço da Sé
Apostólica para todos. O trabalho
para a nova elaboração do Diretório Geral para a Catequese, promovido pela
Congregação para o Clero, foi realizado por um grupo de Bispos e por
especialistas em teologia e em catequese. Foi, sucessivamente, submetido à
consulta das Conferências dos Bispos e dos principais Institutos ou Centros
de estudos catequéticos, e foi feito respeitando substancialmente a
inspiração e os conteúdos do texto de 1971. Evidentemente, a nova redação do
Diretório Geral para a Catequese teve que balancear duas exigências
principais: – de um
lado, a contextualização da catequese na evangelização, postulada pelas
Exortações Evangelii Nuntiandie Catechesi Tradendae – por
outro lado, a assunção dos conteúdos da fé propostos pelo Catecismo da
Igreja Católica. 8. O
Diretório Geral para a Catequese, embora conservando a estrutura de fundo do
texto de 1971, articula-se do seguinte modo: – Uma
Exposição Introdutiva, na qual se oferecem orientações fundamentais para
a interpretação e a compreensão das situações humanas e das situações
eclesiais, a partir da fé e da confiança na força da semente do Evangelho.
São breves diagnósticos em vista da missão. – A Primeira
Parte (4) é articulada em três capítulos e enraíza de forma mais
acentuada a catequese na Constituição conciliar Dei Verbum,
colocando-a no quadro da evangelização presente em Evangelii Nuntiandi
e Catechesi Tradendae. Propõe, além disso, um esclarecimento da
natureza da catequese. – A Segunda
Parte(5) consta de dois capítulos. No primeiro, sob o título « Normas
e critérios para a apresentação da mensagem evangélica na catequese »,
com nova articulação e numa perspectiva enriquecida, reúnem-se, em sua
totalidade, os conteúdos do capítulo correspondente do texto anterior. O
segundo capítulo, completamente novo, serve à apresentação do Catecismo da
Igreja Católica como texto de referência para a transmissão da fé na
catequese e para a redação dos Catecismos locais. O texto oferece também
princípios básicos em vista da elaboração dos Catecismos para as Igrejas
particulares e locais. – A Terceira
Parte(6) mostra-se suficientemente renovada, formulando também as linhas
essenciais de uma pedagogia da fé, inspirada à pedagogia divina; uma questão,
esta, que diz respeito tanto à teologia como às ciências humanas. – A Quarta
Parte(7) tem por título « Os destinatários da catequese ». Em cinco
breves capítulos, se presta atenção às situações bastante diferentes das
pessoas às quais se dirige a catequese, aos aspectos relativos à situação
sócio-religiosa e, de modo especial, à questão da inculturação. – A Quinta
Parte(8) coloca como centro de gravitação a Igreja particular, que tem o
dever primordial de promover, programar, supervisionar e coordenar toda a
atividade catequética. Adquire um particular relevo a descrição dos
respectivos papéis dos diversos agentes (que têm o seu ponto de referência
sempre no Pastor da Igreja particular) e das exigências formativas em cada
caso. – A Conclusão,
que exorta a uma intensificação da ação catequética no nosso tempo, coroa a
reflexão e as orientações com um apelo à confiança na ação do Espírito Santo
e na eficácia da palavra de Deus semeada no amor. 9. A
finalidade do presente Diretório é, obviamente, a mesma que norteava o texto
de 1971. Propõe-se, efetivamente, fornecer « os princípios
teológico-pastorais fundamentais, inspirados no Concílio Ecumênico Vaticano
II e no Magistério da Igreja, aptos a poder orientar e coordenar a ação
pastoral do ministério da palavra » e, de forma concreta, a catequese.(9) O
intuito fundamental era e é o de oferecer reflexões e princípios, mais do que
aplicações imediatas ou diretrizes práticas. Tal caminho e método é adotado
sobretudo pelas seguintes razões: somente se desde o início se compreendem
corretamente a natureza e os fins da catequese, assim como as verdades e os
valores que devem ser transmitidos, poderão ser evitados defeitos e erros em
matéria catequética.(10) Cabe à
competência específica dos Episcopados a aplicação mais concreta desses
princípios e enunciados, através de orientações e Diretórios nacionais,
regionais ou diocesanos, catecismos e todo outro meio considerado idôneo a
promover eficazmente a catequese. 10. É
evidente que nem todas as partes do Diretório têm a mesma importância.
Aquelas que tratam da revelação divina, da natureza da catequese e dos
critérios que presidem o anúncio cristão, têm valor para todos. As partes, ao
invés, que se referem à presente situação, à metodologia e ao modo de adaptar
a catequese às diferentes situações de idade ou de contexto cultural, devem
ser acolhidas mais como indicações e como orientações fundamentais.(11) 11. Os
destinatários do Diretório são principalmente os Bispos, as Conferências dos
Bispos e, de modo geral, todos aqueles que, sob o mandato ou presidência dos
primeiros, têm responsabilidades no campo catequético. É óbvio que o
Diretório pode ser um válido instrumento para a formação dos candidatos ao
sacerdócio, para a formação permanente dos presbíteros e para a formação dos
catequistas. Uma
finalidade imediata do Diretório é ajudar a redação dos Diretórios
Catequéticos e catecismos. Conforme sugestão recebida de muitos Bispos,
incluem-se numerosas notas e referências que podem ser de grande utilidade
para a elaboração dos mencionados instrumentos. 12. Uma
vez que o Diretório é endereçado às Igrejas particulares, cujas situações e
necessidades pastorais são muito variadas, é evidente que se pôde levar em
consideração unicamente as situações comuns ou intermediárias. Isto acontece,
igualmente, quando se descreve a organização da catequese nos diversos
níveis. Na utilização do Diretório, deve-se ter presente esta observação. Como
já se ressaltava no texto de 1971, o que será insuficiente naquelas regiões
onde a catequese pôde alcançar um alto nível de qualidade e de meios, talvez
poderá parecer excessivo naqueles lugares onde a catequese não pôde ainda
experimentar tal progresso. 13. Ao
publicar este texto, novo testemunho da solicitude da Sé Apostólica para com
o ministério catequético, exprimem-se os votos de que ele seja acolhido,
examinado e estudado com grande atenção, levando em consideração as
necessidades pastorais de cada Igreja particular; e que ele possa também
estimular, para o futuro, estudos e pesquisas mais profundas, que respondam
às necessidades da catequese e às normas e orientações do Magistério da
Igreja. Que a
Virgem Maria, Estrela da nova evangelização, nos conduza ao conhecimento
pleno de Jesus Cristo, Mestre e Senhor. « Quanto
ao mais, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor continue o seu
caminho e seja glorificada, como aconteceu entre vós » (2 Ts 3, 1). Do
Vaticano, 15 de agosto de 1997 Solenidade
da Assunção de Nossa Senhora Darío Castrillón Hoyos Crescenzio Sepe EXPOSIÇÃO INTRODUTIVA O anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo « Escutai:
Eis que o semeador saiu a semear. E ao semear, uma parte da semente caiu à
beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. 14. Esta
exposição introdutiva pretende estimular os pastores e os agentes da
catequese a tomarem consciência da necessidade de olhar sempre para o campo
semeado, e a fazê-lo a partir de uma perspectiva de fé e de misericórdia. A
interpretação do mundo contemporâneo, aqui apresentada, tem, obviamente, um
caráter de provisoriedade, próprio da contingência histórica. « Saiu
o semeador a semear » (Mc 4,3) 15. Esta
parábola é fonte inspiradora para a evangelização. « A semente é a palavra de
Deus » (Lc 8,11). O semeador é Jesus Cristo. Ele anunciou o Evangelho
na Palestina há dois mil anos e enviou os seus discípulos a semeá-lo pelo
mundo. Jesus Cristo hoje, presente na Igreja por meio do Seu Espírito,
continua a divulgar amplamente a palavra do Pai no campo do mundo. A
qualidade do terreno é sempre muito variada. O Evangelho cai « à beira do
caminho » (Mc 4,4), quando não é realmente escutado; cai « em solo
pedregoso » (Mc 4,5), sem penetrar profundamente na terra; ou « entre
os espinhos » (Mc 4,7), e é imediatamente sufocado no coração dos
homens, distraídos por muitas preocupações. Mas uma parte cai « em terra boa
» (Mc 4,8), isto é, em homens e mulheres abertos à relação pessoal com
Deus e solidários com o próximo, e produz frutos abundantes. Jesus, na
parábola, comunica a boa notícia de que o Reino de Deus chega, não obstante
as dificuldades do terreno, as tensões, os conflitos e os problemas do mundo.
A semente do Evangelho fecunda a história dos homens e preanuncia uma colheita
abundante. Jesus faz também uma advertência: somente no coração bem disposto
a palavra de Deus germina. Um olhar
ao mundo, a partir da fé 16. A
Igreja continua a semear o Evangelho de Jesus no grande campo de Deus. Os
cristãos, inseridos nos mais variados contextos sociais, olham o mundo com os
mesmos olhos com que Jesus contemplava a sociedade do seu tempo. O discípulo
de Jesus Cristo, de fato, participa, de seu interior, « das alegrias e das
esperanças, das tristezas e das angústias dos homens de hoje »,(12) olha para
a história humana, participa dela, não apenas com a razão, mas também com a
fé. À luz desta, o mundo se mostra ao mesmo tempo « criado e conservado pelo
amor do Criador, reduzido à servidão do pecado, e libertado por Cristo
crucificado e ressuscitado, com a derrota do Maligno... ».(13) O cristão
sabe que a cada realidade e evento humano subjazem ao mesmo tempo: – a ação
criadora de Deus, que comunica a cada ser a sua bondade; – a força
que deriva do pecado, o qual limita e entorpece o homem; – o
dinamismo que nasce da Páscoa de Cristo, qual germe de renovação que confere
ao crente a esperança de uma « consumação »(14) definitiva. Um olhar
ao mundo, que prescindisse de um desses três aspectos, não seria
autenticamente cristão. É importante, portanto, que a catequese saiba iniciar
os catecúmenos e os catequizandos a uma « leitura teológica dos problemas
modernos ».(15) O campo do
mundo 17. Mãe
dos homens, a Igreja, antes de mais nada, vê, com profunda dor, « uma
multidão inumerável de homens e de mu- lheres,
crianças, adultos e anciãos, isto é, de pessoas humanas concretas e
irrepetíveis, que sofrem sob o peso intolerável da miséria ».(16) Por meio da
catequese, na qual o ensinamento social da Igreja ocupe o seu lugar,(17) ela
deseja suscitar no coração dos cristãos « o empenho pela justiça »(18) e a «
opção ou amor preferencial pelos pobres »,(19) de modo que a sua presença
seja realmente luz que ilumina e sal que transforma. Os
direitos humanos 18. A
Igreja, ao analisar o campo do mundo, é muito sensível a tudo aquilo que
ofende a dignidade da pessoa humana. Ela sabe que desta dignidade nascem os
direitos humanos,(20) objeto constante da preocupação e do empenho dos
cristãos. Por isso, o seu olhar não abrange somente os indicadores econômicos
e sociais,(21) mas também, sobretudo, os culturais e religiosos. O que ela
busca é o progresso integral das pessoas e dos povos.(22) A Igreja
percebe, com alegria, que « uma corrente benéfica já se alastra e permeia
todos os povos da terra, tornando-os cada vez mais conscientes da dignidade
do homem ».(23) Esta consciência se exprime na viva preocupação pelo respeito
dos direitos humanos e no mais decidido rechaço de suas violações. O direito
à vida, ao trabalho, à educação, à criação de uma família, à participação na
vida pública e à liberdade religiosa são hoje particularmente reivindicados. 19. Em
numerosos lugares, todavia, e em aparente contradição com a sensibilidade
pela dignidade da pessoa, os direitos humanos são claramente violados.(24)
Dessa maneira, alimentam-se outras formas de pobreza, que não se colocam no
plano material: trata-se de uma pobreza cultural e religiosa, que preocupa
igualmente a
comunidade eclesial. A negação ou a limitação dos direitos humanos, de fato,
empobrece a pessoa e os povos, tanto ou mais do que a privação dos bens
materiais.(25) A obra
evangelizadora da Igreja, neste vasto campo dos direitos humanos, tem uma
tarefa irrenunciável: promover a descoberta da dignidade inviolável de cada
pessoa humana. « Em certo sentido, é a tarefa central e unificadora do
serviço que a Igreja, e nela os fiéis leigos, são chamados a prestar à
família dos homens ».(26) A catequese deve prepará-los para esta tarefa. A cultura
e as culturas 20. O
semeador sabe que a semente penetra em terrenos concretos e tem necessidade
de absorver todos os elementos necessários para frutificar.(27) Sabe também
que, às vezes, alguns desses elementos podem prejudicar a germinação e a
colheita. A
Constituição Gaudium et Spes sublinha a grande importância da ciência
e da técnica na gestação e no desenvolvimento da cultura moderna. A
mentalidade científica que delas emana, « modifica profundamente a cultura e
os modos de pensamento », (28) com grandes repercussões humanas e religiosas.
A racionalidade científica e experimental é profundamente enraizada no homem
de hoje. Todavia, a
consciência de que este tipo de racionalidade não pode explicar todas as
coisas, ganha sempre mais terreno. Os próprios homens da ciência constatam
que, paralelamente ao rigor da experimentação, é necessário outro tipo de
saber, para poder compreender em profundidade o ser humano. A reflexão
filosófica sobre a linguagem mostra, por exemplo, que o pensamento simbólico
é uma forma de acesso ao mistério da pessoa humana, contrariamente
inacessível. Torna-se indispensável assim, uma racionalidade que não cinda o
ser humano, que integre a sua afetividade, que o unifique, dando um sentido
mais pleno à sua vida. 21.
Juntamente com esta « forma mais universal de cultura »,(29) hoje se constata
também um desejo crescente de revalorizar as culturas autóctones. A pergunta
do Concílio é viva ainda: « Como se deve favorecer o dinamismo e a expansão
duma nova cultura, sem que pereça a fidelidade viva para com a herança das
tradições? ».(30) – Em
muitos lugares, se toma viva consciência de que as culturas tradicionais são
agredidas por influências externas dominantes e por imitações alienantes de
formas de vida importadas. Corroem-se assim, gradualmente, a identidade e os
valores próprios dos povos. –
Constata-se também a enorme influência dos meios de comunicação, os quais,
muitas vezes, em virtude de interesses econômicos ou ideológicos, impõem uma
visão da vida que não respeita a fisionomia cultural dos povos aos quais se
dirigem. A
evangelização encontra assim, na inculturação, um de seus maiores desafios. A
Igreja, à luz do Evangelho, deve assumir todos os valores positivos da
cultura e das culturas (31) e rejeitar aqueles elementos que impedem as
pessoas e os povos de alcançarem o desenvolvimento de suas autênticas
potencialidades. A situação
religiosa e moral 22. Entre
os elementos que compõem o patrimônio cultural de um povo, o fator
religioso-moral tem, para o semeador, um particular relevo. Na cultura atual
existe uma persistente difusão da indiferença religiosa: « Muitos de nossos
contemporâneos ... não percebem de modo algum esta união íntima e vital com
Deus ou explicitamente a rejeitam ».(32) O ateísmo,
como negação de Deus, « conta entre os gravíssimos problemas de nosso tempo
».(33) Ele adota formas diversas, mas aparece hoje especialmente sob a forma
do secularismo, que consiste numa visão autonomista do homem e do mundo «
segundo a qual esse mundo se explicaria por si mesmo, sem ser necessário
recorrer a Deus ».(34) No âmbito especificamente religioso, existem sinais de
um « retorno ao sagrado »,(35) de uma nova sede de realidades transcendentes
e divinas. O mundo atual atesta, de modo mais amplo e vital, « o despertar da
procura religiosa ».(36) Certamente este fenômeno « não deixa de ser ambíguo
».(37) O amplo desenvolvimento das seitas e de novos movimentos religiosos e
o redespertar do « fundamentalismo »(38) são dados que interpelam seriamente
a Igreja e que devem ser atentamente analisados. 23. A
atual situação moral procede de pari passu com a religiosa.
Efetivamente, percebe-se um obscurecimento da verdade ontológica da pessoa
humana. E isto acontece como se a rejeição de Deus quisesse significar a
ruptura interior das aspirações do ser humano.(39) Assiste-se, assim, em
muitos lugares, a um « relativismo ético que tira à convivência civil
qualquer ponto seguro de referência moral ».(40) A
evangelização encontra no terreno religioso-moral um ambiente de atuação
privilegiado. A missão primordial da Igreja, de fato, é anunciar Deus,
testemunhá-Lo diante do mundo. Trata-se de fazer conhecer as verdadeiras
feições de Deus e o Seu desígnio de amor e de salvação em favor dos homens,
assim como Jesus o revelou. Para
preparar tais testemunhos, é necessário que a Igreja desenvolva uma catequese
que propicie o encontro com Deus e fortaleça um vínculo permanente de
comunhão com Ele. A Igreja
no campo do mundo A fé dos
cristãos 24. Os
discípulos de Jesus estão imersos no mundo como o fermento mas, como em todos
os tempos, não estão imunes de sofrer a influência das situações humanas. É, por
isso, necessário, interrogar-se sobre a atual situação da fé dos cristãos. A
renovação catequética, desenvolvida na Igreja durante as últimas décadas,
está dando frutos muito positivos.(41) A catequese das crianças, dos jovens e
dos adultos, nesses anos, deu origem a uma tipologia de cristão
verdadeiramente consciente de sua fé e coerente com esta em sua vida. De
fato, favoreceu neles: – uma nova
experiência vital de Deus, como Pai misericordioso; – uma
redescoberta mais profunda de Jesus Cristo, não apenas na sua divindade, mas
também na sua verdadeira humanidade; – o
sentir-se, todos, co-responsáveis pela missão da Igreja no mundo; – a tomada
de consciência das exigências sociais da fé. 25.
Todavia, diante do atual panorama religioso, os filhos da Igreja devem se
examinar: « em que medida são tocados, também eles, pela atmosfera de
secularismo e de relativismo ético? ».(42) Uma
primeira categoria configura-se naquela « multidão de homens que receberam o
Batismo, mas vivem fora de toda a vida cristã ».(43) Trata-se, de fato, de
uma multidão de cristãos « não praticantes », (44) ainda que, no fundo do
coração de muitos, o sentimento religioso não tenha desaparecido de todo.
Redespertá-los para a fé é um verdadeiro desafio para a Igreja. Além
desses, há ainda as « pessoas simples »,(45) que se exprimem, às vezes, com
sentimentos religiosos muito sinceros e com uma « religiosidade popular » (46)
muito enraizada. Possuem uma certa fé, mas « conhecem mal os fundamentos
dessa mesma fé ».(47) Além disso, existem também numerosos cristãos, muito
cultos, mas com uma formação religiosa recebida apenas na infância, e que
necessitam reposicionar e amadurecer a sua fé « sob uma luz diversa ».(48) 26. Não
falta, além disso, um certo número de cristãos batizados que, infelizmente,
escondem a própria identidade cristã, ou por causa de uma errônea forma de
diálogo inter-religioso ou por uma certa reticência em testemunhar a própria
fé em Jesus Cristo na sociedade contemporânea. Estas
situações da fé dos cristãos reclamam do semeador, com urgência, o
desenvolvimento de uma nova evangelização,(49) sobretudo naquelas
Igrejas de antiga tradição cristã, onde o secularismo penetrou mais. Nesta
nova situação necessitada de evangelização, o anúncio missionário e a
catequese, sobretudo aos jovens e aos adultos, constituem uma clara
prioridade. A vida
interna da comunidade eclesial 27. É
importante considerar também a própria vida da comunidade eclesial, a sua
íntima qualidade. Uma
primeira consideração é descobrir como, na Igreja, tenha sido acolhido e
tenha dado frutos o Concílio Vaticano II. Os grandes documentos conciliares
não permaneceram letra morta: constatam-se os seus efeitos. As quatro
constituições — Sacrosanctum Concilium, Lumen Gentium, Dei Verbum e
Gaudium et Spes — fecundaram a Igreja. De fato: – A vida
litúrgica é compreendida mais profundamente como fonte e vértice da vida
eclesial; – O povo
de Deus adquiriu uma consciência mais viva do « sacerdócio comum », (50)
radicado no Batismo. Ao mesmo tempo, redescobre sempre mais a vocação
universal à santidade e um sentido mais profundo do serviço à caridade. – A
comunidade eclesial adquiriu um sentido mais vivo da Palavra de Deus. A
Sagrada Escritura, por exemplo, é lida, saboreada e meditada de modo mais
intenso. – A missão
da Igreja no mundo é sentida de maneira nova. Com base numa renovação
interior, o Concílio abriu os católicos à exigência de uma evangelização
ligada necessariamente com a promoção humana, à necessidade do diálogo com o
mundo, com as diversas culturas e religiões e à urgente busca da união entre
os cristãos. 28. Mas em
meio a esta fecundidade, devem-se reconhecer também os « defeitos e
dificuldades no acolhimento do Concílio ».(51) Malgrado uma doutrina
eclesiológica tão ampla e profunda, enfraqueceu-se o sentido da pertença
eclesial; constata-se freqüentemente uma « desafeição para com a Igreja »;
(52) ela é contemplada, muitas vezes, de modo unilateral, como mera
instituição, despojada do seu mistério. Em algumas
ocasiões, foram tomadas posições parciais e opostas na interpretação e na
aplicação da renovação solicitada à Igreja pelo Concílio Vaticano II. Tais
ideologias e comportamentos conduziram a fragmentações e a prejudicar o
testemunho de comunhão, indispensável para a evangelização. A ação
evangelizadora da Igreja, e nesta a catequese, deve buscar mais decididamente
uma sólida coesão eclesial. Para isso, é urgente promover e aprofundar uma
autêntica eclesiologia de comunhão, (53) para gerar nos cristãos, uma
profunda espiritualidade eclesial. Situação
da catequese: a sua vitalidade e os seus problemas 29. Muitos
são os aspectos positivos da catequese nestes últimos anos, que mostram a sua
vitalidade. Entre outros, devem ser destacados: – O grande
número de sacerdotes, religiosos e leigos que se consagram à catequese com
grande entusiasmo e perseverança. É uma das ações eclesiais mais relevantes. – Deve ser
sublinhado também o caráter missionário da atual catequese e a sua propensão
em assegurar a adesão à fé, dos catecúmenos e dos catequizandos, num mundo no
qual o sentido religioso se obscura. Nesta dinâmica, tem-se uma clara
consciência de que a catequese deve adquirir o estilo de formação integral e
não reduzir-se a simples ensinamento: deverá esforçar-se, de fato, para
suscitar uma verdadeira conversão. (54) – Em
sintonia com tudo o que já foi dito, assume extraordinária importância o
incremento que vai adquirindo a catequese dos adultos (55) no projeto de
catequese de muitas Igrejas particulares. Esta opção aparece como prioritária
nos planos pastorais de muitas dioceses. Também em alguns movimentos e grupos
eclesiais ela ocupa um lugar central. –
Favorecido, sem dúvida, pelas recentes orientações do Magistério, o
pensamento catequético ganhou, nos nossos dias, uma maior densidade e
profundidade. Neste sentido, muitas Igrejas locais já dispõem de idôneas e
oportunas orientações pastorais. 30.
Todavia, é necessário examinar, com particular atenção, alguns problemas,
buscando encontrar uma solução para os mesmos: – O
primeiro diz respeito ao próprio conceito de catequese como escola da fé,
como aprendizado e tirocínio de toda a vida cristã, que ainda não penetrou
plenamente na consciência dos catequistas. – No que
concerne à orientação de fundo, o conceito de « Revelação » impregna
ordinariamente a atividade catequética; todavia, o conceito conciliar de «
Tradição » tem uma menor influência como elemento realmente inspirador. De
fato, em muitas catequeses, a referência à Sagrada Escritura é quase que
exclusiva, sem que a reflexão e a vida bimilenar da Igreja (56) acompanhem
tal referência, de modo suficiente. A natureza eclesial da catequese se mostra,
neste caso, menos clara. A inter-relação entre Sagrada Escritura, Tradição e
Magistério, « cada qual segundo seu próprio modo »,(57) ainda não fecunda
harmoniosamente a transmissão catequética da fé. – No que
diz respeito à finalidade da catequese, que visa promover a comunhão com
Jesus Cristo, é necessária uma apresentação mais equilibrada de toda a
verdade do mistério de Cristo. Às vezes, se insiste somente na sua
humanidade, sem fazer explícita referência à sua divindade; em outras
ocasiões, menos freqüentes nos nossos dias, a sua divindade é tão acentuada,
que não se percebe mais a realidade do mistério da Encarnação do Verbo. (58) – Em
relação ao conteúdo da catequese, subsistem vários problemas. Há algumas
lacunas doutrinais no que concerne à verdade sobre Deus e sobre o homem,
sobre o pecado e a graça e sobre os Novíssimos. Há a necessidade de uma
formação moral mais sólida; constata-se uma apresentação inadequada da
história da Igreja e um escassa importância dada à sua Doutrina Social. Em
algumas regiões, proliferam catecismos e textos de iniciativa particular, com
tendências seletivas e acentuações tão diferentes, que prejudicam a
necessária convergência na unidade da fé.(59) – « A
catequese é intrinsecamente ligada com toda a ação litúrgica e sacramental
».(60) Muitas vezes, porém, a praxe catequética apresenta uma ligação fraca e
fragmentária com a liturgia: atenção limitada aos sinais e ritos litúrgicos,
pouca valorização das fontes litúrgicas, percursos catequéticos que pouco ou
nada têm a ver com o ano litúrgico, presença marginal de celebrações nos
itinerários da catequese. – No que
concerne à pedagogia, após uma excessiva acentuação do valor do método e das
técnicas, por parte de alguns, ainda não se presta a devida atenção às
exigências e à originalidade da pedagogia própria da fé.(61) Cai-se
facilmente no dualismo « conteúdo-método », com reducionismos num sentido ou
no outro. No que diz respeito à dimensão pedagógica, não se exercitou sempre
o necessário discernimento teológico. – No que
concerne à diferença das culturas em relação ao serviço da fé, constitui um
problema saber transmitir o Evangelho no limite do horizonte cultural dos
povos aos quais se dirige, de modo que ele possa ser apreendido realmente
como uma grande notícia para a vida das pessoas e da sociedade. (62) – A
formação para o apostolado e para a missão é uma das tarefas principais da
catequese. No entanto, enquanto na atividade catequética cresce uma nova
sensibilidade em formar os fiéis leigos para o testemunho cristão, para o
diálogo inter-religioso e para o compromisso secular, a educação para a
dimensão missionária ad gentes mostra-se ainda fraca e inadequada. Com
freqüência, a catequese ordinária reserva às missões uma atenção marginal e
não constante. A
semeadura do Evangelho 31. Depois
de ter analisado o terreno, o semeador envia os seus operários para anunciar
o Evangelho por todo o mundo, comunicando-lhes a força do seu Espírito. Ao
mesmo tempo, mostra-lhes como ler os sinais dos tempos e lhes pede uma
preparação muito acurada para realizar a semeadura. Como ler
os sinais dos tempos 32. A voz
do Espírito que Jesus, por parte do Pai, enviou a Seus discípulos ressoa
também nos acontecimentos da história. (63) Por trás dos dados mutáveis da
situação atual e nas profundas motivações dos desafios que se apresentam à
evangelização, é necessário descobrir « os sinais da presença e do desígnio
de Deus ». (64) Trata-se de uma análise que se deve fazer à luz da fé, com
uma atitude de compaixão. Valendo-se das ciências humanas, (65) sempre
necessárias, a Igreja busca descobrir o sentido da situação atual, no âmbito
da história da salvação. Os seus juízos sobre a realidade são sempre
diagnósticos para a missão. Alguns
desafios para a catequese 33. Para
poder exprimir a sua vitalidade e a sua eficácia, a catequese, hoje, deveria
assumir os seguintes desafios e orientações: – antes de
tudo, ela deve se apresentar como um válido serviço à evangelização da
Igreja, com uma acentuada característica missionária; – ela deve
se dirigir aos seus destinatários privilegiados, como foram e continuam a ser
as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos a partir, sobretudo, dos
primeiros; – seguindo
o exemplo da catequese patrística, ela deve plasmar a personalidade daquele
que crê e, portanto, deve ser uma verdadeira e própria escola de pedagogia
cristã; – deve
anunciar os mistérios essenciais do cristianismo, promovendo a experiência
trinitária da vida em Cristo como centro da vida de fé; – deve
considerar como tarefa prioritária a preparação e a formação de catequistas
de fé profunda. I PARTE A CATEQUESE NA MISSÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA A catequese na missão evangelizadora da Igreja « Ide por
todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura » (Mc 16,15) O mandato
missionário de Jesus 34. Jesus,
após a sua ressurreição, enviou por parte do Pai o Espírito Santo para que
realizasse, a partir de dentro, a obra da salvação e estimulasse os discípulos
a continuarem a sua própria missão no mundo inteiro, como ele mesmo fora
enviado pelo Pai. Ele foi o primeiro e o maior evangelizador. Anunciou o
Reino de Deus,(66) como nova e definitiva intervenção divina na história e
definiu este anúncio como « o Evangelho », ou seja, a boa nova. A este
dedicou toda a sua existência terrena: deu a conhecer a alegria de pertencer
ao Reino,(67) as suas exigências e a sua magna carta,(68) os mistérios que
encerra,(69) a vida fraterna daqueles que nele entram,(70) e a sua plenitude
futura.(71) Significado
e finalidade desta parte 35. Esta
primeira parte pretende definir o caráter próprio da catequese. O primeiro
capítulo, relativo à estrutura teológica, recorda brevemente o conceito de
Revelação exposto no Documento conciliar Dei Verbum. Ele determina, de
maneira específica, o modo de conceber o ministério da Palavra. Os conceitos palavra
de Deus, Evangelho, Reino de Deus e Tradição, presentes nessa
Constituição dogmática, fundam o significado de catequese. Junto a esses, é
referencial obrigatório para a catequese o conceito de evangelização.
A sua dinâmica e os seus elementos são expostos com uma precisão nova e
profunda, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. O segundo
capítulo situa a catequese no quadro da evangelização e a coloca em relação
com as demais formas de ministério da palavra de Deus. Graças a essa relação,
descobre-se mais facilmente o caráter próprio da catequese. O terceiro
capítulo analisa mais diretamente a catequese enquanto tal: a sua natureza eclesial,
a sua finalidade vinculativa de comunhão com Jesus Cristo, os seus deveres, e
a inspiração catecumenal que a anima. A
concepção que se tem da catequese condiciona profundamente a seleção e a
organização dos seus conteúdos (cognitivos, experienciais e
comportamentais), precisa os seus destinatários e define a pedagogia que
se exige para alcançar os seus objetivos. O termo
catequese sofreu uma evolução semântica durante os vinte séculos de história
da Igreja. Neste Diretório, o conceito de catequese inspira-se nos Documentos
do Magistério Pontifício pósconciliar e, sobretudo, na Evangelii
Nuntiandi, na Catechesi Tradendae e na Redemptoris Missio. I CAPÍTULO A Revelação e a sua transmissão mediante a
evangelização « Bendito
seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a
sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. (...) dando-nos a conhecer
o mistério da sua vontade, conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar para
levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo encabeçar todas as coisas... »
(Ef 1,3-10). A
Revelação do desígnio providencial de Deus 36. «
Deus, que cria e conserva todas as coisas por meio do Verbo, oferece aos
homens, na criação, um perene testemunho de si mesmo ». (72) O homem, que por
sua natureza e vocação é « capaz de Deus », quando ouve a mensagem das
criaturas, pode atingir a certeza da existência de Deus como causa e fim de
tudo e que Ele pode se revelar ao homem. A
constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II descreveu a Revelação
como o ato mediante o qual Deus se manifesta pessoalmente aos homens. Deus se
mostra, de fato, como Aquele que quer comunicar a Si mesmo, tornando a pessoa
humana partícipe de sua natureza divina. (73) Dessa maneira, Ele realiza o
seu desígnio de amor. « Aprouve
a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido
o mistério de Sua vontade, pelo qual os homens... têm acesso ao Pai e se
tornam participantes da natureza divina ». (74) 37. Este
desígnio providencial (75) do Pai, revelado plenamente em Jesus Cristo,
realiza-se com a força do Espírito Santo. Ele
comporta: – a
revelação de Deus, da sua « verdade íntima »,(76) do seu « segredo », (77) da
verdadeira vocação e dignidade do homem; (78) – a oferta
da salvação a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia de Deus,
(79) que implica a libertação do mal, do pecado e da morte; (80) – o
definitivo chamado para reunir na família de Deus todos os filhos dispersos,
realizando assim a união fraterna entre os homens. (81) A
Revelação: fatos e palavras 38. Deus,
na sua imensidão, para se revelar à pessoa humana, utiliza uma pedagogia:
(82) serve-se de eventos e de palavras humanas para comunicar o seu desígnio;
e o faz progressivamente e por etapas, (83) para se aproximar melhor dos
homens. Deus, de fato, age de maneira tal, que os homens cheguem ao
conhecimento do seu plano salvífico através dos eventos da história da
salvação e mediante as palavras divinamente inspiradas que os acompanham e os
explicam. « Este
plano da Revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras
intimamente conexos entre si, de forma que – as obras
realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os
ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras, – enquanto
as palavras, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério
nelas contido ».(84) 39. Também
a evangelização, que transmite ao mundo a Revelação, realiza-se com obras e
palavras. Ela é, ao mesmo tempo, testemunho e anúncio, palavra e sacramento,
ensinamento e empenho. A
catequese, por sua vez, transmite os fatos e as palavras da Revelação: deve
proclamá-los e narrá-los e, ao mesmo tempo, explicar os profundos mistérios
que estes encerram. Além disso, sendo a Revelação fonte de luz para a pessoa
humana, a catequese não apenas recorda as maravilhas de Deus operadas no
passado mas, à luz da mesma Revelação, interpreta os sinais dos tempos e a
vida presente dos homens e das mulheres, uma vez que, neles, realiza-se o
desígnio de Deus para a salvação do mundo. (85) Jesus
Cristo, mediador e plenitude da Revelação 40. Deus
revelou-se progressivamente aos homens, por meio dos profetas e dos eventos
salvíficos, até à plenitude da Revelação com o envio de seu próprio Filho:
(86) « Jesus
Cristo, pela plena presença e manifestação de Si mesmo, por palavras e obras,
sinais e milagres, e especialmente por sua morte e gloriosa ressurreição
dentre os mortos, enviado finalmente o Espírito de verdade, aperfeiçoa e
completa a Revelação ».(87) Jesus
Cristo não é somente o maior dos profetas, mas é o Filho eterno de Deus,
feito homem. Ele é, portanto, o evento último para o qual convergem todos os
eventos da história da salvação.(88) Ele é, de fato, « a Palavra única,
perfeita e insuperável do Pai ». (89) 41. O
ministério da Palavra deve ressaltar esta admirável característica, própria
da economia da Revelação: o Filho de Deus entra na história dos homens,
assume a vida e a morte humanas e realiza a nova e definitiva aliança entre
Deus e os homens. É dever próprio da catequese mostrar quem é Jesus Cristo: a
sua vida e o seu mistério, e apresentar a fé cristã como seqüela da sua
pessoa.(90) Por isso, deve basear-se constantemente nos Evangelhos, os quais
« são o coração de todas as Escrituras, uma vez que constituem o principal
testemunho sobre a vida e a doutrina do Verbo encarnado, nosso Salvador.(91) O fato que
Jesus Cristo seja a plenitude da Revelação é o fundamento do «
cristocentrismo » (92) da catequese: o mistério de Cristo, na mensagem
revelada, não é um elemento a mais, junto aos demais, mas sim o centro a
partir do qual todos os demais elementos se hierarquizam e se iluminam. A
transmissão da Revelação por meio da Igreja, obra do Espírito Santo 42. A
revelação de Deus, culminada em Jesus Cristo, é destinada a toda a humanidade:
« Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da
verdade » (1 Tm 2,4). Em virtude dessa vontade salvífica universal,
Deus dispôs que a Revelação se transmitisse a todos os povos e a todas as
gerações e permanecesse íntegra. (93) 43. Para
cumprir este desígnio divino, Jesus Cristo instituiu a Igreja com fundamento
nos apóstolos e, mandando sobre eles o Espírito Santo, por parte do Pai,
enviou-os a pregar o Evangelho em todo o mundo. Os apóstolos, com palavras,
obras e por escrito, executaram fielmente tal mandato.(94) Esta
Tradição apostólica perpetua-se na Igreja e por meio da Igreja. E esta, no
seu todo, pastores e fiéis, vigia por sua conservação e transmissão. O
Evangelho, de fato, conserva-se íntegro e vivo na Igreja: os discípulos de
Jesus o contemplam e o meditam incessantemente, vivem-no na existência
cotidiana e o anunciam na missão. O Espírito Santo fecunda constantemente a
Igreja enquanto ela vive o Evangelho; faz com que ela cresça continuamente na
compreensão do mesmo, e a impulsiona e sustenta na tarefa de anunciá-lo em
todos os recantos do mundo.(95) 44. A
conservação íntegra da Revelação, palavra de Deus contida na Tradição e na
Escritura, assim como a sua contínua transmissão, são garantidas na sua
autenticidade. O Magistério da Igreja, sustentado pelo Espírito Santo e
dotado do « carisma da verdade », exercita a função de « interpretar
autenticamente a Palavra de Deus ».(96) 45. A
Igreja, « sacramento universal de salvação »,(97) movida pelo Espírito Santo,
transmite a Revelação por meio da evangelização: anuncia a boa nova do
desígnio salvífico do Pai e, nos sacramentos, comunica os dons divinos. A Deus,
que se revela, é devida a obediência da fé, pela qual o homem adere
livremente ao « Evangelho da graça de Deus » (At 20,24), com pleno
assentimento do intelecto e da vontade. Guiado pela fé, dom do Espírito, o
homem chega à contemplar e a saborear o Deus do amor, que em Cristo revelou
as riquezas da sua glória.(98) A
evangelização(99) 46. A
Igreja « existe para evangelizar », (100) isto é, para « levar a Boa Nova a
todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu
influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade
». (101) O mandato
missionário de Jesus comporta vários aspectos intimamente conexos entre si: «
proclamai » (Mc 16,15), « fazei discípulos e ensinai », (102) « sereis
minhas testemunhas », (103) « batizai », (104) « fazei isto em minha memória
» (Lc 22,19), « amai-vos uns aos outros » (Jo 15,12). Anúncio,
testemunho, ensinamento, sacramentos, amor ao próximo, fazer discípulos:
todos estes aspectos são via e meios para a transmissão do único Evangelho, e
constituem os elementos da evangelização. Alguns
deles se revestem de uma importância tão grande que, às vezes, se tende a
identificá-los com a ação evangelizadora. Todavia, « nenhuma definição
parcial e fragmentária, porém, chegará a dar razão da realidade rica,
complexa e dinâmica que é a evangelização ». (105) Corre-se o risco de
empobrecê-la e até mesmo de mutilá-la. Ao contrário, ela deve desenvolver a «
sua totalidade » (106) e incorporar as suas intrínsecas bipolaridades:
testemunho e anúncio, (107) palavra e sacramento, (108) mudança interior e
transformação social. (109) Os agentes da evangelização devem saber agir com
uma « visão global » (110) da mesma e identificá-la com o conjunto da missão
da Igreja. (111) O processo
da evangelização 47. A
Igreja, embora contendo em si, permanentemente, a plenitude dos meios da
salvação, opera sempre de modo gradual. (112) O decreto conciliar Ad
Gentes esclareceu bem a dinâmica do processo evangelizador: testemunho
cristão, diálogo e presença da caridade (11-12), anúncio do Evangelho e
chamado à conversão (13), catecumenato e iniciação cristã (14), formação da
comunidade cristã por meio dos sacramentos e dos ministérios (15-18). (113)
Este é o dinamismo da implantação e da edificação da Igreja. 48. De
acordo com isso, é necessário conceber a evangelização como o processo
através do qual a Igreja, movida pelo Espírito, anuncia e difunde o Evangelho
em todo o mundo. Ela: –
impulsionada pela caridade, impregna e transforma toda a ordem
temporal, assumindo e renovando as culturas; (114) – dá testemunho,
(115) entre os povos, do novo modo de ser e de viver que caracteriza os
cristãos; – proclama
explicitamente o Evangelho, mediante o « primeiro anúncio », (116)
chamando à conversão; (117) – inicia
na fé e na vida cristã, mediante a «catequese » (118) e os «
sacramentos de iniciação », (119) aqueles que se convertem a Jesus
Cristo, ou aqueles que retomam o caminho de sua seqüela, incorporando os
primeiros na comunidade cristã e a ela reconduzindo os demais; (120) – alimenta
constantemente o dom da comunhão (121) nos fiéis, mediante a educação
permanente da fé (homilia, outras formas do ministério da Palavra), os
sacramentos e o exercício da caridade; – suscita
continuamente a missão, (122) enviando todos os discípulos de Cristo a
anunciarem o Evangelho, com palavras e obras, em todo o mundo. 49. O
processo evangelizador, (123) conseqüentemente, é estruturado em etapas ou «
momentos essenciais »: (124) a ação missionária para os não crentes e para
aqueles que vivem na indiferença religiosa; a ação catequética e de iniciação
para aqueles que optam pelo Evangelho e para aqueles que necessitam completar
ou reestruturar a sua iniciação; e a ação pastoral para os fiéis cristãos já
maduros, no seio da comunidade cristã. (125) Esses momentos, no entanto, não
são etapas concluídas: reiteram-se, se necessário, uma vez que darão o
alimento evangélico mais adequado ao crescimento espiritual de cada pessoa ou
da própria comunidade. O
ministério da Palavra de Deus na evangelização 50. O
ministério da Palavra (126) é elemento fundamental da evangelização. A
presença cristã, em meio aos diferentes grupos humanos, e o testemunho de
vida precisam ser esclarecidos e justificados pelo anúncio explícito de Jesus
Cristo, o Senhor. « Não há verdadeira evangelização se o nome, o ensinamento,
a vida e as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus,
não forem proclamados ». (127) Mesmo aqueles que já são discípulos de Cristo
têm necessidade de ser alimentados constantemente com a palavra de Deus, para
crescerem na sua vida cristã. (128) O
ministério da Palavra, no interior da evangelização, transmite a Revelação
por meio da Igreja, valendo-se das « palavras » humanas. Estas, porém, são
sempre em referência às « obras »: àquelas que Deus realizou e continua a
realizar, especialmente nos sacramentos; ao testemunho de vida dos cristãos;
à ação transformadora que estes, unidos a tantos homens de boa vontade,
realizam no mundo. Esta palavra humana da Igreja é o meio de que o Espírito
Santo se serve, para continuar o diálogo com a humanidade. Ele é, de fato, o
principal agente do ministério da Palavra, aquele por meio do qual « a viva
voz do Evangelho ressoa na Igreja, e por meio desta, no mundo ». (129) O
ministério da Palavra exercita-se « de muitas formas ». (130) A Igreja, desde
a época apostólica, (131) no seu desejo de oferecer a palavra de Deus da
maneira mais apropriada, tem realizado este ministério através das mais
variadas formas. (132) Todas elas servem para veicular aquelas funções
basilares que o ministério da Palavra é chamado a desempenhar. Funções e
formas do ministério da Palavra 51. As
principais funções do ministério da Palavra são as seguintes: – Convocação
e chamado à fé É a função
que mais imediatamente se deduz do mandato missionário de Jesus. Realiza-se
mediante o « primeiro anúncio », dirigido aos não crentes: aqueles que
fizeram uma opção de nãocrença, os batizados que vivem às margens da vida
cristã, os praticantes de outras religiões... (133) O despertar religioso das
crianças, nas famílias cristãs, é também uma forma eminente desta função. – A
iniciação Aqueles
que, movidos pela graça, decidem seguir Jesus, são « introduzidos na vida
religiosa, litúrgica e caritativa do Povo de Deus ». (134) A Igreja realiza
esta função, fundamentalmente por meio da catequese, em estreita relação com
os sacramentos da iniciação, tanto se estes devem ser ainda recebidos quanto
se já o foram. Formas importantes são: a catequese dos adultos não batizados,
no catecumenato; a catequese dos adultos batizados que desejam retornar à fé,
ou daqueles que têm necessidade de completar a sua iniciação; a catequese das
crianças e dos mais jovens, que por si só, já tem um caráter de iniciação.
Também a educação cristã familiar e o ensino escolar da religião exercem uma
função de iniciação. – A
educação permanente à fé Em
diversas regiões, ela é chamada também de « catequese permanente ». (135) Dirige-se
aos cristãos iniciados nos elementos de base, que têm necessidade de
alimentar e amadurecer constantemente a sua fé, durante toda a vida. É uma
função que se realiza através de formas muito variadas: « sistemáticas e
ocasionais, individuais e comunitárias, organizadas e espontâneas, etc. ».
(136) – A
função litúrgica O
ministério da Palavra compreende também uma função litúrgica, uma vez que,
quando ele se realiza no âmbito de uma ação sacra, é parte integrante da
mesma. (137) Ele se exprime de maneira eminente através da homilia. Outras
formas são as intervenções e as exortações durante as celebrações da palavra.
É preciso também fazer referência à preparação imediata aos diversos
sacramentos, às celebrações sacramentais e, sobretudo, à participação dos
fiéis na Eucaristia, como forma fundamental da educação da fé. – A
função teológica Ela busca
desenvolver a compreensão da fé, colocando-se na dinâmica da « fides quaerens
intellectum », ou seja, da fé que procura entender. (138) A teologia, para
cumprir esta função, precisa confrontar-se ou dialogar com as formas
filosóficas do pensamento, com os humanismos que conotam a cultura e com as
ciências do homem. Articula-se em formas que promovem « a abordagem
sistemática e a pesquisa científica das verdades da fé ». (139) 52. São
formas importantes do ministério da Palavra: o primeiro anúncio ou pregação
missionária, a catequese pré e pós-batismal, a forma litúrgica e a forma
teológica. Acontece, com freqüência, que tais formas, por circunstâncias
pastorais, devam assumir mais de uma função. A catequese, por exemplo, junto
à sua função de iniciação, deve exercitar, freqüentemente, tarefas
missionárias. A própria homilia, de acordo com as circunstâncias, será
conveniente que assuma as funções de convocação e de iniciação orgânica. A
conversão e a fé 53. Ao
anunciar ao mundo a Boa Nova da Revelação, a evangelização convida homens e
mulheres à conversão e à fé. 140 O chamado de Jesus, « arrependei-vos e crede
no Evangelho » (Mc 1,15), continua a ressoar hoje, mediante a
evangelização da Igreja. A fé cristã é, antes de mais nada, conversão a Jesus
Cristo, (141) adesão plena e sincera à sua pessoa, e decisão de caminhar na
sua seqüela. (142) A fé é um encontro pessoal com Jesus Cristo, é tornar-se
seu discípulo. Isso exige o empenho permanente de pensar como Ele, de julgar
como Ele e de viver como Ele viveu. (143) Assim, o crente se une à comunidade
dos discípulos e assume, como sua, a fé da Igreja. (144) 54. Este «
sim » a Jesus Cristo, plenitude da Revelação do Pai, encerra em si uma dupla
dimensão: o confiante abandono em Deus e a amorosa adesão a tudo aquilo que
Ele nos revelou. Isto é possível somente mediante a ação do Espírito Santo:
(145) « Com a
fé, o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando ao Deus revelador,
um obséquio pleno do intelecto e da vontade, e dando voluntário assentimento
à revelação feita por Ele ». (146) « Crer,
portanto, tem uma dupla referência: à pessoa e à verdade; à verdade por
confiança na pessoa que a atesta ». (147) 55. A fé
comporta uma transformação de vida, uma « metanóia », (148) ou seja, uma
profunda transformação da mente e do coração; faz com que o crente viva
aquela « nova maneira de ser, de viver, de estar junto com os outros que o
Evangelho inaugura ». (149) Esta transformação de vida manifesta-se em todos
os níveis da existência do cristão: na sua vida interior de adoração e de
acolhimento da vontade divina; na sua participação ativa na missão da Igreja;
na sua vida matrimonial e familiar; no exercício da vida profissional; no
cumprimento das atividades econômicas e sociais. A fé e a
conversão brotam do « coração », isto é, do mais profundo da pessoa
humana, envolvendo-a inteira. Encontrando Jesus e aderindo a Ele, o ser
humano vê realizadas as suas mais profundas aspirações; encontra tudo aquilo
que sempre buscou e o encontra abundantemente. (150) A fé responde àquela « ânsia
», (151) freqüentemente inconsciente e sempre limitada, de conhecer a verdade
sobre Deus, sobre o próprio homem e sobre o destino que o espera. É como uma
água pura (152) que reaviva o caminho do homem, peregrino em busca de seu
lar. A fé é um
dom de Deus. Pode nascer do íntimo do coração humano somente como fruto da «
graça prévia e adjuvante » (153) e como resposta, completamente livre, à
moção do Espírito Santo, que move o coração e o dirige a Deus, dando-lhe «
suavidade no consentir e crer na verdade ». (154) A Virgem
Maria viveu, no modo mais perfeito, estas dimensões da fé. A Igreja venera
n'Ela, « a mais pura realização da fé ». (155) O processo
da conversão permanente 56. A fé é
um dom destinado a crescer no coração dos crentes. (156) A adesão a Jesus
Cristo, de fato, inicia um processo de conversão permanente, que dura toda a
vida. (157) Quem acede à fé é como uma criança recém-nascida (158) que, pouco
a pouco, crescerá e se converterá num ser adulto que tende ao « estado de
homem feito », (159) à maturidade da plenitude em Cristo. No
processo de fé e de conversão podem-se revelar, do ponto de vista teológico,
diversos momentos importantes: a) O
interesse pelo Evangelho. O primeiro momento é aquele em que, no coração do não crente, do
indiferente ou do praticante de outra religião, nasce, como conseqüência do
primeiro anúncio, um interesse pelo Evangelho, sem ser ainda uma decisão
firme. Aquele primeiro movimento do espírito humano para a fé, que já é fruto
da graça, recebe diversos nomes: « propensão à fé », (160) « preparação
evangélica », (161) inclinação a crer, « procura religiosa ». (162) A Igreja
denomina « simpatizantes » (163) aqueles que mostram essa inquietação. b) A
conversão. Este
primeiro interesse pelo Evangelho necessita de um tempo de busca (164) para
poder-se transformar em uma opção sólida. A decisão para a fé deve ser
avaliada e amadurecida. Tal busca, movida pelo Espírito Santo e pelo anúncio
do kerigma, prepara a conversão que será — certamente — « inicial »,
(165) mas que já traz consigo a adesão a Jesus Cristo e a vontade de caminhar
na sua seqüela. Esta « opção fundamental » funda toda a vida cristã do
discípulo do Senhor. (166) c) A
profissão de fé. O
abandonar-se a Jesus Cristo gera nos crentes o desejo de conhecê-Lo mais profundamente
e de identificar-se com Ele. A catequese os inicia no conhecimento da fé e no
aprendizado da vida cristã, favorecendo um caminho espiritual que provoca uma
« progressiva transformação de mentalidade e costumes », (167) feita de
renúncias e de lutas, mas também de alegrias que Deus concede sem medida. O
discípulo de Jesus Cristo torna-se, então, idôneo a fazer uma viva, explícita
e operante profissão de fé. (168) d) O
caminho rumo à perfeição. Esta maturidade de base, da qual nasce a profissão de fé, não é o ponto
final no processo permanente de conversão. A profissão de fé batismal
coloca-se como fundamento de um edifício espiritual destinado a crescer. O
batizado, impulsionado sempre pelo Espírito Santo, alimentado pelos
sacramentos, pela oração e pelo exercício da caridade, e ajudado pelas
múltiplas formas de educação permanente da fé, procura tornar seu o desejo de
Cristo: « Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito ». (169) É o
chamado à plenitude que se dirige a cada batizado. 57. O
ministério da Palavra está a serviço deste processo de conversão plena. O
primeiro anúncio tem a característica de chamar à fé; a catequese, a de dar
um fundamento à conversão e uma estrutura de base à vida cristã; e a educação
permanente à fé, na qual se distingue a homilia, a de ser o nutrimento
constante do qual cada organismo adulto necessita para viver. (170) Diversas
situações sócio-religiosas diante da evangelização 58. A
evangelização do mundo tem diante de si um panorama religioso muito
diversificado e mutável, no qual se podem distinguir fundamentalmente « três
situações » (171) que requerem respostas adequadas e diferenciadas. a) A situação daqueles « povos,
grupos humanos, contextos socioculturais onde Cristo e o seu Evangelho não
são conhecidos, onde faltam comunidades cristãs suficientemente amadurecidas
para poderem encarnar a fé no próprio ambiente e anunciá-la a outros grupos
». (172) Esta situação postula a « missão ad gentes » (173) com uma
ação evangelizadora centrada, preferivelmente, nos jovens e adultos. A sua
peculiaridade consiste no fato de que se dirige aos não cristãos,
convidando-os à conversão. A catequese, nesta situação, desenvolve-se
ordinariamente no interior do Catecumenato batismal. b) Existem, além disso, situações
nas quais, num determinado contexto sociocultural, estão presentes, de
maneira muito significativa, « comunidades cristãs que possuem sólidas e
adequadas estruturas eclesiais, são fermento de fé e de vida, irradiando o
testemunho do Evangelho no seu ambiente, e sentindo o compromisso da missão
universal ». (174) Estas comunidades necessitam de uma intensa « ação
pastoral da Igreja », visto que são constituídas por pessoas e famílias
com um profundo senso cristão. Em tal contexto, é necessário que a catequese
às crianças, adolescentes e jovens desenvolva verdadeiros processos de
iniciação cristã bem articulados, que lhes permitam aceder à idade adulta com
uma fé madura que, de evangelizados, os transforme em evangelizadores. Mesmo
nessas situações, os adultos são destinatários de modalidades diversas de
formação cristã. c) Em muitos países de tradição
cristã e, às vezes, também nas Igrejas mais jovens, existe uma « situação
intermédia », (175) onde « grupos inteiros de batizados perderam o sentido
vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma
vida distante de Cristo e do Seu Evangelho ». (176) Esta situação requer uma «
nova evangelização ». A sua peculiaridade consiste no fato de que a ação
missionária se dirige aos batizados de todas as idades, que vivem num
contexto religioso de referências cristãs, percebidos apenas exteriormente.
Nesta situação, o primeiro anúncio e uma catequese de base constituem a opção
prioritária. Mútua
conexão entre as ações evangelizadoras correspondentes a estas situações 59. Estas
situações sócio-religiosas são, obviamente, diferentes e não é justo
equipará-las. Tal diversidade, que sempre existiu na missão da Igreja,
adquire hoje, neste mundo em constante transformação, uma novidade. De fato,
com freqüência, diversas situações convivem num mesmo território. Em muitas
cidades grandes, por exemplo, coexistem simultaneamente a situação que
postula uma « missão ad gentes » e outra que requer uma « nova
evangelização ». Junto a estas, estão dinamicamente presentes comunidades
cristãs missionárias, alimentadas por uma adequada « ação pastoral ». Hoje
ocorre freqüentemente que, no território de uma Igreja particular, seja
preciso enfrentar o conjunto dessas situações. « Os confins entre o cuidado
pastoral dos fiéis, a nova evangelização e a atividade missionária específica
não são facilmente identificáveis, e não se deve pensar em criar entre esses
âmbitos barreiras ou compartimentos estanques ». (177) De fato, « cada uma
influi sobre a outra, estimula e a ajuda ». (178) Por isso,
em vista do mútuo enriquecimento das ações evangelizadoras que convivem
juntas, convém levar em consideração que: – A missão
ad gentes, qualquer que seja a área ou âmbito em que se realiza, é a
responsabilidade missionária mais específica que Jesus confiou à Sua Igreja
e, portanto, é o modelo exemplar do conjunto da ação missionária da Igreja. A
« nova evangelização » não pode suplantar ou substituir a « missão ad
gentes », que continua a ser a atividade missionária específica e a
tarefa primária. (179) – « O
modelo de toda catequese é o Catecumenato batismal , que é formação
específica, mediante a qual o adulto convertido à fé é levado à confissão da
fé batismal, durante a vigília pascal ». (180) Esta formação catecumenal deve
inspirar as outras formas de catequese, nos seus objetivos e no seu
dinamismo. – « A
catequese dos adultos, uma vez que é dirigida a pessoas capazes de uma adesão
e de um empenho realmente responsáveis, deve ser considerada como a principal
forma de catequese, para qual todas as demais, não por isso menos
necessárias, estão orientadas ». (181) Isso implica que a catequese das
demais idades deve tê-la como ponto de referência e deve articular-se com
ela, num projeto catequético de pastoral diocesana, que seja coerente. Desse modo,
a catequese, situada no âmbito da missão evangelizadora da Igreja como «
momento » essencial da mesma, recebe da evangelização, um dinamismo
missionário que a fecunda interiormente e a configura na sua identidade. O
ministério da catequese mostra-se, assim, como um serviço eclesial
fundamental na realização do mandato missionário de Jesus. II CAPÍTULO A catequese no processo da evangelização « O que
nós ouvimos e conhecemos, o que nos contaram nossos pais, não o esconderemos
a seus filhos; nós o contaremos à geração seguinte os louvores de
Iahweh e seu poder, e as maravilhas que realizou » (Sl 78,34). 60. Neste
capítulo, mostra-se a relação da catequese com os demais elementos da
evangelização, da qual ela é parte integrante. Neste
sentido, descreve-se, em primeiro lugar, a relação da catequese com o primeiro
anúncio, que se realiza na missão. Mostra-se depois a íntima conexão
entre a catequese e os sacramentos da iniciação cristã. Explica-se, a
seguir, o papel fundamental da catequese na vida ordinária da Igreja no seu
papel de educar permanentemente à fé. Uma
consideração especial é reservada à relação que existe entre a catequese e o ensino
escolar da Religião, uma vez que ambas as ações são profundamente
interligadas e, juntamente com a educação familiar cristã, mostram ser
basilares para a formação da infância e da juventude. Primeiro
anúncio e catequese 61. O primeiro
anúncio se dirige aos não crentes e àqueles que, de fato, vivem na
indiferença religiosa. Ele tem a função de anunciar o Evangelho e de chamar à
conversão. A catequese, « distinta do primeiro anúncio do Evangelho » (182)
promove e faz amadurecer esta conversão inicial, educando à fé o convertido e
incorporando-o na comunidade cristã. A relação entre estas duas formas do
ministério da Palavra é, portanto, uma relação de distinção na
complementariedade. O primeiro
anúncio, que cada cristão é chamado a realizar, participa do « ide » (183)
que Jesus propôs a seus discípulos: implica, portanto, o sair, o apressar-se,
o propor. A catequese, ao invés, parte da condição que o próprio Jesus
indicou, « aquele que crer », (184) aquele que se converter, aquele que se
decidir. As duas ações são essenciais e se atraem mutuamente: ir e acolher,
anunciar e educar, chamar e incorporar. 62. Na
prática pastoral, todavia, as fronteiras entre as duas ações não são
facilmente delimitáveis. Freqüentemente, as pessoas que acedem à catequese,
necessitam, de fato, de uma verdadeira conversão. Por isso, a Igreja deseja
que, ordinariamente, uma primeira etapa do processo catequético seja dedicada
a assegurar a conversão. (185) Na « missão ad gentes », esta
tarefa se realiza no « pré-catecumenato ». (186) Na situação requerida pela «
nova evangelização » esta tarefa se realiza por meio da « catequese
kerigmática », que alguns chamam de « pré-catequese », (187) porque,
inspirada no pré-catecumenato, é uma proposta da Boa Nova em ordem a uma
sólida opção de fé. Somente a partir da conversão, isto é, apostando na
atitude interior « daquele que crer », a catequese propriamente dita poderá
desenvolver a sua tarefa específica de educação da fé. (188) O fato de
que a catequese, num primeiro momento, assuma estas tarefas missionárias, não
dispensa a Igreja particular de promover uma intervenção institucionalizada
de primeiro anúncio, como atuação mais direta do mandato missionário de
Jesus. A renovação catequética deve basear-se nesta evangelização missionária
prévia. A
Catequese a serviço da iniciação cristã A
catequese, « momento » essencial do processo de evangelização 63. A
Exortação apostólica Catechesi Tradendae, colocando a catequese no
âmbito da missão da Igreja, recorda que a evangelização é uma realidade rica,
complexa e dinâmica, que compreende « momentos » essenciais e diferentes
entre si. E acrescenta: « A catequese é... um desses momentos — e quanto ele
há-de ser tido em conta! — de todo o processo da evangelização ». (189) Isto
significa que há ações que « preparam » (190) a catequese, e ações que «
derivam » (191) da catequese. O «
momento » da catequese é aquele que corresponde ao período em que se
estrutura a conversão a Jesus Cristo, oferecendo as bases para aquela
primeira adesão. Os convertidos, mediante « um ensinamento e um aprendizado
devidamente prolongado no decorrer de toda a vida cristã », (192) são
iniciados no mistério da salvação e num estilo de vida evangélico. Trata-se,
de fato, de « iniciá-los na plenitude da vida cristã ». (193) 64. Ao
realizar, de diferentes formas, esta função de iniciação do ministério da
Palavra, a catequese lança os fundamentos do edifício da fé. (194) Outras
funções deste ministério construirão depois os diferentes andares desse mesmo
edifício. A
catequese de iniciação é, assim, o elo necessário entre a ação missionária,
que chama à fé, e a ação pastoral, que alimenta continuamente a comunidade
cristã. Não é, portanto, uma ação facultativa, mas sim uma ação basilar e
fundamental para a construção, tanto da personalidade do discípulo, quanto da
comunidade. Sem ela, a ação missionária não teria continuidade e seria
estéril. Sem ela, a ação pastoral não teria raízes e seria superficial e
confusa: qualquer tempestade faria desmoronar todo o edifício. (195) Na
verdade, « o crescimento interior da Igreja, a sua correspondência aos
desígnios de Deus, dependem essencialmente da catequese ». (196) Neste
sentido, a catequese deve ser considerada como momento prioritário na
evangelização. A
catequese a serviço da iniciação cristã 65. A fé,
mediante a qual o homem responde ao anúncio do Evangelho, exige o Batismo. A
íntima relação entre as duas realidades tem sua raiz na vontade do próprio
Cristo, que ordenou aos seus apóstolos que fizessem discípulos em todas as
nações e os batizassem. « A missão de batizar, portanto, a missão
sacramental, está implícita na missão de evangelizar ». (197) Aqueles
que se converteram a Jesus Cristo e foram educados à fé por meio da
catequese, ao receberem os sacramentos da iniciação cristã, o Batismo, a
Confirmação e a Eucaristia, são « libertados do poder das trevas; mortos com
Cristo, con-sepultados e coressuscitados com Ele, recebem o Espírito da
adoção de filhos e com todo o Povo de Deus celebram o memorial da morte e da
ressurreição do Senhor ». (198) 66. A
catequese é, assim, elemento fundamental da iniciação cristã e é
estreitamente ligada com os sacramentos de iniciação, de modo particular com
o Batismo, « sacramento da fé ». (199) O elo que une a catequese com o
Batismo é a profissão de fé que é, ao mesmo tempo, o elemento interior a este
sacramento e a meta da catequese. A finalidade da ação catequética consiste
precisamente nisso: em favorecer uma viva, explícita e operosa profissão de
fé. (200) A Igreja, para alcançar esta finalidade, transmite aos catecúmenos
e aos catequizandos, a viva experiência que ela tem do Evangelho, e a sua fé,
a fim de que estes a façam própria, ao professá-la. Por isso, « a catequese
autêntica é sempre iniciação ordenada e sistemática à revelação que Deus fez
de Si mesmo ao homem, em Jesus Cristo; revelação esta conservada na memória profunda
da Igreja e nas Sagradas Escrituras, e constantemente comunicada, por uma «
traditio » (tradição) viva e ativa, de uma geração para a outra ». (201) Características
fundamentais da catequese de iniciação 67. O fato
de ser « momento essencial » do processo evangelizador, a serviço da
iniciação cristã, confere à catequese algumas características. (202) Ela é: – uma
formação orgânica e sistemática da fé. O Sínodo de 1977 sublinhou a
necessidade de uma catequese « orgânica e bem ordenada », (203) uma vez que o
aprofundamento vital e orgânico do mistério de Cristo é aquilo que
principalmente distingue a catequese de todas as demais formas de
apresentação da Palavra de Deus. – Esta
formação orgânica é mais do que um ensino: é um aprendizado de toda a vida
cristã, « uma iniciação cristã integral », (204) que favorece uma autêntica
seqüela de Cristo, centrada na Sua Pessoa. Trata-se, de fato, de educar ao
conhecimento e à vida de fé, de tal maneira que o homem no seu todo, nas suas
experiências mais profundas, se sinta fecundado pela Palavra de Deus.
Ajudar-se-á, assim, o discípulo de Cristo, a transformar o homem velho, a
assumir os seus compromissos batismais e a professar a fé a partir do «
coração ». (205) – É uma
formação de base, essencial, (206) centrada naquilo que constitui o núcleo da
experiência cristã, nas certezas mais fundamentais da fé e nos mais basilares
valores evangélicos. A catequese lança os fundamentos do edifício espiritual
do cristão, alimenta as raízes da sua vida de fé, habilitando-o a receber o
sucessivo alimento sólido, na vida ordinária da comunidade cristã. 68. Em
síntese: a catequese de iniciação, sendo orgânica e sistemática, não se reduz
ao meramente circunstancial ou ocasional; (207) sendo formação para a vida
cristã, supera — incluindo-o — o mero ensino; (208) e sendo essencial, visa
àquilo que é « comum » para o cristão, sem entrar em questões disputadas, nem
transformar-se em pesquisa teológica. Enfim, sendo iniciação, incorpora na
comunidade que vive, celebra e testemunha a fé. Realiza, portanto, ao mesmo
tempo, tarefas de iniciação, de educação e de instrução. (209) Esta riqueza,
inerente ao Catecumenato dos adultos não batizados, deve inspirar as demais
formas de catequese. A
Catequese a serviço da educação permanente da fé A educação
permanente da fé na comunidade cristã 69. A
educação permanente à fé segue a educação de base e a supõe. Ambas atualizam
duas funções do ministério da Palavra, distintas e complementares, a serviço
do processo permanente de conversão. A
catequese de iniciação lança as bases da vida cristã naqueles que seguem
Jesus. O processo permanente de conversão vai além daquilo que fornece a
catequese de base. Para favorecer tal processo, é necessária uma comunidade
cristã que acolha os iniciados para sustentá-los e formá-los na fé. « A
catequese corre o risco de se tornar estéril se uma comunidade de fé e de
vida cristã não acolher o catecúmeno num certo estágio da sua catequização ».
(210) O acompanhamento que a comunidade exercita em favor do iniciado,
transforma-se em plena integração do mesmo na comunidade. 70. Na
comunidade cristã, os discípulos de Jesus Cristo se alimentam em uma dúplice
mesa: « da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo ». (211) O Evangelho e a
Eucaristia são alimento constante na peregrinação rumo à casa do Pai. A ação
do Espírito Santo faz com que o dom da « comunhão » e o empenho da « missão »
sejam aprofundados e vividos de maneira sempre mais intensa. A educação
permanente da fé se dirige não apenas a cada cristão, para acompanhá-lo no
seu caminho rumo à santidade, mas também à comunidade cristã enquanto tal,
para que amadureça tanto na sua vida interior de amor a Deus e aos irmãos,
quanto na sua abertura ao mundo como comunidade missionária. O desejo e a
oração de Jesus ao Pai são um incessante apelo: « a fim de que todos sejam
um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que
o mundo creia que tu me enviaste ». (212) Aproximar-se, pouco a pouco, desse
ideal, exige, na comunidade, uma grande fidelidade à ação do Espírito Santo,
um constante alimentar-se do Corpo e Sangue do Senhor e uma permanente educação
na fé, na escuta da Palavra. Nesta mesa
da Palavra de Deus, a homilia ocupa um lugar privilegiado, uma vez que «
retoma o itinerário de fé proposto pela catequese e o leva ao seu complemento
natural; ao mesmo tempo, ela impulsiona os discípulos do Senhor a retomarem
cada dia o seu itinerário espiritual, na verdade, na adoração e na ação de
graças ». (213) Múltiplas
formas de catequese permanente 71. Para a
educação permanente à fé, o ministério da Palavra conta com muitas formas de
catequese. Entre estas, podem ser evidenciadas as seguintes: – O estudo
e o aprofundamento da Sagrada Escritura, lida não somente na Igreja, mas com
a Igreja e a sua fé sempre viva. Isto ajuda a descobrir a verdade divina, de
modo a suscitar uma resposta de fé. A chamada « lectio divina » é forma
eminente deste vital estudo das Escrituras. (214) – A
leitura cristã dos eventos, que é requerida pela vocação missionária da
comunidade cristã. A este respeito, o estudo da doutrina social da Igreja é
indispensável, visto que « sua finalidade principal é interpretar estas
realidades (as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no
contexto internacional), examinando a sua conformidade ou desconformidade com
as linhas do ensinamento do Evangelho ». (215) – A
catequese litúrgica, que prepara aos sacramentos e favorece uma compreensão e
uma experiência mais profunda da liturgia. Ela explica o conteúdo das
orações, o sentido dos gestos e dos sinais, educa à participação ativa, à
contemplação e ao silêncio. Deve ser considerada como « uma eminente forma de
catequese ». (216) – A
catequese ocasional, que em determinadas circunstâncias da vida pessoal,
familiar, social e eclesial, busca ajudar a interpretar e viver tais
circunstâncias, a partir da perspectiva da fé. (217) – As iniciativas
de formação espiritual, que fortalecem as convicções, abrem a novas
perspectivas e fazem perseverar na oração e no compromisso da seqüela de
Cristo. O
aprofundamento sistemático da mensagem cristã, por meio de um ensino
teológico que eduque verdadeiramente à fé, faça crescer na compreensão da
mesma e torne o cristão capaz de dar razões da sua esperança, no mundo atual.
(218) Num certo sentido, é apropriado denominar tal ensino como « catequese
de aperfeiçoamento ». 72. É de
fundamental importância que a catequese de iniciação para adultos, batizados
ou não, a catequese de iniciação para crianças e jovens e a catequese
permanente sejam bem conexas no projeto catequético da comunidade cristã, a
fim de que a Igreja particular cresça harmoniosamente e a sua atividade
evangelizadora nasça de fontes autênticas. « É importante também que a
catequese das crianças e dos jovens, a catequese permanente e a catequese dos
adultos não sejam domínios estanques e sem comunicação... é necessário
favorecer a sua perfeita complementaridade ». (219) Catequese
e ensino escolar da Religião O caráter
próprio do ensino escolar da Religião 73. Uma
consideração especial merece — no âmbito do ministério da Palavra — o caráter
próprio do ensino religioso na escola e a sua relação com a catequese das
crianças e dos jovens. A relação
entre o ensino religioso na escola e a catequese é uma relação de distinção e
de complementaridade: « Há um nexo indivisível e, ao mesmo tempo, uma clara
distinção entre o ensino da religião e a catequese ». (220) O que
confere ao ensino religioso escolar a sua peculiar característica, é o fato
de ser chamado a penetrar no âmbito da cultura e de relacionar-se com outras
formas do saber. Como forma original do ministério da Palavra, de fato, o
ensino religioso escolar torna presente o Evangelho no processo pessoal de
assimilação, sistemática e crítica, da cultura. (221) No
universo cultural, que é interiorizado pelos alunos e que é definido pelas
formas de saber e pelos valores oferecidos pelas demais disciplinas
escolares, o ensino religioso escolar deposita o fermento dinâmico do
Evangelho e busca « abranger realmente os outros elementos do saber e da
educação, para que o Evangelho impregne a mentalidade dos alunos no ambiente
da sua formação e para que a harmonização da sua cultura se faça à luz da fé
». (222) É
necessário, portanto, que o ensino religioso escolar se mostre como uma
disciplina escolar, com a mesma exigência de sistema e rigor que requerem as
demais disciplinas. Deve apresentar a mensagem e o evento cristão com a mesma
seriedade e profundidade com a qual as demais disciplinas apresentam seus
ensinamentos. Junto a estas, todavia, o ensino religioso escolar não se situa
como algo acessório, mas sim no âmbito de um necessário diálogo interdisciplinar.
Este diálogo deve ser instituído, antes de mais nada, naquele nível no qual
cada disciplina plasma a personalidade do aluno. Assim, a apresentação da
mensagem cristã incidirá na maneira com que se concebe a origem do mundo e o
sentido da história, o fundamento dos valores éticos, a função da religião na
cultura, o destino do homem, a relação com a natureza. O ensino religioso
escolar, mediante este diálogo interdisciplinar, funda, potencia, desenvolve
e completa a ação educadora da escola. (223) O contexto
escolar e os destinatários do ensino escolar da Religião 74. O
ensino escolar da Religião desenvolve-se em contextos escolares diversos, o
que faz com que este, embora mantendo o seu caráter próprio, adquira
acentuações diversas. Estas dependem das condições legais e de organização,
da concepção didática, dos pressupostos pessoais dos professores e dos alunos
e da relação do ensino religioso escolar com a catequese familiar e
paroquial. Não é
possível reduzir à uma única forma todos os modelos de ensinamento religioso
escolar, desenvolvidas historicamente em seguida a Acordos com os Estados e
às deliberações de cada Conferência dos Bispos. Todavia, é necessário
esforçar-se para que, segundo os relativos pressupostos, o ensino religioso
escolar responda às suas finalidades e características peculiares. (224) Os alunos
« têm o direito de aprender, de modo verdadeiro e com certeza, a religião à
qual pertencem. Não pode ser desatendido este seu direito a conhecer mais
profundamente a pessoa de Cristo e a totalidade do anúncio salvífico que Ele
trouxe. O caráter confessional do ensino religioso escolar, realizado pela
Igreja segundo modos e formas estabelecidas em cada País, é, portanto, uma
garantia indispensável, oferecida às famílias e aos alunos que escolhem tal
ensino ». (225) Para a
escola católica, o ensino religioso escolar, assim qualificado e completado
com outras formas do ministério da Palavra (catequese, celebrações
litúrgicas, etc.), é parte indispensável da sua tarefa pedagógica e fundamento
da sua existência. (226) O ensino
religioso escolar, no contexto da escola pública e no da não confessional, lá
onde as autoridades civis ou outras circunstâncias impõem um ensino religioso
comum aos católicos e nãocatólicos, (227) terá uma característica mais
ecumênica e de conhecimento inter-religioso comum. Em outras
ocasiões, o ensinamento religioso escolar poderá ter um caráter mais
cultural, orientado para o conhecimento das religiões, apresentando, com o
necessário realce, a religião católica. (228) Também neste caso, sobretudo se
administrado por um professor sinceramente respeitoso, o ensino religioso
escolar mantém uma dimensão de verdadeira « preparação evangélica ». 75. A
situação de vida e de fé dos alunos que freqüentam o ensino religioso escolar
é caracterizada por uma constante e notável transformação. O ensino religioso
escolar deve levar em conta este dado, para poder atingir as próprias
finalidades. O ensino
religioso escolar ajuda os alunos que têm fé a compreender melhor a mensagem
cristã, em relação com os grandes problemas existenciais comuns às religiões
e característicos de todo ser humano, com as visões da vida mais presentes na
cultura, e com os principais problemas morais nos quais, hoje, a humanidade
se encontra envolvida. Os alunos,
ao invés, que se encontram em uma situação de busca ou diante de dúvidas
religiosas, poderão descobrir no ensino religioso escolar o que é,
exatamente, a fé em Jesus Cristo, quais são as respostas que a Igreja oferece
aos seus interrogativos, dando-lhes a oportunidade de perscrutar melhor a
própria decisão. Finalmente,
quando os alunos não têm fé, o ensino religioso escolar assume as
características de um anúncio missionário do Evangelho, em vista de uma
decisão de fé, que a catequese, por sua parte, em um contexto comunitário,
poderá em seguida fazer crescer e amadurecer. A educação
cristã familiar: catequese e ensino religioso escolar a serviço da educação
na fé 76. A
educação cristã na família, a catequese e o ensino da religião na escola,
cada qual segundo as próprias características peculiares, são intimamente
correlacionados com o serviço da educação cristã das crianças, adolescentes e
jovens. Na prática, porém, é preciso levar em consideração diferentes
variáveis que geralmente se apresentam, com o intuito de agir com realismo e
prudência pastoral, na aplicação das orientações gerais. Portanto,
cabe a cada diocese ou região pastoral distinguir as diversas circunstâncias
que intervêm, tanto no que concerne à existência ou não da iniciação cristã
no âmbito das famílias, para os próprios filhos, quanto no que diz respeito
às incumbências formativas que, na tradição ou situação locais, exercitam as
paróquias, as escolas, etc... E,
conseqüentemente, a Igreja particular e a Conferência dos Bispos estabelecerão
as orientações próprias para os diversos âmbitos, estimulando atividades que
são distintas e complementares. III CAPÍTULO Natureza, finalidade e tarefas da catequese « Para a
glória de Deus, o Pai, toda língua confesse: Jesus Cristo é o Senhor » (Fl
2,11). 77. Depois
de ter delineado o lugar da catequese no âmbito da missão evangelizadora da
Igreja, as suas relações com os vários elementos da evangelização e com as
outras formas do ministério da Palavra, neste capítulo se pretende refletir
de modo específico sobre: – a
natureza eclesial da catequese, ou seja, o sujeito agente da catequese, a
Igreja animada pelo Espírito; – a
finalidade que ela busca fundamentalmente, ao catequizar; – as
tarefas com as quais realiza esta finalidade, e que constituem os seus
objetivos mais imediatos; – as fases
internas do processo catequético e a inspiração catecumenal que o anima. Além
disso, neste capítulo, aprofundar-se-á mais o caráter próprio da catequese,
já descrito no capítulo precedente, onde foram especificadas as relações que
ela estabelece com as demais ações eclesiais. A
catequese: ação de natureza eclesial 78. A
catequese é um ato essencialmente eclesial. (229) O verdadeiro sujeito da
catequese é a Igreja que, continuadora da missão de Jesus Mestre, e animada
pelo Espírito, foi enviada para ser mestra da fé. Portanto, a Igreja,
imitando a Mãe do Senhor, conserva fielmente o Evangelho no seu coração,
(230) anuncia-o, celebra-o, vive-o e o transmite na catequese, a todos
aqueles que decidiram seguir Jesus Cristo. Esta
transmissão do Evangelho é um ato vivo de tradição eclesial: (231) – A
Igreja, de fato, transmite a fé que ela mesma vive: a sua compreensão do
mistério de Deus e do seu desígnio salvífico; a sua visão da altíssima
vocação do homem; o estilo de vida evangélico que comunica a alegria do
Reino; a esperança que a invade; o amor que sente pelos homens. – A Igreja
transmite a fé de modo ativo, semeia-a nos corações dos catecúmenos e catequizandos,
para fecundar as suas experiências mais profundas. (232) A profissão de fé
recebida da Igreja (traditio), germinando e crescendo durante o
processo catequético, é restituída (redditio), enriquecida com os
valores das diferentes culturas. (233) O catecumenato se transforma, assim,
num centro fundamental de incremento da catolicidade, e fermento de renovação
eclesial. 79. A
Igreja, ao transmitir a fé e a vida nova — através da iniciação cristã — age
como mãe dos homens, que gera filhos concebidos por obra do Espírito Santo e
nascidos de Deus. (234) Precisamente, « por ser nossa mãe, a Igreja é também
a educadora da nossa fé »; (235) é mãe e mestra ao mesmo tempo. Através da
catequese, alimenta os seus filhos com a sua própria fé e os incorpora, como
membros, na família eclesial. Como boa mãe, oferece-lhes o Evangelho em toda
a sua autenticidade e pureza, o qual, ao mesmo tempo, lhes é dado como
alimento adaptado, culturalmente enriquecido e como resposta às aspirações
mais profundas do coração humano. Finalidade
da catequese: a comunhão com Jesus Cristo 80. « A
finalidade definitiva da catequese é a de fazer com que alguém se ponha, não
apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo ». (236) Toda a
ação evangelizadora tem o objetivo de favorecer a comunhão com Jesus Cristo.
A partir da conversão « inicial » (237) de uma pessoa ao Senhor, suscitada
pelo Espírito Santo, mediante o primeiro anúncio, a catequese se propõe dar
um fundamento e fazer amadurecer esta primeira adesão. Trata-se, então, de
ajudar aquele que acaba de ser converter a « ...melhor conhecer o mesmo Jesus
Cristo ao qual se entregou: conhecer o seu « mistério », o Reino de Deus que
Ele anunciou, as exigências e as promessas contidas na Sua mensagem
evangélica e os caminhos que Ele traçou para todos aqueles que O querem
seguir ». (238) O Batismo, sacramento mediante o qual « configuramo-nos com
Cristo », (239) sustenta, com a sua graça, esta obra da catequese. 81. A
comunhão com Jesus Cristo, por sua própria dinâmica, impulsiona o discípulo a
se unir com tudo aquilo com que o próprio Jesus Cristo sentiu-se
profundamente unido: com Deus, seu Pai, que o enviara ao mundo, e com o
Espírito Santo, que lhe dava impulso para a missão; com a Igreja, seu corpo,
pela qual se doou, e com os homens, seus irmãos, cuja sorte quis
compartilhar. A
finalidade da catequese se exprime na profissão de fé no único Deus: Pai,
Filho e Espírito Santo 82. A
catequese é aquela forma particular do ministério da Palavra, que faz
amadurecer a conversão inicial, até fazer dela uma viva, explícita e
operativa confissão de fé: « A catequese tem a sua origem na confissão de fé
e leva à confissão de fé ». (240) A
profissão de fé, intrínseca ao Batismo, (241) é eminentemente trinitária. A
Igreja batiza « em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo » (Mt 28,19),
(242) Deus uno e trino, ao qual o cristão confia a sua vida. A catequese de
iniciação prepara — antes ou após o recebimento do Batismo — para este
decisivo empenho. A catequese permanente ajudará a amadurecer continuamente
esta profissão de fé, a proclamá-la na Eucaristia e a renovar os compromissos
que ela implica. É importante que a catequese saiba unir bem a confissão de
fé cristológica, « Jesus é o Senhor », com a confissão trinitária, «
Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo », uma vez que são tão somente
duas modalidades para se exprimir a mesma fé cristã. Aquele que, pelo
primeiro anúncio, se converte a Jesus Cristo e O reconhece como Senhor,
inicia um processo, ajudado pela catequese, que desemboca necessariamente na
confissão explícita da Trindade. Com a
confissão de fé no único Deus, o cristão renuncia a servir qualquer absoluto
humano: poder, prazer, raça, antepassados, Estado, dinheiro..., (243)
libertando-se de qualquer ídolo que o escravize. É a proclamação da sua
vontade de servir a Deus e aos homens, sem nenhum laço. Proclamando a fé na
Trindade, comunhão de pessoas, o discípulo de Jesus Cristo manifesta
contemporaneamente que o amor a Deus e ao próximo é o princípio que informa o
seu ser e o seu agir. 83. A
confissão de fé é completa somente se é em referência à Igreja. Cada batizado
proclama individualmente o Credo, uma vez que não há ação mais pessoal do que
esta. Mas o recita na Igreja e através dela, já que o faz como seu membro. O
« creio » e o « cremos » se implicam mutuamente. (244) Ao fundir a sua
confissão com a confissão da Igreja, o cristão é incorporado à sua missão:
ser « sacramento de salvação » para a vida do mundo. Quem proclama a
profissão de fé, assume compromissos que, não poucas vezes, atrairão a
perseguição. Na história cristã, os mártires são os anunciadores e as
testemunhas por excelência. (245) As tarefas
da catequese realizam a sua finalidade 84. A
finalidade da catequese realiza-se através de diversas tarefas, mutuamente
relacionadas. (246) Para realizá-las, a catequese se inspirará certamente no
modo mediante o qual Jesus formava os Seus discípulos: fazia-os conhecer as
diversas dimensões do Reino de Deus (« a vós é dado compreender os
mistérios do Reino dos céus », Mt 13,11), (247) ensinava-os a
rezar (« Quando orardes, dizei: Pai... », Lc 11,2), (248)
inculcava-lhes atitudes evangélicas (« ...aprendei de mim, porque sou
manso e humilde de coração », Mt 11,29) e os iniciava na missão («
...e os enviou dois a dois... », Lc 10,1). (249) As tarefas
da catequese correspondem à educação das diversas dimensões da fé, uma vez
que a catequese é uma formação cristã integral, « aberta a todas as outras
componentes da vida cristã ». (250) Em virtude da sua própria dinâmica
interna, a fé exige ser conhecida, celebrada, vivida e traduzida em oração. A
catequese deve cultivar cada uma dessas dimensões. A fé, porém, se vive na
comunidade cristã e se anuncia na missão: é uma fé compartilhada e anunciada.
Também estas dimensões devem ser favorecidas pela catequese. O Concílio
Vaticano II assim se expressou sobre essas tarefas: « A formação catequética,
que ilumina e fortifica a fé, nutre a vida segundo o espírito de Cristo, leva
a uma participação consciente e ativa no mistério litúrgico e desperta para a
atividade apostólica ». (251) As tarefas
fundamentais da catequese: ajudar a conhecer, celebrar, viver e contemplar o
mistério de Cristo 85. As
tarefas fundamentais da catequese são: – Favorecer
o conhecimento da fé Aquele que
encontrou Cristo deseja conhecê-Lo o mais possível, assim como deseja
conhecer o desígnio do Pai, que Ele revelou. O conhecimento da fé (fides
quae) é exigência da adesão à fé (fides qua). (252) Já na ordem
humana, o amor por uma pessoa leva a desejar conhecê-la sempre mais. A
catequese deve levar, portanto, a « compreender progressivamente toda a
verdade do projeto divino », (253) introduzindo os discípulos de Jesus Cristo
no conhecimento da Tradição e da Escritura, a qual é a « eminente ciência de
Jesus Cristo » (Fil 3,8). (254) O
aprofundamento no conhecimento da fé ilumina cristãmente a existência humana,
alimenta a vida de fé e habilita também a prestar razão dela no mundo. A entrega
do símbolo, compêndio da Escritura e da fé da Igreja, exprime a
realização desta tarefa. – A
educação litúrgica De fato, «
Cristo está sempre presente em Sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas ».
(255) A comunhão com Jesus Cristo leva a celebrar a sua presença salvífica
nos sacramentos e, particularmente, na Eucaristia. A Igreja deseja
ardentemente que todos os fiéis cristãos sejam levados àquela participação
plena, consciente e ativa, que exigem a própria natureza da Liturgia e a
dignidade do seu sacerdócio batismal. (256) Por isso, a catequese, além de
favorecer o conhecimento do significado da liturgia e dos sacramentos, deve
educar os discípulos de Jesus Cristo « à oração, à gratidão, à penitência, à
solicitação confiante, ao sentido comunitário, à linguagem simbólica... », (257)
uma vez que tudo isso é necessário, a fim de que exista uma verdadeira vida
litúrgica. – A
formação moral A
conversão a Jesus Cristo implica o caminhar na sua seqüela. A catequese deve,
portanto, transmitir aos discípulos as atitudes próprias do Mestre. Eles
empreendem assim, um caminho de transformação interior, no qual, participando
do mistério pascal do Senhor, « passam do velho para o novo homem
aperfeiçoado em Cristo ». (258) O Sermão da Montanha, no qual Jesus retoma o
decálogo e o imprime com o espírito das bem-aventuranças, (259) é uma
referência indispensável na formação moral, hoje tão necessária. A
evangelização, « que comporta também o anúncio e a proposta moral », (260)
difunde toda a sua força interpeladora quando, juntamente com a palavra anunciada,
sabe oferecer também a palavra vivida. Este testemunho moral, para o qual a
catequese prepara, deve saber mostrar as conseqüências sociais das exigências
evangélicas. (261) – Ensinar
a rezar A comunhão
com Jesus Cristo conduz os discípulos a assumirem a atitude orante e
contemplativa que adotou o Mestre. Aprender a rezar com Jesus é rezar com os
mesmos sentimentos com os quais Ele se dirigia ao Pai: a adoração, o louvor,
o agradecimento, a confiança filial, a súplica e a contemplação da sua
glória. Estes sentimentos se refletem no Pai Nosso, a oração que Jesus
ensinou aos discípulos e que é modelo de toda oração cristã. A «entrega do
Pai Nosso », (262) resumo de todo o Evangelho, (263) é, portanto,
verdadeira expressão da realização desta tarefa. Quando a catequese é
permeada por um clima de oração, o aprendizado de toda a vida cristã alcança
a sua profundidade. Este clima se faz particularmente necessário quando o
catecúmeno e os catequizandos encontram-se diante dos aspectos mais exigentes
do Evangelho e se sentem fracos, ou quando descobrem, admirados, a ação de
Deus na sua vida. Outras
tarefas fundamentais da catequese: iniciação e educação à vida comunitária e
à missão 86. A
catequese torna o cristão idôneo a viver em comunidade e a participar
ativamente da vida e da missão da Igreja. O Concílio Vaticano II aponta a
necessidade, para os pastores, de « desenvolver devidamente o espírito de
comunidade » (264) e para os catecúmenos, de « aprender a cooperar ativamente
na evangelização e na edificação da Igreja ». (265) – A
educação para a vida comunitária a) A vida cristã em comunidade não
se improvisa e é preciso educar para ela, com cuidado. Para esta
aprendizagem, o ensinamento de Jesus sobre a vida comunitária, narrado pelo
Evangelho de Mateus, requer algumas atitudes que a catequese deverá inculcar:
o espírito de simplicidade e de humildade (« se não vos converterdes e não
vos tornardes como as crianças... », Mt 18,3); a solicitude pelos
pequeninos (« Caso alguém escandalize um desses pequeninos que crêem em
mim... », Mt 18,6); a atenção especial para com aqueles que se
afastaram (« vai à procura da ovelha extraviada... », Mt 18,12);
a correção fraterna (« ... vai corrigi-lo a sós », Mt 18,12); a
oração em comum (« se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre
qualquer coisa que queiram pedir... », Mt 18,19); o perdão mútuo («
até setenta e sete vezes... », Mt 18,22). O amor fraterno unifica
todas estas atitudes: « Amai-vos uns aos outros como eu vos amei » (Jo
13,34). b) Ao educar para este sentido
comunitário, a catequese dará uma especial atenção à dimensão ecumênica, e
encorajará atitudes fraternas para com os membros de outras Igrejas cristãs e
comunidades eclesiais. Por isso, a catequese, ao procurar atingir esta meta,
exporá com clareza toda a doutrina da Igreja Católica, evitando expressões
que possam induzir ao erro. Favorecerá, além disso, « um bom conhecimento das
outras confissões », (266) com as quais existem bens comuns, tais como: « a
Palavra escrita de Deus, a vida da graça, a fé, a esperança, a caridade e
outros dons interiores do Espírito Santo ». (267) A catequese terá uma
dimensão ecumênica, na medida em que saberá suscitar e alimentar « um
verdadeiro desejo de unidade », (268) feito não em vista de um fácil irenismo,
mas em vista da unidade perfeita, quando o Senhor assim o desejar e através
das vias que Ele escolher. – A
iniciação à missão a) A catequese é igualmente aberta
ao dinamismo missionário. (269) Ela se esforça por habilitar os discípulos de
Jesus a se fazerem presentes, como cristãos, na sociedade e na vida
profissional, cultural e social. Prepara-os também a prestarem a sua
cooperação nos diferentes serviços eclesiais, segundo a vocação de cada um.
Este empenho evangelizador origina-se, para os fiéis leigos, dos sacramentos
da iniciação cristã e do caráter secular de sua vocação. (270) É também
importante usar todos os meios disponíveis para suscitar vocações sacerdotais
e de particular consagração a Deus, nas diversas formas de vida religiosa e
apostólica e para acender no coração de cada um a vocação especial
missionária. As
atitudes evangélicas que Jesus sugeriu aos seus discípulos, quando os iniciou
na missão, são aquelas que a catequese deve alimentar: ir em busca da ovelha
perdida; anunciar e curar ao mesmo tempo; apresentar-se pobres, sem posses
nem mochila; saber assumir a rejeição e a perseguição; pôr a própria
confiança no Pai e no amparo do Espírito Santo; não esperar outra recompensa
senão a alegria de trabalhar pelo Reino. (271) b) Ao educar para este sentido
missionário, a catequese formará ao diálogo inter-religioso, que pode tornar
os fiéis idôneos a uma comunicação fecunda com os homens e mulheres de outras
religiões. (272) A catequese mostrará que os laços entre a Igreja e as outras
religiões não cristãs são, em primeiro lugar, aqueles da origem comum e do
fim comum do gênero humano, assim como também aqueles das múltiplas «
sementes da Palavra », que Deus depôs naquelas religiões. A catequese ajudará
também a saber conciliar e, ao mesmo tempo, a saber distinguir o « anúncio de
Cristo » do « diálogo inter-religioso ». Estes dois elementos, embora
conservem a sua íntima relação, não devem ser confundidos nem considerados
equivalentes. (273) Com efeito,« o diálogo não dispensa da evangelização ».
(274) Algumas
considerações sobre o conjunto destas tarefas 87. As
tarefas da catequese constituem, conseqüentemente, um rico e variado conjunto
de aspectos. Sobre este conjunto, é oportuno tecer algumas considerações: – Todas as
tarefas são necessárias. Assim como para a vitalidade de um organismo humano,
é necessário que funcionem todos os seus órgãos, também para o amadurecimento
da vida cristã, é preciso que sejam cultivadas todas as suas dimensões: o
conhecimento da fé, a vida litúrgica, a formação moral, a oração, a pertença
comunitária, o espírito missionário. Se a catequese transcurar uma dessas
dimensões, a fé cristã não alcançará todo o seu desenvolvimento. – Cada
tarefa, à sua maneira, realiza a finalidade da catequese. A formação moral,
por exemplo, é essencialmente cristológica e trinitária, plena de senso
eclesial e aberta à dimensão social. O mesmo acontece com a educação
litúrgica, essencialmente religiosa e eclesial, mas também muito exigente no
seu empenho evangelizador em favor do mundo. – As
tarefas se implicam mutuamente e se desenvolvem conjuntamente. Cada grande
tema catequético, por exemplo, a catequese sobre Deus Pai, tem uma dimensão
cognoscitiva e implicações morais; interioriza-se na oração e se assume no
testemunho. Uma tarefa chama outra: o conhecimento da fé torna idôneos à
missão; a vida sacramental dá força para a transformação moral. – Para
realizar as suas tarefas, a catequese se vale de dois grandes meios: a transmissão
da mensagem evangélica e a experiência da vida cristã. (275) A educação
litúrgica, por exemplo, necessita explicar o que é a liturgia cristã e o que
são os sacramentos; porém deve também fazer experimentar os diversos tipos de
celebração, fazer descobrir e amar os símbolos, o sentido dos gestos
corporais, etc... A formação moral não apenas transmite o conteúdo da moral
cristã, mas cultiva também, ativamente, as atitudes evangélicas e os valores
cristãos. – As
diferentes dimensões da fé são objeto de educação, tanto no seu aspecto de «
dom » quanto no seu aspecto de « compromisso ». O conhecimento da fé, a vida
litúrgica e a seqüela de Cristo são, cada uma, um dom do Espírito, que se
recebe na oração e, ao mesmo tempo, um compromisso de estudo, espiritual,
moral e testemunhal. Ambos os aspectos devem ser cultivados. (276) – Cada
dimensão da fé, assim como a fé no seu conjunto, deve enraizar-se na
experiência humana, sem permanecer na pessoa como algo de postiço ou de
isolado. O conhecimento da fé é significativo, ilumina toda a existência e
dialoga com a cultura; na liturgia, toda a vida pessoal é uma oferta
espiritual; a moral evangélica assume e eleva os valores humanos; a oração é
aberta a todos os problemas pessoais e sociais. (277) Como
indicava o Diretório de 1971, « é muito importante que a catequese conserve
esta riqueza de diversidade de aspectos, de forma que nenhum aspecto seja
isolado, em detrimento dos demais ». O
catecumenato batismal: estrutura e fases 88. A fé,
impulsionada pela graça divina e cultivada pela ação da Igreja, experimenta
um processo de amadurecimento. A catequese, a serviço desse crescimento, é
uma ação gradual. Uma oportuna catequese é disposta por graus. (278) No
catecumenato batismal, a formação se desenvolve em quatro etapas: – o pré-catecumenato,
(279) caracterizado pelo fato que nele se realiza a primeira evangelização,
em vista da conversão, e se explicita o « kerigma » do primeiro anúncio; – o catecumenato
(280) propriamente dito, destinado à catequese integral e em cujo início tem
lugar a « entrega dos Evangelhos »; (281) – o tempo
da purificação e iluminação, (282) que fornece uma preparação
mais intensa aos sacramentos da iniciação, e no qual tem lugar a « entrega do
Símbolo » (283) e a « entrega da Oração do Senhor »; (284) – o tempo
da mistagogia, (285) caracterizado pela experiência dos sacramentos e pelo
ingresso na comunidade. 89. Estas
etapas da grande tradição catecumenal, repletas de sabedoria, inspiram as
fases da catequese. (286) Na época dos Padres da Igreja, de fato, a formação
propriamente catecumenal se realizava mediante a catequese bíblica,
centrada na narração de História da salvação; a preparação imediata ao
Batismo, por meio da catequese doutrinal, que explicava o Símbolo e o
Pai Nosso, recém entregues, com suas implicações morais; e a etapa que
sucedia os sacramentos de iniciação, mediante a catequese mistagógica,
que ajudava a interiorizar tais sacramentos e a incorporar-se na comunidade.
Esta concepção patrística continua a ser uma fonte de luz para o Catecumenato
atual e para a própria catequese de iniciação. Esta, uma
vez que é acompanhamento do processo de conversão, é essencialmente gradual;
e uma vez que está a serviço daquele que decidiu seguir Cristo, é
eminentemente cristocêntrica. O
Catecumenato batismal, inspirador da catequese na Igreja 90. Dado
que a missão ad gentes é o paradigma de toda a missão evangelizadora
da Igreja, o Catecumenato batismal, que lhe é inerente, é o modelo inspirador
da sua ação catequizadora. (287) Por isso, é oportuno sublinhar os elementos
do Catecumenato que devem inspirar a catequese atual e o significado
metodológico dos mesmos. É preciso, todavia, colocar a premissa que entre os
catequizandos e os catecúmenos, (288) e entre catequese pós-batismal e
catequese pré-batismal, que lhes é respectivamente administrada,
existe uma diferença fundamental. Ela provém dos sacramentos de iniciação
recebido pelos primeiros, os quais « já foram introduzidos na Igreja e já
foram feitos filhos de Deus por meio do Batismo. Portanto, o fundamento da
sua conversão é o Batismo já recebido, cuja força devem desenvolver ». (289) 91. Diante
desta substancial diferença, consideram-se a seguir alguns elementos do
Catecumenato batismal, que devem ser fonte de inspiração para a catequese
pós-batismal: – O
Catecumenato batismal recorda constantemente a toda a Igreja, a importância
fundamental da função da iniciação, com os basilares fatores que a
constituem: a catequese e os sacramentos do Batismo, da Confirmação e da
Eucaristia. A pastoral de iniciação cristã é vital para toda Igreja
particular. – O
Catecumenato batismal é responsabilidade de toda a comunidade cristã.
De fato, « tal iniciação cristã não deve ser apenas obra dos catequistas e
dos sacerdotes, mas de toda a comunidade de fiéis, e sobretudo dos padrinhos
». (290) A instituição catecumenal incrementa assim, na Igreja, a consciência
da maternidade espiritual que ela exerce em toda forma de educação na fé.
(291) – O
Catecumenato batismal é todo impregnado pelo mistério da Páscoa de Cristo.
Por isso, « toda iniciação deve relevar claramente o seu caráter pascal ».
(292) A Vigília pascal, centro da liturgia cristã, e a sua espiritualidade
batismal, são inspiração para toda a catequese. – O Catecumenato
batismal é também, lugar privilegiado de inculturação. Seguindo o
exemplo da Encarnação do Filho de Deus, feito homem num momento histórico
concreto, a Igreja acolhe os catecúmenos integralmente, com os seus vínculos
culturais. Toda a ação catequizadora participa desta função de incorporar na
catolicidade da Igreja, as autênticas « sementes da Palavra » disseminadas
nos indivíduos e nos povos. (293) –
Finalmente, a concepção do Catecumenato batismal, como processo formativo
e verdadeira escola de fé, oferece à catequese pós-batismal uma
dinâmica e algumas notas qualificativas: a intensidade e a integridade da
formação; o seu caráter gradual, com etapas definidas; a sua vinculação com
ritos, símbolos e sinais, especialmente bíblicos e litúrgicos; a sua
constante referência à comunidade cristã... A
catequese pós-batismal, sem dever reproduzir mimeticamente a configuração do
Catecumenato batismal, e reconhecendo aos catequizandos a sua realidade de
batizados, deverá inspirar-se nesta « escola preparatória à vida cristã »,
(294) deixando-se fecundar pelos seus principais elementos caracterizadores. II PARTE A MENSAGEM EVANGÉLICA A mensagem evangélica « Ora, a
vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e
aquele que enviaste, Jesus Cristo » (Jo 17,3). Significado
e finalidade desta parte 92. A fé
cristã, mediante a qual uma pessoa pronuncia o seu « sim » a Jesus Cristo,
pode ser considerada sob um dúplice aspecto: – como
adesão a Deus que se revela, dada sob a influência da graça. Neste caso, a fé
consiste em confiar na palavra de Deus e em abandonar-se a esta (fides qua); – como
conteúdo da Revelação e da mensagem evangélica. A fé, neste sentido,
exprime-se no empenho em conhecer sempre melhor o sentido profundo daquela
Palavra (fides quae). Estes dois
aspectos não podem, por sua própria natureza, ser separados. O amadurecimento
e o crescimento da fé exigem o seu
orgânico e coerente desenvolvimento. Todavia, por razões de ordem
metodológica, os dois aspectos podem ser considerados separadamente. (295) 93. Nesta
segunda parte, abordar-se-á o conteúdo da mensagem evangélica (fides quae). – No
primeiro capítulo, serão indicadas as normas e os critérios que a catequese
deve seguir para fundar, formular e expor os seus conteúdos. Toda forma de
ministério da Palavra, de fato, ordena e apresenta a mensagem evangélica
segundo o seu caráter próprio. – No
segundo capítulo, tratar-se-á do conteúdo da fé, assim como se encontra
exposto no Catecismo da Igreja Católica, que é texto de referência doutrinal
para a catequese. São apresentadas, por isso, algumas indicações que poderão
ajudar a assimilar e a interiorizar o Catecismo, assim como a situá-lo no
âmbito da ação catequizadora da Igreja. Além disso, são oferecidos alguns
critérios, para que, em referência ao Catecismo da Igreja Católica, sejam
elaborados, nas Igrejas particulares, Catecismos locais que, conservando a
unidade da fé, levem na devida consideração, as diferentes situações e
culturas. I CAPÍTULO Normas e critérios para a apresentação da mensagem
evangélica na catequese « Ouve, ó
Israel: Iahweh nosso Deus é o único Deus. Portanto, amarás a Iahweh teu Deus
com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas
palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus
filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado
e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal
entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas
portas » (Dt 6,4-9). A Palavra
de Deus, fonte da catequese 94. A
fonte na qual a catequese haure a sua mensagem é a Palavra de Deus: « A
catequese há-de haurir sempre o seu conteúdo na fonte viva da Palavra de
Deus, transmitida na Tradição e da Escritura, porque "a Sagrada Tradição
e a Sagrada Escritura constituem um só depósito inviolável da Palavra de
Deus, confiada à Igreja" ». (296) Este «
depósito da fé » (297) é como o tesouro do dono da casa, confiado à Igreja,
família de Deus, do qual ela extrai continuamente coisas novas e coisas
antigas. (298) Todos os filhos do Pai, animados pelo Seu Espírito, nutrem-se
deste tesouro da Palavra. Eles sabem que a Palavra é Jesus Cristo, o Verbo
feito homem, e que a Sua voz continua a ressoar por meio do Espírito Santo,
na Igreja e no mundo. A Palavra
de Deus, por admirável « condescendência » (299) divina nos é dirigida e
chega a nós por meio de « obras e palavras » humanas, « tal como outrora o
Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza humana, se fez
semelhante aos homens ». (300) Sem deixar de ser Palavra de Deus, exprime-se
na palavra humana. Embora próxima, ela permanece porém velada, em estado «
kenótico ». Por isso, a Igreja, guiada pelo Espírito, precisa interpretá-la
continuamente e, enquanto a contempla com profundo espírito de fé, « piamente
ausculta aquela palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe ». (301) A fonte e
« as fontes » da mensagem da catequese (302) 95. A
Palavra de Deus contida na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura: – é
meditada e compreendida sempre mais profundamente, por meio do senso de fé de
todo o Povo de Deus, sob a orientação do Magistério, que a ensina com
autoridade; – é
celebrada na liturgia onde, constantemente, é proclamada, ouvida,
interiorizada e comentada; –
resplende na vida da Igreja, na sua história bimilenar, sobretudo no
testemunho dos cristãos e particularmente dos santos; – é
aprofundada na pesquisa teológica, que ajuda os crentes a progredirem na
compreensão vital dos mistérios da fé; –
manifesta-se nos genuínos valores religiosos e morais que, como sementes da
Palavra, estão disseminados na sociedade humana e nas diversas culturas. 96. Todas
estas são as fontes, principais ou subsidiárias, da catequese, as quais, de
modo algum, devem ser entendidas em sentido unívoco. (303) A Sagrada
Escritura « é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito
Santo »; (304) e a Sagrada Tradição « transmite integralmente aos sucessores
dos Apóstolos, a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito
Santo ». (305) O Magistério tem a tarefa de « interpretar autenticamente a
Palavra de Deus », (306) cumprindo, em nome de Jesus Cristo, um serviço
eclesial fundamental. Tradição, Escritura e Magistério, intimamente conexos e
unidos, são, « cada qual a seu modo », (307) as fontes essenciais da
catequese. As «
fontes » da catequese têm, cada uma, uma linguagem própria, à qual se dá
forma através de uma rica variedade de « documentos da fé ». A catequese é
tradição viva de tais documentos: (308) perícopes bíblicas, textos
litúrgicos, escritos dos Padres da Igreja, formulações do Magistério,
símbolos da fé, testemunhos dos santos e reflexões teológicas. A fonte
viva da Palavra de Deus e as « fontes » que dela derivam e nas quais
ela se exprime, fornecem à catequese os critérios para transmitir a sua
mensagem a todos aqueles que amadureceram a decisão de seguir Jesus Cristo. Os
critérios para a apresentação da mensagem 97. Os
critérios para apresentar a mensagem evangélica na catequese são intimamente
correlacionados entre si, uma vez que brotam de uma única fonte. – A
mensagem centrada na pessoa de Jesus Cristo (cristocentrismo), por sua
dinâmica interna, introduz à dimensão trinitária da mesma mensagem. – O
anúncio da Boa Nova do Reino de Deus, centrado no dom da salvação,
implica uma mensagem de libertação. O caráter eclesial
da mensagem remete ao seu caráter histórico, uma vez que a catequese,
como o conjunto da evangelização, realiza-se no « tempo da Igreja ». – A
mensagem evangélica, uma vez que é Boa Nova destinada a todos os povos, busca
a inculturação, a qual poderá ser atuada em profundidade, somente se a
mensagem for apresentada em toda a sua integridade e pureza. – A
mensagem evangélica é necessariamente uma mensagem orgânica, com uma
própria hierarquia de verdade. É esta visão harmoniosa do Evangelho que o
converte em evento profundamente significativo para a pessoa humana. Ainda que
estes critérios sejam válidos para todo o ministério da Palavra, eles serão
agora desenvolvidos em relação à catequese. O
cristocentrismo da mensagem evangélica 98. Jesus
Cristo não apenas transmite a Palavra de Deus: Ele é a Palavra de
Deus. Por isso, a catequese, toda ela,diz respeito a Ele. Neste
sentido, o que caracteriza a mensagem transmitida pela catequese é, antes de
mais nada, o « cristocentrismo », (309) que deve ser entendido em vários
sentidos: – Ele
significa, em primeiro lugar que, no centro da catequese nós encontramos
essencialmente uma Pessoa: é a Pessoa de Jesus de Nazaré, « Filho único do
Pai, cheio de graça e de verdade ». (310) Na realidade, a tarefa fundamental
da catequese é apresentar Cristo: todo o resto, em referência a Ele. Aquilo
que, de forma definitiva, ela favorece, é a seqüela de Cristo, a comunhão com
Ele: todo elemento da mensagem tende a isto. – O
cristocentrismo, em segundo lugar, significa que Jesus está no « centro da
história da salvação », (311) apresentada pela catequese. Ele, de fato, é o
evento último, para o qual converge toda a história sagrada. Ele, vindo na «
plenitude dos tempos » (Gal 4,4), é « a chave, o centro e o fim da
história humana ». (312) A mensagem catequética ajuda o cristão a situar-se
na história e a inserir-se ativamente nesta, mostrando como Cristo é o
sentido último desta história. – O
cristocentrismo significa, além disso, que a mensagem evangélica não provém
do homem, mas é Palavra de Deus. A Igreja e, em seu nome, todo catequista,
pode dizer, sem medo de errar: « Minha doutrina não é minha, mas daquele que
me enviou » (Jo 7,16). Por isso, tudo aquilo que a catequese
transmite, são « os ensinamentos de Jesus Cristo, a Verdade que Ele comunica,
ou, mais precisamente, a Verdade que Ele é ». (313) O cristocentrismo obriga
a catequese a transmitir aquilo que Jesus ensina a propósito de Deus, do
homem, da felicidade, da vida mortal, da morte... sem permitir-se mudar em
nada o seu pensamento. (314) Os
Evangelhos, que narram a vida de Jesus, estão no centro da mensagem
catequética. Dotados, eles próprios, de uma « estrutura catequética », (315)
exprimem o ensinamento que se propunha às primeiras comunidades cristãs e que
transmitia a vida de Jesus, a sua mensagem e as suas ações salvíficas. Na
catequese, « os quatro Evangelhos ocupam um lugar central, já que Cristo
Jesus é o centro deles ». (316) O
cristocentrismo trinitário da mensagem evangélica 99. A
Palavra de Deus, encarnada em Jesus de Nazaré, Filho da Virgem Maria, é a
Palavra do Pai, que fala ao mundo por meio do seu Espírito. Jesus remete
constantemente ao Pai, de quem se sabe Filho Único, e ao Espírito Santo, do
qual se sabe Ungido. Ele é o « caminho » que introduz no mistério íntimo de
Deus. (317) O
cristocentrismo da catequese, em virtude da sua dinâmica interna, conduz à
confissão da fé em Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. É um cristocentrismo
essencialmente trinitário. Os cristãos, no Batismo, são configurados a
Cristo, « Um da Trindade », (318) e esta configuração põe os batizados, «
filhos no Filho », em comunhão com o Pai e com o Espírito Santo. Por isso, a
sua fé é radicalmente trinitária. « O mistério da Santíssima Trindade é o
mistério central da fé e da vida cristã ». (319) 100. O
cristocentrismo trinitário da mensagem evangélica induz a catequese a estar
atenta, entre outras coisas, ao seguintes aspectos: – A
estrutura interna da catequese; toda modalidade de apresentação será sempre
cristocêntrica e trinitária: « Por Cristo, ao Pai, no Espírito ». (320) Uma
catequese que omitisse uma destas dimensões, ou desconhecesse a orgânica
ligação das mesmas, correria o risco de trair da originalidade da mensagem
cristã. (321) – Seguindo
a mesma pedagogia de Jesus, na sua Revelação do Pai, de Si mesmo como Filho,
e do Espírito Santo, a catequese mostrará a vida íntima de Deus, a partir das
obras salvíficas em favor da humanidade. (322) As obras de Deus revelam quem
Ele é em Si mesmo, enquanto o mistério do seu ser íntimo ilumina a
inteligência de todas as suas obras. Analogicamente, assim sucede nas
relações humanas: as pessoas mostram-se através de suas ações e, quanto mais
as conhecemos, tanto mais mais compreendemos suas ações. (323) – A
apresentação do ser íntimo de Deus revelado por Jesus, uno na essência e
trino nas pessoas, mostrará as implicações vitais para a vida dos seres humanos.
Confessar um único Deus significa que « o homem não deve submeter a própria
liberdade pessoal, de maneira absoluta, a nenhum poder terreno ». (324)
Significa, além disso, que a humanidade, criada à imagem de um Deus que é «
comunhão de pessoas », é chamada a ser uma sociedade fraterna, composta de
filhos de um mesmo Pai, iguais em dignidade pessoal. (325) As implicações
humanas e sociais da concepção cristã de Deus são imensas. A Igreja, ao
professar a fé na Trindade e ao anunciá-la ao mundo, se autocompreende como «
um povo agregado na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo ». (326) Uma
mensagem que anuncia a salvação 101. A
mensagem de Jesus sobre Deus é uma boa nova para a humanidade. Jesus, de
fato, anunciou o Reino de Deus: (327) uma nova e definitiva intervenção de
Deus, com um poder transformador tão grande e até mesmo superior àquele que
utilizou na criação do mundo. (328) Neste sentido, « como núcleo e centro da
sua Boa Nova, Cristo anuncia a salvação, esse grande dom de Deus que é não somente
libertação de tudo aquilo que oprime o homem, mas é sobretudo libertação do
pecado e do Maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser por Ele
conhecido, de vê-Lo e de se entregar a Ele ». (329) A
catequese transmite esta mensagem do Reino, central na pregação de Jesus. E
ao fazê-lo, a mensagem « será pouco a pouco aprofundada, desenvolvida nos
seus corolários implícitos », (330) mostrando as grandes repercussões que
tem, para as pessoas e para o mundo. 102. Nesta
explicitação do kerigma evangélico de Jesus, a catequese sublinha os
seguintes aspectos fundamentais: – Jesus,
com o advento do Reino, anuncia e revela que Deus não é um ser distante e
inacessível, « uma potência anônima e longínqua », (331) mas sim o Pai, que
está presente em meio às suas criaturas, operando com o seu amor e o seu
poder. Este testemunho sobre Deus como Pai, oferecido de maneira simples e
direta, é fundamental na catequese. – Jesus,
ao mesmo tempo, ensina que Deus, com o seu Reino, oferece o dom da salvação
integral, liberta do pecado, introduz na comunhão com o Pai, concede a
filiação divina e promete a vida eterna, vencendo a morte. (332) Esta
salvação integral é, ao mesmo tempo, imanente e escatológica, já que « tem
certamente o seu começo nesta vida, mas que terá realização completa na
eternidade ». (333) – Jesus,
ao anunciar o Reino, anuncia a justiça de Deus: proclama o juízo divino e a
nossa responsabilidade. O anúncio do juízo de Deus, com o seu poder de
formação das consciências, é um conteúdo central do Evangelho e uma boa nova
para o mundo. E o é tanto para aqueles que sofrem pela falta de justiça,
quanto para aqueles que lutam para instaurá-la; o é, também, para aqueles que
não souberam amar nem ser solidários, porque é possível a penitência e o
perdão, já que na cruz de Cristo obtemos a redenção do pecado. O chamado à
conversão e a crer no Evangelho do Reino, que é um reino de justiça, amor e
paz e à luz do qual seremos julgados, é fundamental para a catequese. – Jesus
declara que o Reino de Deus se inaugura com Ele, na sua própria pessoa. (334)
Revela, de fato, que Ele próprio, constituído Senhor, assume a realização
daquele Reino, até que o entregue, plenamente consumado, ao Pai, quando virá
de novo, na glória. (335) « O Reino já está presente, em mistério, aqui na terra.
Chegando o Senhor, ele se consumará ». (336) – Jesus
ensina, igualmente, que a comunidade dos seus discípulos, a sua Igreja, «
constitui o germe e o início deste Reino » (337) e que, como fermento na
massa, o que ela deseja é que o Reino de Deus cresça no mundo, como uma
imensa árvore, incorporando todos os povos e todas as culturas. « A Igreja
está, efetiva e concretamente, a serviço do Reino ». (338) – Jesus
ensina, finalmente, que a história da humanidade não caminha rumo ao nada,
mas sim que, com os seus aspectos de graça e pecado, é n'Ele assumida por
Deus, para ser transformada. Ela, na sua atual peregrinação rumo à casa do
Pai, já oferece uma pregustação do mundo futuro onde, assumida e purificada,
alcançará a sua perfeição. « Por conseguinte, a evangelização não pode deixar
de comportar o anúncio profético do além, vocação profunda e definitiva do
homem, ao mesmo tempo em continuidade e em descontinuidade com a situação
presente ». (339) Uma
mensagem de libertação 103. A Boa
Nova do Reino de Deus, que anuncia a salvação, inclui uma « mensagem de
libertação ». (340) Ao anunciar este Reino, Jesus se dirigia de maneira
particularíssima aos pobres: « Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é
o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis
saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir! » (Lc
6,20-21). Estas bem-aventuranças de Jesus, dirigidas àqueles que sofrem,
são o anúncio escatológico da salvação que o Reino traz consigo. Elas
registram aquela experiência tão dilacerante, à qual o Evangelho é tão
sensível: a pobreza, a fome e o sofrimento da humanidade. A
comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja, compartilha hoje a mesma
sensibilidade que teve, então, o seu Mestre. Com profunda dor, ela volta a
sua atenção para aqueles « povos comprometidos, como bem sabemos, com toda a
sua energia no esforço e na luta por superar tudo aquilo que os condena a
ficarem à margem da vida: penúrias, doenças crônicas e endêmicas,
analfabetismo, pauperismo, injustiças nas relações internacionais,...
situações de neocolonialismo econômico e cultural ». (341) Todas as formas de
pobreza « não apenas econômica, mas também cultural e religiosa » (342)
preocupam a Igreja. Como
dimensão importante da sua missão, « (a Igreja) tem o dever de anunciar a
libertação de milhões de seres humanos, sendo muitos destes seus filhos
espirituais; o dever de ajudar uma tal libertação a nascer, de dar testemunho
em favor dela e de envidar esforços para que ela seja total ». (343) 104. Para
preparar os cristãos a esta tarefa, a catequese estará atenta, entre outras
coisas, aos seguintes aspectos: – Situará
a mensagem de libertação na perspectiva da « finalidade especificamente
religiosa da evangelização », (344) já que esta perderia a sua razão de ser,
« se se apartasse do eixo religioso que a rege: o Reino de Deus, antes de
toda e qualquer outra coisa, no seu sentido plenamente teológico ». (345) Por
isso, a mensagem da libertação « não pode ser limitada à simples e restrita
dimensão econômica, política, social e cultural; mas deve ter em vista o
homem todo, incluindo asua abertura para o absoluto, mesmo o Absoluto de Deus
». (346) – A
catequese, na tarefa da educação moral, apresentará a moral social cristã
como uma exigência da justiça de Deus e uma conseqüência da « libertação
radical realizada por Cristo ». (347) É esta, com efeito, a Boa Nova que os
cristãos professam, com o coração repleto de esperança: Cristo libertou o
mundo e continua a libertá-lo. Aqui é gerada a « praxis » cristã, que
é o cumprimento do grande mandamento do amor. – Da mesma
forma, na tarefa da iniciação à missão, a catequese suscitará nos catecúmenos
e nos catequizandos, a « opção preferencial pelos pobres » (348) que, « longe
de ser um sinal de particularismo ou de sectarismo, manifesta a
universalidade da natureza e da missão da Igreja. Esta opção não é exclusiva
», (349) mas comporta « o empenho pela justiça, segundo o papel, a vocação e
as circunstâncias pessoais ». (350) A
eclesialidade da mensagem evangélica 105. A
natureza eclesial da catequese confere à mensagem evangélica transmitida um
intrínseco caráter eclesial. A catequese tem sua origem na confissão de fé da
Igreja e leva à confissão de fé do catecúmeno e do catequizando. A primeira
palavra oficial que a Igreja dirige ao batizando adulto, depois de ter
perguntado o seu nome, é: « O que pedes à Igreja de Deus? ». « A fé »
é a resposta do batizando. (351) O catecúmeno, de fato, sabe que o Evangelho
que ele descobriu e deseja conhecer, é vivo no coração dos crentes. A
catequese não é outra coisa senão o processo de transmissão do Evangelho, tal
como a comunidade cristã recebeu-o, compreende-o, celebra-o, vive-o e o
comunica de diversos modos. Por isso,
quando a catequese transmite o mistério de Cristo, na sua mensagem ressoa a
fé de todo o Povo de Deus, ao longo do curso da história: a fé dos apóstolos,
que a receberam do próprio Cristo e da ação do Espírito Santo; a fé dos
mártires, que a confessaram e a confessam com seu sangue; a fé dos santos,
que a viveram e a vivem em profundidade; a fé dos Padres e dos Doutores da
Igreja, que a ensinaram luminosamente; a fé dos missionários, que a anunciam
continuamente; a fé dos teólogos, que ajudam a melhor compreendê-la; e enfim,
a fé dos pastores, que a conservam com zelo e amor, e a interpretam com
autenticidade. Na verdade, na catequese está presente a fé de todos aqueles
que crêem e se deixam conduzir pelo Espírito Santo. 106. Esta
fé, transmitida pela comunidade eclesial, é uma só. Ainda que os discípulos
de Jesus Cristo formem uma comunidade espalhada por todo o mundo, e ainda que
a catequese transmita a fé através de linguagens culturais muito diferentes,
o Evangelho que se entrega é um só, a confissão de fé é única e um só é o
Batismo: « um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de
todos » (Ef 4,5). A
catequese é, portanto, na Igreja, o serviço que introduz os catecúmenos e os
catequizandos na unidade da confissão de fé. (352) Por sua própria natureza,
alimenta o vínculo de unidade, (353) criando a consciência de pertencer a uma
grande comunidade, que nem o espaço nem o tempo conseguem limitar: « Desde o
justo Abel até o último dos eleitos, até às extremidades da terra, até o fim
do mundo ». (354) O caráter
histórico do mistério da salvação 107. A
confissão de fé dos discípulos de Jesus Cristo nasce de uma Igreja peregrina,
enviada em missão. Não é ainda a proclamação gloriosa do fim do caminho, mas
aquela que corresponde ao « tempo da Igreja ». (355) A « economia
da salvação » tem, por isso, um caráter histórico, uma vez que se realiza
no tempo: « ...iniciou no passado, desenvolveu-se e alcançou o seu
ponto mais elevado em Cristo, estende o seu poder no presente e espera
por sua consumação no futuro ». (356) Por isso,
a Igreja, ao transmitir hoje a mensagem cristã, a partir da viva consciência
que tem desta mensagem, « recorda » constantemente os eventos salvíficos do
passado, narrando-os. Interpreta, à luz dos mesmos, os atuais eventos da
história humana, nos quais o Espírito de Deus renova a face da terra, e
permanece numa confiante expectativa da vinda do Senhor. Na catequese
patrística, a narração (narratio) das maravilhas realizadas por Deus e
a espera (expectatio) do retorno de Cristo acompanhavam sempre a
exposição dos mistérios da fé. (357) 108. O
caráter histórico da mensagem cristã obriga a catequese a considerar os
seguintes aspectos: –
Apresentar a história da salvação por meio de uma catequese bíblica que faça
conhecer as « obras e as palavras » com a quais Deus se revelou à
humanidade: as grandes etapas do Antigo Testamento, mediante as quais
preparou o caminho do Evangelho; (358) a vida de Jesus, Filho de Deus,
incarnado no seio de Maria, e que, com suas ações e seu ensinamento, levou a
cumprimento a Revelação; (359) e a história da Igreja, a qual transmite a
Revelação. Também esta história, lida a partir da fé, é parte fundamental do
conteúdo da catequese. – Ao
explicar o Símbolo da fé e o conteúdo da moral cristã, através de uma
catequese doutrinal, a mensagem evangélica deve iluminar o « hoje » da
história da salvação. De fato, « ...o ministério da palavra, além de recordar
a revelação das admiráveis obras realizadas por Deus no passado... interpreta
também, à luz desta revelação, a vida humana dos nossos dias, os sinais dos
tempos e as realidades deste mundo, uma vez que é nele que se atua o projeto
de Deus para a salvação do homem ». (360) – Situar
os sacramentos dentro da história da salvação, por meio de uma catequese
mistagógica, a qual: « ...relê e revive todos estes grandes acontecimentos da
história da salvação no "hoje" da sua liturgia ». (361) A
referência ao « hoje » histórico-salvífico é essencial nesta catequese.
Ajuda-se, assim, os catecúmenos e catequizandos, « ...a se abrirem a esta
compreensão "espiritual" da Economia da salvação... ». (362) – As «
obras e palavras » da Revelação remetem ao « mistério contido nesta ». (363)
A catequese ajudará a realizar a passagem do sinal para o mistério.
Levará a descobrir, por detrás da humanidade de Jesus, a sua condição de
Filho de Deus; por detrás da história da Igreja, o seu mistério como «
sacramento de salvação »; por detrás dos « sinais dos tempos », as pegadas da
presença de Deus e os sinais do Seu plano. A catequese mostrará, assim, o
conhecimento típico da fé, « que é conhecimento através dos sinais ». (364) A
inculturação da mensagem evangélica (365) 109. A
Palavra de Deus se fez homem, homem concreto, situado no tempo e no espaço,
radicado numa cultura determinada: « Cristo..., por sua encarnação, se ligou
às condições sociais e culturais dos homens com quem conviveu ». (366) Esta é
a « inculturação » original da Palavra de Deus e o modelo de referência para
toda a evangelização da Igreja « chamada a levar a força do Evangelho ao
coração da cultura e das culturas ». (367) A «
inculturação » (368) da fé, pela qual se assumem, num admirável intercâmbio,
« todas as riquezas das nações, herança de Cristo » (369) é um processo
profundo e global e um caminho lento. (370) Não é uma simples adaptação
externa que, para tornar mais atraente a mensagem cristã, limita-se a
cobri-la, de maneira decorativa, com um verniz superficial. Trata-se,
ao contrário, da penetração do Evangelho nos estratos mais recônditos das
pessoas e dos povos, alcançando-os « ...de maneira vital, em profundidade,
isto é, até às suas raízes, a cultura e as culturas do homem » (371) Neste
trabalho de inculturação, todavia, as comunidades cristãs deverão fazer um
discernimento: trata-se, por um lado, de « assumir» (372) aquelas riquezas
culturais que sejam compatíveis com a fé; mas, por outro lado, trata-se
também de ajudar a « purificar » (373) e « transformar » (374) aqueles
critérios, modos de pensar e estilos de vida que estão em contraste com o Reino
de Deus. Este discernimento é baseado em dois princípios de base: « a
compatibilidade com o Evangelho e a comunhão com a Igreja universal ». (375)
Todo o Povo de Deus deve participar deste processo, que « ...requer
gradatividade, para que seja verdadeiramente uma expressão da experiência
cristã da comunidade... (376) 110. Nesta
inculturação da fé, apresentam-se concretamente, para a catequese, diversas
tarefas. Entre estas, devemos ressaltar: –
Considerar a comunidade eclesial como principal fator de inculturação. Uma
expressão e, ao mesmo tempo, um eficaz instrumento dessa tarefa, é
representado pelo catequista que, juntamente com um profundo senso religioso,
deverá possuir uma viva sensibilidade social e ser bem radicado no seu
ambiente cultural. (377) – Elaborar
Catecismos locais, que respondam às exigências que provêm das diferentes
culturas, (378) apresentando o Evangelho em relação às aspirações,
interrogações e problemas que existem nessas mesmas culturas. – Realizar
uma oportuna inculturação no Catecumenato e nas instituições catequéticas,
incorporando, com discernimento, a linguagem, os símbolos e os valores da
cultura na qual vivem os catecúmenos e os catequizandos. –
Apresentar a mensagem cristã de modo a tornar aptos a « dar razão da vossa
esperança » (1 Pd 3,15) aqueles que devem anunciar o Evangelho em meio
a culturas freqüentemente pagãs e às vezes póscristãs. Uma apologética bem
feita, que ajude o diálogo fé-cultura, torna-se hoje imprescindível. A integridade
da mensagem evangélica 111. Na
tarefa da inculturação da fé, a catequese deve transmitir a mensagem
evangélica na sua integridade e pureza. Jesus anuncia o Evangelho
integralmente: « ...porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer »
(Jo 15,15). Esta mesma integridade, Cristo a exige dos seus
discípulos, ao enviá-los em missão: « ...ensinando-as a observar tudo quanto
vos ordenei » (Mt 28,19). Por isso, um critério fundamental da
catequese é o de salvaguardar a integridade da mensagem, evitando
apresentações parciais ou deformadas do mesmo. « Para ser perfeita a oblação
da sua fé, aqueles que se tornam discípulos de Cristo têm o direito de
receber a « palavra da fé » não mutilada, falsificada ou diminuída, mas sim
plena e integral, com todo o seu rigor e com o todo o seu vigor ». (379) 112. Duas
dimensões, intimamente unidas, submetem-se a este critério. Trata-se, de
fato, de: –
Apresentar a mensagem evangélica íntegra, sem deixar passar em
silêncio nenhum aspecto fundamental, ou realizar uma seleção no depósito da
fé. (380) A catequese, ao contrário, « deve preocupar-se com que o tesouro da
mensagem cristã seja fielmente anunciado na sua integridade ». (381) Isto
deve cumprir-se, todavia, gradualmente, seguindo o exemplo da pedagogia divina,
mediante a qual Deus se revelou de modo progressivo e gradual. A integridade
deve ser acompanhada pela adaptação. A
catequese, conseqüentemente, parte de uma simples proposição da estrutura
íntegra da mensagem cristã e a expõe de modo apropriado à capacidade dos
destinatários. Sem limitar-se a esta exposição inicial, a catequese,
gradualmente, proporá a mensagem de maneira sempre mais ampla e explícita, de
acordo com as capacidades do catequizando e o caráter próprio da catequese.
(382) Estes dois níveis de exposição íntegra da mensagem são denominados «
integridade intensiva » e « integridade extensiva ». –
Apresentar a mensagem evangélica autêntica, em toda a sua pureza, sem
reduzir as suas exigências por medo de uma rejeição e sem impor pesados ônus
que a mensagem não inclui, pois o jugo de Jesus é suave. (383) O critério
da autenticidade é intimamente ligado com o da inculturação, pois esta tem a
função de « traduzir » (384) o essencial da mensagem, numa determinada
linguagem cultural. Nesta necessária tarefa, ocorre sempre uma tensão: « A
evangelização perderia algo da sua força e da sua eficácia, se ela porventura
não levasse em consideração o povo concreto a que ela se dirige... » todavia
porém, « ...correria o risco de perder a sua alma e de se esvaecer, se fosse
despojada ou fosse desnaturada quanto ao seu conteúdo, sob o pretexto de
melhor traduzi-la... ». (385) 113. Nesta
complexa relação entre a inculturação e a integridade da mensagem cristã, o
critério que se deve seguir é o da atitude evangélica de « abertura
missionária pela salvação integral do mundo ». 386 Esta deve saber conjugar a
aceitação dos valores verdadeiramente humanos e religiosos, para além de
qualquer fechamento imobilista, com o empenho missionário de anunciar toda a
verdade do Evangelho, sem cair em fáceis acomodações, que levariam a
enfraquecer o Evangelho e a secularizar a Igreja. A autenticidade evangélica
exclui ambas as atitudes, que são contrárias ao verdadeiro significado da
missão. Uma
mensagem orgânica e hierarquizada 114. A
mensagem que a catequese transmite possui um « caráter orgânico e
hierarquizado », (387) constituindo uma síntese coerente e vital da fé. Ela
se organiza em torno do mistério da Santíssima Trindade, numa perspectiva
cristocêntrica, uma vez que é « a fonte de todos os outros mistérios da fé; é
a luz que os ilumina... ». (388) A partir deste, a harmonia do conjunto a
mensagem requer uma « hierarquia de verdades », (389) uma vez que é diversa a
conexão de cada uma destas, com o fundamento da fé. Todavia, esta hierarquia
« não significa que algumas verdades pertençam à fé menos do que outras, mas
sim que algumas verdades se alicerçam sobre outras que são mais importantes e
por elas são iluminadas ». (390) 115. Todos
os aspectos e as dimensões da mensagem cristã participam desta dimensão
orgânica e hierarquizada: – A
história da salvação, narrando as « maravilhas de Deus » (mirabilia Dei),
aquilo que fez, faz e fará por nós, se organiza em torno de Jesus Cristo, «
centro da história da salvação ». (391) A preparação ao Evangelho, no Antigo
Testamento, a plenitude da Revelação em Jesus Cristo e o tempo da Igreja,
estruturam toda a história salvífica, da qual a criação e a escatologia são o
seu princípio e o seu fim. – O
Símbolo apostólico mostra como a Igreja tenha sempre querido apresentar o
mistério cristão numa síntese vital. Este Símbolo é a síntese e a chave de
leitura de toda a Escritura e de toda a doutrina da Igreja, que se ordena
hierarquicamente em torno dele. (392) – Os
sacramentos são, também estes, um todo orgânico que, como força regeneradora,
nascem do mistério pascal de Jesus Cristo, formando « um organismo no qual
cada um especificamente tem o seu lugar vital ». (393) A Eucaristia ocupa,
neste organismo, um posto único, para o qual os demais sacramentos são
ordenados: ela se apresenta como « o sacramento dos sacramentos ». (394) – O
dúplice mandamento de amor a Deus e ao próximo é, na mensagem moral, a
hierarquia dos valores que o próprio Jesus estabeleceu: « Desses dois
mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas » (Mt 22,40). O amor a
Deus e o amor ao próximo, que resumem o decálogo, se vividos no espírito das
bem-aventuranças evangélicas, constituem a Magna Carta da vida cristã
que Jesus proclamou no Sermão da Montanha. (395) – O Pai
Nosso, resumindo a essência do Evangelho, sintetiza e hierarquiza as imensas
riquezas de oração contidas na Sagrada Escritura e em toda a vida da Igreja.
Esta oração, proposta aos discípulos pelo próprio Jesus, deixa transparecer a
confiança filial e os desejos mais profundos com os quais uma pessoa pode
dirigir-se a Deus. (396) Uma
mensagem significativa para a pessoa humana 116. A
Palavra de Deus, ao fazer-Se homem, assume a natureza humana no seu todo,
exceto o pecado. Deste modo, Jesus Cristo, que é a «imagem do Deus
invisível » (Col 1,15), é também homem perfeito. É daí que se
compreende que « na realidade, o mistério do homem só se torna claro
verdadeiramente, no mistério do Verbo encarnado ». (397) A
catequese, ao apresentar a mensagem cristã, não apenas mostra quem é Deus e
qual é o seu desígnio salvífico mas, como o próprio Jesus fez, revela também
plenamente o homem ao homem, e lhe descobre a sua altíssima vocação. (398) A
Revelação, de fato, « ...não está isolada da vida, nem justaposta a ela de
maneira artificial. Mas diz respeito ao sentido último da existência, que ela
esclarece totalmente, para inspirá-la e para examiná-la à luz do Evangelho ».
(399) A relação
da mensagem cristã com a experiência humana não é uma simples questão
metodológica, mas germina da própria finalidade da catequese, a qual procura
colocar em comunhão a pessoa humana com Jesus Cristo. Ele, na sua vida
terrestre, viveu plenamente a sua humanidade: « Trabalhou com mãos humanas,
pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração
humano ». (400) Portanto, « Tudo o que Cristo viveu foi para que pudéssemos
vivê-lo n'Ele e para que Ele o vivesse em nós ». (401) A catequese trabalha
por esta identidade de experiência humana entre Jesus Mestre e discípulo e
ensina a pensar como Ele, agir como Ele, amar como Ele. (402) Viver a
comunhão com Cristo é fazer experiência da vida nova da graça. (403) 117. Por
este motivo, eminentemente cristológico, a catequese, apresentando a mensagem
cristã, « deve, portanto, trabalhar para tornar os homens atentos às suas
mais importantes experiências, tanto pessoais quanto sociais, e deve também
esforçar-se por submeter à luz do Evangelho, as interrogações que nascem de
tais situações, de modo a estimular nos próprios homens, um justo desejo de
transformar a impostação de suas existências ». (404) Neste sentido: – Na
primeira evangelização, própria do pré-catecumenato ou da pré-catequese,
catequese o anúncio do Evangelho se fará sempre em íntima conexão com a
natureza humana e as suas aspirações, mostrando como ele satisfaz plenamente
o coração humano. (405) – Na
catequese bíblica, se ajudará a interpretar a vida humana atual, à luz das
experiências vividas pelo Povo de Israel, por Jesus Cristo e pela comunidade
eclesial, na qual o Espírito de Cristo ressuscitado vive e opera
continuamente. – Na
explicitação do Símbolo, a catequese mostrará como os grandes temas da fé
(criação, pecado original, Encarnação, Páscoa, Pentecostes, escatologia...)
são sempre fonte de vida e de luz para o ser humano. – A
catequese moral, ao apresentar no que consiste a vida digna do Evangelho
(406) e ao promover as bem-aventuranças evangélicas como espírito que permeia
o decálogo, radicar-las-á nas virtudes humanas, presentes no coração do
homem. (407) – Na
catequese litúrgica, deverá ser constante a referência às grandes
experiências humanas, representadas pelos sinais e símbolos da ação
litúrgica, a partir da cultura judaica e cristã. (408) Princípio
metodológico para a apresentação da mensagem (409) 118. As
normas e os critérios apresentados neste capítulo e « que dizem respeito à
apresentação do conteúdo da catequese, devem estar presentes e ser atuantes
nos diversos tipos de catequese: catequese bíblica e litúrgica, síntese
doutrinal, interpretação das situações concretas da existência humana, etc...
». (410) Destes
critérios e normas, todavia, não se pode deduzir a ordem que se deve observar
na exposição dos conteúdos. De fato, « é possível que a situação presente da
catequese ou razões de método ou de pedagogia aconselhem o predispor a
comunicação das riquezas do conteúdo da catequese de uma determinada maneira
em vez de outra ». (411) Pode-se partir de Deus para chegar a Cristo e
vice-versa; da mesma maneira, pode-se partir do homem para chegar a Deus, e
inversamente. A adoção de uma ordem determinada na apresentação da mensagem,
é condicionada pelas circunstâncias e pela situação de fé de quem recebe a
catequese. É preciso
encontrar o método pedagógico mais apropriado às circunstâncias que caracterizam
a comunidade eclesial ou os destinatários concretos aos quais se dirige a
catequese. Daí a necessidade de pesquisar cuidadosamente e de encontrar as
vias e modos que melhor respondam às diversas situações. Cabe aos
Bispos, neste campo, oferecer normas mais precisas e aplicá-las mediante
Diretórios Catequéticos, Catecismos para as diversas idades e condições
culturais, e com outros meios considerados mais oportunos. (412) II CAPÍTULO « Esta é a nossa fé, esta é a fé da igreja » « Toda
Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para
corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja
perfeito, qualificado para toda boa obra » (2 Tm 3,16). 119. Este
capítulo reflete acerca do conteúdo da catequese tal como ele é exposto pela
Igreja nas sínteses de fé que, oficialmente, elabora e propõe nos seus
catecismos. A Igreja
sempre se valeu de formulações da fé que, em forma breve, contêm o essencial
daquilo que crê e vive: textos neotestamentários, símbolos ou profissões,
fórmulas litúrgicas, orações eucarísticas. Mais tarde, considerou-se também
conveniente oferecer uma explicitação mais ampla da fé, na forma de uma
síntese orgânica, mediante os Catecismos que em numerosas Igrejas locais
foram elaborados nestes últimos séculos. Em dois momentos históricos, por
ocasião do Concílio de Trento e nos nossos dias, decidiu-se ser oportuno
oferecer uma exposição orgânica da fé, mediante um Catecismo de caráter
universal, como ponto de referência para a catequese de toda a Igreja. Assim,
de fato, quis proceder João Paulo II, com a promulgação do Catecismo da
Igreja Católica, no dia 11 de outubro de 1992. O presente
capítulo procura situar estes instrumentos oficiais da Igreja, como o são os
catecismos, em relação à atividade ou à prática catequética. Em
primeiro lugar, refletir-se-á sobre o Catecismo da Igreja Católica,
procurando esclarecer o papel que lhe cabe no conjunto da catequese eclesial.
Depois, analisar-se-á a necessidade dos Catecismos locais, que têm o objetivo
de adaptar o conteúdo da fé às diferentes situações e culturas e propor-se-á
algumas diretrizes para facilitar a elaboração dos mesmos. A Igreja, ao
contemplar a riqueza de conteúdo da fé exposta nos instrumentos que os
próprios Bispos propõem ao Povo de Deus, e que, como uma « sinfonia » (413)
exprimem aquilo que ela crê, celebra, vive e proclama: « Esta é a nossa fé,
esta é a fé da Igreja ». O
Catecismo da Igreja Católica e o Diretório Geral para a Catequese 120. O
Catecismo da Igreja Católica e o Diretório Geral para a Catequese são dois
instrumentos distintos e complementares, a serviço da ação catequizadora da
Igreja. – O
Catecismo da Igreja Católica é « uma exposição da fé da Igreja e da doutrina
católica, atestadas e iluminadas pelas Sagradas Escrituras, pela Tradição
Apostólica e pelo Magistério da Igreja ». (414) – O
Diretório Geral para a Catequese é a proposição dos « fundamentais princípios
teológico-pastorais, inspirados no Magistério da Igreja e, de modo
particular, no Concílio Vaticano II, aptos a poder orientar a coordenação »
(415) da atividade catequética na Igreja. Ambos os
instrumentos, tomados cada um no seu próprio gênero e na sua específica
autoridade, completam-se mutuamente. – O
Catecismo da Igreja Católica é um ato do Magistério do Papa, com o qual, no
nosso tempo, ele sintetiza normativamente, em virtude de sua autoridade
apostólica, a globalidade da fé católica e a oferece, antes de mais nada, às
Igrejas, como ponto de referência para a exposição autêntica do conteúdo da
fé. – O
Diretório Geral para a Catequese, por sua vez, tem o valor que a Santa Sé
normalmente atribui a estes instrumentos de orientação, aprovando-os e
confirmando-os. É um subsídio oficial para a transmissão da mensagem
evangélica e para o conjunto do ato catequético. O caráter
de complementaridade de ambos os instrumentos justifica o fato, como dito no Prefácio,
que o presente Diretório Geral para a Catequese não dedique um capítulo à
exposição dos conteúdos da fé, como foi feito no Diretório de 1971, sob o
título: « Os elementos essenciais da mensagem cristã ». (416) Por este
motivo, no que concerne ao conteúdo da mensagem, o Diretório Geral
Catequético remete simplesmente ao Catecismo da Igreja Católica, do qual
pretende ser um instrumento metodológico para a sua aplicação concreta. A
apresentação do Catecismo da Igreja Católica que se expõe a seguir, não é
elaborada nem para resumir, nem para justificar tal instrumento do
Magistério, mas sim para facilitar uma melhor compreensão e recepção do
mesmo, na prática catequética. O
Catecismo da Igreja Católica Finalidade
e natureza do Catecismo da Igreja Católica 121. É o
próprio Catecismo da Igreja Católica a indicar, no seu Prefácio, a finalidade
que o orienta: « Este Catecismo tem o objetivo de apresentar uma exposição
orgânica e sintética dos conteúdos essenciais e fundamentais da doutrina
católica, tanto sobre a fé como sobre a moral, à luz do Concílio Vaticano II
e do conjunto da Tradição da Igreja ». (417) O
Magistério da Igreja, com o Catecismo da Igreja Católica, quis prestar um
serviço eclesial para o nosso tempo, reconhecendo-o: – «
instrumento válido e legítimo a serviço da comunhão eclesial ». (418)
Deseja fomentar o vínculo da unidade, facilitando nos discípulos de Jesus
Cristo, « a profissão de uma única fé, recebida dos Apóstolos »; (419) – « norma
segura para o ensinamento da fé ».(420) Diante do legítimo direito de
todo batizado, de conhecer da Igreja o que ela recebeu e aquilo em que ela
crê, o Catecismo da Igreja Católica oferece uma resposta clara. É, por isso,
um referencial obrigatório para a catequese e para as demais formas de
ministério da Palavra; – « ponto
de referência para os catecismos ou compêndios que são preparados nas
diversas regiões ». (421) O Catecismo da Igreja Católica, de fato, « não é
destinado a substituir os catecismos locais », (422) mas sim « a encorajar e
ajudar a redação de novos catecismos locais, que levem em consideração as
diversas situações e culturas, mas que preservem com cuidado a unidade da fé
e a fidelidade à doutrina católica ». (423) A natureza
ou caráter próprio deste documento do Magistério consiste no fato que ele se
apresenta como síntese orgânica da fé, de valor universal. Neste aspecto,
difere de outros documentos do Magistério, os quais não pretendem oferecer
tal síntese. É diferente, por outro lado, dos catecismos locais que, embora
na comunhão eclesial, são destinados a servir uma parte determinada do Povo
de Deus. A
articulação do Catecismo da Igreja Católica 122. O
Catecismo da Igreja Católica se articula em torno a quatro dimensões
fundamentais da vida cristã: a profissão de fé, a celebração litúrgica, a
moral evangélica e a oração. Estas quatro dimensões nascem de um mesmo
núcleo: o mistério cristão. Este: – « é o
objeto da fé (primeira parte); – é
celebrado e comunicado nas ações litúrgicas (segunda parte); – é
presente para iluminar e amparar os Filhos de Deus em suas ações (terceira
parte); – é
fundamento da nossa oração, cuja expressão privilegiada é o Pai Nosso,
e constitui o objeto da nossa súplica, do nosso louvor e da nossa intercessão
(quarta parte) ».(424) Esta
articulação quadripartita desenvolve os aspectos essenciais da fé: – crer em
Deus criador, Uno e Trino, e no seu desígnio salvífico; – ser
santificados por Ele, na vida sacramental; – amá-Lo
com todo o coração e amar ao próximo como a nós mesmos; – rezar,
na expectativa da vinda do seu Reino e do encontro face a face com Ele. O
Catecismo da Igreja Católica se refere, assim, à fé crida, celebrada, vivida
e pregada, e constitui um chamado à educação cristã integral. A
articulação do Catecismo da Igreja Católica remete à profunda unidade da vida
cristã. Nele se faz explícita a inter-relação entre « lex orandi », « lex
credendi » e « lex vivendi ». « A liturgia é, ela própria, oração;
a confissão da fé encontra o seu justo posto na celebração do culto. A graça,
fruto dos sacramentos, é a condição insubstituível do agir cristão, assim
como a participação na liturgia da Igreja, requer a fé. Se a fé não se
realiza nas obras, é morta e não pode dar frutos de vida eterna ». (425) Com esta
articulação tradicional em torno das quatro colunas que sustentam a
transmissão da fé (símbolo, sacramentos, decálogo e Pai Nosso), (426)
o Catecismo da Igreja Católica se oferece como referência doutrinal na
educação às quatro tarefas basilares da catequese (427) e para a elaboração
dos Catecismos locais, embora não pretendendo impor, nem àquela primeira, nem
a estes últimos, uma configuração determinada. O modo mais adequado de
ordenar os elementos do conteúdo da catequese deve responder às respectivas
circunstâncias concretas, e não deve ser estabelecido para toda a Igreja,
através do Catecismo comum. (428) A perfeita fidelidade à doutrina católica é
compatível com uma rica diversidade no modo de apresentá-la. A
inspiração do Catecismo da Igreja Católica: o cristocentrismo trinitário e a
sublimidade da vocação cristã da pessoa humana 123. O
eixo central do Catecismo da Igreja Católica é Jesus Cristo, « ...o Caminho,
a Verdade e a Vida » (Jo 14,6). O
Catecismo da Igreja Católica, centrado em Jesus Cristo, orienta-se em duas direções:
em direção a Deus e em direção à pessoa humana. – O
mistério de Deus, Uno e Trino, e a sua economia salvífica, inspira e
hierarquiza, a partir do seu interior, o Catecismo da Igreja Católica, no seu
conjunto e nas suas partes. A profissão de fé, a liturgia, a moral evangélica
e a oração têm, no Catecismo da Igreja Católica, uma inspiração trinitária,
que atravessa toda a obra, como fio condutor. (429) Este elemento inspirador
central contribui a dar ao texto um profundo caráter religioso. – O mistério
da pessoa humana é apresentado nas páginas do Catecismo da Igreja Católica,
sobretudo em alguns capítulos particularmente significativos: « O homem é
capaz de Deus », « A criação do homem », « O Filho de Deus se fez homem », «
A vocação do homem é a vida no Espírito »... e outros ainda. (430) Esta
doutrina, contemplada à luz da natureza humana de Jesus, homem perfeito,
mostra a altíssima vocação e o ideal de perfeição a que cada pessoa humana é
chamada. Na
verdade, toda a doutrina do Catecismo da Igreja Católica pode ser sintetizada
neste pensamento conciliar: « Na mesma revelação do mistério do Pai e de Seu
amor, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a
sua altíssima vocação ». (431) O gênero
literário do Catecismo da Igreja Católica 124. É
importante descobrir o gênero literário do Catecismo da Igreja Católica, para
respeitar a função que a autoridade da Igreja lhe atribui, no exercício e na
renovação da atividade catequética dos nossos dias. Os traços
principais que definem o gênero literário do Catecismo da Igreja Católica
são: – O
Catecismo da Igreja Católica é, antes de mais nada, um catecismo; ou seja, um
texto oficial do Magistério da Igreja que, com autoridade, reúne, de forma
precisa, na forma de síntese orgânica, os eventos e as verdades salvíficas
fundamentais, que exprimem a fécomum do povo de Deus e constituem a
indispensável referência de base para a catequese. – Pelo
fato de ser um catecismo, o Catecismo da Igreja Católica encerra aquilo que é
basilar e comum à vida cristã, sem apresentar como pertencentes à fé
interpretações particulares, que não são senão hipóteses pessoais ou opiniões
de alguma escola teológica. (432) – O
Catecismo da Igreja Católica é, além disso, um Catecismo de caráter
universal, oferecido a toda a Igreja. Nele se apresenta uma síntese
atualizada da fé, que incorpora a doutrina do Concílio Vaticano II e as
interrogações religiosas e morais da nossa época. Todavia, « pela sua própria
finalidade, este Catecismo não se propõe realizar as adaptações da exposição
e dos métodos catequéticos exigidos pelas diferenças de culturas, de idades,
da vida espiritual, de situações sociais e eclesiais daqueles a quem a
catequese é dirigida. Tais adaptações indispensáveis adaptações cabem aos
catecismos apropriados e, ainda mais aos que ministram instrução aos fiéis ».
(433) O «
Depósito da fé » e o Catecismo da Igreja Católica 125. O
Concílio Vaticano II se propôs como objetivo principal, o de melhor conservar
e apresentar o precioso depósito da doutrina cristã, para torná-lo mais
acessível aos fiéis de Cristo e a todos os homens de boa vontade. O conteúdo
de tal depósito é a Palavra de Deus, conservada na Igreja. O Magistério da
Igreja, tendo-se proposto a finalidade de elaborar um texto de referência
para o ensinamento da fé, escolheu deste precioso tesouro coisas novas e
coisas antigas, que considerou mais convenientes para a finalidade prefixada.
O Catecismo da Igreja Católica se apresenta, assim, como um serviço
fundamental: favorecer o anúncio do Evangelho e o ensinamento da fé, que
recebem a sua mensagem do depósito da Tradição e da Sagrada Escritura
confiado à Igreja, para que se realizem com total autenticidade. O Catecismo
da Igreja Católica não é a única fonte da catequese, uma vez que, como ato do
Magistério, não é superior à Palavra de Deus, mas a Ela serve. Todavia, é um
ato particularmente relevante de interpretação autêntica desta Palavra, em
vista do anúncio e da transmissão do Evangelho, em toda a sua verdade e
pureza. 126. À luz
desta relação entre Catecismo da Igreja Católica e o depósito da fé, convém
esclarecer duas questões de vital importância para a catequese: – a
relação entre a Sagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica, como pontos
de referência para o conteúdo da catequese; – a
relação entre a Tradição catequética dos Padres da Igreja, com a sua riqueza
de conteúdos, e de compreensão do processo catequético, e o Catecismo da
Igreja Católica. A Sagrada
Escritura, o Catecismo da Igreja Católica e a catequese 127. A
Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, sublinhou a
importância fundamental da Sagrada Escritura na vida da Igreja. Ela é
apresentada, junto com a Sagrada Tradição, como « regra suprema da fé », já
que transmite imutavelmente « a própria palavra de Deus » e faz « ressoar nas
palavras dos Profetas e dos Apóstolos a voz do Espírito Santo ». (434) Por
isso, a Igreja quer que em todo o ministério da Palavra, a Sagrada Escritura
tenha uma posição proeminente. A catequese, em síntese, deve ser « uma
autêntica introdução à "lectio divina", isto é, à leitura da
Sagrada Escritura feita "segundo o Espírito" que habita na Igreja
». (435) Neste
sentido, « falar da Tradição e da Escritura como fonte da catequese, quer
dizer sublinhar que esta última deve embeber-se e permear-se com o
pensamento, com o espírito e com as atitudes bíblicas e evangélicas, mediante
um assíduo contato com tais textos; mas significa também, recordar que a
catequese será tanto mais rica e eficaz, quanto mais ler os textos com a
inteligência e o coração da Igreja ». (436) Nesta leitura eclesial da
Escritura, feita à luz da Tradição, o Catecismo da Igreja Católica desempenha
um papel muito importante. 128. A
Sagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica se apresentam como dois
instrumentos fundamentais para inspirar toda a ação catequizadora da Igreja
no nosso tempo. – A
Sagrada Escritura, de fato, como « palavra de Deus escrita sob a inspiração
do Espírito Santo » (437) e o Catecismo da Igreja Católica, enquanto
relevante expressão atual da Tradição viva da Igreja e norma segura para o
ensinamento da fé, são chamados, cada um a seu próprio modo e segundo a sua
específica autoridade, a fecundar a catequese na Igreja contemporânea. – A
catequese transmite o conteúdo da Palavra de Deus, segundo as duas
modalidades com que a Igreja o possui, o interioriza e o vive: como narração
da História da Salvação e como explicitação do Símbolo da fé. A Sagrada
Escritura e o Catecismo da Igreja Católica devem inspirar tanto a catequese
bíblica quanto a catequese doutrinal, que veiculam este conteúdo da Palavra
de Deus. – No
desenvolvimento ordinário da catequese, é importante que os catecúmenos e os
catequizandos possam valer-se tanto da Sagrada Escritura quanto do Catecismo
local. A catequese, enfim, não é senão a transmissão, vital e significativa,
destes « documentos de fé ». (438) A Tradição
catequética dos Santos Padres e o Catecismo da Igreja Católica 129. No depósito
da fé, juntamente com a Escritura, está contida toda a Tradição da
Igreja. « As asserções dos Santos Padres atestam a vivificante presença desta
Tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e
orante ». (439) Em
referência a tanta riqueza doutrinal e pastoral, alguns aspectos merecem
atenção: – A
importância decisiva que os Padres atribuem ao catecumenato batismal na
configuração das Igrejas particulares. – A
progressiva e gradual concepção da formação cristã, estruturada em etapas.
(440) Os Padres configuram o catecumenato, inspirando-se na pedagogia divina.
No processo catecumenal, o catecúmeno, como o Povo de Israel, percorre um
caminho para chegar à terra prometida: a identificação batismal com Cristo.
(441) – A
estruturação do conteúdo da catequese segundo as etapas daquele processo. Na
catequese patrística, a narração da história da salvação tinha um papel
primário. Em meados do período da Quaresma, se procedia às entregas do Símbolo
e do Pai Nosso e à explicação dos mesmos, com todas as suas
implicações morais. A catequese mistagógica, uma vez celebrados os
sacramentos da iniciação, ajudava a interiorizá-los e a saboreá-los. 130. O
Catecismo da Igreja Católica, por sua vez, leva à catequese a grande tradição
dos catecismos. (442) Da grande riqueza desta tradição, também aqui cabe
sublinhar alguns aspectos: – A
dimensão cognoscitiva ou verídica da fé. Esta não é somente adesão vital a
Deus, mas também assentimento do intelecto e da vontade à verdade revelada.
Os catecismos recordam constantemente à Igreja, a necessidade de que os
fiéis, ainda que de forma simples, tenham um conhecimento orgânico da fé. – A
educação à fé, bem radicada em todas as suas fontes, abraça diferentes
dimensões: uma fé professada, celebrada, vivida e orada. A riqueza
da tradição patrística e daquela dos catecismos conflui na atual catequese da
Igreja, enriquecendo-a, tanto na suaprópria concepção, quanto nos seus
conteúdos. Recordam à catequese os sete elementos basilares que a configuram:
as três etapas da narração da história da salvação: o Antigo Testamento, a
vida de Jesus Cristo e a História da Igreja; e as quatro colunas da
exposição: o Símbolo, os Sacramentos, o Decálogo e o Pai Nosso. Com estas
sete pedras fundamentais, base tanto de todo o processo da catequese
de iniciação como do itinerário contínuo do amadurecimento cristão, podem-se
construir edifícios de diversa arquitetura ou articulação, segundo os
destinatários ou as diferentes situações culturais. Os
Catecismos nas Igrejas locais Os
Catecismos locais: a sua necessidade (443) 131. O
Catecismo da Igreja Católica é oferecido a todos os fiéis e a cada homem que
queira conhecer aquilo em que crê a Igreja Católica (444) e, de maneira toda
especial, « é destinado a encorajar e ajudar a redação de novos Catecismos
locais, que levem em consideração as diversas situações e culturas, mas que
preservem com cuidado a unidade da fé e a fidelidade à doutrina católica ».
(445) Os
Catecismos locais, de fato, elaborados ou aprovados pelos Bispos diocesanos
ou pelas Conferências dos Bispos, (446) são inestimáveis instrumentos para a
catequese « chamada a levar a força do Evangelho ao coração da cultura e das
culturas ». (447) Por esta razão, João Paulo II dirigiu « um fervoroso
encorajamento às Conferências dos Bispos de todo o mundo: que elas tomem a
iniciativa, com paciência mas ao mesmo tempo com firme resolução, daquele
grande trabalho a ser realizado, de acordo com a Sé Apostólica, qual é o de
preparar verdadeiros catecismos, fiéis aos conteúdos essenciais da Revelação
e atualizados no que se refere ao método, em condições de educar para uma fé
vigorosa, as gerações cristãs dos tempos novos ». (448) Por meio
dos Catecismos locais, a Igreja atualiza a « pedagogia divina » (449) que
Deus utilizou na Revelação, adaptando a sua linguagem à nossa natureza, com
próvida solicitude. (450) Nos Catecismos locais, a Igreja comunica o
Evangelho de maneira acessível à pessoa humana, a fim de que esta possa
realmente apreendê-lo como Boa Nova de salvação. Os Catecismos locais
se convertem, assim, em expressão palpável da admirável « condescendência »
(451) de Deus e do seu amor« inefável » (452) pelo mundo. O gênero
literário de um Catecismo local 132. Três
são os traços principais que caracterizam todo catecismo, assumido como
próprio por uma Igreja local: o seu caráter oficial, a síntese orgânica e
básica da fé que apresenta, e o fato de que seja oferecido, juntamente com as
Sagradas Escrituras, como ponto de referência para a catequese: – O
Catecismo local, de fato, é texto oficial da Igreja. De algum modo, ele torna
visível a « entrega do Símbolo » e a « entrega do Pai Nosso » aos catecúmenos
e aos batizandos. Por isso, é a expressão de um ato de tradição. O caráter
oficial do Catecismo local estabelece uma distinção qualitativa em referência
aos outros instrumentos de trabalhos, úteis na pedagogia catequética (textos
didáticos, catecismos não oficiais, guias para os catequistas...) – Além
disso, todo Catecismo é um texto de caráter sintético e básico, no qual se
apresenta, de maneira orgânica e no respeito pela « hierarquia das verdades
», os eventos e as verdades fundamentais do mistério cristão. – O
Catecismo local apresenta, na sua organicidade, « um conjunto dos documentos
da Revelação e da tradição cristã, (1)que são oferecidos na rica diversidade
de « linguagens » em que se exprime a Palavra de Deus. O
Catecismo local se oferece, enfim, como ponto de referência que inspira a
catequese. A Sagrada Escritura e o Catecismo são os dois documentos
doutrinais de base no processo de catequização, a serem mantidos sempre à
mão. Embora sendo, tanto um quanto outro, instrumentos de primária
importância, não são, todavia, os únicos: são necessários, de fato, outros
instrumentos de trabalho mais imediatos. (2) Por isso, é legítimo
perguntar-se se um Catecismo oficial deva conter elementos pedagógicos ou, ao
contrário, deva limitar-se a ser apenas uma síntese doutrinal, oferecendo
somente as fontes. Em todo
caso, sendo o Catecismo um instrumento para o ato catequético, que é ato de
comunicação, responde sempre a uma certa inspiração pedagógica e deve sempre
fazer transparecer, nos limites do seu gênero, a pedagogia divina. As
questões mais claramente metodológicas são, ordinariamente, mais consoantes a
outros instrumentos. Os
aspectos da adaptação num Catecismo local (3) 133. O
Catecismo da Igreja Católica indica quais são os aspectos que devem ser
levados em consideração no momento de adaptar ou contextualizar a síntese
orgânica da fé, que todo Catecismo local deve oferecer. Esta síntese da fé
deve realizar as adaptações que são exigidas « pelas diferenças de culturas,
de idades, da vida espiritual, de situações sociais e eclesiais daqueles a
quem a catequese é dirigida ».(4) Também o Concílio Vaticano II afirma com
ênfase a necessidade de adaptar a mensagem evangélica: « Esta maneira
apropriada de proclamar a palavra revelada deve permanecer como lei de toda a
evangelização ».(5) Por isso: – Um
Catecismo local deve apresentar a síntese da fé em referência à cultura
concreta em que se encontram os catecúmenos e os catequizandos. Incorporará,
portanto, todas aquelas « expressões originais de vida, de celebração e de
pensamento que são cristãos » (6) e que nasceram da própria tradição cultural
e são fruto do trabalho e da inculturação da Igreja local. – Um
Catecismo local, « fiel à mensagem e fiel à pessoa humana »,(7) apresenta o
mistério cristão de modo significativo e próximo à psicologia e à mentalidade
da idade do destinatário concreto e, conseqüentemente, em clara referência às
experiências fundamentais da sua vida.(8) – É
preciso cuidar de modo especial a forma concreta de viver o fato religioso
numa determinada sociedade. Não é a mesma coisa fazer um Catecismo para um
ambiente caracterizado pela indiferença religiosa, e fazê-lo para outro, cujo
contexto é profundamente religioso.(9) A relação « fé-ciência » deve ser
tratada com muito cuidado em cada Catecismo. – A
problemática social circunstante, ao menos no que diz respeito aos elementos
estruturais mais profundos (econômicos, políticos, familiares...) é um fator
muito importante para contextualizar o Catecismo. Inspirando-se na doutrina
social da Igreja, o Catecismo saberá oferecer critérios, motivações e linhas
de ação que iluminem a presença cristã em meio a tal problemática.(10) –
Finalmente, a situação eclesial concreta, que a Igreja particular vive, é
sobretudo o contexto obrigatório ao qual o Catecismo deve referir-se.
Obviamente, não as situações conjunturais, às quais se provê mediante outros
documentos magisteriais, mas sim a situação permanente, que postula uma
evangelização com acentos mais específicos e determinados.(11) A
criatividade das Igrejas locais em relação à elaboração dos Catecismos 134. As
Igrejas locais, na tarefa de adaptar, contextualizar e inculturar a mensagem
evangélica às diferentes idades, situações e culturas, por meio dos
Catecismos, necessitam de uma criatividade segura e madura. Do depositum
fidei confiado à Igreja, as Igrejas locais devem selecionar, estruturar e
exprimir, sob a orientação do Espírito Santo, Mestre interior, todos aqueles
elementos com que transmitir o Evangelho, na sua completa autenticidade, numa
determinada situação. Nesta
árdua tarefa, o Catecismo da Igreja Católica é « ponto de referência » para
garantir a unidade da fé. O presente Diretório Geral para a Catequese, por
sua vez, oferece os critérios basilares que devem orientar a apresentação da
mensagem cristã. 135. Na
elaboração dos Catecismos locais, é conveniente recordar o seguinte: –
Trata-se, antes de mais nada, de elaborar verdadeiros Catecismos adaptados e
inculturados. Neste sentido, é conveniente distinguir entre um Catecismo que
adapta a mensagem cristã às diferentes idades, situações e culturas, e o que
é uma mera síntese do Catecismo da Igreja Católica, como instrumento de
introdução ao estudo do mesmo. São dois gêneros diferentes.(12) – Os
Catecismos locais podem ter caráter diocesano, regional ou nacional.(13) – Em
relação à estruturação dos conteúdos, os diversos Episcopados publicam, de
fato, Catecismos com diversas articulações ou configurações. Como já foi
dito, o Catecismo da Igreja Católica foi proposto como referência doutrinal,
mas não se quer, com ele, impor a toda a Igreja uma determinada configuração
de Catecismo. Assim, existem Catecismos com uma configuração trinitária,
outros são estruturados segundo as etapas da salvação, outros segundo um tema
bíblico e teológico de grande densidade (Aliança, Reino de Deus, etc.),
outros segundo a dimensão da fé, e outros, ainda, seguindo o ano litúrgico. – Quanto à
maneira de exprimir a mensagem evangélica, a criatividade de um Catecismo
incide também sobre a própria formulação do conteúdo.(14) Evidentemente, um
Catecismo deve permanecer fiel ao depósito da fé, no seu método de exprimir a
substância doutrinal da mensagem cristã. « As Igrejas particulares
profundamente amalgamadas não apenas com as pessoas, mas também com as
aspirações, as riquezas e os limites, os modos de rezar, de amar e de
considerar a vida e o mundo, que distinguem um determinado ambiente humano,
têm a tarefa de assimilar a essencial mensagem evangélica, de transfundi-la
sem a mínima alteração da sua verdade fundamental, na linguagem compreendida
por estes homens e, a seguir, de anunciá-lo na mesma linguagem ».(15) O
princípio a seguir, nesta delicada tarefa, é o que ensina o Concílio Vaticano
II: « descobrir a maneira mais apropriada de comunicar a doutrina aos homens
de seu tempo, porque uma coisa é o próprio depósito da fé ou as verdades, e
outra é o modo de enunciá-las, conservando-se contudo o mesmo sentido e o
mesmo significado ».(16) O
Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais: a sinfonia da fé 136. O
Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais, naturalmente com a
específica autoridade de cada um, formam uma unidade. São a expressão
concreta da « unidade na mesma fé apostólica »(17) e, ao mesmo tempo, da rica
diversidade de formulação da mesma fé. O
Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais, juntos, a quem contempla
a sua harmonia, exprimem a « sinfonia » da fé: antes de mais nada, uma
sinfonia interna ao próprio Catecismo da Igreja Católica, elaborado com a
colaboração de todo o Episcopado da Igreja Católica; e uma sinfonia dele
derivada e expressa nos Catecismos locais. Esta « sinfonia », este « coro de
vozes da Igreja Universal » (18) manifestada nos Catecismos locais, fiéis ao
Catecismo da Igreja Católica, tem um significado teológico importante: –
Manifesta, antes de mais nada, a catolicidade da Igreja. As riquezas culturais
dos povos se incorporam na expressão da fé da única Igreja. – O
Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais manifestam também a
comunhão eclesial da qual a « profissão da mesma fé » (19) é um dos vínculos
visíveis. As Igrejas particulares, « nas quais e pelas quais existe a Igreja
Católica una e única », (20) formam com o todo, com a Igreja universal, « uma
peculiar relação de mútua interiorização ». (21) A unidade entre o Catecismo
da Igreja Católica e os Catecismos locais torna visível esta comunhão. – O
Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais exprimem, igualmente, de
maneira evidente, a realidade da colegialidade episcopal. Os Bispos, cada
qual na sua diocese e juntos como colégio, em comunhão com o Sucessor de
Pedro, têm a máxima responsabilidade pela catequese na Igreja.(22) O
Catecismo da Igreja Católica e os Catecismos locais, por sua profunda unidade
e rica diversidade, são chamados a ser o fermento renovador da catequese na
Igreja. Ao contemplá-los com olhar católico e universal, a Igreja, isto é,
toda a comunidade dos discípulos de Cristo, poderá dizer verdadeiramente: «
Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja ». III PARTE A PEDAGOGIA DA FÉ A Pedagogia da fé « Fui eu,
contudo, quem ensinou Efraim a caminhar, eu os tomei em meus braços... Com
vínculos humanos eu os atraía, com laços de amor eu era para eles como os que
levantam uma criancinha contra o seu rosto, eu me inclinava para ele e o
alimentava » (Os 11,3-4). « Só
tendes um Mestre, o Cristo » (Mt 23,10) 137. Jesus
cuidou atentamente da formação dos discípulos que enviou em missão. Propôs-Se
a eles como único Mestre e, ao mesmo tempo, amigo paciente e fiel, (23)
exerceu um real ensinamento mediante toda a sua vida, (24) estimulando-os com
oportunas perguntas, (25) explicou-lhes de maneira aprofundada aquilo que
anunciava à multidão, (26) introduziu-os na oração, (27) mandou-os fazer um
tirocínio missionário, (28) primeiro prometeu e depois enviou o Espírito de
seu Pai, para que os guiasse à verdade na sua totalidade, (29) e os amparou
nos inevitáveis momentos difíceis. (30) Jesus Cristo é o « Mestre que revela
Deus aos homens e revela o homem a si mesmo; o Mestre que salva, santifica e
guia, que está vivo, fala, desperta, comove, corrige, julga, perdoa e marcha todos
os dias conosco, pelos caminhos da história; o Mestre que vem e que há-de vir
na glória ». (31) Em Jesus Senhor e Mestre, a Igreja encontra a graça
transcendente, a inspiração permanente, o modelo convincente para toda
comunicação da fé. Significado
e finalidade desta parte 138. Na
escola de Jesus Mestre, o catequista une estreitamente a sua ação de pessoa
responsável, com a ação misteriosa da graça de Deus. A catequese é, por isso,
exercício de uma « pedagogia original da fé ».(32) A
transmissão do Evangelho através da Igreja é, antes de mais nada e sempre,
obra do Espírito Santo, e tem na revelação, o testemunho e a norma
fundamental (Capítulo I). Mas o
Espírito se vale de pessoas que recebem a missão do anúncio evangélico e
cujas competências e experiências humanas entram na pedagogia da fé. Daí nasce
um conjunto de questões amplamente tocadas, na história da catequese, no que
diz respeito ao ato catequético, às fontes, aos métodos, aos destinatários e
ao processo de inculturação. No segundo
capítulo, não se pretende apresentar uma abordagem exaustiva, mas sim expor
somente aqueles pontos que hoje se mostram como de particular importância
para toda a Igreja. Caberá aos vários diretórios e aos outros instrumentos de
trabalho das Igrejas particulares, afrontar os problemas específicos, de
maneira apropriada. I CAPÍTULO A pedagogia de Deus, fonte e modelo da pedagogia da
fé (33) A
pedagogia de Deus 139. «
Deus vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? »
(Hb 12,7). A salvação da pessoa, que é o fim da revelação, se
manifesta como fruto também de uma original e eficaz « pedagogia de Deus » ao
longo da história. Analogicamente ao uso humano e segundo as categorias
culturais do tempo, Deus, na Escritura, é visto como um pai misericordioso,
um mestre, um sábio(34) que assume a pessoa, indivíduo e comunidade, na
condição em que se encontra, livra-a dos laços com o mal, a atrai a Si com
vínculos de amor, faz com que ela cresça progressiva e pacientemente até à
maturidade de filho livre, fiel e obediente à sua palavra. Com este objetivo,
como educador genial e providente, Deus transforma os acontecimentos da vida
do seu povo em lições de sabedoria, (35) adaptando-Se às diversas idades e
situações de vida. A este Povo, confia palavras de instrução e catequese que
são transmitidas de geração em geração, (36) adverte com a recordação do
prêmio e do castigo, torna formativas as próprias provas e sofrimentos. (37)
Verdadeiramente, fazer encontrar uma pessoa com Deus, que é tarefa do
catequista, significa colocar no centro e fazer própria, a relação que Deus
tem com a pessoa e deixar-se guiar por Ele. A
pedagogia de Cristo 140. Vinda
a plenitude dos tempos, Deus mandou à humanidade Seu Filho, Jesus Cristo. Ele
trouxe ao mundo o supremo dom da salvação, realizando a sua missão de
redentor, no âmbito de um processo que continuava a « pedagogia de Deus » com
a perfeição e a eficácia intrínsecas à novidade de sua pessoa. Das suas
palavras, sinais e obras, ao longo de toda a sua breve mas intensa vida, os
discípulos fizeram experiência direta das diretrizes fundamentais da «
pedagogia de Jesus », indicando-as, depois, nos Evangelhos: o acolhimento do
outro, em particular do pobre, da criança, do pecador, como pessoa amada e
querida por Deus; o anúncio genuíno do Reino de Deus como boa nova da verdade
e da consolação do Pai; um estilo de amor delicado e forte, que livra do mal
e promove a vida; o convite premente a uma conduta amparada pela fé em Deus,
pela esperança no reino e pela caridade para com o próximo; o emprego de
todos os recursos da comunicação interpessoal tais como a palavra, o
silêncio, a metáfora, a imagem, o exemplo e tantos sinais diversos, como o
faziam os profetas bíblicos. Convidando os discípulos a segui-Lo totalmente e
sem nostalgias, (38) Cristo entrega-lhes a sua pedagogia da fé como plena
compartilha da sua causa e do seu destino. A
pedagogia da Igreja 141. Desde
o princípio, a Igreja, que « é em Cristo como que um sacramento », (39) tem
vivido a sua missão como prosseguimento visível e atual da pedagogia do Pai e
do Filho. Ela, « sendo nossa Mãe, é também educadora da nossa fé ».(40) São estas
as razões profundas, pelas quais a comunidade cristã é, em si mesma, uma
catequese viva. Por aquilo que é, anuncia e celebra, opera e permanece sempre
o lugar vital, indispensável e primário da catequese. A Igreja
produziu, ao longo dos séculos, um incomparável tesouro de pedagogia da fé:
antes de mais nada, o testemunho de catequistas e de santos. Uma variedade de
vias e formas originais de comunicação religiosa, como o catecumenato, os
catecismos, os itinerários de vida cristã; um precioso patrimônio de
ensinamentos catequéticos, de cultura da fé, de instituições e de serviços da
catequese. Todos estes aspectos fazem a história da catequese e entram, a
pleno título, na memória da comunidade e na praxe do catequista. A
pedagogia divina, ação do Espírito Santo em todo cristão 142. «
Feliz o homem a quem corriges, Iahweh, e a quem ensinas por meio de tua lei »
(Sl 94,12). Na escola da Palavra de Deus acolhida na Igreja, graças ao
dom do Espírito Santo enviado por Cristo, o discípulo cresce como o seu
Mestre, « em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e diante dos
homens » (Lc 2,52) e é ajudado a desenvolver em si a « educação divina
» recebida, mediante a catequese e os recursos da ciência e da experiência.
(41) Deste modo, conhecendo sempre mais o mistério da salvação, aprendendo a
adorar a Deus Pai e « vivendo na verdade segundo a caridade », procura
crescer « em tudo em direção àquele que é a cabeça, Cristo » (Ef 4,15). A
pedagogia de Deus pode-se dizer realizada quando o discípulo atinge « o
estado de Homem Perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo » (Ef
4,13). Por isso, não se pode ser mestres e pedagogos da fé alheia, se não
se é discípulo convicto e fiel a Cristo na Sua Igreja. Pedagogia
divina e catequese 143. A
catequese, enquanto comunicação da divina revelação, inspira-se radicalmente
na pedagogia de Deus como se desvela em Cristo e na Igreja, acolhe os seus
parâmetros constitutivos e, sob a guia do Espírito Santo, faz uma sábia
síntese da mesma, favorecendo assim, uma verdadeira experiência de fé, um
encontro filial com Deus. Deste modo, a catequese: – é uma
pedagogia que se insere no « diálogo de salvação » entre Deus e a pessoa e,
além de servir a este diálogo, ressalta devidamente a destinação universal de
tal salvação; no que diz respeito a Deus, sublinha a iniciativa divina, a
motivação amorosa, a gratuidade, o respeito pela liberdade; no que diz
respeito ao homem, evidencia a dignidade do dom recebido e a exigência de
crescer continuamente neste; (42) – aceita o
princípio da progressividade da Revelação, a transcendência e a conotação
misteriosa da Palavra de Deus, assim como também a sua adaptação às diversas
pessoas e culturas; –
reconhece a centralidade de Jesus Cristo, Palavra de Deus feita homem, que
determina a catequese como « pedagogia da encarnação », razão pela qual o
Evangelho deve ser proposto sempre para a vida e na vida das pessoas; – valoriza
a experiência comunitária da fé, própria do Povo de Deus, da Igreja; –
radica-se na relação interpessoal e faz próprio o processo de diálogo; – faz-se
pedagogia de sinais, onde se entrelaçam fatos e palavras, ensinamento e
experiência; (43) – sendo o
amor de Deus a razão última da sua revelação, é do inexaurível amor divino,
que é o Espírito Santo, que a catequese recebe a sua força de verdade e o
constante empenho de dar testemunho do mesmo. (44) A
catequese configura-se assim, como processo, itinerário ou caminho na seqüela
do Cristo do Evangelho, no Espírito, rumo ao Pai, caminho este empreendido
para alcançar a maturidade da fé « pela medida do dom de Cristo » (Ef 4,7)
e as possibilidades e as necessidades de cada um. Pedagogia
original da fé (45) 144. A
catequese, que é portanto pedagogia da fé em ato, ao realizar as suas
tarefas, não pode deixar-se inspirar por considerações ideológicas, ou por
interesses puramente humanos, (46) não confunde o agir salvífico de Deus, que
é pura graça, com o agir pedagógico do homem, nem tampouco os contrapõe e
separa. É o diálogo que Deus vai tecendo amorosamente com cada pessoa, que se
torna sua inspiração e sua norma; dele, a catequese se torna « eco »
incansável, buscando continuamente o diálogo com as pessoas, segundo as
grandes indicações oferecidas pelo Magistério da Igreja. (47) Objetivos
precisos que inspiram as suas escolhas metodológicas são: – promover
uma progressiva e coerente síntese entre a plena adesão do homem a Deus (fides
qua) e os conteúdos da mensagem cristã (fides quae); –
desenvolver todas as dimensões da fé, razão pela qual esta se traduz em fé
conhecida, celebrada. vivida e rezada; (48) |