Arquidiocese

Ano Pastoral 2020+2021

"Uma Igreja sinodal e samaritana"

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25 Nov 2020
“Para quem sou eu”
Discurso do Arcebispo Primaz, D. Jorge Ortiga, no Conselho Presbiteral.
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Ousadamente estamos comprometidos na edificação de uma Igreja sinodal. Com este projecto, tomamos consciência de que caminhamos juntos, sacerdotes e leigos, e decidimos juntos o caminho a percorrer. Interessa-nos a vida da Arquidiocese mas preocupa-nos a qualidade do nosso presbitério. Não nos segregamos. Queremos repensar a nossa identidade, pessoal e comunitária, para servir com alegria o povo que quotidianamente nos é confiado por Deus.

Vamos, com este Conselho Presbiteral, iniciar um processo. Começamos e não temos pressa de o concluir. Sabemos que a vida é permanente auto-avaliação. É tarefa dos sacerdotes delegados que, neste momento, compõem o Conselho. Mas teremos de colocar todo o presbitério em movimento. Por isso, enviarei esta mensagem a todo o presbitério. A reflexão tem de ser colegial e as orientações devem fazer convergir num projecto a envolver a todos. Reflectindo, rezando, propondo, seremos capazes de criar todos as condições necessárias para um presbitério feliz e encantado com a missão. Feliz na vida de homem com todas as exigências de uma vida digna; encantado porque não se detém perante as dificuldades mas deixa-se possuir por uma paixão persistente de ser no mundo a presença de uma Igreja que tenazmente vai servindo a causa do bem da Humanidade, alicerçando-se, somente, na perene novidade da palavra de Deus, onde Cristo está presente como algo para “ontem, hoje e sempre”.

Esta reflexão, talvez exame de consciência, com o intuito de propósitos concretos, está situada neste contexto de uma pandemia que veio agravar a realidade eclesial e, concretamente, a vida dos sacerdotes. Começamos por falar de uma crise sanitária que alterou e altera hábitos e preocupações. Chegamos ao reconhecimento de que se tornou económica com a degradação de estruturas laborais a desencadear desempregos e outras aflições. Experimentámo-la no social com terríveis problemas de desigualdades sociais onde o indispensável para viver não está a ser oferecido. Mas, neste momento, instalou-se no seio da Igreja. Não sei se é inadequado falar de crise eclesial. São muitas as manifestações que nos preocupam. As igrejas não se enchem por restrições sanitárias, medos ou opções. Os Centros Pastorais perderam as movimentações que manifestavam vida e alegria. Os movimentos têm dificuldades em agendar as suas actividades e mostrar num ritmo habitual as suas iniciativas. Os Centros Sociais acumulam problemas e apreensões não só de ordem económica mas sobretudo de dificuldades sanitárias. Poderia continuar o elenco de tanta coisa que veio alterar hábitos e rotinas. A vida pastoral é diferente e não sabemos como a revitalizar.

No meio de tudo isto é natural que o sacerdote sofra e sinta ameaçada a sua realidade humana, cristã e eclesial. Tudo parece desmoronar e o campo de acção parece ser mais reduzido. Mesmo não acontecendo um confinamento e isolamento social, é fácil encontrar-se só e desmotivado. Instintivamente, começamos a pensar que a acção pastoral não se pode realizar ou se realiza de um modo muito condicionado. É fácil sentir-se perdido. À partida, perante esta situação, importa evitar duas tentações para que se acredite sempre na esperança. Elas podem exercer um efeito paralisante. Por um lado, é fácil cair na nostalgia do passado, entristecendo-nos por tudo o que está acontecendo e pensando que regressaremos ao tipo de sociedade e Igreja que nos acompanhou até aos dias de hoje. Há sempre uma vontade de que tudo passe e voltemos ao mesmo tipo de vida. Por outro lado, a resignação pode conduzir-nos a olhar passivamente para tudo o que está acontecendo e perante o qual podemos fazer muito pouco. Cruzam-se os braços. Espera-se que a tempestade passe e que a aurora aconteça de modo que não descortinamos.

Perante estas atitudes desanimadoras da resignação e da nostalgia do passado temos apenas uma atitude válida a merecer a nossa consideração. Sabemos que o passado não voltará. Nada ficará na mesma, também na Igreja. Teremos de, positivamente, imaginar um novo projecto e delinear sonhos de harmonia com o que poderemos descortinar como oportunidade e graça. Somos capazes de coexistir alegremente empenhando-nos numa nova imagem de Igreja a concretizar a partir das comunidades paroquiais.

Devemos saber que o essencial reside noutro lado. A pastoral dá-nos ânimo e realiza-nos. Mas nunca nos satisfará plenamente se quisermos ser meros executores de iniciativas e planos que hoje são actuais e amanhã desaparecem. É hora de, com serenidade, voltarmos à redescoberta da nossa vocação. Este não é um assunto encerrado no dia da ordenação. Acontece como um processo de amor a suscitar atitudes e comportamentos de uma fidelidade persistente para além das nossas fragilidades.

Há dias encerramos a Semana dos Seminários. Vivemo-la a partir da certeza registada por S. Marcos. “Jesus chamou os que queria e foram ter com Ele” (Mc 3, 13). Não foram as nossas qualidades a motivar o chamamento. Também não foram as debilidades e incompetências. Chamou quem quis e “atreveu-se”, também, a olhar para cada um de nós. Os Apóstolos “foram” e ficaram com Ele. Tudo numa atitude de gratuidade e vontade de permanecer num amor respondendo a quem amou primeiro. Os encargos vieram depois mas só como modo de concretizar a alegria de ser “uma coisa só com Ele” e, consequentemente, participar na Sua missão. Não há duas missões. Só a d’Ele. Tudo conta se permeado e manifestando o amor que tem por uma Humanidade que quer salvar.

É este exercício de recuperar o sentido da vida sacerdotal que deveremos viver neste momento em que parece que nada é estável. Cada dia oferece uma surpresa e o caminho deve estar sempre a ser descoberto. Neste momento ouso aconselhar a reflectir e a tirar consequências sobre o que o Papa diz na “Cristo Vive”, dirigido particularmente aos jovens mas também a todo o Povo de Deus. O Santo Padre diz que perdemos tempo interrogando-nos “mas afinal quem sou eu?”. Continua dizendo: “tu podes interrogar-te sobre quem és e passar a vida inteira a procurar a tua identidade”. Sabemos que estamos num tempo de perguntas e não podemos deixar de nos interrogarmos. Só que concentrando o assunto em nós mesmos corremos o risco de permanecer individualistas e egoisticamente sempre insatisfeitos com as respostas encontradas. Em termos pessoais somos insaciáveis. Deveremos, por isso, inverter o âmbito das nossas interrogações para fazer quanto o Papa refere. Mais do que interrogar-se sobre “quem sou eu?”, deverei concentrar-me noutra questão. “Para quem sou eu?”. Perspectiva totalmente diferente. E o Papa é taxativo. “És para Deus, sem dúvida. Mas Ele quis que também sejas para os outros, e pôs em ti muitas qualidades, inclinações, dons e carismas que não são para ti, mas para os outros” (C.V. 286).

Nesta hora de crise, que teremos de nos interrogar se não será uma crise sacerdotal, somos todos, membros do presbitério e não só, interpelados para o desafio de, como Igreja Arquidiocesana, caminharmos juntos, sinodalmente, para encontrarmos respostas às nossas preocupações e aos problemas que poderão estar a impedir de vivermos responsavelmente e com alegria a nossa missão. Não encontraremos uma resposta única. Cada um continuará a ter a sua responsabilidade. Repito mais uma vez. Não podemos suspirar por um passado que não regressará assim como não podemos refugiar-nos na resignação de quem espera que passe. A pandemia é uma adversidade que deve tornar-se esperança de um novo começo. Para isso, e não se trata de um refúgio, regressemos à lógica da nossa vocação. Retiremos as conclusões adequadas. Mais do que pensarmos no que somos, nos nossos direitos ou estatutos, arrisquemos interpretar o ministério sacerdotal respondendo “para quem sou”.

Recordemos, ainda, que se caminhamos sinodalmente com os sacerdotes, também o fazemos com todo o Povo de Deus. As comunidades devem ter um rosto diferente. A sinodalidade na vida e na decisão vai pedir muita mudança. Não somos tudo nas paróquias. Muitos querem caminhar connosco e tem muitos dons e carismas. Reconhecê-los não é uma mera necessidade. Todos os cristãos necessitam de se comprometer com o Reino. Qualidades não faltam. Importa descobrir, escutar, dar a palavra e caminhar corresponsavelmente. Todo o discípulo é missionário. É que nas comunidades, quando elas são verdadeiramente um lugar onde nos “amamos intensamente, encontramos sempre a verdadeira família que nos ama e pede amor, onde damos mas também recebemos. Aí sentimos que a nossa entrega não está a ser inútil e que vale a pena viver para Deus e para os outros.

Termino com uma palavra de serenidade. Demos graças a Deus por tanta coisa positiva que existe em nós, no presbitério, na Arquidiocese, nas paróquias. Não permitamos que o sol se esconda. Reconheçamos, também, que o mundo espera por nós. Alguns poderão considerar-nos inúteis e ultrapassados. Temos muito para dar. Se até agora tudo girava em torno das igrejas paroquiais, descortinemos o que vai acontecendo na sociedade e não permitamos que construam o mundo sem o nosso contributo. Talvez estejamos cansados de repetir o que sempre fizemos. Há novos desafios. Sujemos os pés com a história do mundo. Temos capacidades e a mensagem será sempre resposta como foi no passado. Se a Igreja não deixar de ser auto-referencial vai acabar por se perder nas suas questiúnculas internas. Este é o meu contributo para a reflexão que iremos iniciar com este Conselho Presbiteral. É só uma ideia. Cada uma de vós dar-lhe-á outra originalidade para que, juntos, continuemos o caminho seguido pelos nossos antepassados. Foram dando à Arquidiocese novidade conforme as exigências históricas. Agora, toca a cada um. Ninguém se pode sentir dispensado.

Pessoalmente só me sinto no dever de pedir desculpa por não ser o timoneiro desta hora de águas agitadas. Gostaria, como diz o Papa, de estar à frente do presbitério e das comunidades para orientar com competências de estar no meio para ser um com cada um, de estar atrás para cuidar dos mais desalentados e feridos pela vida. Alguns poderão dizer que estou a escrever demais. Desculpai. Vede sempre o meu amor à Igreja e aos sacerdotes. Não tenho vergonha de afirmar, na lógica do amar-se intensamente do Programa Pastoral, quero-vos bem, a todos e a cada um.

Que Santa Maria de Braga nos ajude a transformar estes momentos em graça. Deus seja louvado. N’Ele, e só n’Ele, terá de estar a nossa esperança para vivermos como Bons Samaritanos para o mundo.

 

† Jorge Ortiga, 
Arcebispo Primaz

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