Arquidiocese de Braga -
7 junho 2026
Livro sobre mudança da família «é um exercício de serviço público»
DM - Cristiana Barbosa
A família mudou mais nas últimas duas décadas do que em séculos, mas continua a ser o pilar mais valorizado em Portugal. Esta contradição serve de mote para o livro “A Família em Mudança: Valores, Gerações e Desafios na Sociedade Portuguesa”, apresentado, ontem à tarde, no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga.
Perante uma plateia que incluiu o presidente da Câmara de Braga, João Rodrigues; o bispo auxiliar de Braga, D. Nélio Pita, e o antigo reitor da Universidade do Minho, Sérgio Machado dos Santos, Luís Marques Mendes elogiou o rigor do inquérito feito a mais de 3600 pessoas e afirmou que «este livro é, verdadeiramente, um exercício de serviço público» e um ato de cidadania. O lançamento contou, ainda, com José Ribeiro, representante da Editora Afrontamento, que enalteceu a importância da obra e agradeceu aos autores a confiança depositada na chancela para a sua publicação.
Luís Marques Mendes confessou-se impressionado com o tom de esperança das páginas, que funcionam como uma «almofada da época» contra o negativismo, e detalhou o conteúdo científico da obra. O comentador enalteceu o facto de esta análise ser feita «sem nostalgias, sem constrangimentos e sem preconceito», destacando a coragem dos autores ao refletirem sobre a dicotomia entre a família e a influência religiosa.
Para Marques Mendes, a investigação é altamente inovadora porque «foge das generalidades, das banalidades, dos lugares comuns» para se focar na proatividade em relação ao futuro, ajudando a criar um sobressalto cívico sobre os modelos familiares atuais.
Os quatro grandes desafios das famílias atuais
Ao elencar os grandes desafios contemporâneos, apontou a conciliação laboral, pois «a casa deixa de ser um lugar de descanso para passar a ser, na prática, uma extensão do trabalho». Alertou também para o inverno demográfico e para a miopia de não se investir na instituição familiar, frisando que «o país precisa de políticas fortes e intensas de apoio à família» e que a imigração, embora vital, não substitui essas medidas. Apontou ainda o desgaste financeiro da classe média e a pressão digital, mas concluiu com otimismo, lembrando que na família «alguém vale não por aquilo que produz, nem por aquilo que tem, mas simplesmente por aquilo que é».
Dois anos de investigação científica
O coautor José Francisco Durán Vázquez reforçou que as previsões do século passado, que apontavam para o fim da instituição, falharam, porque «as pessoas precisam da família» para a educação e o cuidado. O investigador defendeu a urgência de criar modelos onde existam «encontros entre gerações mais velhas» para combater a fragmentação social e a ansiedade.
Já Eduardo Duque, que também moderou a sessão, explicou como nasceu o projeto, revelando que «este projeto era das visitas, das cooperadoras da família» a partir de um repto de um colega de Lisboa. O que começou com um inquérito e um pré-teste transformou-se em dois anos de trabalho intenso para «casar a reflexão teórica com a empírica». Segundo o sociólogo, que estuda o diálogo entre gerações há 20 anos com Durán Vázquez, é impossível analisar a evolução da família sem estudar dimensões centrais da sociedade, como a educação, o trabalho, o lazer e a religião, que sofreram «mudanças brutais» desde a década de 1930.
A fechar, Eduardo Duque desafiou o público a continuar a caminhar com os investigadores nos próximos debates no museu bracarense. O Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, será o preletor convidado no dia 3 de julho, seguindo-se uma nova sessão a 11 de julho, com outro convidado.
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