Arquidiocese de Braga -
13 maio 2026
Inteligência artificial não pode impedir uma comunicação com rosto humanista
DM - Joaquim Martins Fernandes
Não diabolizar nem endeusar a inteligência artificial na comunicação. Saber aproveitar as novas potencialidades geradas pelas ferramentas digitais, mas nunca aceitar que as suas capacidades crescentes se sobreponham a uma comunicação que coloca a pessoa humana no centro, feita com vozes e rostos humanos. Foi a mensagem central deixada pelos participantes no encontro de reflexão realizado ontem pelo Departamento Arquidiocesano para a Comunicação Social (DACS), na Casa da Terra, em Celorico de Basto. A realização, que evocou o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, colocou no centro da análise o desafio lançado a todos os comunicadores pelo Papa Leão XIV: “Preservar vozes e rostos humanos” em todo o processo comunicativo.
Numa comunicação detalhada sobre a proposta do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Padre Tiago Varanda, da Arquidiocese de Braga, sublinhou o que está no centro da proposta do Santo Padre. «O Papa diz-nos que todo o ser humano é chamado a viver o amor, e o amor vive-se incontornavelmente pela comunicação. Não há amor sem verdadeira e autêntica comunicação, que não pode ser substituída pela tecnologia ou por simulações comunicacionais da inteligência artificial», sublinhou o sacerdote. Com o sentido especial que comunica quem é invisual, Tiago Varandas defendeu a prevalência de uma «comunicação íntima», que se expressa, «no corpo e através do corpo» e que ganha mais plenitude «na voz e no rosto».
«Por isso, o Papa diz que esta comunicação do ser, este ser que se comunica, não pode ser substituído por qualquer outra simulação tecnológica», acrescentou o sacerdote, para deixar claro que embora a inteligência artificial seja capaz de «imitar comunicação» e «imitar diálogos humanos», não existe nesse modelo «uma comunicação do ser».
Tiago Varandas vincou que a «antropomorfização da inteligência artificial» está a gerar «uma espécie de homonoide» que «pode criar evoluções perigosas para a pessoas, sobretudo, a camadas mais vulneráveis da sociedade». Isso, porque «as tecnologias, nomeadamente as redes sociais, promovem compensações emocionais imediatas e como que aprisionam nesta imediata compensação emotiva e afetiva que prende as pessoas a estas redes sociais e às dinâmicas da inteligência artificial», notou.
Recordando que o Papa também alerta para «a polarização social» que é promovida pela inteligência artificial, o Padre Tiago Varanda alertou que «nós devemos pensar seriamente nisto», porque «vivemos um mundo cada vez mais polarizado, quer na sociedade civil, quer na Igreja».
Centralidade da pessoa na comunicação
Também o Padre Paulo Terroso, diretor do Departamento Arquidiocesano para a Comunicação Social, defendeu a necessidade da prevalência de um modelo de comunicação personalista. «A temática proposta pelo Santo Padre evidencia a centralidade da pessoa no processo comunicativo, sublinhando a importância de preservar a autenticidade das relações humanas num ambiente cada vez mais mediado por tecnologias digitais», disse o sacerdote, acrescentando que uma comunicação assente em valores não precisa ter medo de utilizar as potencialidades da inteligência artificial.
«Há uma dimensão muito forte na Mensagem do Santo Padre, que é não renunciar ao próprio pensamento. E quando ele diz preservar rostos e vozes, está a dizer para não renunciarmos à nossa dimensão humana», sublinhou, salientando que «é fundamental» termos a capacidade de «sermos originais, sermos nós próprios», em vez de «passarmos muito tempo a imitar ou a procurar ser outras pessoas».
Para o diretor do DACS, a Mensagem de Leão XIV também dirige «alguns alertas a todos, quer aqueles que são os grandes usuários de inteligência artificial: o apelo a uma autenticidade, não esquecendo que no centro está a pessoa humana».
«A nós cabe-nos uma coisa que é muito importante que é esta: tomar a decisão» vincou Paulo Terroso, notando que «a inteligência artificial muda a nossa relação com a realidade e a nossa compreensão do mundo», pelo que «estamos também no início da compreensão de muitos daqueles que vão ser desafios do futuro».
Para o Padre Sérgio Araújo, Assistente Arciprestal da Comunicação, «este dia é uma oportunidade para recentrar a comunicação na sua dimensão mais humana, promovendo uma cultura de escuta e de encontro, onde cada pessoa é reconhecida na sua dignidade e singularidade».
Partilhar