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DACS | 8 Jan 2021
"Fundamentalismo Evangélico e Integralismo Católico: um ecumenismo surpreendente" (II)
À luz dos recentes acontecimentos que envolvem os Estados Unidos da América, revisitamos um artigo escrito pelo Pe. António Spadaro, Sj e pelo Pastor Presbiteriano Marcelo Figueroa*, em Julho de 2017. Apesar de já terem decorrido mais de três anos, as linhas escritas no "La Civiltà Cattolica"** mantêm-se actuais.
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Teologia da prosperidade e a retórica da liberdade religiosa

Spadaro e Figueroa alertam para outro fenómeno inquitetante: o da “Teologia da Prosperidade”, proposto principalmente pelos média, por pastores milionários e organizações missionárias com forte influência religiosa, social e política. Este grupo proclama um “Evangelho da Prosperidade” porque acredita que Deus deseja que os seus seguidores sejam fisicamente saudáveis, materialmente ricos e pessoalmente felizes.

“É fácil notar como algumas mensagens da campanha eleitoral e a sua semiótica estão repletas de referências ao fundamentalismo evangélico. Por exemplo, vemos líderes políticos com ar triunfante de Bíblia nas mãos”, exemplificam.

O Pastor Norman Vincent Peale é uma figura que inspirou presidentes dos EUA como Richard Nixon, Ronald Reagan e Donald Trump. Pregador de sucesso, foi quem presidiu ao primeiro casamento do actual presidente. Vendeu milhões de cópias do seu livro “O Poder do Pensamento Positivo” (1952), repleto de frases como “Se você acredita em algo, você consegue-o”, “Nada o impedirá se repetir: Deus está comigo, quem está contra mim?”, ou “ Tenha em mente a sua visão de sucesso e o sucesso virá”. 

 

“Existe um mundo bem definido de convergência ecuménica entre sectores que são paradoxalmente concorrentes no que diz respeito à pertença confessional. Esse encontro sobre objectivos comuns acontece em torno de temas como o aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, educação religiosa nas escolas e outros assuntos geralmente considerados morais ou vinculados a valores. Tanto evangélicos quanto católicos integralistas condenam o ecumenismo tradicional e ainda promovem um ecumenismo de conflito que os une no sonho nostálgico de um tipo teocrático de estado.”

 

“Muitos prósperos televangelistas da prosperidade misturam marketing, direcção estratégica e pregação, concentrando-se mais no sucesso pessoal do que na salvação ou na vida eterna”, apontam Spadaro e Figueroa.

Os autores falam ainda de um terceiro elemento que, juntamente com o maniqueísmo e o evangelho da prosperidade, é uma forma particular de proclamação da defesa da "liberdade religiosa". 

“A erosão da liberdade religiosa é claramente uma grave ameaça dentro de um secularismo em expansão. Mas devemos evitar que a sua defesa aconteça nos termos fundamentalistas de uma «religião em total liberdade», percebida como um desafio virtual directo à laicidade do Estado”, defendem.

 

Ecumenismo fundamentalista

Os autores do artigo no Civiltà Catollica dizem que apelando aos valores do fundamentalismo, uma “estranha forma de ecumenismo surpreendente” está a desenvolver-se entre fundamentalistas evangélicos e integralistas católicos reunidos pelo mesmo desejo de influência religiosa na esfera política.

“Alguns que se professam católicos expressam-se de maneiras que, até há bem pouco tempo, eram desconhecidas na sua tradição, usando tons muito mais próximos dos evangélicos. Eles são definidos como eleitores de valor no que diz respeito à atracção de apoio eleitoral de massas. Existe um mundo bem definido de convergência ecuménica entre sectores que são paradoxalmente concorrentes no que diz respeito à pertença confessional. Esse encontro sobre objectivos comuns acontece em torno de temas como o aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, educação religiosa nas escolas e outros assuntos geralmente considerados morais ou vinculados a valores. Tanto evangélicos quanto católicos integralistas condenam o ecumenismo tradicional e ainda promovem um ecumenismo de conflito que os une no sonho nostálgico de um tipo teocrático de estado”, alertam.

Spadaro e Figueroa referem que a perspectiva mais perigosa para este “estranho ecumenismo” pode ser atribuída à sua visão xenófoba e islamofóbica que deseja “paredes e deportações” purificadoras. A palavra “ecumenismo” transforma-se assim num paradoxo, num “ecumenismo de ódio”.

“A intolerância é uma marca celestial de purismo. O reducionismo é a metodologia exegética. O ultra-literalismo é a sua chave hermenêutica", afirmam os autores do artigo, que explicam haver uma enorme diferença entre esses conceitos e o ecumenismo empregado pelo Papa Francisco com várias entidades cristãs e outras confissões religiosas, que se pauta pelo “anseio de inclusão, paz, encontro e pontes”.

Essa presença de ecumenismos opostos - e as suas percepções contrastantes da fé e visões do mundo onde as religiões têm papéis irreconciliáveis - é talvez o aspecto menos conhecido e mais dramático da difusão do fundamentalismo integralista e que, ao mesmo tempo, explica o compromisso de Francisco em trabalhar contra “muros” e qualquer tipo de “guerra religiosa”.

 

*O Pe. Antonio Spadaro, Sj é Editor no La Civiltà Cattolica

 

*Marcelo Figueroa é um Pastor Presbiteriano, Editor Chefe da edição argentina do 

L’Osservatore Romano

 

** O texto encontra-se publicado aqui na íntegra.

 

Chaves de Leitura

1. A “Teologia da Prosperidade” proclama um “Evangelho da Prosperidade”: o grupo acredita Deus deseja que os seus seguidores sejam fisicamente saudáveis, materialmente ricos e pessoalmente felizes.

2. Spadaro e Figueroa defendem que a defesa da liberdade religiosa não pode acontecer nos termos fundamentalistas de uma “religião em total liberdade”, percebida como um desafio virtual directo à laicidade do Estado.

3. Há um grupo crescente que condena o ecumenismo tradicional e ainda promove um ecumenismo de conflito que une os elementos no sonho de um tipo de estado teocrático. São as mesmas pessoas que anseiam por muros e deportações purificadoras.

4. Esse “ecumenismo de ódio” opõe-se ao ecumenismo proposto pelo Papa Francisco, pautado pelo “anseio de inclusão, paz, encontro e pontes”. 

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