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DACS | 11 Jan 2021
"Fundamentalismo Evangélico e Integralismo Católico: um ecumenismo surpreendente" (III)
À luz dos recentes acontecimentos que envolvem os Estados Unidos da América, revisitamos um artigo escrito pelo Pe. António Spadaro, Sj e pelo Pastor Presbiteriano Marcelo Figueroa*, em Julho de 2017. Apesar de já terem decorrido mais de três anos, as linhas escritas no "La Civiltà Cattolica"** mantêm-se actuais.
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A tentação de uma guerra religiosa

“O elemento religioso nunca deve ser confundido com o político. Confundir poder espiritual com poder temporal significa sujeitar um ao outro. Um aspecto evidente da geopolítica do Papa Francisco reside em não dar espaço teológico ao poder de se impor ou de encontrar um inimigo interno ou externo para lutar. É necessário fugir da tentação de projectar a divindade sobre o poder político que então a usa para os seus próprios fins”, alertam os autores do artigo, acrescentando que o Papa Francisco quer quebrar o vínculo orgânico entre cultura, política, instituição e Igreja.

A espiritualidade não se pode vincular a governos ou pactos militares, pois está ao serviço de todos os homens, dizem Spadaro e Figueroa. As religiões não podem considerar algumas pessoas como arqui-inimigos, nem outras como amigos eternos.

“Há uma retórica chocante usada, por exemplo, pelos escritores da Church Militant, uma plataforma digital de sucesso com base nos Estados Unidos que é abertamente a favor de um ultraconservadorismo político e usa símbolos cristãos para se impor. Esse abuso é chamado de «Cristianismo autêntico». E para mostrar as suas próprias preferências, criou uma analogia próxima entre Donald Trump e o imperador Constantino, e entre Hillary Clinton e Diocleciano. As eleições americanas nesta perspectiva foram vistas como uma «guerra espiritual»”.

Esta abordagem bélica e militante torna-se, claro, mais atraente e evocativa para um certo público, especialmente considerando que a vitória de Constantino teve de ser atribuída a uma intervenção divina: in hoc signo vinces.

A Church Militant chega a perguntar se a vitória de Trump pode ser atribuída às orações dos americanos. A resposta sugerida é afirmativa. A missão indirecta do presidente Trump é clara: ele tem que seguir em frente, apesar das consequências. Esta é uma mensagem muito directa que deseja condicionar a presidência enquadrando-a como uma eleição divina.

“A diplomacia da Santa Sé quer estabelecer relações directas e fluídas com as superpotências, sem entrar em redes pré-constituídas de alianças e influências. Nessa esfera, o Papa não quer dizer quem está certo ou quem está errado, pois sabe que na raiz dos conflitos está sempre a luta pelo poder. Portanto, não há necessidade de imaginar uma tomada de partido por razões morais, menos ainda por razões espirituais”, alertam os especialistas.

As raízes cristãs de um povo nunca devem ser entendidas de maneira étnica. As noções de raízes e identidade não têm o mesmo conteúdo para um católico e para um neopagão. O “etnicismo triunfalista, arrogante e vingativo é na verdade o oposto do Cristianismo”, dizem Spadaro e Figueroa, que citam ainda uma entrevista do Papa ao jornal francês La Croix, em que o Pontífice afirmou: “Sim, a Europa tem raízes cristãs. O cristianismo tem o dever de as alimentar, mas com espírito de serviço, como no lava-pés. O dever do Cristianismo para a Europa é o de servir”.

 

 

Contra o medo

“Qual o sentimento que está por trás da tentação persuasiva de uma aliança espúria entre política e fundamentalismo religioso? É o medo da ruptura de uma ordem construída e o medo do caos. Na verdade, funciona assim graças ao caos percebido. A estratégia política para o sucesso passa a ser a de elevar o tom da desordem conflituosa e exagerada, agitando as almas do povo ao pintar cenários preocupantes para além de qualquer realismo”, indicam os autores.
 

“Há uma retórica chocante usada, por exemplo, pelos escritores da Church Militant, uma plataforma digital de sucesso com base nos Estados Unidos que é abertamente a favor de um ultraconservadorismo político e usa símbolos cristãos para se impor. Esse abuso é chamado de «Cristianismo autêntico». E para mostrar as suas próprias preferências, criou uma analogia próxima entre Donald Trump e o imperador Constantino, e entre Hillary Clinton e Diocleciano. As eleições americanas nesta perspectiva foram vistas como uma «guerra espiritual»”.


A religião torna-se assim um garante da ordem e uma parte política encarnaria as suas necessidades. O apelo ao Apocalipse justifica o poder desejado por um deus ou conivente com um deus. E o fundamentalismo, portanto, mostra-se não o produto de uma experiência religiosa, mas uma pobre e abusiva perversão dela.

É por isso, dizem Spadaro e Figueroa, que Francisco insiste numa contra-narrativa sistemática no que diz respeito à narrativa do medo.

“É preciso lutar contra a manipulação desta época de ansiedade e insegurança. Mais uma vez, Francisco é corajoso aqui e não dá legitimidade teológico-política aos terroristas, evitando qualquer redução do Islão ao terrorismo islâmico. Também não confere legitimidade aos que postulam e querem uma «guerra santa» ou à construção de cercas coroadas com arame farpado. A única coroa que conta para o cristão é aquela com espinhos que Cristo usou no alto”, concluem.

 

*O Pe. Antonio Spadaro, Sj é Editor no La Civiltà Cattolica

*Marcelo Figueroa é um Pastor Presbiteriano, Editor Chefe da edição argentina do 

L’Osservatore Romano

** O texto encontra-se publicado aqui na íntegra.

 

Chaves de Leitura

1. O espaço religioso não deve ser confundido com o político.

2. A espiritualidade está ao serviço de todos os homens.

3. Há estratégias comunicacionais que utilizam elementos religiosos para se imporem através de uma retórica (demasiado) persuasiva, em que determinados acontecimentos surgem por intervenção divina.

4. As raízes cristãs de um povo nunca devem ser entendidas de maneira étnica. 

5. Algumas estratégias políticas passam pelo semear do conflito e discórdia – pintando até “cenários preocupantes para além de qualquer realismo” – para depois a religião surgir como salvadora e garante da ordem.

6. Devemos contrariar a narrativa do medo.

 

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