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DACS | 2 Fev 2021
Conferência Episcopal de Inglaterra e País de Gales: "Bispos ignoram mulheres. Outra vez."
O jornal "The Tablet" volta a dar destaque à adopção de uma tradução da Bíblia que não contempla uma linguagem inclusiva e que não foi alvo de consulta de estudiosos e leigos.
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  © Olivia Snow / Unsplash

"Nenhum bispo seria insensato o suficiente para começar uma carta pastoral com “Queridos irmãos em Jesus Cristo”, ignorando o facto de que pelo menos metade dos fiéis são irmãs. A linguagem inclusiva agora é a norma, e qualquer outra coisa é pura misoginia. A última encíclica do Papa Francisco é dirigida a Fratelli Tutti porque o título é uma citação do seu homónimo, mas ele continua: «Com estas palavras, São Francisco de Assis dirigiu-se aos seus irmãos e irmãs...»

Mas, então, o que levou os bispos da Inglaterra e do País de Gales a adoptarem uma tradução da Bíblia para as leituras na missa que foi escrita há vinte anos e que considera “homens” como um termo adequado para homens e mulheres, ou “homem” para toda a humanidade?

Essas perguntas inevitáveis ​​surgem das notícias de que o estilo reconhecível da Bíblia de Jerusalém será substituído por um texto originalmente produzido por estudiosos evangélicos nos Estados Unidos, com alguns pequenos ajustes feitos por bispos católicos na Índia. A English Standard Version (ESV, edição Católica) será a única tradução permitida para uso público nas igrejas católicas, sob o fundamento de que, segundo a declaração dos bispos, é mais precisa. É mais “palavra por palavra”. Mas a linguagem exclusiva é nitidamente imprecisa. A palavra grega adelphoi, por exemplo, significa parentes de ambos os sexos, não apenas irmãos.

A ESV tem o seu mérito. A maneira como os bispos tomaram essa decisão não tem nenhum. Não consultaram as principais partes interessadas neste exercício, padres, religiosos e leigos; não consultaram estudiosos bíblicos e litúrgicos.

A ESV tem muitas das ressonâncias daquela obra-prima do cânone literário inglês, a King James Version, que estão arraigadas na memória nacional. Mas os bispos não conseguiram explicar a razão pela qual a nova versão da Bíblia de Jerusalém, publicada apenas no ano passado, que usa uma linguagem inclusiva e foi amplamente aclamada como uma tradução erudita e elegante, não seria uma escolha melhor para o novo leccionário.

Pode haver alguns entre os bispos a favor da ESV – incluindo alguns bispos indianos, escoceses, irlandeses e dos Estados Unidos – que consideram a linguagem inclusiva uma correcção politicamente correcta e imaginam que ignorá-la é um golpe viril contra a invasão da cultura dominante. Mas esse cavalo fugiu há muito tempo. A liturgia não é o lugar para uma acção de retaguarda quixotesca numa guerra cultural. Os bispos da Inglaterra e do País de Gales devem dar o exemplo aos demais, portanto, insistindo que a edição católica da ESV seja novamente revista para tornar a linguagem integralmente inclusiva. E devem permitir o uso da Bíblia Revista da Nova Jerusalém ao lado dela. Deixem as paróquias escolherem qual das duas traduções desejam usar.

Os bispos tomaram uma decisão má, de uma forma muito má. Parecem determinados a enviar um sinal que diz: se és mulher, és invisível."

Este é um dos editoriais do The Tablet, com o título “Bishops ignore women. Again”, na sua edição correspondente ao dia 30 de Janeiro. O assunto é aprofundado com a ajuda de John Barton, Professor Emérito de Interpretação da Sagrada Escritura na Universidade de Oxford, e investigador sénior em Campion Hall. É também o autor de “A History of the Bible: The Book and Its Faiths” (Uma História da Bíblia – O Livro e as suas Fés).

 

Bíblia inclusiva, um empreendimento delicado

Barton, como especialista em Sagrada Escritura, aponta algumas reflexões sobre a Bíblia na liturgia e as versões em inglês no geral. Segundo o autor, há três escolhas binárias que precisam de ser feitas na selecção de uma Bíblia em inglês moderna para leitura litúrgica: a primeira escolha é entre Bíblias na linha da tradição, que remonta à versão King James (KJV), e versões feitas "do zero" com deliberada desatenção à tradição KJV, ou seja, interpretadas como se a Bíblia nunca tivesse sido traduzida antes; uma segunda questão é a escolha entre a equivalência formal e a equivalência funcional; em terceiro lugar, há ainda a questão da “linguagem inclusiva”. É sobre esta última que nos iremos deter neste artigo.