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DACS | 18 Fev 2021
Querida Amazónia: um ano depois
Já passou um ano desde a publicação de "Querida Amazónia", do Papa Francisco. O que mudou? A "Vida Nueva Digital" e o "La Croix" ajudam a responder.
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  © DR

“Nos últimos anos, já assistimos a várias secas e inundações históricas que parecem ser os primeiros sinais de uma desestabilização geral do ecossistema. E, salvo uma reviravolta dramática na desflorestação e nas emissões de carbono, a situação tende a piorar.” 

A 12 de Fevereiro de 2020 nascia a exortação apostólica pós-sinodal “Querida Amazónia”. Nem viri probati, nem diaconado feminino. O Papa Francisco, apoiando-se em João Paulo II, deixou claro que “o carácter exclusivo recebido na Ordem permite apenas ao sacerdote presidir à Eucaristia”. Da mesma forma, considerou que dar às mulheres o acesso à Ordem sagrada conduziria à clericalização feminina e “diminuiria o grande valor de tudo o que já deram, empobrecendo subtilmente a sua indispensável contribuição”.

Diante da “premente necessidade” de esses povos celebrarem a Eucaristia, o Pontífice exortou todos os bispos, especialmente os da América Latina, “não só a promover a oração pelas vocações sacerdotais, mas também a serem mais generosos, orientando aqueles que manifestam uma vocação missionária para escolher a Amazónia”.

O pronunciamento do Papa sobre este debate, ocorrido no Sínodo para a Amazónia, realizado em Outubro de 2019 no Vaticano, foi muito aguardado. O documento final, com os “sonhos” de Francisco, oferece chaves essenciais para a Igreja local e universal. De 111 pontos distribuídos em quatro capítulos, Rubén Cruz, em artigo publicado na Vida Nueva Digital, recuperou dez mensagens essenciais de Jorge Mario Bergoglio.

1. No ponto 10, o Papa denuncia “as piores formas de escravidão, submissão e miséria” com os indígenas quando emigram para as cidades. “Nestas cidades caracterizadas por uma grande desigualdade, onde hoje habita a maior parte da população da Amazónia, crescem também a xenofobia, a exploração sexual e o tráfico de pessoas. Por isso o clamor da Amazónia não brota apenas do coração das florestas, mas também do interior das suas cidades”, insiste.


2. “Às operações económicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazónia e não respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime. Quando algumas empresas sedentas de lucro fácil se apropriam dos terrenos, chegando a privatizar a própria água potável, ou quando as autoridades deixam mão livre a madeireiros, a projetos minerários ou petrolíferos e outras atividades que devastam as florestas e contaminam o ambiente, transformam-se indevidamente as relações económicas e tornam-se um instrumento que mata. É usual lançar mão de recursos desprovidos de qualquer ética, como penalizar os protestos e mesmo tirar a vida aos indígenas que se oponham aos projetos, provocar intencionalmente incêndios florestais, ou subornar políticos e os próprios nativos”, denuncia no ponto 14.


3. No ponto 19, o Papa pede desculpa aos povos indígenas. “Entretanto como não podemos negar que o joio se misturou com o trigo, pois os missionários nem sempre estiveram do lado dos oprimidos, deploro-o e mais uma vez «peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América» e pelos crimes atrozes que se seguiram ao longo de toda a história da Amazónia”. Do mesmo modo, no ponto 25, reconhece que alguns membros da Igreja fizeram “parte das redes de corrupção, por vezes chegando ao ponto de aceitar manter silêncio em troca de ajudas económicas para as obras eclesiais”.


4. “Os grupos humanos, os seus estilos de vida e cosmovisões são tão variados como o território, pois tiveram que se adaptar à geografia e aos seus recursos”, reconhece Francisco no ponto 32. “Quantos de nós observamos de fora deveríamos evitar generalizações injustas, discursos simplistas ou conclusões elaboradas apenas a partir das nossas próprias estruturas mentais e experiências”, enfatiza.


5. “Entretanto, o risco dos evangelizadores que chegam a um lugar é julgar que devem não só comunicar o Evangelho, mas também a cultura em que cresceram, esquecendo que não se trata de «impor uma determinada forma cultural, por mais bela e antiga que seja». É necessário aceitar corajosamente a novidade do Espírito capaz de criar sempre algo de novo com o tesouro inesgotável de Jesus Cristo, porque «a inculturação empenha a Igreja num caminho difícil mas necessário». (…) Não tenhamos medo, não cortemos as asas ao Espírito Santo”, pede o Papa no ponto 69.
 


6. “É possível receber, de alguma forma, um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente como idolátrico. Um mito denso de sentido espiritual pode ser valorizado, sem continuar a considerá-lo um extravio pagão. Algumas festas religiosas contêm um significado sagrado e são espaços de reunião e fraternidade, embora se exija um lento processo de purificação e maturação. Um verdadeiro missionário procura descobrir as aspirações legítimas que passam através das manifestações religiosas, às vezes imperfeitas, parciais ou equivocadas, e tenta dar-lhes resposta a partir duma espiritualidade inculturada”, aponta o Papa no ponto 79.


7. O ponto 82 esclarece bem o anterior: “Isto permite-nos receber na liturgia muitos elementos próprios da experiência dos indígenas no seu contacto íntimo com a natureza e estimular expressões autóctones em cantos, danças, ritos, gestos e símbolos. O Concílio Vaticano II solicitara este esforço de inculturação da liturgia nos povos indígenas, mas passaram-se já mais de cinquenta anos e pouco avançamos nesta linha.”


8. “Por fim, quero lembrar que nem sempre podemos pensar em projetos para comunidades estáveis, porque na Amazónia há uma grande mobilidade interna, uma migração constante, muitas vezes pendular, e «a região transformou-se efetivamente num corredor migratório» (…) Por isso devemos pensar em grupos missionários itinerantes e «apoiar a inserção e a itinerância dos consagrados e consagradas ao lado dos mais desfavorecidos e excluídos»”, lembra Francisco no ponto 98.


9. O Papa destaca o papel da mulher no ponto 99. “Na Amazónia, há comunidades que se mantiveram e transmitiram a fé durante longo tempo, mesmo decénios, sem que algum sacerdote passasse por lá. Isto foi possível graças à presença de mulheres fortes e generosas, que batizaram, catequizaram, ensinaram a rezar, foram missionárias, certamente chamadas e impelidas pelo Espírito Santo. Durante séculos, as mulheres mantiveram a Igreja de pé nesses lugares com admirável dedicação e fé ardente. No Sínodo, elas mesmas nos comoveram a todos com o seu testemunho”, afirma.


10. “Numa Amazónia plurirreligiosa, os crentes precisam de encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum e a promoção dos mais pobres. Não se trata de nos tornarmos todos mais volúveis nem de escondermos as convicções próprias que nos apaixonam, para podermos encontrar-nos com outros que pensam de maneira diferente. Se uma pessoa acredita que o Espírito Santo pode agir no diverso, então procurará deixar-se enriquecer com essa luz, mas acolhê-la-á a partir de dentro das suas próprias convicções e da sua própria identidade. Com efeito, quanto mais profunda, sólida e rica for uma identidade, mais enriquecerá os outros com a sua contribuição específica”, comenta no ponto 106.

Um ano depois, será que os sonhos se concretizaram? E as dificuldades, terão sido ultrapassadas?

 

A crise continua

De acordo com Bryan P. Galligan SJ, Jesuíta escolástico, um ano depois, o “dramático estado de destruição” a que se refere o documento final do sínodo só piorou e os católicos do hemisfério Norte parecem ainda não ter percebido. Muitos dos residentes mais pobres da região amazónica vivem em comunidades rurais e alojamentos informais. O desenvolvimento da região levou a um crescimento económico nos últimos anos, mas há poucas evidências de que as condições de vida estejam a melhorar.

A segurança alimentar continua a ser um problema persistente; trabalhadores das indústrias extractivas estão expostos a doenças como a malária e a raiva; e há uma grave falta de infraestruturas de saúde e saneamento. 
 

“A contínua destruição social e ambiental da Amazónia não é apenas um problema local ou sul-americano. O mundo inteiro depende desta região e do seu papel na regulação do clima.”

A pandemia de Covid-19 exacerbou muitos desses problemas pré-existentes e as comunidades indígenas foram as mais atingidas. Celia Xakriaba, uma líder e activista indígena brasileira, descreveu o risco que correm as comunidades indígenas como sendo de “extermínio”. O alerta é corroborado por um relatório recente que mostra uma taxa elevada de infectados nestas comunidades (cerca de duas vezes mais do que os congéneres brasileiros), com maior probabilidade de morrerem uma vez infectados. O mesmo relatório aponta a negligência governamental, a falta de instalações de saúde e a crescente invasão de terras indígenas por indústrias extractivas ilegais como razões para esse resultado desproporcional. 

 

As consequências da destruição da Amazónia

Mesmo antes de a pandemia chegar à região amazónica, a desapropriação de terras indígenas já aumentava: o Conselho Indigenista Missionário denunciou 160 apropriações ilegais de terras em 2019, contra as 96 de ​​apenas dois anos antes. A maioria dos funcionários do governo (incluindo polícias), activistas e trabalhadores de ONGs retiraram-se da Amazónia à medida que o vírus alastrava, numa tentativa de protegerem as comunidades indígenas e limitar a propagação da doença. 

Tragicamente, no entanto, as indústrias extractivas exploraram essa ausência e a desflorestação está a acelerar cada vez mais. Apesar de o presidente Jair Bolsonaro ter enviado militares para a região na tentativa de evitar a repetição dos incêndios de Agosto passado, dados de satélite mostram que a taxa de desflorestação continua muito maior do que no ano passado. A violência contra os povos indígenas e funcionários do governo designados os proteger também aumentou.
 

“As consequências de cruzar o ponto de inflexão na Amazónia seriam verdadeiramente globais. O resto do mundo partilha não apenas as consequências da destruição da região, mas também a responsabilidade por ela.”


De acordo com a Human Rights Watch, a desflorestação da Amazónia é amplamente impulsionada por grupos de crime organizado que defendem os seus interesses com ameaças, intimidação e violência, crimes que muitas vezes não são investigados, nem punidos. Diante desse cenário de violência e impunidade, alguns grupos de direitos humanos têm alertado que algumas comunidades indígenas correm o risco de “massacres iminentes. O governo ainda não deu atenção a essas advertências. As mudanças climáticas e a desflorestação, ambos impulsionados principalmente por forças económicas noutras partes do mundo, estão a tornar ainda pior o que já é uma situação péssima na Amazónia.

Numa carta publicada no final do ano passado, dois importantes cientistas, Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, alertaram: “a preciosa Amazónia oscila à beira da destruição funcional e, com ela, nós também”.