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DACS com Vida Nueva Digital | 7 Jun 2021
Cardeal George Pell: “O meu maior erro foi subestimar as forças obscuras do Vaticano"
Em extensa entrevista ao Vida Nueva Digital, o cardeal conta como saiu da prisão e analisa a situação económica do Vaticano.
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  © DR

George Pell aperta a nossa mão com vigor ao receber-nos no seu apartamento, um daqueles grandes apartamentos que o Vaticano concede aos cardeais da Cúria Romana, na qual o cardeal australiano deixou de trabalhar como prefeito do Secretariado da Economia quando, em Junho de 2017, voltou ao seu país para se defender de uma acusação de pedofilia.

Assim começou uma via crucis judicial que o levaria a ser condenado em primeira e segunda instância, o que significou passar 404 dias na prisão, até que, em Abril de 2020, o Tribunal Superior australiano o absolveu e ordenou a sua libertação imediata. “Não perdi as esperanças, ainda que se tenha criado uma atmosfera envenenada contra mim, contra a Igreja Católica e contra os seus líderes”, explica Pell, que acaba de publicar o seu “Diário na prisão” (Palavra) em espanhol. “Fui um bode expiatório”, diz.

Numa extensa entrevista ao Vida Nueva Digital, o purpurado conta como saiu da prisão, “grato pelas tantas coisas boas” que teve e recebeu na sua vida, e analisa a situação económica do Vaticano, cuja gestão procurou modernizar e tornar mais transparente.

“Não sabemos quantas pessoas vão para o céu ou para o inferno, mas pelo menos devemos saber se estamos a ganhar ou a perder dinheiro”, diz, deixando elogios ao seu sucessor na Secretaria para a Economia, o jesuíta espanhol Juan Antonio Guerrero. "Passos foram dados e o progresso continua a ser feito”, afirmou.

Pell lembra a resistência que encontrou em parte da Cúria para conseguir maior transparência e garante que não entrou numa guerra cultural, tendo havido antes um confronto entre "aqueles que queriam lutar contra a corrupção, aqueles que estavam envolvidos nela e aqueles que fecharam os olhos". A melhor prova de quão “desconfiados” estão muitos dos que trabalharam com os investimentos do Vaticano, na sua opinião, veio com a compra de um prédio em Londres com recursos da Secretaria de Estado, operação que está a ser investigada pela Justiça do Vaticano.

O cardeal finalmente diz que decidiu ficar e viver em Roma, embora regresse com frequência à Austrália, de preferência durante o Verão europeu, para escapar do calor húmido e sufocante da Cidade Eterna.

 

Qual foi o seu momento mais difícil na prisão?

De todo o tempo que lá estive, o mais difícil foi quando me condenaram no segundo julgamento, o julgamento de recurso. Isso foi uma grande surpresa para mim, porque as acusações eram absurdas. Dizia-se que eu tinha atacado dois meninos, que eu nem conhecia, e na sacristia, numa época em que haveria quatro ou cinco pessoas ali e várias centenas em toda a área. O juiz achou que eu era inocente, mas teve que prosseguir com a decisão do júri, que foi errada e arrogante. Para mim, isso foi muito difícil, lembro-me de olhar para os seus rostos e dizer-lhes que era falso e injusto. Era tudo muito estranho, assim como as acusações.

 

Sempre acreditou que seria absolvido?

Não perdi as esperanças. Há que diferenciar entre esperança cristã, optimismo humano e as previsões sobre a possível libertação por parte do Tribunal. Depois das decisões tomadas contra mim, tive a certeza de que não poderia haver mais erros e que, no fim, me iriam libertar. Foi a única coisa que pude fazer, porque, do ponto de vista jurídico e forense, a lógica dizia que a minha defesa era muito forte. Os meus advogados disseram-me isso. O problema é que se criou uma atmosfera envenenada contra mim, contra a Igreja Católica e contra os seus líderes.

Quando estava na prisão e preocupado com o que iria acontecer, às vezes lembrava-me daquele velho filósofo e ateu britânico Bertrand Russell, que dizia que às vezes faz falta ser muito inteligente para ser muito estúpido e cometer erros enormes. Todos os membros do Supremo Tribunal são pessoas muito inteligentes, pessoas de mente e acção claras. Disseram-me que no Supremo Tribunal seriam capazes e íntegros, e foi assim que se comportaram.

 

Estava preocupado com o processo paralelo vivido nos média?

Claro, mas cada pessoa pode fazer o que pode fazer. Embora houvesse alguns líderes importantes nos média a defenderem a minha posição, a postura geral foi muito hostil. Houve algumas pessoas no tribunal que até disseram publicamente que eu poderia ser inocente, mas que alguém na Igreja precisava de pagar. Fui um bode expiatório. A acusação de que abusei de duas pessoas após a missa na sacristia, que estava cheia de gente, é absurda para quem já foi à missa. Uma dificuldade do processo foi justamente o facto de muitos membros do júri nunca irem à igreja e terem a ideia de que uma catedral pode ser um lugar fechado e escuro. É um detalhe interessante.

 

Qual a sua opinião sobre a pessoa que o denunciou?

Nunca cometi nenhuma violência contra aquela pessoa, que tem muitos transtornos psicológicos devido ao uso de drogas. Não creio que esteja em paz, nem sequer agora. Talvez tenha criado toda essa história como uma fantasia, (…) ou traçou um paralelo com outro evento semelhante ocorrido nos Estados Unidos, que mais tarde também ficou conhecido como falso. As acusações são muito semelhantes. A pessoa que me acusou mudou 24 vezes de depoimento, talvez alguém a tenha instruído, mas não sei quem poderá ser.

 

Perdoou a pessoa?

Às vezes o perdão é difícil, mas é uma decisão que tomas porque és cristão e decides fazê-lo.

 

O que diria às associações de vítimas?

Tenho grande simpatia pelas verdadeiras vítimas e penso que a melhor protecção é sempre a verdade. Temos que trabalhar para isso, a verdade tem que ser a base da justiça. Na minha caminhada como bispo, sempre fui a favor das vítimas, como aconteceu em Melbourne, quando iniciámos um processo de justiça com as vítimas, às quais pagamos indemnizações. Uma acusação tem sempre que ser avaliada, mesmo que haja momentos em que algumas pessoas mentem ou a sua mente lhes pregue partidas por causa de drogas, álcool ou outros motivos.

 

Sentiu o apoio do Papa e do Vaticano durante a sua permanência na prisão?

Sempre senti um forte apoio, tanto do Papa Francisco como de Bento XVI, que também me enviou uma mensagem. Estou muito grato por isso. Os comunicados do Vaticano, por outro lado, eram um pouco mais mornos e também reflectiam um respeito pela justiça australiana que pode ser optimista demais.

 

Como é que esta experiência o mudou pessoalmente?

Não tenho a certeza de me ter tornado melhor por ter estado na prisão, mas tenho a certeza de que sou mais grato pelas tantas coisas boas que tive e recebi na minha vida. Tem sido uma vida muito boa, trabalhando e servindo em diferentes mundos. Agradeço a Deus por tudo isso e acredito que agora entendo melhor o papel que o sofrimento tem na redenção. Talvez seja por isso que a minha fé está ainda mais forte agora. Entre os agradecimentos que tenho a fazer, não quero esquecer Felipe Fernández-Armesto, historiador e professor da Universidade de Notre Dame (Estados Unidos), pelo apoio. Fernández-Armesto é um homem brilhante, a quem queria agradecer publicamente.

 

Está satisfeito com as reformas económicas dos últimos anos no Vaticano? São as mudanças que pedia quando era prefeito?

Sem dúvida, avanços foram dados e o progresso continua. O meu sucessor, o padre Juan Antonio Guerrero, é um homem capaz e honesto. Tive uma longa conversa com ele no início, mas não interfiro no seu trabalho, nem o vejo regularmente. Confio nele, conta certamente com as capacidades necessárias. O Papa tomou uma boa decisão ao elegê-lo, embora eu gostasse de vê-lo como cardeal para que o seu papel seja ainda mais reconhecido e a sua autoridade seja ainda mais respeitada.

 

Acha que o facto de não ser cardeal enfraquece o padre Guerrero?

Não, não acho que enfraqueça. Mas, contra mim, usaram vários argumentos, entre eles o da autoridade. Recentemente, encontrei o padre Guerrero na rua quando ele se dirigia ao seu escritório. Perguntei-lhe como iam as coisas e ele disse que estavam bem, mas que a situação estava difícil, como eu entenderia. Eu disse que sim, entendia bem. Mesmo antes da crise causada pela Covid-19, estávamos sob uma pressão financeira que agora se tornou muito mais forte. Todos os anos, os Museus do Vaticano geravam entre 16 ou 19 milhões de euros com a venda de ingressos, mas agora não sei quanto poderá advir daí, porque a pandemia parou tudo.

 

Entrevista de Darío Menor, publicada em Vida Nueva Digital a 4 de Junho de 2021.

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