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DACS com Avvenire | 4 Nov 2021
O autêntico espírito dos Sínodos é saber colocar-se em jogo
No último número da “La Civiltà Cattolica”, a intervenção do editor da revista: colocar a Igreja em estado sinodal significa torná-la inquieta, incómoda, tensa por ser abalada pelo sopro divino.
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O início do Sínodo sobre a sinodalidade, realizado no passado dia 9 de Outubro, convida-nos a colocar a questão sobre o que significa hoje ser Igreja e qual o seu significado na história. E esta pergunta está também na base do caminho sinodal que a Igreja italiana está a empreender, e daquele que está em curso ou em vias de se iniciar na Alemanha, Austrália e Irlanda.

Aqueles que acompanharam as Assembleias do Sínodo dos Bispos nos últimos anos certamente perceberam o quanto emergiu a diversidade que molda a vida da Igreja Católica. Se, a certa altura, uma certa latinitas ou romanitas constituíam e moldavam a formação dos bispos – que, entre outras coisas, entendiam pelo menos um pouco de italiano –, hoje a diversidade emerge com força em todos os níveis: mentalidade, linguagem, abordagem das questões. E isso, longe de ser um problema, é um recurso, porque a comunhão eclesial realiza-se na vida real dos povos e das culturas. Num mundo dividido como o nosso, é uma profecia.

A Igreja não deve ser imaginada como uma construção de diferentes tijolos de Lego que se encaixam no ponto certo. Esta seria uma imagem mecânica de comunhão. Poderíamos pensar melhor nela como uma relação sinfónica, de notas diferentes que juntas dão vida a uma composição. Se continuássemos a usar esta imagem, diria que não é uma sinfonia onde as partes já estão escritas e atribuídas, mas um concerto de jazz, onde se toca seguindo a inspiração partilhada no momento. Quem viveu os recentes Sínodos dos Bispos terá percebido as tensões que surgiram no seio da Assembleia, mas também o clima espiritual em que estiveram – maioritariamente – imersos. O Pontífice sempre insistiu muito no facto de o Sínodo não ser uma assembleia parlamentar onde as discussões e os votos são feitos por maioria e por minoria. O protagonista, na realidade, é o Espírito Santo, que “move e atrai”, como escreve Santo Inácio nos seus Exercícios Espirituais. O Sínodo é uma experiência de discernimento espiritual em busca da vontade de Deus para a Igreja.

Que esta visão do Sínodo é também uma visão da Igreja não deve ser colocado em questão. Há uma eclesiologia – amadurecida ao longo dos anos graças ao Concílio Vaticano II – que se desenvolve hoje. Para isso, é necessária uma grande escuta. Escuta de Deus, na oração, na liturgia, no exercício espiritual; escuta das comunidades eclesiais, comparação e debate sobre as experiências (porque é sobre as experiências que se faz o discernimento e não sobre as ideias); escuta do mundo, porque Deus está sempre presente, inspirando, comovendo, agitando: temos a oportunidade de nos tornarmos “uma Igreja que não está separada da vida”, disse Francisco, saudando os participantes no início do caminho sinodal (9 Outubro).

O Pontífice resumiu a seguir: “Percorrendo diversos caminhos, viestes de tantas Igrejas trazendo cada um no coração questões e esperanças; e tenho a certeza de que o Espírito nos guiará e concederá a graça de avançarmos em conjunto, de nos ouvirmos mutuamente e iniciarmos um discernimento no nosso tempo, tornando-nos solidários com as fadigas e os anseios da humanidade.”. Colocar a Igreja em estado sinodal significa torná-la inquieta, incómoda, tensa por ser agitada pelo sopro divino, que certamente não gosta de zonas seguras, áreas protegidas: sopra onde quer.

A pior maneira de fazer um sínodo então seria pegar no modelo de conferências, congressos, “semanas” de reflexão, e imaginar que assim tudo pode acontecer de maneira ordenada, até cosmeticamente. Outra tentação é a preocupação excessiva com a “máquina sinodal”, para que tudo funcione conforme o esperado. Se não há sensação de vertigem, se o terramoto não é vivido, se não há dúvida metódica – não a céptica –, a percepção de surpresa incómoda, então talvez não haja sínodo. Se o Espírito Santo está em acção – disse uma vez Francisco – então “dá um pontapé na mesa”. A imagem é bem-sucedida, porque é uma referência implícita a Mt 21,12, quando Jesus “derrubou as mesas” dos mercadores do templo.

Para fazer um sínodo é preciso expulsar os mercadores e virar as suas mesas. Não sentimos a necessidade de um pontapé do Espírito hoje, nem que seja para nos acordar do entorpecimento? Mas quem são os “mercadores do templo” hoje? Só uma reflexão impregnada de oração pode ajudar-nos a identificá-los. Porque não são os pecadores, não são os “distantes”, os não crentes, nem mesmo os que se professam anticlericais. Na verdade, às vezes eles ajudam-nos a entender melhor o precioso tesouro que temos nos nossos pobres vasos de barro. Os mercadores estão sempre perto do templo, porque ali fazem negócios, ali vendem bem: formação, organização, estruturas, certezas pastorais. Os comerciantes inspiram a imobilidade de velhas soluções para novos problemas, isto é, o que sempre se fez é sempre um “remendo”, como o define o Pontífice. Os mercadores gabam-se de estar “ao serviço” do religioso. Muitas vezes oferecem escolas de pensamento ou receitas prontas para usar e localizam geograficamente a presença de Deus que está “aqui” e não “lá”.

Fazer um sínodo, então, implica ser humilde, concentrar-se no pensamento, passar do “eu” ao “nós”, abrir-se. É impressionante, neste sentido, por exemplo, o que o Relator Geral do Sínodo, o Cardeal Jean-Claude Hollerich, disse na sua saudação de 9 de Outubro durante a abertura: “devo confessar que ainda não tenho ideia do tipo de instrumento de trabalho que vou escrever. As páginas estão vazias, cabe a vós preenchê-las”. O tempo sinodal deve ser vivido com paciência e espera, abrindo bem os olhos e os ouvidos. “«Effatà», que quer dizer: «abre-te!»” (Mc 7,34) é a palavra-chave do Sínodo. Roland Barthes – como eminente linguista e semiólogo – havia entendido que os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola servem para criar uma linguagem de diálogo com Deus feita de escuta e fala. É preciso entender que o Sínodo, à sua maneira, partilha dessa natureza linguística, como criador de linguagem. E por isso é importante o método, ou seja, o caminho e as regras do caminho, principalmente no que diz respeito ao envolvimento total. Em última análise, a dinâmica que se desenvolve no Sínodo pode ser descrita como uma “jogo, um “entrar em jogo”. E, por exemplo, jogar futebol não significa apenas lançar a bola, mas também correr atrás dela, “ser jogado” pelas situações que ocorrem em campo. Na verdade, “o jogo só atinge o seu objectivo se o jogador estiver totalmente imerso nele”, como escreve Gadamer no seu famoso ensaio “Verdade e Método”. O sujeito do jogo, portanto, não é o jogador, mas o próprio jogo, que ganha vida através dos jogadores. E este é, no fundo, o espírito do Sínodo: colocar-se finalmente de verdade em jogo seguindo a dinâmica animada pelo Espírito.

Artigo do Pe. Antonio Spadaro, publicado em Avvenire a 4 de Novembro de 2021.

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Palavras-Chave:
Sínodo  •  Sinodalidade  •  Escuta  •  Espírito Santo  •  Papa Francisco
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