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DACS com La Stampa | 6 Dez 2021
Papa Francisco: “O bispo de Paris? Demiti-o pelo falatório, mas o seu pecado carnal não é dos mais graves”
Entrevista a Francisco no voo de regresso da Grécia e do Chipre: o documento da UE sobre o Natal é um “anacronismo”. “A democracia está em perigo devido ao populismo e aos governos supranacionais”.
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O documento da UE sobre o Natal é “um anacronismo” da “laicidade líquida”. A democracia está em perigo devido aos populismos e governos supranacionais. No voo A34994 de regresso de Atenas, depois de dois dias passados ​​na Grécia e outros tantos no Chipre, o Papa Francisco responde às perguntas dos jornalistas. E defende o arcebispo de Paris, Michel Aupetit: “Tive que demiti-lo pelo falatório, mas o seu pecado carnal não é dos mais graves”.

 

Santidade, pelo que se desculpou com os patriarcas ortodoxos?

Pedi desculpas ao meu irmão Crisóstomo por todas as divisões que existem entre os cristãos e pelas divisões que causamos como católicos. Durante a guerra da independência da Grécia, os católicos aliaram-se aos governos europeus que desejavam a independência. Só os católicos das ilhas a apoiaram e deram a vida pela pátria. Mas os outros naquele momento ficaram do lado da Europa. Nós também temos a nossa culpa pelas divisões, pelo espírito de auto-suficiência. Porém, penso sempre como Deus nunca se cansa de perdoar, nunca, somos nós que nos cansamos de pedir perdão. Se não pedirmos perdão a Deus, dificilmente pediremos aos nossos irmãos. É mais difícil pedir perdão aos irmãos do que a Deus, com os irmãos há vergonha, humilhação... Pedi desculpas pelas divisões que provocamos e pelas divisões causadas quando tomamos partido pela União Europeia. E depois uma última desculpa do coração: desculpe pelo escândalo do drama dos migrantes, pelo escândalo de tantas vidas afogadas no mar.

 

Também conversou com os patriarcas sobre a sinodalidade. O que pretendeu dizer?

Que somos um único rebanho. A dinâmica que rege as diferenças na Igreja é a sinodalidade, a escuta mútua, o caminhar junto: “syn-odós” caminhar, estar juntos. As Igrejas Ortodoxas Orientais e as Igrejas Católicas Orientais preservaram tudo isto. A Igreja latina, por outro lado, tinha esquecido o Sínodo. Paulo VI restaurou o caminho sinodal e estamos a fazer este caminho para termos o hábito de caminhar juntos.

 

O que acha do documento sobre a Europa, que aconselha os funcionários da Comissão Europeia a não usarem a palavra Natal porque causa divisão e a optarem por um termo neutro?

É um anacronismo. Na história, muitas ditaduras tentaram fazer isso... Napoleão, a ditadura nazi, a comunista... é uma moda de um laicidade líquida, “água destilada”, mas é uma coisa que não tem funcionado na história. Creio que é necessário que a UE assuma os ideais dos pais fundadores, ideais de unidade e grandeza, e tenha cuidado para não seguir o caminho da colonização ideológica. Porque tudo isto pode levar à divisão de países e ao colapso da União Europeia. A UE deve respeitar um país pela forma como se estrutura internamente, pela sua variedade e não uniformizar. Acredito que não o farão, mas devem estar atentos. Às vezes lançam projectos como este e não sabem como. Cada país tem as suas peculiaridades, a sua soberania, mas tudo numa unidade que respeita as singularidades. Por isso digo: cuidado para não fazerem colonização ideológica. Porém, o lançamento no Natal é um anacronismo.

 

Falou da democracia que “retrocede” na Europa. A que países se referia?

A democracia é um tesouro da civilização e deve ser mantida, não apenas por uma entidade superior, mas também nos próprios países. Contra a democracia hoje vejo dois perigos. A primeira é a dos populismos que estão aqui e ali e estão a começar a mostrar as suas garras. Estou a pensar num grande populismo do século passado, o nazismo, um populismo que, defendendo os valores nacionais, dizia-se, conseguiu aniquilar a vida democrática e tornar-se uma ditadura, com a morte do povo. Estejamos atentos para que os governos – não digo de esquerda ou de direita – não escorreguem nesse caminho de populismos que nada têm a ver com o popularismo que é a expressão de povos livres, povos com identidade própria, folclore, arte. Um segundo perigo surge quando se sacrificam os valores nacionais, que são diluídos num “império”, uma espécie de governo supranacional. Portanto, não cair no populismo nem enfraquecer a própria identidade num governo supranacional. Há um romance escrito em 1903 por Robert Hug Benson, “O mestre do mundo”, que sonha o futuro num governo internacional que governa com medidas económicas e políticas todos os outros países. Quando acontece este tipo de governo, retira-se a liberdade e tenta-se alcançar a igualdade entre todos. O perigo surge quando há populismo e quando há uma superpotência que dita os comportamentos culturais, económicos e sociais.

 

A migração é um tema central em muitos países europeus, especialmente na Europa de Leste, por exemplo na crise bielorrussa e com arame farpado na fronteira com a Europa. O que espera da Polónia e da Rússia e de outros países, como a Alemanha, com o seu novo governo?

Se eu estivesse diante de um governante que impede a imigração com o encerramento de fronteiras e arame farpado, diria: pensa na época em que eras um migrante e não te deixavam entrar, e querias fugir... Aqueles que constroem muros perdem o sentido da própria história, quando eles mesmos eram escravos noutro país. Quem constrói muros tem a experiência de ter sido escravo. Mas os governos devem governar e se chega uma onda de migração, já não governam? Cada governo deve indicar claramente quantos migrantes pode receber, é um direito seu, mas ao mesmo tempo os migrantes devem ser acolhidos, acompanhados, promovidos e integrados. Se um governo não pode fazer isto, deve dialogar com outros países. A UE deve harmonizar a distribuição dos migrantes. Na Europa não existe uma linha comum, uma harmonia geral. Os migrantes devem ser acolhidos e integrados: porque se não integrares o migrante, isto desenvolverá uma cidadania de gueto. Se não o integrares, terás um guerreiro. Claro, não é fácil recebê-los. Mas se não resolvermos o problema, corremos o risco de destruir a civilização na Europa. Não só o Mediterrâneo, mas também a nossa civilização. Os representantes dos governos europeus devem chegar a um acordo. Um modelo foi o da Suécia, que acolheu migrantes latino-americanos de ditaduras militares e os integrou. Hoje fui a um colégio em Atenas e disse ao responsável que me sentia como se estivesse diante de uma “salada de frutas” de culturas. E ele disse-me: este é o futuro da Grécia. Mas se um país envia um migrante de volta para o seu país, então deve integrá-lo lá também, não deixá-lo na costa da Líbia. Há um vídeo da Open Arms que mostra a realidade que está a acontecer.

 

Quando será o seu próximo encontro com Kirill? Que projectos comuns tem com a Igreja da Rússia e quais são as dificuldades?

O encontro com Kirill está no horizonte. Acho que na próxima semana Hilarion virá procurar-me para marcar um possível encontro. O patriarca tem de viajar e estou disposto a ir a Moscovo para me encontrar com ele. Não existem protocolos para dialogar com um irmão, chame-se Kirill ou Crisóstomo ou Ieronymos. Somos irmãos e dizemos coisas cara a cara. Também é bom ver os irmãos a discutir porque pertencem à mesma Igreja-mãe. Devemos trabalhar em unidade e pela unidade. O grande teólogo ortodoxo Zizioulas disse que encontraremos unidade no eschaton... É um ditado, mas não significa que devemos ficar parados à espera que os teólogos cheguem a um acordo. Que os teólogos continuem a estudar, mas que entretanto avancemos juntos, rezemos juntos, façamos caridade juntos.

 

Na França, a comissão independente sobre os abusos falou da responsabilidade institucional da Igreja, de uma dimensão sistémica. Qual a sua opinião sobre esta afirmação? O que é que isto significa para a Igreja universal?

Quando se elaboram estes estudos, temos de ter cuidado com as interpretações. Quando se considera um tempo tão longo, corremos o risco de confundir o modo como nos sentirmos sobre um problema. Uma situação histórica deve ser interpretada com a hermenêutica da época, não de agora. Por exemplo a escravidão, hoje dizemos que é uma brutalidade, mas houve um tempo em que era uma outra hermenêutica. Não li o relatório, mas ouvi os comentários dos bispos, que agora virão a Roma e vou pedir-lhes que me expliquem.

 

Por que aceitou a renúncia do arcebispo de Paris Aupetit?

Pergunta-me: o que é que ele fez de tão grave que tem que renunciar? Não sabe? Antes de responder, direi: faça-se uma investigação. Ele foi condenado? E quem o condenou? A opinião pública. Se sabes porquê, di-lo. Houve uma falha dele, contra o sexto mandamento, mas não total. As pequenas carícias, as massagens que fazia na secretária… E isto é um pecado, mas não é um pecado grave. Os pecados da carne não são os mais graves. Os mais sérios são aqueles que têm mais angelicalidade: a soberba, o ódio. Assim, Aupetit é um pecador como eu, assim como Pedro, o bispo sobre quem Jesus fundou a Igreja e que o negou. Porque é que a comunidade da época aceitou um bispo pecador? Era uma Igreja normal, na qual estávamos habituados a que todos nos sentíssemos pecadores, humildes. Vemos que a nossa Igreja não está habituada a ter um bispo pecador, vamos fingir que digo: o meu bispo é um santo... Não, somos todos pecadores. Mas quando o falatório cresce, cresce, cresce e apaga o bom nome de uma pessoa, não, ela não vai poder governar porque perdeu o bom nome não pelo seu pecado, que é pecado – como o de Pedro, como o meu, como o teu – mas pelo falatório das pessoas. Por isto aceitei a demissão, não sobre o altar da verdade, mas sobre o altar da hipocrisia ”.

Entrevista de Domenico Agasso, publicada no La Stampa a 6 de Dezembro de 2021.

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Palavras-Chave:
Papa Francisco  •  Grécia  •  Chipre  •  Paris  •  Ecumenismo
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