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DACS com Avvenire | 21 Dez 2021
Na Líbia, o Natal dos católicos é ao lado dos migrantes
Em Trípoli, a igreja de São Francisco é um ponto de apoio para os refugiados.
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  © ACN

O pequeno gabinete da Cáritas ao lado da igreja de São Francisco está lotado em Trípoli. Um presépio nos corredores mostra que o Natal está próximo.

À entrada, mulheres e homens que chegaram à Líbia vindos do coração da África fazem pressão. “Há muitos migrantes que vêm até nós hoje em dia. Vêm do Sudão ou da Eritreia e já estão registados como refugiados, ou requerentes de asilo”, afirmou D. George Bugeja, o Vigário Apostólico de Trípoli. Frade menor franciscano, está há quatro anos no país ainda dominado pela guerra civil que, pelo menos no papel, já deveria ser um capítulo fechado.

“Os que vêm aqui para a Cáritas pedem-nos para intervirmos junto do ACNUR para terem a oportunidade de sair da Líbia o mais rápido possível e desembarcar num país onde possam começar uma nova vida”, explica o bispo. “Entre eles há muitas crianças e a situação em que vivem é verdadeiramente precária”.

D. Bugeja aponta em direcção ao local onde se encontra o Centro de Dia da Comunidade, o centro comunitário diurno da agência das Nações Unidas.

“Dois mil deles estão acampados fora das instalações. Querem que o seu grito desesperado seja ouvido e o quadro corre o risco de se deteriorar. Por isso agradeço ao Papa as suas intervenções a favor dos migrantes na Líbia: numa das mais recentes apelou ao coração dos que têm responsabilidades governamentais para que os enviem para construir pontes e não muros”, afirmou.

Será, assim, um Natal em sinal de boas-vindas à comunidade católica de Trípoli que tem como referências, além do Vigário Apostólico, apenas algumas religiosas e alguns Frades. (…)

Ao longo das ruas sente-se a brisa mediterrânica: o mar está situado a duzentos metros da igreja que também funciona como Sé Catedral, uma vez que a “histórica”, construída nos anos 1920, foi transformada em mesquita em 1970.

“Claro, o Natal será como outro dia qualquer aqui. Mas este ano vamos celebrar a festa num ambiente diferente. Porque, se o preceito for respeitado e não houver mudanças, as eleições democráticas serão realizadas no dia 24 de Dezembro. Esperamos que tudo corra bem e não haja tensões excessivas”, disse D. Bugeja.

O vicariato apostólico deu o seu apoio para participar no encontro dos bispos do Mediterrâneo pela paz que se irá realizar em Florença de 23 a 27 de Fevereiro e ao qual se irá juntar o fórum de cem prefeitos das cidades da bacia.

“Espero poder estar lá, desde que não haja mais choques institucionais e que a Covid não bloqueie os movimentos”, explicou.

 

Como se vive o Natal num país muçulmano e sobretudo ferido pelos confrontos iniciados em 2011 e que depois abriram as portas a seis anos de conflito armado?

D. Bugeja: Todos nós esperamos que a guerra agora seja uma coisa do passado. Vamos celebrar o nascimento do Redentor na igreja, estritamente na igreja. Paralelamente às celebrações litúrgicas, planeamos uma noite de canções natalícias e um espectáculo preparado pelas crianças da catequese com a entrega de presentes da parte do Pai Natal.

 

Na Líbia, a comunidade eclesial é muito pequena: 15 mil católicos numa população de mais de 6 milhões de habitantes. É uma igreja escondida?

Não diria escondida. Somos uma Igreja formada por operários vindos do exterior e migrantes. Grande parte dos fiéis é originária das Filipinas: a maioria são mulheres que trabalham como enfermeiras em hospitais, ou clínicas privadas, mas também exercem cargos de professoras em universidades, ou escolas. Os homens, por outro lado, geralmente têm contrato de trabalho com empresas petrolíferas ou outras entidades económicas. Depois, há os grupos da Índia, Paquistão, Itália e Malta. No entanto, aqui a maioria dos católicos vem de África. Os mais numerosos são nativos da Nigéria, mas também do Sudão do Sul, Togo ou Benim. Não nos sentimos em perigo, ninguém nos incomoda. Gozamos daquela liberdade necessária para viver uma experiência de fé: basta que tudo aconteça dentro do perímetro da igreja.

 

As eleições aproximam-se. O que se pode esperar?

O caminho para a estabilidade não é fácil, não obstante a votação. A situação pode mudar de um dia para o outro. Seria presunção dizer o que vai acontecer. Mas as eleições são um grande passo em frente. Elas são essenciais se o país pretende continuar a caminhar na direcção certa: não só os líbios poderão escolher os seus representantes de forma democrática, o que até agora não era possível, mas será uma oportunidade para reiniciar a economia e para celebrar acordos com outros Estados mediterrânicos, de modo a resolver em conjunto questões complexas, incluindo a dos migrantes.

 

O Mediterrâneo é “um cemitério frio sem lápides”, disse o Papa Francisco em Lesbos, convidando as pessoas a impedir o “naufrágio da civilização”.

Para evitar essas tragédias, devemos tentar ir à raiz do fenómeno e perguntar: por que se deixa a própria terra, arriscando até a vida? A resposta não é fácil. Por isso, devem ser criadas as condições para que possamos ter uma existência melhor nos países de origem, apostando na educação, no trabalho, na eliminação da pobreza. Tudo isso limitará as partidas. Seria bom para os governos da África e do Ocidente, começando pela Europa, desenvolver um plano sólido e prático para o crescimento do continente africano.

 

Um cessar-fogo está em vigor na Líbia desde Agosto de 2020. Existe realmente paz?

A paz é uma realidade e isso também é demonstrado pelo facto de várias embaixadas europeias terem reaberto em Trípoli. Como Igreja, esperamos a reabertura da nunciatura apostólica, cujo edifício já foi construído, mas até agora nunca foi utilizado. Claro, também há alguma preocupação em relação às eleições. Mas, se Deus quiser, se a Líbia tiver um presidente estável e um governo aceite por todos, estará num ponto de viragem. Esperamos e oramos.

 

Mercenários da Rússia e da Turquia continuam presentes no país.

O Comité Militar 5 + 5 está a discutir a questão com a Turquia e a Rússia para encontrar uma solução que seja aceite por todas as partes envolvidas.

 

A Igreja no Norte de África é marcada pela perseguição e pelo martírio.

É uma Igreja que vive a sua vocação.

 

Teme novos ataques de células terroristas?

Não. É uma coisa do passado e espero para o bem de toda a nação que o controlo e a supervisão sejam constantes.

 

No encontro dos bispos em Florença, será discutida a relação entre a Igreja, a sociedade e as instituições políticas. Existe liberdade na Líbia?

Os direitos e deveres são da responsabilidade de cada um de nós. Muitas vezes falamos dos nossos direitos, mas esquecemos os nossos deveres para com os outros, para com o Estado, para com Deus.

 

Notícia e entrevista originais de Giacomo Gambassi, publicadas em Avvenire a 18 de Dezembro de 2021.

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Palavras-Chave:
Líbia  •  Migrantes  •  Refugiados  •  Natal  •  Cristianismo  •  Crianças
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