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DACS com La Croix International | 15 Fev 2022
A sinodalidade requer “atitudes espirituais” estranhas a muitos católicos
Entrevista com Jos Moons, um jesuíta holandês que lecciona na Universidade Católica de Louvain e está actualmente a preparar um livro sobre o projecto que o Papa Francisco lançou – a sinodalidade.
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  © DR

Não é apenas uma palavra complicada, mas “sinodalidade” também é uma palavra nova na tradição Católica.

No entanto, no seu básico, é muito simples, diz o teólogo Jos Moons.

“Pode ser expressa em três pontos simples: somos Igreja juntos, a caminho, sob a orientação do Espírito Santo”, defende o jesuíta holandês de 41 anos.

Mas o teólogo admite que a sinodalidade complica-se facilmente, porque está relacionada com a participação dos crentes na vida da Igreja.

Como é que se organiza um processo que leva a sério a participação de 1,3 biliões de católicos em todo o mundo?

Moons, que ingressou na Companhia de Jesus em 2009, escreveu a sua tese de doutoramento sobre a Lumen gentium e renovação pneumatológica. Está actualmente em Salamanca (Espanha) a completar nove meses sabáticos, a que chama de “curso de actualização para Jesuítas”.

Em Maio regressará à Bélgica, onde realiza trabalho paroquial e lecciona na Universidade Católica de Louvain (KL-Leuven) e, uma vez de volta, “realizará uma visão geral do que está a acontecer em todo o mundo em torno da sinodalidade”, mapeando subtemas, catalogando os vários tópicos e identificando pensadores importantes.

Moons espera que seja um “serviço em larga escala” para as universidades e toda a Igreja. O jovem Jesuíta também está actualmente a trabalhar com dois colegas teólogos num livro sobre sinodalidade.

“Queremos mostrar que a sinodalidade como prática eclesial existe há muito tempo. Muitas pessoas não sabem disso. Mas funciona há séculos, por exemplo, em mosteiros ou em outras igrejas cristãs”, disse.

Moons concedeu a entrevista que se segue ao jornalista Hendro Munsterman.

 

De que precisa a sinodalidade para ter sucesso?

A sinodalidade requer algumas atitudes espirituais às quais não estamos habituados na Igreja Católica. Como a atitude espiritual de ousadia: isto tem sido tradicionalmente desencorajado. Também requer uma atitude de escuta. Os bispos não são formados para isso, nem os crentes comuns. Ouvir para depois iniciar uma discussão, geralmente conseguem fazer isso. Mas ouvir no sentido de estar genuinamente curioso sobre o que a outra pessoa pensa é muito mais difícil. Finalmente, requer também a atitude espiritual de discernimento. Quando diferentes vozes se levantam, é preciso pesá-las. Isto pressupõe liberdade interior por parte dos envolvidos, algo a que muitas vezes também não estamos habituados na Igreja. Os bispos muitas vezes conhecem a situação e nem sempre são bons a colocar as suas próprias opiniões em perspectiva. Os fiéis baptizados, por sua vez, muitas vezes também encontram dificuldades.

 

Mas se todos puderem dar sua opinião, não há perigo de cacofonia? Se as pessoas pensam alguma coisa, isso é necessariamente a opinião do Espírito Santo?

Isso pode realmente parecer ingénuo, e de facto é. Mas é tão ingénuo quanto é o medo de alguns de entrarem neste processo. Se a grande maioria dos fiéis católicos pensa algo, não se pode descartar a possibilidade de que o Espírito Santo queira dizer algo à Igreja ao fazê-lo.

 

Como funciona a ponderação e o equilíbrio?

Os bispos costumam dizer que tal e tal é o ensinamento da Igreja e devemos ensiná-lo e defendê-lo. Os crentes dizem: é assim que nos sentimos. A posição dos bispos merece respeito e atenção; assim como a posição dos fiéis. Mas também precisamos de um traço objectivante para pensar sobre isto com calma. Há um grupo de pessoas que se especializam nisso, que é a universidade. Não está suficientemente envolvida neste tipo de processo.

 

Como é que isso funciona concretamente?

Vou dar um exemplo. Em Leuven, dou uma palestra sobre o lugar das mulheres na Igreja Católica Romana e faço com que os alunos leiam um capítulo com evidências históricas da existência de mulheres diaconisas nos primeiros séculos da Igreja. Essa evidência é esmagadora. Ao mesmo tempo, observo que na minha própria formação teológica, eu mesmo nunca tinha ouvido falar sobre isto. Também noto que não desempenha nenhum papel no discurso da Igreja sobre o diaconato. Vejo que em Roma uma comissão é cuidadosamente manipulada e depois outra comissão, quando a evidência está ali mesmo. Portanto, há uma boa razão teológica para a opinião das pessoas, para o seu senso do assunto. Se formos avaliar o que os crentes pensam, poderíamos incluir não apenas a doutrina da Igreja, mas também a universidade, onde essas coisas são pensadas. Observo com pesar que há uma grande divisão entre a Igreja e a teologia.

 

Os bispos sentem-se os guardiões da tradição. Isto já não é assim?

Não quero despojar os bispos da sua autoridade de doutrina, mas seria bom se os bispos não apenas ensinassem, mas também aprendessem. E não apenas na teologia dos documentos da Igreja, mas também na teologia académica, onde os padrões de solidez intelectual se aplicam.

 

Os católicos não precisam de mais instrução catequética e teológica?

O que o bispo holandês Gerard de Korte chama de “falta de palavras” dos católicos é verdade: muitas vezes sabemos tão pouco e o que sabemos dizemos mal. Mas não se trata apenas de uma aprendizagem intelectual; trata-se também de aprendizagem espiritual – como viver em conexão com Deus. Além disso, se vamos ensinar coisas, elas devem ser convincentes. Se olharmos, por exemplo, para o que é dito sobre o lugar da mulher na Igreja e a ordenação de mulheres no ministério, é muito difícil aceitar intelectualmente os argumentos que nos são dados pelo Magistério.

 

Não há perigo para a unidade católica se todos puderem expressar as suas opiniões subjectivas? Não há ameaças de cismas?

Esse perigo não pode ser evitado. Faz parte dos tempos modernos. O indivíduo tornou-se muito importante na cultura moderna. Então, automaticamente acabamos numa situação de pluralidade. Mas todos participam, incluindo os católicos tradicionalistas. Dizem, por exemplo: “Vou a uma liturgia tradicional, porque lá encontro muita coisa”. Esse é um argumento pessoal e completamente moderno. O desafio da nossa Igreja não é tanto buscar a uniformidade, mas sim reunir com diferentes perspectivas,

 

A sinodalidade requer muita confiança no Espírito Santo. Mas este último é bastante esquivo. Como sabe o que o Espírito quer da Igreja?

Em primeiro lugar, é importante que não vejamos o Espírito apenas como uma espécie de força, mas percebamos que ele está activamente envolvido. Isto muitas vezes é difícil para os ocidentais imaginarem, mas muito importante. Se o Espírito não se apresenta como protagonista, o actor principal permanece na hierarquia, e então, naturalmente, a obediência torna-se a principal virtude. Se o Espírito é o actor principal, então a virtude principal é o discernimento. Então é necessário sentir espiritualmente o que é sábio e isso requer desapego de todos os lados. Os tradicionalistas têm que aceitar um pouco que nem sempre sabem exactamente como as coisas são e como deveriam ser. Os progressistas têm que abrir mão de um pouco de impaciência, por exemplo. A impaciência, quando presente no discernimento, é tipicamente algo que não vem do Espírito bom. Então tornamo-nos duros, frustrados, cínicos. O Papa está intencionalmente a fazer disto um processo, porque num processo os pensamentos podem ser purificados.

 

Esta entrevista foi publicada pela primeira vez no jornal cristão holandês Nederlands Dagblad e replicada pelo La Croix International a 14 de Fevereiro de 2022.

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Palavras-Chave:
Sinodalidade  •  Sínodo  •  Processo Sinodal  •  Comunhão  •  Participação  •  Missão  •  Espírito Santo  •  Discernimento
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