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DACS com La Croix International | 10 Mai 2022
Um Papa que se atreve a ser normal
O Papa Francisco que está a ter de acalmar pela idade e pelas doenças, mas não tem medo de usar uma cadeira de rodas, como qualquer pessoa normal na sua condição faria.
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  © VATICAN MEDIA / ZUMA PRESS/MAXPPP

Não muito tempo depois de o cardeal Jorge Mario Bergoglio ter sido escolhido como bispo de Roma em Março de 2013, alguns observadores começaram a dizer que o seu pontificado marcou um “regresso à normalidade”.

Provavelmente não ficou imediatamente evidente para os seus colegas cardeais que este jesuíta argentino, filho de imigrantes italianos, estava prestes a fazer mais do que apenas limpar o Vaticano, tal como lhe haviam pedido.

Devem ter descoberto rapidamente que o Papa que adoptou o nome de Francisco também estava empenhado em desmistificar e reformar o papado.

Começou a fazê-lo através de uma série de actos e gestos simbólicos que visavam mostrar aos membros da Cúria Romana e aos católicos em todo o mundo que ser o Pontífice Romano não o tornava mais santo e mais próximo de Deus do que outros crentes, ou mais bispo do que outros homens no episcopado.

Recusou-se a usar os acessórios ornamentados e jóias que tradicionalmente faziam parte dos trajes papais; decidiu usar um carro utilitário simples, em vez do carro de luxo dos seus antecessores; e até foi pessoalmente pagar a conta na casa de hóspedes do clero onde se alojou antes do conclave.

 

“Afinal, sou apenas um homem!”

Também impediu as pessoas de se ajoelharem diante dele e beijarem o seu anel.

O Papa Francisco parecia estar a dizer ao mundo inteiro, assim como São Pedro disse a Cornélio, o centurião: “Levanta-te, que eu também sou apenas um homem.” (Actos 10,26)

Uma das outras coisas muito humanas que o novo Papa fez no início do seu pontificado foi pensar nas suas condições de vida.

Os seus predecessores dos últimos cem anos residiam nos aposentos papais dentro do Palácio Apostólico. Mas Francisco decidiu ficar na Residência de Santa Marta, onde ele e os outros cardeais ficaram alojados durante o conclave.

A escolha foi acolhida como um sinal do seu amor pela simplicidade e um acto simbólico de solidariedade com os pobres. E talvez tenha sido mais um exemplo de regresso à normalidade.

Talvez. Mas acima de tudo foi uma decisão táctica que, até hoje, continua a ser uma das mais importantes do seu pontificado.

 

Uma hipótese de ser livre e mais normal

Morar na Santa Marta – que dificilmente é o hotel de segunda categoria que alguns dos hagiógrafos do papa fazem parecer – deu a Francisco uma liberdade maior para fazer negócios, encontrar pessoas e ir e vir de um modo que teria sido extremamente difícil e muito mais escrutinado se ele morasse no Palácio Apostólico.

Também o tornou muito mais presente e visível – e aparentemente normal – para os outros residentes (principalmente padres que trabalham na Cúria Romana) e para o fluxo constante de convidados com quem ele faz as suas refeições e celebra a missa diária.

A familiaridade gera desprezo, como diz o ditado. E há muitos na classe clerical de Roma que permanecem profundamente perturbados por toda esta chamada normalidade.

Entre eles estão pessoas em alguns cargos importantes do Vaticano, que acreditam que Francisco desonrou o ofício papal pela sua recusa em seguir os protocolos monárquicos.

Esses funcionários estão realmente aborrecidos porque já não são os que têm acesso privilegiado e quase exclusivo ao Papa.

 

O toque comum de João Paulo III

Para ser justo, deve dizer-se que o Papa João Paulo II também tentou desmistificar o papado.

Antes de o recém-eleito Jorge Bergoglio aparecer no balcão da Basílica de São Pedro e de se identificar como o “Bispo de Roma” que veio “dos confins da terra”, Karol Wojtyla aparecia no mesmo local há mais de três décadas e observava que o os cardeais tinham acabado de eleger “um novo Bispo de Roma de um país distante”.

João Paulo procurou ser um Papa entre o povo, fazendo visitas regulares às paróquias de Roma e viajando incansavelmente ao redor do mundo, muitas vezes no exterior por vários dias e até duas semanas de cada vez.

Como Francisco, também evitou a maioria dos acessórios tradicionais que faziam parte do guarda-roupa papal. Uma excepção foi o uso regular do longo manto vermelho que os Sumos Pontífices herdaram dos imperadores romanos. (Reconhecidamente, funcionou melhor do que o casaco branco de “primeira comunhão” que Francisco prefere).

Além disso, o papa polaco convidou grupos de “pessoas comuns” para a missa que celebrava todas as manhãs na sua capela particular, convidando os mais notáveis entre eles para se juntarem a ele no pequeno-almoço.

Mas, apesar do seu desejo de estar entre o povo, João Paulo permitiu que os seus seguranças fizessem o que sabem fazer melhor – manter a maior parte dos hoi polloi à distância.

 

Criando um culto à personalidade

João Paulo também tinha uma personalidade enorme e uma presença dominante. E os seus manipuladores do Vaticano – principalmente o seu “porta-voz” de longa data do Opus Dei, Joaquin Navarro-Valls – usaram o carisma cativante e o alto cargo do Papa como a matéria-prima preciosa para criar um culto à personalidade em seu redor.

Navarro deu um novo significado ao termo “dourar o lírio”. Ajudou a elaborar o roteiro para o que se tornou, de certa forma, um pontificado controlado por palcos, especialmente nos últimos anos do longo reinado de João Paulo.

À medida que os efeitos do Parkinson se faziam sentir, o Papa enfraquecido mal conseguia mexer-se ou falar. E, provavelmente pela sua própria insistência teimosa, os seus assessores tentaram inventar maneiras de mascarar suas deficiências para que ele pudesse continuar a presidir às liturgias e realizar audiências diárias com grupos e indivíduos.

“Terei a eternidade para descansar”, dizia João Paulo cada vez que era aconselhado a abandonar certas actividades. E quando já não podia mais andar, a “cadeira papal” foi montada permanentemente numa pequena plataforma com rodas. Era como um pequeno trono móvel.

 

Uma cadeira de rodas

A ideia de usar uma cadeira de rodas normal – como o Papa Francisco começou a fazer na semana passada – estava fora de questão naquela época. Afinal, o Papa não é uma pessoa normal.

E já estava a ser sugerido que o papa polaco um dia se chamasse João Paulo, o Grande. De facto, ele foi o homem que derrubou o Muro de Berlim e fez muito mais.

Isto, é claro, era o pensamento de muitas pessoas da comitiva de João Paulo. Mas uma pessoa questiona-se se, em algum momento, o Papa já envelhecido começou a acreditar nessas coisas e em tudo o que as pessoas estavam a sussurrar ao seu ouvido.

Quando até mesmo bispos, cardeais e outros oficiais de alto escalão da Igreja começaram a falar abertamente sobre se João Paulo iria renunciar ao papado, ele exclamava: "Cristo não desceu da cruz!”.

 

O risco de ser infectado por um complexo messiânico

Deixando de lado o facto de que um dos títulos tradicionais do papa é “Vigário de Jesus Cristo”, todo o homem que se senta na Cátedra de Pedro corre o risco de ser infectado por um complexo messiânico, especialmente quando os seus assessores e aduladores têm uma ideia exagerada do que ele é capaz de fazer ou ser.

O Papa actual não goza de nenhuma imunidade sobrenatural a esse mesmo perigo. Francisco também tem assessores, amigos e “groupies papais” que o colocam numa espécie de pedestal, embora muito diferente do poleiro em que outros tentaram colocar João Paulo II.

O papa jesuíta deve continuar a (…) rejeitar as tentativas de qualquer um de fazê-lo pensar que ele tem poderes e capacidades que simplesmente não tem.

Francisco tem sido um líder espiritual revigorante e encorajador para os nossos tempos, precisamente porque ousou ser apenas um ser humano normal e um cristão normal.

Pelo bem de todos nós, rezemos para que ele continue assim.

Artigo de Robert Mickens, publicado no La Croix International a 7 de Maio de 2022.

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