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DACS com Crux | 16 Mai 2022
Sheik muçulmano e padre católico unem forças pelos sem-abrigo de São Paulo
O apelativo veículo, chamado de “Sheik-móvel” pelo seu proprietário, o líder xiita Rodrigo Jalloul, tem uma foto do padre Júlio Lancellotti, cujo trabalho com os pobres o levou, há anos, a ser nomeado Vigário da Arquidiocese de São Paulo para os sem-abrigo.
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  © Sheikh Rodrigo Jalloul

Na zona leste de São Paulo – a maior e mais pobre da cidade, onde mora um terço dos 12,3 milhões de habitantes da cidade – uma carrinha com as fotos de um padre e um sheik muçulmano circula pelas ruas.

O apelativo veículo, chamado de “Sheikh-móvel” pelo seu proprietário, o líder xiita Rodrigo Jalloul, tem uma foto do padre Júlio Lancellotti, cujo trabalho com os pobres o levou, há anos, a ser nomeado Vigário da Arquidiocese de São Paulo para os sem-abrigo.

De facto, Lancellotti teve um papel fundamental na criação do "Sheik-móvel", veículo usado diariamente por Jalloul e pelos seus colegas para distribuir refeições quentes a moradores de rua da Penha, bairro onde está localizado o seu centro islâmico.

Lancellotti e Jalloul conheceram-se há alguns anos, durante um programa de televisão com diferentes líderes religiosos. Antes da pandemia do COVID-19, Jalloul já visitava a paróquia de Lancellotti todas as segundas-feiras para ajudá-lo a oferecer o pequeno-almoço aos sem-abrigo, algo que o padre já faz há vários anos.

“Ele ensinou-me muitas coisas sobre o seu trabalho. Mostrou-me que não se trata apenas de dar comida aos pobres, mas de estar com eles”, disse Jalloul ao Crux.

Primeiro clérigo xiita nascido no Brasil, Jalloul estudou em Qom, Irão, para obter o título de mulá. Em 2013, após visitar o Brasil, foi proibido de retornar ao Irão, provavelmente por ter criticado um importante sheik do país. Desde então, disse, o Irão tem travado uma campanha contra ele e dito à comunidade xiita que ele não é um verdadeiro sheik.

Jalloul acabou a seguir o seu próprio caminho autónomo para estabelecer a sua comunidade. O seu trabalho de caridade, junto com Lancellotti, foi parte integrante da jornada.

“O padre Lancellotti aconselhou-me a construir uma forte perspectiva de acção social no meu centro islâmico, algo que muitas vezes a comunidade muçulmana no Brasil se esquece de fazer. Tem sido um grande mentor”, disse Jalloul.

Desde então, organizaram juntos duas celebrações de Natal, nas quais distribuíram um pequeno-almoço especial aos sem-abrigo e convidaram líderes de outras religiões a juntarem-se a eles. Lancellotti também acompanhou Jalloul várias vezes para dar refeições às pessoas na rua.

No início de 2022, o carro de Jalloul avariou e ele não conseguiu continuar a alimentar os sem-abrigo por vários dias.

“O padre percebeu que algo estava a acontecer e perguntou-me pelo meu carro. Eu tinha lançado uma campanha online para arrecadar dinheiro. Então ele disse-me para ir vê-lo à sua paróquia”, lembrou.

Lancellotti doou dinheiro do Vicariato para os sem-abrigo ao clérigo muçulmano, para que ele pudesse comprar um novo veículo. Foi quando nasceu o “Sheik-móvel”.

Jalloul decidiu decorar a carrinha com fotos dele e de Lancellotti, juntamente com o seu pai adoptivo e o seu primo, que trabalham com ele nas ruas. Inclui também os nomes do centro islâmico e da pastoral para os sem-abrigo.

“Este é um trabalho realizado por muitas pessoas que têm o mesmo compromisso com os pobres e sem-abrigo”, disse Lancellotti ao Crux.

“Nas ruas, algumas pessoas pensavam que [Jalloul] também era padre. Outros não entendiam quem ele era. Mas a recepção costuma ser positiva”, acrescentou.

Jalloul disse que muitos muçulmanos costumavam ver os padres católicos como idólatras, mas o trabalho de Lancellotti mostrou-lhes a força da sua fé.

“Eles também viram como o padre nos respeitava. Esse processo deu-lhes a oportunidade de repensarem os seus preconceitos”, disse.

O seu trabalho de caridade conjunto também contribuiu para diminuir o sentimento antimuçulmano entre muitas pessoas em São Paulo, de acordo com o Sheik.

“Quando as pessoas me viam a usar as minhas roupas, geralmente faziam piadas. «Lá vai o homem bomba», alguém dizia sempre. Agora eles dizem: «Olha, lá vai o Sheik do Pe. Lancellotti»”, disse Jalloul.

O grupo inter-religioso tem crescido. De acordo com Jalloul, o projecto está a incentivar líderes de todas as religiões a fazer um trabalho semelhante com os sem-abrigo.

“A população de sem-abrigo de São Paulo foi oficialmente estimada em mais de 30 mil pessoas, mas achamos que o número real é muito maior. Não podemos ajudar todos sozinhos, mas talvez juntos possamos alcançar muitos deles”, afirmou.

O activismo do Sheik tem chamado a atenção dos média, mas ele negou que sua intenção seja o proselitismo religioso através da caridade.

“Não se trata de divulgar religião, mas de dar o exemplo e servir a vontade de Deus. Ele quer que nos ajudemos e nos amemos”, disse ele.

Lancellotti diz que a maneira como ele, Jalloul e outros líderes têm construído um diálogo inter-religioso também pode ajudar as pessoas a repensar os seus papéis na sociedade e como pessoas religiosas.

“Não nos reunimos para discutir doutrina ou teologia, mas para trabalhar juntos pelos pobres”, afirmou.

Artigo de Eduardo Campos Lima, publicado no Crux a 15 de Maio de 2022.

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Palavras-Chave:
Pobres  •  Sem-abrigo  •  Muçulmanos  •  Cristãos  •  Católicos  •  Caridade  •  Amor
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