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DACS com Crux | 31 Mai 2022
Padre ucraniano ajuda cidade que sofreu bombardeamento russo
Durante o pior do cerco, o mosteiro, ocupado por dois padres e um irmão antes da guerra, tinha uma média de 45 pessoas a morar lá, com 58 pessoas lá dentro por vezes.
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  © DR

Os ucranianos que vivem nas cidades mais afectadas pela atual guerra com a Rússia têm muitos motivos para desesperar, mas o padre Taras Kchik aprendeu que às vezes um vislumbre de esperança muito necessário pode vir dos lugares mais simples.

Kchik nasceu em Kyiv em 1986, “tecnicamente, na União Soviética”. Os seus pais emigraram para o Canadá quando ele tinha três anos. Terminou o ensino secundário lá e começou o seu curso universitário apenas para deixá-lo incompleto e regressar à Ucrânia, onde se juntou aos Redentoristas.

Quando o presidente russo Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia, Kchik estava em Ivano-Frankivsk, uma cidade no sudeste do país. No entanto, disse: “Na semana passada, não, no mês passado … o tempo é uma coisa relativa aqui”, a sua ordem pediu-lhe para ir a Chernihiv, na fronteira norte com a Rússia, para ajudar no mosteiro – “é realmente mais uma casa” – e substituir temporariamente a comunidade de três padres que suportaram o cerco de 40 dias da cidade.

“Ivano-Frankivsk teve ataques com mísseis, mas principalmente na periferia da cidade”, disse o padre ao Crux por telefone. “Psicologicamente, isto é difícil para as pessoas aceitarem, mas não é um perigo directo. Chernihiv foi cercada e atacada durante 40 dias seguidos. Há partes da cidade que já não existem. Há tanques que foram destruídos ainda nas ruas. É muito difícil caminhar os dez minutos de distância entre o nosso mosteiro e a nossa igreja, e ter que passar por duas crateras na rua e uma escola bombardeada. Infelizmente, eles realmente visavam as infraestruturas, então é possível ver os danos nos hospitais e escolas”.

De acordo com o chefe da Administração Estatal Regional de Chernihiv, pelo menos 3.700 edifícios foram destruídos durante o bombardeamento e a captura parcial da região de Chernihiv pelas tropas russas.

Durante o pior do cerco, o mosteiro, ocupado por dois padres e um irmão antes da guerra, tinha uma média de 45 pessoas a morar lá, com 58 pessoas lá dentro por vezes.

“As pessoas estavam tentando chegar-se umas às outras, para sentirem essa segurança”, disse. “Tivemos alguma ajuda humanitária. Tínhamos muitas pessoas na nossa cave, e onde quer que fosse possível colocar um colchão, havia alguém a viver lá: a capela, a cozinha, em todos os lugares. E, claro, quando houve bombardeamentos, todos tentaram correr para a cave”.

Aqui incluíam-se três padres redentoristas que, dias antes da guerra, foram visitar o mosteiro, como forma de expressar a sua proximidade.

“Eles estavam de passagem, mas ficaram «presos aqui», e dois deles tinham alguma experiência de capelania quando a guerra começou no leste em 2014, então estavam muito bem adaptados e prontos para o que aconteceu”, disse Kchik. "Acho que houve muita orientação de Deus. Posso ver isso no que está a acontecer aqui e como as tarefas impossíveis estão a ser realizadas”.

A orientação de Deus, afirmou, é o que lhe dá forças para ajudar os outros, muitos dos quais perderam tudo. A comunidade que partilha com os sacerdotes do mosteiro, com os Redentoristas em toda a Ucrânia e globalmente, também é um grande apoio.

“Todas as vezes que recebemos uma remessa, eu sei quem está a enviá-la, e eles estão a enviar as coisas que eu mencionei que precisávamos, como fraldas”, disse Kchik.

Desde que chegou a Chernihiv, tem estado ocupado: “Por um lado, estamos a tentar dar às pessoas qualquer tipo de consolo e apoio que pudermos e, claro, num momento como este, as pessoas estão ainda mais em busca de algum tipo de ajuda espiritual, apoio moral ou alguém para simplesmente ouvi-las. Por outro lado, também estamos a fornecer ajuda humanitária de todas as formas possíveis aos que mais sofreram”.

E também estão a reconstruir a sua comunidade. O padre disse que, quando chegou a Chernihiv, ficou surpreso com a quantidade de pessoas que participavam na missa dominical. Perguntou ao Superior se a frequência tinha diminuído, apenas para ser informado de que era “o mesmo, mas completamente diferente: aproximadamente o mesmo número, mas apenas 10% deles são as mesmas pessoas que participavam antes da guerra. O resto são novos”.

Isso, disse Kchik, acontece por várias razões, incluindo o facto de que muitos dos paroquianos que tinham família no Ocidente terem deixado a cidade quando puderam, e também muitos cristãos ortodoxos se juntaram, porque receberam ajuda dos Redentoristas – que nunca deixaram a cidade – e decidiram ficar.

Para fornecer essa ajuda, a comunidade local recebeu ajuda dos Redentoristas em todo o mundo e isso manteve-os “em movimento”. Kchik esteve pessoalmente em contacto com as comunidades na Irlanda e na Espanha, mas muitos outros ajudaram, particularmente os Redentoristas na Polónia.

Afirmou que todos apreciam a ajuda humanitária que receberam, pois demonstra “essa comunidade, esse apoio, esse amor. E porque quando nos dão as coisas, podemos dá-las directamente ao nosso povo”.

A chorar, Kchik também contou os meses de trabalho no mosteiro de Frankivsk, onde puderam, em momentos diferentes, acolher três orfanatos. A maioria destas crianças não são tecnicamente órfãs, mas foram removidas das suas famílias pelo Estado por causa das suas vidas domésticas violentas.

O primeiro grupo ficou mais tempo, e incluiu crianças com idades entre alguns meses e 15 anos. Estavam a viajar há vários dias juntos e, quando chegaram, os mais velhos cuidavam dos mais novos.

“A maneira como eles se importavam uns com os outros é um lembrete de que, mesmo nesta situação horrível, podemos ver que o amor, a esperança, a alegria aparecem nas menores coisas”, disse. No Domingo de Páscoa, um dia antes da partida das crianças, 21 delas foram baptizadas de uma só vez. Os funcionários do jardim de infância e alguns dos paroquianos tornaram-se padrinhos e até hoje mantêm contacto, com os adultos a ligarem às crianças nos aniversários ou apenas para verem como estão.

“E é tão importante que as crianças tenham essa ligação, alguém que se preocupa com elas agora, que lhes liga”, disse Kchik. “A felicidade na voz dessas crianças quando me dizem que os seus padrinhos lhes ligaram é algo que nada pode destruir”.

Mas o que faz a sua voz falhar é a história de uma “velhinha” e uma “caixa de chá de metal cheia de doces”, em Frankivsk. Quando alguém os procurava a pedir ajuda humanitária e os padres viam uma criança ou um idoso, eles abriam a caixa e ofereciam um doce.

“Uma velhinha uma vez chegou, eu peguei na caixa… porque toda a gente sabe o que tem dentro”, disse. “E ela pega nos bombons, que são quase como uma pastilha para tosse, para eu dar às crianças. «A loja no nosso bairro finalmente abriu novamente»”, disse-me ela.

“Ela sofreu muito e não tem nada. Mas o seu primeiro desejo foi que as crianças soubessem que as coisas estão a melhorar”, disse Kchik.

 

Artigo de Inés San Martín, publicado no Crux a 31 de Maio de 2022.

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Palavras-Chave:
Ucrânia  •  Guerra  •  Redentoristas  •  Ajuda humanitária  •  Mosteiros  •  Órfãos  •  Paz
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