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Ana Marques Pinheiro | Braga| 16 Fev 2021
Entrevista a Andreia Araújo em missão em Pemba, Moçambique: «Quis colocar os meus dons ao serviço dos outros a tempo inteiro»
Andreia Araújo tem 29 anos, é de Braga e está agora em missão em Pemba através do Projeto Salama! que tem como principal objetivo a dinamização Pastoral da Paróquia de Ocua.
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Diário do Minho (DM): Há quanto tempo estás em Pemba?  

Andreia Araújo (AA): Já tinha estado na missão de Ocua, em Pemba, entre outubro de 2019 e março de 2020, como membro da equipa missionária desse ano, tendo regressado a Portugal no início da pandemia por questões familiares. Voltei a Moçambique em outubro de 2020 para integrar a nova equipa missionária, conhecendo já a missão e sabendo o que me esperava.

 

DM: O que te fez aceitar este desafio?

AA: A vontade de colocar os meus dons ao serviço dos outros, de uma forma permanente, ou seja, dedicar o meu tempo por inteiro a esse objetivo.

 

DM: Como está a correr até agora a experiência?

AA: Está a correr bem. Com alguns percalços como o facto de os restantes membros da minha equipa missionária ainda não terem conseguido a documentação necessária para viajar para cá e a situação da pandemia que nos impede de realizar grande parte do nosso trabalho.

 

DM: Como é geralmente um dia teu?

AA: Depende dos dias. No geral, temos trabalhos a nível pastoral e projetos sociais a decorrer, além das obras na casa da missão que também consomem muito tempo. Há dias específicos como a quarta e quinta-feira, por exemplo, nos quais funciona o projeto de apoio ao aleitamento materno, e à quinta-feira também decorre o atendimento paroquial. Diariamente existem sempre pessoas que se deslocam à missão com pedidos de ajuda, normalmente relacionados com saúde, também prestamos algum apoio ao posto de saúde existente na missão, trabalhando em parceria com o enfermeiro. Em tempos normais dividimos os dias da semana entre trabalhos na missão e visitas às comunidades (que são 96), mas com a pandemia tudo mudou, agora permanecemos mais na sede da missão e damos mais importância ao ser e estar e o exemplo em tempos de pandemia.

 

DM: A presença missionária em tempos de pandemia ainda é mais importante?

AA: Sim, sem dúvida. Para além de sermos um meio de transmissão de informação do estado da pandemia em tempo real e das normas decretadas pelo governo, também incentivamos e explicamos a importância e quais os cuidados a ter para diminuir a propagação do vírus.

 

DM: Como se tem vivido esta situação na área onde estás?

AA: No início da pandemia e com o Estado de Emergência as aulas nas escolas foram suspensas, assim como as celebrações Eucarísticas e foram proibidos todos os possíveis aglomerados de pessoas, então as atividades pastorais foram suspensas e as pessoas incentivadas a ficar em casa. Como a nossa comunidade é constituída principalmente por pessoas que vivem da produção agrícola foi-lhes aconselhado a tentar sair o menos possível das zonas onde vivem e a reduzir as deslocações à Machamba (terreno agrícola), para assim diminuírem a exposição ao vírus. Em setembro de 2020 foi possível regressar às celebrações eucarísticas, mas com número limitado de participantes e com todas as normas adequadas. Neste momento os casos de covid-19 estão a aumentar muito em Moçambique, então o governo voltou a decretar novas regras e a suspender as celebrações.

 

DM: Houve casamentos e batizados neste último ano? Se sim, quantos?

AA: Com as atividades pastorais suspensas não se realizaram sacramentos. Mesmo no período em que as celebrações foram autorizadas, com as normas necessárias, seria impensável realizar sacramentos em Ocua, pois a Paróquia divide-se em 17 zonas, cada zona celebra sacramentos uma vez por ano, devido às distâncias e ao número elevado de comunidades e pedidos de sacramentos na Paróquia toda, ou seja, se realizássemos os sacramentos iríamos ter aglomerados de pessoas e um número elevado de sacramentos (costumam ser à volta de 300 batizados), então para já estão suspensos. Isto falando nos batizados de crianças, pois os de adultos não poderiam acontecer, devido a este ano também a catequese estar suspensa.

 

DM: Há mais crianças a conseguirem estudar?

AA: As crianças que frequentam a escola primária (até à sétima classe), normalmente terminam os estudos. O problema é ao passar para a oitava classe, que cá já funciona na escola secundária, normalmente é mais longe tornando-se mais difícil o acesso. Tendo em conta que é obrigatório o uso de uniforme na escola e a partir da décima classe paga-se propina, adicionando a estas questões o material escolar necessário, muitos jovens não têm uma situação financeira adequada para continuar a estudar. Normalmente, se houver disponibilidade financeira da família para estudar, são os rapazes que têm oportunidade, ficando as raparigas em casa a ajudar a família, muitas delas engravidando e casando cedo demais. Devido a esta situação, o Projeto Salama! iniciou um projeto de apoio ao estudo de meninas, a fim de as ajudar a ter oportunidade de continuar a estudar.

 

DM: Como corre o programa de aleitamento. Está a ser bem-sucedido?

AA: O projeto de Aleitamento, financiado pela Associação APARF, tem sido bem-sucedido. Em relação ao ano passado tivemos um aumento do número de bebés apoiados devido à escassez de comida, provocada pela seca, e consequentemente à fome que se faz sentir. Temos muitas mães que não têm leite por falta de alimentação e muitos bebés órfãos de mãe, que devido à fraqueza extrema não resistem ao parto. Apoiamos estes bebés com leite de complemento e incentivamos as famílias a levarem as crianças todos os meses ao posto de saúde a fim de serem avaliadas e vacinadas, realçando sempre a importância de continuar com a amamentação quando possível. Vamos registando o peso de cada um, de mês a mês, a fim de controlar a sua evolução. Quando completam 6 meses explicamos como devem introduzir as papas e fruta e até mesmo como enriquecer as papas para as crianças com peso baixo.

 

DM: Qual a importância da existência de um posto de saúde na missão? Quais as suas principais dificuldades?

AA: A existência de um posto de saúde, nesta realidade, garante o acesso a cuidados de saúde primários. Qualquer pessoa que se dirija ao posto de saúde, se for diagnosticada com alguma doença que seja possível tratar localmente, terá acesso ao tratamento e/ou medicação necessários, conforme o stock disponível, o que se revela de extrema importância neste contexto em que as distâncias são grandes e as pessoas não têm capacidade económica para comprar medicamentos. Quando a avaliação do enfermeiro demonstrar não ser possível o tratamento local, os doentes são encaminhados para o Hospital Distrital do Chiúre. O posto de saúde, em Mahipa, pertence à missão mas funciona em parceria com o Ministério da Saúde, estando nele a trabalhar um enfermeiro e um auxiliar do Sistema Nacional de Saúde. Funciona de segunda a sexta-feira da parte da manhã, mas sempre que existe uma urgência o enfermeiro, que vive na aldeia, é contactado e abre o posto de saúde para socorrer quem esteja a precisar. Ao posto de saúde dirigem-se adultos e crianças, a maior parte das vezes com sintomas de malária (que é diagnosticada através de teste rápido), disenteria, infeções, feridas, entre outros. Para serem atendidos devem pagar um pequeno valor, baixo mas que para algumas pessoas é já difícil de possuir, nessas situações o enfermeiro não cobra nada, quando percebe que são casos de extrema necessidade. As maiores dificuldades do posto de saúde prendem-se com a carência de meios de diagnóstico necessários e a falta da medicação ou material necessário, por falha a nível distrital.

 

DM: Como está a situação dos ataques dos grupos armados?

AA: Os ataques não cessaram, continuando a chegar deslocados em grande número a esta zona da Província.

 

DM: As aldeias estão preparadas para acolher os deslocados?

AA: Não. A maior parte das famílias vivem nas aldeias numa casa pequena e dependem da agricultura, tornando-se difícil acolher pessoas, mas mesmo assim a solidariedade manifestou-se. Mesmo com a falta de condições, muitas famílias acolheram em sua casa 20/30 pessoas. Entretanto o Governo começou a identificar zonas nas aldeias onde iniciou o reassentamento de muitas famílias de deslocados que, com a ajuda da Cáritas Diocesana, conseguiram algum apoio para construção de casa e algum material para atividade agrícola.

 

DM: O que faz mais falta?

AA: Neste momento o Centro Missionário Arquidiocesano de Braga iniciou uma campanha de recolha de bens necessários para apoio aos deslocados. O que faz mais falta são tendas, lonas, cobertores, material de cozinha (não elétrico), material agrícola (não elétrico), material de costura (não elétrico) e material de carpintaria (não elétrico).

 

projeto O Projeto Salama! trata-se de uma cooperação missionária entre a Arquidiocese de Braga e a Diocese de Pemba no norte de Moçambique (província de Cabo Delgado). Anualmente, a Arquidiocese de Braga, através do Centro Missionário Arquidiocesano de Braga envia uma equipa Missionária constituída por um sacerdote e leigos, para assumir a Paróquia de Ocua pertencente à Diocese de Pemba. A Paróquia de Santa Cecília de Ocua divide-se em 17 zonas e é composta por 96 comunidades. Trata-se de uma paróquia de grande extensão e com dificuldade de acesso a grande parte das comunidades em tempo de chuva, pois as ligações são únicas e tratam-se de caminhos de terra.

A sede da missão situa-se na aldeia de Mahipa, onde existe a casa da missão que alberga a equipa missionária, (que está neste momento em obras de remodelação e construção de um anexo para a receção de voluntários por curtos espaços de tempo) a igreja da missão e o posto de saúde que pertence à missão mas funciona em parceria com o Ministério da Saúde.

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