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Alice Vieira | Braga| 23 Out 2020
Outubro em Missão... CARIDADE
Alice Vieira, escritora
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Um testemunho... CARIDADE

As 4ª feiras eram o dia em que as velhas tias que me criaram praticavam a caridade.

De manhã tocava à porta da cozinha “a pobrezinha das senhoras”. Ficava sentada nas escadas enquanto as criadas da casa lhe davam um prato de sopa. Depois agradecia muito e ia-se embora, até voltar de novo na 4ª feira seguinte.

À tarde chegavam as visitas, e então elas mandavam-me buscar, para me mostrarem às visitas como um extraordinário troféu – e diziam, “a mãe não a quis e nós é que a estamos a criar. Uma caridade que estamos a fazer.”

Depois mandavam-me sair da sala e a caridade acabava ali. E mesmo quando não havia visitas faziam sempre questão de me repetirem que não tinham nenhuma obrigação de me criar e que, se eu estava ali, era por caridade.

Eu aprendi a ler sozinha, muito pequena, e adorava aquelas histórias de meninos enjeitados, abandonados à porta de senhores que ficavam com eles e os amavam de paixão.

Um dia, nessas apresentações às visitas, uma delas teve a ideia de me perguntar o que é que eu queria ser quando fosse grande, e eu respondi “enjeitada” — o que evidentemente me atirou para o quarto de castigo, sem jantar — depois de as visitas e as tias, quase em coro, me chamarem ingrata por não ver que se eu estava ali era por caridade.

As tias eram muito velhas, e às vezes morriam e lá passava eu para outras. Sempre por caridade.

Nunca me sai da cabeça um dia em que uma delas tinha morrido e fomos todos para uma reunião em casa de outra, para se discutir com quem é que eu ficava. E nenhuma me queria. Porque, diziam “chatices já eu tenho que cheguem” – rematando aquelas com quem eu já tinha estado: “caridade tem limites”.

E eu a ouvi-las, ao fundo da sala, pensando apenas onde é que eu iria dormir nessa noite.

E isso doía tanto.

Por isso tenho muita pena mas, quando me falam de caridade, é logo disto que eu penso.

Um Livro... "Coração" de Edmundo d'Amicis

Um Filme... "Wonder" (2017) (“Extraordinário” em português), com Julia Roberts

Uma Música... “Vamos brincar à caridadezinha”, José Barata Moura

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