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Carlos Nuno Salgado Vaz | 24 Abr 2016
A alegria do amor – 2
Toda a casa é um candelabro.
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  © cosma

No regresso da visita à ilha de Lesbos, um jornalista perguntou ao Papa Francisco se com a sua última exortação apostólica tinha mudado algo sobre os recasados civilmente, pois uns diziam que sim e outros que não. Deixando transparecer uma certa desilusão com os grandes meios de comunicação social que pretendem marcar a agenda da Igreja e fazer valer aquilo que pensam e dizem, e não o que está escrito como fruto do que se passou nas sessões sinodais, o Papa reafirmou que o acesso dos recasados aos sacramentos não era o problema mais importante. Os verdadeiros problemas são: que ideia têm as pessoas do que é a vocação à vida familiar; o amor na família; como superar o denominado 'inverno demográfico', com tantas implicações na sociedade a vários níveis; como implementar a educação dos filhos e superar os problemas que coloca ao casal; como lidar com os casais feridos: pela doença, pela morte de um filho, pela separação e até pela traição.

Tentaremos pôr o Papa Francisco a falar-nos, seguindo passo a passo a mencionada exortação. Levará o seu tempo, mas ele mesmo nos incita a ir devagar.

À luz da Palavra

O primeiro capítulo, intitulado 'À luz da Palavra' cita Jorge Luís Borges: «toda a casa é um candelabro», isto é, há muitas situações diferentes nas famílias (número 8). Revisitando os dois primeiros capítulos do Génesis, Francisco destaca como deles se infere que «a fecundidade do casal humano é 'imagem' viva e eficaz, sinal visível do ato criador» (10). Mais: «O Deus Trindade é comunhão de amor; e a família, o seu reflexo vivente» (11). Comentando a passagem da criação da mulher, para que o homem possa vencer a solidão que o perturba, recorre ao original hebraico para nos dizer que tal remete para a necessidade de uma relação direta, quase frontal – olhos nos olhos – «num diálogo também sem palavras, porque, no amor, os silêncios costumam ser mais eloquentes do que as palavras: é o encontro com um rosto, um 'tu', que reflete o amor divino e constitui – como diz um sábio bíblico – 'o primeiro dos bens, uma ajuda condizente e uma coluna de apoio» (12).

É «deste encontro que cura a solidão, que surge a geração e a família». Este é o segundo detalhe importante: a união entre homem e mulher indica uma estreita sintonia, uma adesão física e interior, a ponto de ser utilizada para descrever a união com Deus». Ou seja, a união matrimonial não contempla apenas a sua dimensão sexual e corpórea, mas também a sua doação voluntária de amor. O fruto desta união é 'tornar-se uma só carne', quer no abraço físico, quer na união dos corações e das vidas e, porventura, no filho que nascerá dos dois e, em si mesmo, há de levar as duas 'carnes' a unirem-se genética e espiritualmente» (13).

Não há desperdício nas palavras da Exortação: «Se os pais são como que os alicerces da casa, os filhos constituem 'as pedras vivas da família'» ( 13). A própria Bíblia considera a família como o local privilegiado da catequese dos filhos, onde «os pais se tornam os primeiros mestres da fé para os seus filhos» (16). E «os pais têm o dever de cumprir, com seriedade, a sua missão educativa» (17).

O modelo é a família de Nazaré

O trabalho é uma parte fundamental da dignidade da vida humana (23), porque ele «torna possível, simultaneamente, o desenvolvimento da sociedade, o sustento da família e também a sua estabilidade e fecundidade» (24).

Frutos ainda do amor são «a misericórdia e o perdão» (27) e uma outra virtude «um pouco ignorada nestes tempos de relações frenéticas e superficiais: a ternura», que é uma «intimidade consciente, e não meramente biológica» (28).

À luz da Palavra de Deus, vê-se que o olhar da família que Deus confia nas mãos do marido, da esposa e dos filhos, para que formem uma comunhão de pessoas que seja imagem da união entre o Pai, o filho e o Espírito Santo, é «feito de fé e amor, de graça e compromisso» (29). E «a família é chamada a compartilhar a oração diária, a leitura da Palavra de Deus e a comunhão eucarística, para fazer crescer o amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito» (29).

O modela da família é a família de Nazaré. Como ela, também as famílias são convidadas e exortadas a viverem, «com coragem e serenidade, os desafios familiares tristes e entusiasmantes, e a guardar e meditar no coração as maravilhas de Deus... Maria pode ajudar-nos a interpretá-los de modo a reconhecer a mensagem de Deus na história familiar» (30).

Sem dúvida que as palavras do Papa são outra música, que bem merece ser escutada com enlevo e gratidão.

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