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19 Dez 2020
A cruz que suscita vida
Homilia no momento de oração de entrega da cruz JMJ
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A entrega da cruz não é uma simples cerimónia de um programa a cumprir, já tradicional na dinâmica das Jornadas Mundiais da Juventude. É uma verdadeira provocação com um duplo movimento: aproximar-nos do que ela significa e deixar-nos possuir pela sua força para depois a colocar, na sua autenticidade, no coração da juventude. Amor presenciado. Missão assumida. Não é um objecto com uma configuração mais ou menos estética. Grita o amor de Deus pela Humanidade que não se fica em teorias ou palavras bonitas, mas passa pela entrega dolorosa, perdendo a vida para que os outros tenham vida. Não é só morte. É derramamento do sangue até à última gota de um coração trespassado.

Este amor não pode aceitar a indiferença. Daqueles que o presenciaram ninguém ficou insensível. A juventude necessita de se encontrar com este amor desconhecido por muitos. O horizonte das Jornadas Mundiais da Juventude consiste nesta aventura. Não se trata de organizar iniciativas mais ou menos atractivas. Todas as estratégias estão condenadas ao fracasso, próprio do brilho de uma chama que se apaga, se não pressupõe este anúncio do Amor de Deus.

Deus é o programa das Jornadas. Para os jovens que gravitam em torno das nossas comunidades, tudo os deverá conduzir a este propósito inequívoco de um encontro com Deus. Para os que andam na indiferença, mesmo se baptizados, só isto lhe deverá ser oferecido. Os santos são inequívocos quando afirmam que só Deus basta. Daí que o convite para que os nossos jovens façam missão só terá consistência a partir daqui. Não vamos oferecer coisas indo, mais ou menos, ao encontro dos desejos. A missão consiste em oferecer Deus.

A relação com Deus, redescoberta numa adesão pessoal, vai tornar-se, depois, o pressuposto fundamental para uma relação equilibrada consigo, como necessidade de reestruturar a vida segundo o estilo que Cristo adoptou, para depois viver numa consciência fraterna com os outros, assim como numa relação saudável com a natureza. O mundo terá de se organizar a partir desta consciência de um Deus que ama em primeiro lugar.

Quando isto acontece, teremos pressa, como Maria, de ir ao encontro do mundo com os seus problemas e interrogações. Surgirá assim um compromisso missionário que encanta, consistindo essencialmente em levar esperança e alegria. Maria levantou-se e partiu apressadamente. Hoje, teremos de ter pressa em renovar a Igreja a partir de dentro, sabendo que toca a cada um uma tarefa importantíssima e imprescindível. Nunca podemos esperar um mundo melhor se ele não está a ser concretizado no interior das nossas comunidades. 

Experimentando Deus nas nossas comunidades, somos chamados a aliviar as cruzes de quem sofre, empenhando-nos para que, na sinceridade de uma dedicação generosa, cada calvário humano se transforme em ressurreição. Abandona-se a lógica do consumismo e hedonismo para se provocar um empenho com o bem comum. Deixa-se o medo para suscitar esperança e abandona-se o encerramento egoísta pelo altruísmo assim como a solidão pela solidariedade efectiva. Tocados pelo amor de Cristo, descobrimos a igualdade fundamental de todos os seres humanos e não toleramos tantas marginalizações e desconsiderações que abandonam e colocam tantos em situação de extrema pobreza. No amor criador de Deus descortinamos o direito ao acesso dos bens fundamentais para todos e não pactuamos que uma minoria usufrua daquilo que deveria ser destinado a todos. 

Estamos a iniciar esta caminhada rumo às Jornadas de 2023 num período conturbado da história. O vírus desmoronou o sistema que definia o modo de viver. Nunca experimentamos uma crise como a que estamos a viver. Entramos ou deveríamos entrar num ponto de viragem da história da Humanidade. Assistimos a uma catástrofe de dimensões insuspeitas. Tornou-se evidente o tema da morte e a doença é uma ameaça que nos acompanha minuto após minuto.

Não podemos deixar de reflectir e fazer com que sobre esta crise global sejamos capazes de descobrir o verdadeiro significado da vida humana. Cada um tem uma responsabilidade pessoal e o mundo tornou-se uma comunidade onde se partilha o mesmo destino para o bem e para o mal. Aqui a fé, experimentada como caridade, terá de dar espaço a uma caridade activa para com ela configurarmos a vida e o mundo de um modo diferente.

A cruz foi à frente dos grandes acontecimentos da nossa história. As nossas caravelas eram guiadas pelo seu espírito e ela fez com que se encontrassem novos mundos. Hoje teremos de encontrar este novo mundo que queremos construir. 

Na nossa Arquidiocese sabemos que o teremos de fazer sinodalmente, ou seja, caminhando juntos. Com os jovens, e sempre com eles, ouvindo-os e dando-lhes voz, seremos capazes de discernir o caminho a percorrer juntos. Não está traçado. Não é o arcebispo que o vai delineando, com as suas estruturas colegiais. Ele apenas aponta pistas, daí a importância de grupos de jovens em todas as comunidades paroquiais. O nosso Programa Pastoral afirma como objectivo: “desafiar os jovens a assumir um compromisso concreto nascido da fé e da caridade para a construção da sociedade”. Trata-se de viver a fé sinodalmente, em grupos, no interior das comunidades para sair em missão. O amor deverá levar-nos a ser tecedores de fraternidade universal.

Com os grupos em todas as paróquias teremos de chegar a equipas arciprestais. A presença de um réplica da cruz das Jornadas em cada arciprestado deverá dar consistência às equipas existentes e suscitar a sua criação nos arciprestados onde ainda não existem. Teremos de ser concretos. Sem jovens comprometidos não chegaremos a tocar o coração da juventude em geral. Fazer missão significa este compromisso.

Muitas iniciativas surgirão. Acredito no trabalho dos jovens. Nesta Igreja Mãe, que é a Catedral, entrego-lhe a cruz na certeza de que muita vida nova irá acontecer. Quero, porém, recordar que se queremos mostrar o amor de Deus pelo mundo e particularmente pelos jovens, teremos de nos aproximar d’Ele. Neste momentos de crise falamos muito de Deus. 

É melhor falar menos de Deus e mais com Deus sobre a crise, e tantos outros problemas, para que daqui surja uma civilização diferente. Com este intuito, quero sugerir que os nossos jovens, aderindo àquilo que poderá vir a ser um movimento nacional, se encontrem, presencialmente ou de modo digital, num momento de oração em todos os dias 23 de cada mês. Rezar pelas Jornadas e, na oração, compreender o que Deus quer e espera das mesmas.

O Evangelho que acabamos de ouvir mostra Jesus a ir ao encontro de um jovem, filho único de uma viúva, que tinha falecido. Encheu-se de compaixão e restituiu-lhe a vida através de uma ordem. Levanta-te. Como Igreja, jovens e adultos, somos convidados a sair para nos encontrarmos com os jovens nos lugares onde e encontram. Poderemos dizer-lhes muitas ou poucas palavras. O que importa é que sintam o amor de Cristo, através dos nossos gestos e atitudes. Cristo que se aniquilou a si próprio, assumindo a condição de servo, humilhou-se até à morte para dar vida à humanidade. Veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância. Isto deveremos oferecer. 

A cruz que levaremos daqui vai empurrar-nos para grupos de jovens que, unidos em comunhão fraterna, procurarão fazer missão junto dos outros jovens, dando um rosto de fraternidade e igualdade à sociedade, a partir da Igreja que se renova pelo exercício da caridade.

  

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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