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8 Dez 2020
A espiritualidade em tempo de pandemia
Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria
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O Concilio Vaticano II, na sua Constituição Dogmática Lumen Gentium, proclamou a augusta Mãe de Deus como Mãe espiritual da Igreja e, portanto, de todos os fiéis e Pastores. O Papa Paulo VI, no discurso de encerramento do Concilio Vaticano II, perante mais de dois mil Bispos reunidos na Basílica de São Pedro, voltou a referir o que o Concilio tinha aprovado. Se antes era frequente esta invocação, na devoção a Nossa Senhora, a partir daí os Santos Padres foram-na repetindo e inculcando. São Paulo VI na Exortação Apostólica Signum Magnum, S. João Paulo II na Redemptoris Mater e Bento XVI em várias ocasiões, voltaram a sublinhar esta invocação de Maria, Mãe da Igreja.

Agora, mais recentemente, o Papa Francisco inscreveu no calendário litúrgico a memória da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, a ser celebrada na segunda-feira da Solenidade do Pentecostes. A primeira vez que se celebrou esta memória foi a 21 de Maio de 2018.

Estamos a abordar a pandemia sobre diversos aspectos. A parte sanitária preocupa-nos, sobretudo na prevenção e nos cuidados a ter nos momentos de cura. A economia lança permanentes alertas, de modo a que a vida de todos seja encarada com dignidade. A dimensão social apresenta situações graves de carências fundamentas e o futuro aparece como um enigma que causa receio, sobretudo para os mais desfavorecidos e fragilizados.

Estamos, porém, a esquecer uma vertente fundamental. Precisamos de redescobrir a espiritualidade nestes momentos. Por vezes, pensamos ou queremos que a fé nos elimine os problemas e contratempos. Mas a vida humana estará sempres marcada polos limites.

Se a fé não elimina os problemas dá coragem e força para experimentar a serenidade necessária. Coloquemos, por isso, a fé nas interrogações que a pandemia nos poderá levantar. Se nos encontramos em situação de confinamento, porque estamos infetados ou em isolamento profilático, criemos espaços para recorre a Deus e acreditar que com Ele tudo se tornará mais fácil.

O Evangelho relata-nos tantos momentos de aflição que o encontro com Cristo resolveu. Foram os milagres realizados, mas também as palavras de conforto. Hoje está a faltar-nos muito esta atitude de não querer encarar as situações sozinhos. Temos Cristo Connosco. Também Maria, como Verdadeira Mãe, está do nosso lado. Precisamos, por isso, de crescer numa familiaridade com Cristo e com Maria. Se temos mais tempo disponível por causa do confinamento e do recolher obrigatório, deveremos fazer com que não seja tempo perdido com futilidades. Na verdade, a pandemia pode e deve ser oportunidade para intensificarmos uma sólida vida espiritual. Esta está na oração onde louvamos, agradecemos e pedimos. Mas também é feito de encontros. Encontros com a Palavra e com os outros. A Palavra de Deus quando é meditada e saboreada torna-se luz esclarecedora de muitas situações, particularmente das mais dolorosas e complicadas. Procuramos razões em tantos lugares quando deveria ser Deus, naquilo que o Seu Filho nos deixou, a mostrar a solicitude do Seu Amor que nunca nos abandona.

Esta espiritualidade cristã a partir da Palavra faz com que nos encontremos com os outros de modo que quando saímos de nós para mergulhar nos problemas do próximo, vamo-nos esquecendo daquilo que nos preocupa e adquirimos um treino que faz com que quando as dificuldades batem à nossa porta ultrapassemo-las com facilidade pela experiência que fomos adquirindo. O amor é um jogo. Quando damos, recebemos. O amor liberta e liberta-nos. Daí que a pandemia terá de exercitar-nos na arte de nos querermos bem, como verdadeiros filhos da mesma Mães e não deveremos ter vergonha de o mostrar. Sabemos que, neste contexto, não poderemos privilegiar os contactos físicos. Temos muitos outros modos de o fazer. Conversar com os amigos, telefonar, mandar mensagens, suscitar partilha de experiências de vida. Na vida cristã não deveríamos permitir que ninguém se sentisse sozinho. Mas nós sabemos que há muitas pessoas em situação de isolamento e solidão. Poderemos não ter muita intimidade com elas. Elas precisam e merecem um telefonema ou mensagens de alento. São muitos os modos de o fazer.

Ousaria provocar os jovens para que servindo-se dos meios técnicos, procurassem entrar na solidão das pessoas, particularmente dos idosos. Em contrapartida, pedissem que os idosos oferecessem pensamentos onde a sabedoria da vida fosse oferecida. Eles têm muitos para nos dar e enriquecermo-nos com os seus conselhos e pensamentos.

Saindo de nós para ir ao encontro de quem está sozinho, doente com Covid, ou se encontra em confinamento, significa crescer no amor a Cristo que dedicamos aos outros e, nesse momento, temos a certeza de estar a ser samaritanos que se enchem de compaixão pelos males dos outros, que veem com o coração e vão deixando cura com gestos concretos de amor.

Celebramos a Festa da Imaculada Conceição. Com ela queremos ver Maria, interiormente vazia de intenções pessoais para ser plenificada por Cristo que iria oferecer ao mundo. Este coração cheio de Cristo empurrou-a para ir ao encontro de quem necessitava. Fê-lo correndo apressadamente para servir a sua prima Isabel. Hoje, teria outros meios e não dispensaria nenhum.

Esta terapia do amor à distância é um contributo positivo que podemos dar ajudando muitas pessoas a não entrar em depressão. Não teremos muitas pessoas amigas, talvez familiares próximos, que há muito tempo não sabemos nada da sua Vida?

A Espiritualidade cristã a viver em tempo de pandemia deverá levar-nos, também, a pensar nos pobres e desfavorecidos. Gostaria de deixar uma sugestão. Poderemos não ser ricos. Temos sempre possibilidade de dar algo do que temos. Creio que as famílias poderiam adoptar outras famílias mais pobres. Estabelecer-se-ia uma relação de conhecimento da realidade familiar. Nunca por curiosidade, mas certeza de uma solicitude fraterna que irá intuir quais são as suas verdadeiras necessidades. Nuns casos será dinheiros. Noutros géneros alimentares, noutros rendas e medicamentos a pagar. Noutros bastarão algumas palavras ditas com muito amor e sem pressas.

Com esta adopção de uma família, estabelecer-se-á uma rede de caridade fraterna, talvez no anonimato, que mostrará a qualidade da nossa fé. Com ela as crianças aprenderão a ser menos egoístas e a gostar de ajudar quem necessita. Estou a imaginar a comunhão que existia entre a Família de Maria e Isabel. Como deveria ser algo encantador.

Neste tempo de caminhada para o Natal, pensando nos outros devemos, também, pensar nas necessidades da Igreja. No final da Eucaristia a Confraria de Nossa Senhora do Sameiro irá agradecer a alguns beneméritos. Temos necessidade que os cristãos pensem na Igreja e a considerem sua.

Comecei por dizer que a pandemia deverá conduzir-nos a experiências de espiritualidade, que na hipótese de sermos infetados ou condicionados pelo confinamento nos ajudarão a ter a coragem necessária.

Precisamos de encher os nossos dias com esta ginástica espiritual. É como um treino. Os resultados oferecerão sempre vantagens. Como crentes, confiamos em Deus. Devemos louvá-lo nas horas de alegria. Adorá-lo nas horas de satisfação. Procurá-lo nos momentos difíceis. Confiar nele em todas as situações dolorosas e de sofrimento. Dar-lhe Graças, sempre e por tudo. Por muito complicadas que sejam as dificuldades nunca nos poderão levar ao desespero. Sempre, teremos de reconhecer que Deus é o Senhor da história humana. Nestes momentos de crise falemos menos de Deus e mais com Deus.

Mas regressemos de onde parti. Maria é Mãe da Igreja e, por isso, mossa Mãe. Isto nos recordou o Papa Francisco quando esteve em Fátima. Temos Mãe, gritou ele! Esta certeza terá de nos acompanhar e nós, os crentes, para além dos cuidados sanitários e de solidariedade, teremos de acreditar na força do alto. Ao nosso lado está Maria, como Mãe.

Outrora rezava-se invocando a proteção de Deus. Creio não ser ultrapassado e estar fora de moda, se afirmo que precisamos de rezar mais por esta intenção.

Recordo São Bartolomeu dos Mártires que por ocasião de uma peste que assolou a cidade, em 1570, colocou um cruzeiro no Parque de S. João da Ponte para recordar o dever da oração e agradecer a proteção divina. Recordamos o gesto de Papa Francisco que, por ocasião da Páscoa, na bênção Urbi et Orbi, quis ficar sozinho, sem ninguém, diante da Cruz medieval que tinha sido levada em procissão durante a peste de 1522, assim com também ao lado do Ícone de Maria Salus Populi Romani, Maria, saúde (protetora) do Povo Romano. Este Ícone bizantino está sempre presente nas Jornadas Mundiais da Juventude. Mas o Papa quis colocar-se naquele Domingo de Páscoa, em momento de confinamento total, diante destas duas imagens. Cristo Crucificado e Maria, saúde do Povo Romano. É atitude a imitar.

Como nos lembrava S. Paulo, na Carta aos Efésio, somos verdadeiramente filhos adoptivos amados pelo Pai e, segundo o Evangelho, sabemos que nada é impossível a Deus. Em todos os momentos, e este de pandemia não será exceção, teremos de reconhecer a Omnipotência de Deus que não abandona os Seus filhos.

Precisamos de rezar mais. Confiemos a Senhora do Sameiro, todos os habitantes da nossa Arquidiocese. Que nos proteja do vírus e conceda saúde àqueles que estão ou estarão infetados. Maria é nossa Mãe. Podemos confiar.

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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