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2 Fev 2021
A sinodalidade é a luz da Igreja
Homilia na Festa da Apresentação do Senhor
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  © Avelino Lima | Sé Catedral

Quarenta dias após o nascimento de Cristo, recordamos o momento em que José e Maria vão ao templo para cumprir as prescrições da lei, apresentando o Menino a Deus. É a festa da Apresentação do Senhor. Simultaneamente, ouvimos o que o velho Simeão profetiza em relação à missão que aquele recém-nascido realizará. Será luz para todas as nações. Porque gerado de Maria, evocamos Maria como Senhora da Luz ou, mais popularmente, Senhora das Candeias.

Num tempo em que somos postos em questão pelos processos que afectam a sociedade, mormente a covid-19 que não diferencia países nem pessoas, onde não há ricos nem pobres, gostaria de deixar esta globalização da pandemia para me centrar nas micro relações que competem a cada um. Nem todos são capazes de se aperceber do realismo das candeias que congregaram muitas famílias, reunindo-as em seu redor para irem discernindo o que deveriam fazer para bem de todos. A luz era pequena mas suficiente para congregar, unir e motivar para os projectos a realizar.

Há uma música muitas vezes cantada pelas crianças que diz: “Esta luz pequenina vou deixá-la brilhar. No meu coração vou deixá-la brilhar. Na minha escola, vou deixá-la brilhar”. E muitos outros ambientes são colocados como proposta para que a luz de Cristo brilhe.

Com este pano de fundo, para que a luz de Cristo brilhe no momento que atravessamos, quero ser concreto deixando três propostas.

Em primeiro lugar, temos de reconhecer que a vida é feita de pequenas coisas. São elas que compõem o nosso quotidiano. Não vale a pena estar à espera de coisas importantes que nunca poderão acontecer. Há coisas que se repetem inadvertidamente e que acontecem sem grande significado. Outras vezes deixamos de realizar iniciativas que consideramos bagatelas. Importa reconhecer que o nosso contributo para que as famílias sejam diferentes, para que as comunidades sejam mais evangélicas, para que os ambientes laborais sejam mais humanos, depende de coisas marginais com um valor infinito. A humildade está a regressar à vida das pessoas. Pensávamos que os grandes, que os intelectuais, cientistas, resolveriam todos os problemas. Agora sabemos que só se resolvem com as migalhas de cada um. Ninguém é dispensável, todos possuem qualidades e talentos com um enorme potencial.

Reconhecemos, também, que a vida, merecendo sempre a gratidão, tem de ser realizada sem nada pretender. A luz não se ilumina a si mesma. É para os outros. Mais do que nunca terá valor quem realiza um trabalho despretensioso, que não procura as primeiras páginas dos jornais mas que se fixa só nos resultados pretendidos. Houve um tempo em que vacinas tiveram um inventor. Depois foram os laboratórios. Agora, os resultados surgiram como fruto da investigação de muitos centros universitários. A ninguém se pode atribuir a descoberta desta vacina. Foi o trabalho silencioso e persistente de muitos que fez com que a luz começasse a brilhar ao fundo do túnel. Os nomes e a fama dos investigadores passaram despercebidos. Valeu o resultado. Os talentos uniram-se e as vaidades pessoais desapareceram.

Esta luz a brilhar como aposta nas pequenas coisas e trabalho humilde de muitos, aconteceu porque se quis intervir e fazer alguma coisa pelo bem comum. Não bastam as teorias mas são necessárias as boas vontades que não ficam em considerações teóricas mas querem contribuir com muita humildade e grande capacidade de resiliência. As dificuldades ajudam a crescer quando encontram vontades consistentes na acção. Há quem se limite a esperar. Outros contentam-se em criticar. Muitos resignam-se a seguir os conteúdos dos facebooks comparando-os entre si ou reconhecendo a sua falsidade.

Este ano, movidos pela parábola do Bom Samaritano, pretendemos dar vida a uma Igreja sinodal que, ancorada na caridade, sabe que “onde há amor há um olhar”. No dia em que fomos baptizados foi-nos colocada na mão uma vela para que fossemos iluminados por Cristo sabendo viver como filhos da luz. “Filhos da luz" é um atributo mas é também o encargo de levar luz aos recantos do mundo fazendo com que a Igreja seja luz dos povos, o que acontecerá quando nos envolvermos na aventura da presença da Igreja no meio de um mundo que procura sempre distrair-se da luz que ela vai oferecendo ou mesmo vai delineando projectos para a apagar. 

A luz da Igreja deve brilhar na participação mais activa de todos. É o compromisso das pequenas obras que todos podem realizar, de um modo humilde e com uma presença performativa no seio da comunidade. A sinodalidade é sinónimo de um envolver-se e não permitir que a vida da Igreja seja pensada por alguns. Fala-se muito de corresponsabilidade através do trabalho oferecido por cada um mas estamos a negligenciar o caminho a percorrer. Esquecemo-nos o que antigamente era conhecido porque repetitivo. A paróquia e a diocese não necessitavam de delinear os seus projectos e planos. Tudo acontecia numa cadência situada pelo tempo e festas litúrgicas. Hoje nada está programado. Temos o Evangelho connosco mas o modo de o comunicar difere de ano para ano, de circunstância para circunstância. Não podemos viver do imprevisto, agindo ao sabor das circunstâncias, mas teremos de ir interpretando o que elas salientam. E isto tem de ser coral. Não só porque ninguém consegue abarcar a verdadeira dimensão dos problemas mas porque Cristo quer caminhar com quem está unido no Seu nome. Trata-se de uma cultura do “nós” onde se acredita nas capacidades de cada um desde que elas sejam colocadas em comum.

Na festa da Apresentação de Jesus, festa da Senhora da Luz ou das Candeias, gostaria de ver uma Igreja construída por todos. Celebramos também o Dia dos Consagrados. Recordo os religiosos e as religiosas ou membros dos Institutos seculares e testemunho gratidão por aquilo que eles constroem no Reino de Deus, de harmonia com o seu carisma. São consagrados mas também todos os baptizados o são. Edificar a Igreja não é privilégio de alguns. Se as candeias brilhavam por causa do azeite nelas depositado, sabemos que este é resultado da vida que pulsa dentro de muitas azeitonas que se gastam para este efeito, assim como numa grande fogueira acontece com o contributo de muitos pedaços de madeira. 

Quero, por isso, repetir o que tenho dito variadíssimas vezes. A Igreja diocesana é de todo o povo de Deus congregado no amor e unido na missão. Deixaria, por isso, uma pergunta muito concreta dirigida a sacerdotes e leigos. O que estou a fazer para que a Igreja, na Arquidiocese e nas paróquias, mostre de verdade, como luz no meio da sociedade, a sua credibilidade enquanto manifestação do amor de Deus? Gostaria que muitos sacerdotes, religiosos e leigos exercitassem uma maior participação na construção da Igreja através das suas ideias, sugestões e críticas. Tenho-o solicitado imensas vezes. Não me envergonho de continuar a pedir. Ser uma Igreja sinodal não quer dizer estar na expectativa do que o Arcebispo e as instâncias arquidiocesanas vão programando com maior ou menor interesse. 

Quanto maior for a participação maior será a credibilidade. Muitos olhos a ver, nunca na atitude crítica ou de expectativa mas sempre proactivamente, conseguem ver melhor os problemas e o caminho a seguir. Dou graças a Deus quando chegam as sugestões. Não queremos uma Igreja auto-referencial. Nunca entendi o ministério episcopal neste sentido. Acredito que a unidade, construída por todos, é o testemunho para que o mundo acredite.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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