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26 Abr 2021
Aprender com a pandemia
Homilia no 17º aniversário da Beatificação de Alexandrina de Balasar.
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  © Francisco de Assis / DM

Estamos a celebrar o 17º aniversário da beatificação da Alexandrina. Fazemo-lo num ambiente de pandemia. Esperamos que tudo se vá desanuviando, mas nunca nos poderemos subtrair à responsabilidade pessoal que todos e cada um têm de não ser factor de propagação da doença. Ainda não podemos saborear a normalidade. Acreditamos que esteja para breve mas depende de cada um.

Tendo como pano de fundo a pandemia, olhamos para a Beata Alexandrina para que seja nossa intercessora junto de Deus e que Ele nos liberte desta fatídica doença. Ao mesmo tempo, a Beata Alexandrina poderá e deverá ser uma voz a dizer-nos como viver estes momentos tão complexos. Ela teve uma vida de martírio e de sofrimento. Conseguiu viver tranquilamente, presa a uma cama de sofrimento, por causa da profunda espiritualidade que marcou a sua vida cristã. A força vinha-lhe de outro lado. Sozinha não teria conseguido. Quotidianamente tinha um alimento que lhe dava força.

Tenho ouvido alguns doentes de covid, daqueles que estiveram entubados, ventilados, em coma induzido, a confidenciar que, para além dos cuidados médicos e das solicitudes dos outros profissionais de saúde, tudo se ultrapassou, com maior ou menor dificuldade, devido à fé que lhes dava coragem, que falava nos momentos de solidão, que gritava que valia a pena acreditar que tudo se ultrapassaria. Confessam que nem sempre se consegue rezar mas que é possível sentir e experimentar uma união com alguém que sussurra que vale a pena continuar a acreditar na vida.

1. Na última semana fomos surpreendidos pela experiência, descrita no Jornal Expresso, do conhecido psiquiatra Daniel Sampaio que sobreviveu e quis contar “a experiência mais forte que a vida lhe proporcionou”. Vale a pena ler para compreender muita coisa e, quem sabe, estar preparado para uma adversidade similar.

Daquilo que ele escreve quero sublinhar três ideias pela importância que podem ter para a nossa vida. Em primeiro lugar, ele diz. “Sabia que se não fosse destruído, ia ficar uma pessoa melhor”. Quem fala é um psiquiatra de renome, conhecedor dos nossos âmbitos mais recônditos. A doença é e será sempre um mal. Teremos de lutar contra ela, quer protegendo-nos quer defendendo-nos. Só que quando a aceitamos e sabemos estar nela, confiantes e serenos, ela faz com que, como pessoas, fiquemos melhores. A doença pode ser uma escola. Em casa ou num hospital há tempo para estar sozinhos, pensar, rezar, interiorizar. A Beata Alexandrina dá-nos esta lição de um modo eloquente.

Creio que uma das grandes lições a retirar da pandemia deve ser a necessidade de uma espiritualidade como experiência de encontro pessoal com o divino, com o transcendente. Importa criar hábitos no nosso quotidiano. Precisamos de pausar para estarmos a sós connosco e com a nossa consciência. Não aguentamos os momentos da solidão porque estamos permanentemente rodeados pelo barulho. Muitas pessoas entraram em depressão pois não sabiam conviver com a solidão. Esta é imprescindível quando a enchemos de pensamentos positivos, de diálogos íntimos e exames de consciência, de momentos de gratidão ou de prece. Se nos habituarmos, por exemplo, a ler diariamente um pequeno texto da Sagrada Escritura teremos sempre companhia, mesmo que impossibilitados de conversar com familiares e amigos. Encontrando-nos connosco sentiremos de rectificar comportamentos, reconhecendo atitudes não adequadas a mudar. É deste modo que podemos sair melhores dos momentos de doença. Criemos, por isso, na nossa vida momentos para exercitar uma sadia espiritualidade. Pode acontecer nas nossas casas, quando viajamos, entrando numa igreja.

Neste sentido é muito elucidativo quanto nos dizia o Prof. Daniel Sampaio. “Também sempre disse que não era ateu mas agnóstico, e lembrei-me de uma frase de Voltaire que, quando indagado sobre a sua relação com Deus, dizia: «cumprimentamo-nos, mas não nos falamos.» Eu tenho muito respeito pela ideia de Deus, não sou crente, mas confesso que muitas vezes pensei em Deus e se ele me podia ajudar. Tive imensa gente a dizer que estava a rezar muito por mim, eu agradecia e foi muito reconfortante. Nunca minimizei a fé dos outros e a ideia de que Deus me poderia estar a ajudar foi uma boa ideia.”

Um homem que não é crente. Que confessa que pensou muitas vezes em Deus, tentando acreditar que Deus o poderia ajudar. Que teve muita gente a rezar por ele. Com estas duas ideias, de pensar em Deus e de ter muita gente a rezar por ele, tudo foi muito reconfortante. O que devemos fazer nós, os crentes. Nestes momentos difíceis precisamos de rezar mais e de contar que os outros rezem por nós. Também aqui a oração não acontece espontaneamente. Precisamos de um exercício diário e temos tantas coisas que devem ser motivo para a oração. No nosso íntimo podemos conversar com Deus, em qualquer lugar e em todas as circunstâncias, sobre tudo o que nos acontece. Sabemos que Ele é um Deus connosco, que quer caminhar ao nosso lado, sempre disponível para entrar na conversa. Esta é outra lição que devemos retirar desta pandemia. Falou-se muito dizendo que estamos interligados, ou nos salvamos juntos ou nos condenamos juntos. Também espiritualmente estamos entrelaçados. Devemos sentir-nos uma coisa só. Rezemos por nós e pelos outros. 

Outra lição a retirar da pandemia para encararmos os momentos de doença com serenidade e fé está na importância da família. O mesmo psiquiatra diz coisas que obrigam a pensar. “Descobri uma força que estava escondida e que me permitiu continuar a lutar. Constatei que o mais importante que fiz foi ter constituído uma família. É importante que se diga isso numa altura em que as pessoas privilegiam as carreiras. Eu tive uma boa carreira, mas, sem qualquer demagogia, o mais importante que construí foi a família.” Poderemos andar por muitos lados. Não existimos como ilhas. Nascemos a partir da família e sem ela não conseguimos sobreviver. Daí a importância de a construir. Não basta unir pessoas. Dá trabalho. Só com ela experimentamos, muitas vezes no meio de muitas dificuldades, a felicidade de viver. 

2. Estamos num ano dedicado a S. José e olhamos para a Beata Alexandrina como alguém que teve um grande amor a S. José. Era o seu protector e amigo. a quem recorria com frequência.

Com ele também podemos aprender esta três coisas. No meio de muitas dificuldades e problemas ele soube sempre retirar o lado positivo das coisas. Aprendia a melhorar a vida pessoal e familiar. Nada o atemorizava. Tudo tinha um lado positivo que soube descobrir. Depois, interpretou a sua vida com Deus. O Papa diz-nos que era o homem que ouvia o que Deus tinha para lhe dizer durante os sonhos. Isto significa a necessidade de momentos para escutar Deus, para manifestar a vontade interior de aderir ao sonho que Deus tinha para concretizar. Também a vida de S. José foi de família com Maria. Os dois uniram-se para dar vida a Jesus e tudo se foi desenvolvendo numa vida familiar a três, onde Cristo crescia em idade e sabedoria para realizar o projecto que Deus Pai tinha para salvar o mundo. Deus (oração), confiança em Deus, descobrindo o lado belo das coisas, família, força escondida para lutar no meio das contrariedades. 

3. Também a Beata Alexandrina aprendeu com S. José a reconhecer o lado bom do sofrimento, a confiar na oração dos outros e a rezar pelos outros e a usufruir de uma rectaguarda familiar que apoia, reconforta e estimula.

Todas estas lições sugeridas pela pandemia são sublinhadas nas leituras que ouvimos. S. João recordava-nos que somos filhos de Deus que nos ama com um amor admirável. Somos sempre amados por Deus. Muitas vezes só pensamos no amor que teremos de oferecer a Deus. Antes de tudo somos amados por Deus. Sempre, em todos os momentos, mas particularmente nos complicados das doenças e das adversidades. Amados por Deus teremos de amar. S. Pedro dizia na primeira leitura que a cura de um enfermo realizada por ele aconteceu “em nome de Cristo”. Também nós, seus discípulos e em seu nome, teremos de agir com a presença junto de quem sofre, com os familiares mas também com os outros. No Evangelho, Jesus apresenta-se como o Bom Pastor que dá a sua vida pelas ovelhas e que o faz espontaneamente sem ninguém lhe impor. Não estou só. Cristo dá a vida por mim para que a minha vida seja vida.

Se Ele dá a vida, a Igreja é a comunidade daqueles que são a vida uns pelos outros. Este é o estatuto de todo o cristão. Mas Deus quis chamar alguns para que se consagrem a§ esta causa de promoção da vida humana. Hoje rezamos pelos sacerdotes e consagrados para que vivam com alegria e entusiasmo a sua vocação. Pedimos, também, que o Senhor da messe nos conceda muitas vocações sacerdotais e religiosas. Deus quer continuar a servir a Humanidade, pelos sacerdotes diocesanos, pelos religiosos e religiosas, pelos membros dos Institutos seculares e também pelas famílias que queiram encarar a vida matrimonial como vocação.

Rezemos pelas vocações, hoje e sempre. Que o nosso amor à Beata Alexandrina também passe por aqui. Sabemos como ela rezava, oferecia os seus sofrimentos e convidava jovens a que se consagrassem. Como ela tornemo-nos apóstolos das vocações.

Neste aniversário da Beatificação de Alexandrina fiquemos com as três lições. Com o sofrimento aprende-se, sem espiritualidade é impossível viver, com a família nada nos mete medo. Porque queremos viver com paixão para com Deus e para os outros, vamos viver a nossa vocação de baptizados e trabalhar para que surjam muitas vocações de especial consagração.

  

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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