Arquidiocese

Ano Pastoral 2020+2021

"Uma Igreja sinodal e samaritana"

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26 Abr 2021
Para uma Igreja ministerial
Homilia na instituição do Ministério de Acólito.
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  © Ana Marques Pinheiro / DM

Celebramos o IV Domingo da Páscoa e continuamos a celebrar a Ressurreição. Comprometemo-nos a fazer Cristo vivo na vida de cada um, na Igreja e na sociedade, transformando todas estas realidades em Reino de Deus.

Nos Domingos anteriores ouvimos Cristo a oferecer a sua paz aos discípulos através das leituras Evangélicas, narrativas das suas aparições, de modo a que ultrapassassem medos e temores, assumindo a missão de serem testemunhas de todas as coisas que tinham sido realizadas durante o seu ministério.

Hoje reconhecemos que este ministério deve ser participado por todos os membros da Igreja. Ninguém pode ser excluído. Ajuda-nos a esta consciencialização o facto de encerrarmos a semana das vocações. Nela quisemos intuir o sonho de Deus, servindo-nos da experiência de vida de S. José. Um sonho que é um projecto a oferecer a verdadeira salvação e felicidade a toda a Humanidade. Como S. José, todos, uns de uma maneira mais escondida ou segundo plano, outros de um modo mais visível e actuante, “têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação.”

Para animar, suscitar, reconhecer, estimular esta ministerialidade global da Igreja, Deus, de entre os seus, vai chamando alguns para ministérios específicos, alguns instituídos, outros ordenados. Cada um é detentor de dons, de carismas que, responsavelmente, coloca ao serviço de todo o Corpo Visível da Igreja.

Esta doutrina teoricamente é conhecida e reconhecida. Ainda não penetrou na identidade cristã de modo a criar esta consciência de que na Igreja não há trabalhos, não há profissões. Há resposta a um amor de Deus que chama e que, livremente, espera respostas de entrega e doação. Ao termos, neste dia das vocações, a instituição do ministério do acólito, confiado pela Igreja a nove jovens que com o seu “presente” pronunciado há momentos, estou a querer mostrar este compromisso para a vida toda, rezemos e trabalhemos para que a Igreja na Arquidiocese de Braga se desenvolva nesta dinâmica sinodal que mostra o que somos ou devemos ser. Povo de Deus a caminho, de vidas entrelaçadas e de mãos dadas, no querer descobrir caminhos novos de evangelização, actuando, repartindo tarefas não como executores das ordens de alguém mas como participantes na única missão de Cristo. A Igreja do futuro, que todos queremos construir, só pode ter este caminho. Todos, homens e mulheres, sem distinção de espécie nenhuma, comprometidos numa responsabilidade pessoal que, naturalmente, se articula, através do diálogo constante, numa unidade ecfetiva.

O ministério do acolitado pode ajudar-nos a dar evidência a esta doutrina. A fórmula da instituição diz: “Recebe o pão para a celebração da Eucaristia e vive de tal modo que possas servir dignamente a mesa do Senhor e da Igreja.” Pelo pão é confiado um encargo, mas para servir a mesa do Senhor que é a mesa com que a Igreja serve o mundo. Participamos num só pão e, por isso, formamos um só corpo. Amando abnegadamente todo o Povo de Deus sempre numa predilecção pelos mais fracos e doentes concretizando o “Amai-vos uns aos outros coo eu vos amei”.

O Evangelho que ouvimos hoje torna-se uma espécie de manual para esta ministerialidade da Igreja. Não precisamos de muitas explicações. Cristo apresenta aos seus discípulos o modo como Ele viveu a sua missão. Usa linguagem que na época todos entendiam. Hoje continua actual desde que não descontemos as suas exigências. Ele é o Bom Pastor, que não é mercenário mas que dá a vida pelas suas ovelhas, conhecendo-as e fazendo com que elas O conheçam, e reconhecendo que há outras ovelhas que também devem vir a pertencer ao seu redil, de modo a que haja um só rebanho e um só pastor.

Daqui poderemos retirar quatro conclusões que estruturam a missão da Igreja.

Em primeiro lugar, apaixonar-se pelo sonho de Deus de reconhecer que todo o mundo se deve encontrar com Cristo. Há muita gente fora da Igreja. Cresce o número dos que de afastam. Ficamos em lamentações e na expectativa. Precisamos de sair da nossa concha onde tudo gira à volta de esquemas rotineiros e sempre iguais que cansam e nos cansam. Se olhássemos mais para o mundo e nos apaixonássemos verdadeiramente pelas suas causas não perderíamos tanto tempo mergulhados numa certa tristeza e desilusão. 

Faltam-nos horizontes. Precisamos de sonhos não etéreos que se esvanecem. Sonhos de quem está bem acordado e tem consciência dos reais desafios, de quem ousa ser profético e sem medo, de quem sabe que o Evangelho é um verdadeiro projecto para um humanismo integral e realizador das aspirações. Este sonho concretiza-se a partir do que somos como Igreja diocesana e paroquial. Falamos de comunidade mas teremos de a concretizar. Aí somos verdadeiramente discípulos, como seguidores apaixonados e não apáticos de Cristo, e missionários onde todos saboreiam a alegria de trabalhar. Mas o segredo do trabalho está no Bom Pastor. Não é somente dono do rebanho e, se o é, é porque dá efectivamente a vida por todas as ovelhas num carinho especial por aquelas a quem ninguém presta atenção. 

Há muita gente para quem a vida não está a ser vida. É necessário ir ao encontro e oferecer-lhes o amor de Cristo com todas as manifestações concretas que ele sugere. Dar a vida significa grande capacidade de acolhimento mostrando uma proximidade realista. Ser uma Igreja Samaritana não pode ser uma teoria bonita. Necessita de compromissos, alguns estruturais, outros resultados da espontaneidade de um amor que nos distingue. A lógica de dar a vida, em todos os lugares e situações, a todos sem distinção mas com uma predilecção pelos mais vulneráveis, é o único caminho credível para a missão da Igreja. Não deveria admitir interpelações subjectivas. Compete a todos, sacerdotes e leigos, e não se trata de campanhas ocasionais. É para todas as horas.

Em terceiro lugar, a ministerialidade universal da Igreja, ao jeito do Bom Pastor, tem um estilo característico e diferenciador. Jesus dizia no Evangelho, “Sou eu que dou a vida, ninguém me tira, Sou eu que a dou espontaneamente”. Se dar a vida é o nosso estatuto, o modo como a damos também o é. Dar espontaneamente, sem ninguém pedir, resultado da atenção às ovelhas que se conhecem, sem esperar recompensas, de um modo gratuito. Num mundo onde o interesse comanda a vida de todos, o nosso interesse é apenas o de prolongar a vida de Cristo. Vivemos na alegria porque não procuramos os resultados. Somos humanos e necessitamos de ver os frutos da nossa vocação. Só que este cêntuplo prometido por Cristo virá por modos e caminhos que ignoramos. Esperamos aplausos e elogios e tudo poderá acontecer na serenidade de um fim do dia onde saboreamos como foi bom ter servido em tudo, nas palavras e nas acções.

Volto ao exemplo de S. José servindo-me de palavras do Papa. Ele foi o “homem da presença quotidiana discreta e escondida”. Presença quotidiana com tudo o que isto possa significar. Nele não encontramos palavras. Sabemos que se deixou dirigir pelos sonhos de Deus. Por isso o admiramos, hoje, passados vinte séculos, como intercessor, amparo e, sobretudo, guia nesta ministerialidade da Igreja.

 

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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