Arquidiocese

Ano Pastoral 2020+2021

"Uma Igreja sinodal e samaritana"

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6 Jun 2021
Senhora do caminho sinodal
Homilia na Peregrinação ao Sameiro
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A peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora do Sameiro acontece sempre no final do ano pastoral. Torna-se, por isso, oportunidade para revermos o que conseguimos concretizar e preparar-nos para uma nova etapa.

Penso que nenhum cristão da Arquidiocese de Braga ignora que, nos últimos anos, temos colocado diante das comunidades um compromisso efectivo para a renovação da Igreja, no todo da Arquidiocese e nas partes das paróquias, dos movimentos, confrarias e associações. A sociedade evoluiu e oferece-nos uma caracterização totalmente diferente. A Igreja assume-se como um projecto de Deus oferecido para a plena realização da Humanidade. Não está ao serviço dela própria. Nunca podemos cair na tentação da autorreferencialidade. É mais fácil acomodar-se a costumes e tradições. Teremos de respeitar sempre as nossas raízes a partir da Palavra de Deus ao longo dos tempos. Diante da Senhora do Sameiro, neste Santuário Arquidiocesano, coloco esta intenção de não adiarmos a renovação eclesial que o Espírito Santo nos pede. Tenho falado muitas vezes de fidelidade criativa e o Papa Francisco apresenta-nos S. José, neste ano que lhe é dedicado, como o pai com coragem criativa. Que Maria não nos instale na história rica que temos. Há mais Igreja para construir.

Este nosso compromisso está a ser reforçado por aquilo que o Papa Francisco está a pedir à Igreja neste tempo conturbado e complexo. Permanentemente fala do dever de sonhar. Não de sonhos abstractos, de meras ilusões que até podem encantar. Mas de ousadia, de silêncio, de acreditar na possibilidade de mais e melhor. Sonhos que comandam a vida em projectos que apontam para mais além.

Se a renovação da Igreja passa por esta capacidade de sonhar, isto deve encontrar-se através de um discernimento daquilo que é verdadeiramente vontade de Deus. Não somos empresas que se prendem à viabilidade dos projectos. A força vem de outro lado. O Papa Francisco na Carta Apostólica sobre S. José, para quem devemos olhar sempre mas particularmente neste ano, afirma que ele foi “um homem justo (Mt 1, 19), sempre pronto a cumprir a vontade de Deus manifestada na Sua lei (cf. Lc 2, 22)”.

Procuremos aprender com S. José lendo as passagens da Sagrada Escritura que a ele se referem. Muita coisa parecia-lhe impossível. Deixou de o ser. Outros momentos teve dúvidas sobre o que fazer. Ouvindo o Anjo do Senhor foi caminhando num ritmo de fidelidade que permitiu que Cristo crescesse “em sabedoria e idade” no meio de muitas interrogações e perplexidades.

Os sonhos não poderão ser experiências individuais. Os tempos das pessoas detentoras da verdade e da quase plenitude dos conhecimentos já passaram. Sabemo-lo por experiência pastoral e a pandemia veio sublinhar esta lição. Só juntos conseguiremos encontrar caminhos seguros. Isto por duas razões. Uma mais natural e humana. A complexidade da vida exige uma abrangência de saberes que ninguém domina. Há sempre uma limitação. Somos pequenos. Teremos de ser humildes. Sempre se impõe uma transversalidade a envolver diferentes pessoas. A esta radiografia das nossas capacidades limitadas, teremos de encontrar uma motivação espiritual.

O caminho a percorrer foi indicado por Cristo. Enviou os seus discípulos dois a dois e determinou que tudo teria de ser interpretado com Ele. Assegurou que não nos deixaria ficar sozinhos. Disse para não ter medo pois estaria connosco até ao fim dos tempos. Não foi só na Palavra, na Eucaristia, no irmão. Quis ficar de um modo eminente na comunidade. “Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles.” (Mt 18, 20). Trata-se de uma presença real a experimentar. Porém, não basta juntar-se para somar vontades. Sendo uma presença mística é necessário, antes de tudo, cada um esteja disponível para amar o outro até ao ponto de dar a vida por Ele. Jesus exige que se esteja unido no seu nome e este é o Amor.

A segunda leitura recorda quanto deve nortear o agir das comunidades. “Não olhemos para as coisas visíveis, olhemos para as invisíveis. As visíveis são passageiras, as invisíveis eternas”. O projecto da Igreja não é somente humano. Nada é sem os homens e as mulheres. O sentido último vem de outro lugar.

Com esta premissa, verdadeira experiência espiritual, devemos sonhar juntos o presente e o futuro das comunidades, das associações, da Arquidiocese. O Espírito Santo sopra onde quer, no mais pequeno e naquele que tem a maior autoridade, e deve ser escutado com liberdade de coração e vontade de adesão. A verdadeira reforma da Igreja está condicionada a esta experiência. A isto chamamos sinodalidade, que não se confunde com parlamentarismos ou democracia. As regras são de outra ordem. É isto que o nosso programa pastoral continua a propor. Já tivemos um ano. Não foi aquilo que tínhamos pensado. A pandemia, servindo-se dos meios digitais, nem sempre permitiu esta proximidade de sentir-se dentro do mesmo barco, numa amizade fraterna e profunda, colocando pensamentos e energias ao serviço da comunidade. O discernimento comunitário terá a única metodologia pastoral a encontrar os caminhos mais adequados que não se adquirem pela maioria mas pela vontade comum de um encontro com o que Deus, num momento concreto e perante uma resposta a encontrar. Aqui todos somos imprescindíveis. Não são os cursos que nos permitem impor as nossas ideias nem muito menos a capacidade para grandes intervenções. A vontade de Deus pode surgir tanto numa ideia do sacerdote como pode estar nas palavras inapropriadas de alguma pessoa analfabeta e com muita idade. A sinodalidade não permite clericalismos nem exigências planeadas. Tudo contribui.

Há muito caminho a percorrer. Não podemos contentar-nos com usar muitas vezes a palavra sinodalidade. Todos, sacerdotes e leigos, teremos de nos colocar na sua escola. Por vezes imagino o que seria a vida da família de Nazaré, com Maria, José e Jesus. Quem mandava nessa casa? Quem determinava o que deveria ser realizado. Quero crer que tudo era visto em comum desde a parte económica, aos trabalhos a realizar, às iniciativas familiares a planear. O diálogo, como aceitação do pensar diferente dos outros, era a linguagem quotidiana. Aqui, no santuário do Sameiro, imaginemos um pouco como se construía Igreja naquela casa humilde de Nazaré.

Se queremos colocar-nos na escola da sinodalidade – diocese, paróquias, associações – teremos de descobrir juntos estradas a percorrer. São muitas e variadas. Partem todas do centro das comunidades. Depois entram nos contextos diversificados do quotidiano humano. Tivemos de fazer opções. Não esquecemos que tudo o que é humano interessa à Igreja Arquidiocesana. Sugerimos três caminhos. Aí nos queremos encontrar com os interlocutores e os protagonistas que os percorrem. Temos uma doutrina clara a oferecer. Pretendemos que ela se torne elucidativa e atractiva. Iremos caminhar com as famílias, com os jovens e numa atenção aos problemas sociais. Não há novidade nesta proposta. Queremos atingir metas novas.

Caminharemos com as famílias, a partir de um protagonismo dos casais, para oferecer os conteúdos da Amoris Laetitia. O Papa pediu que dedicássemos a esta Exortação Apostólica o ano em curso. Com as experiências de casais, pretendemos, sempre num trabalho em grupo, mostrar a alegria do amor e que o Evangelho da Família é uma boa notícia para os dias de hoje. A pandemia mostrou a importância das famílias. Nos diferentes momentos dos confinamentos reconhecemos o dom de ter uma família unida ou o suplício de estarmos frente e frente, partilhando as mesmas refeições e os momentos que deveriam ser se descanso e consolação. Todos reconhecem que a família foi verdadeiramente uma âncora. Só que não basta constituí-la. É preciso construí-la. São realidades diferentes. As paróquias devem disponibilizar-se para oferecer subsídios mas terão de ser as famílias a pensar juntos como viver um amor duradouro, estável e proporcionar de verdadeira felicidade. Peço à Senhora do Sameiro que todas as paróquias e movimentos dediquem tempo e dinheiro a esta proposta.

Caminharemos com os jovens. Temos diante de nós o objectivo das Jornadas Mundiais da Juventude. O Papa sugeriu-nos que aceitássemos o desafio de todos os anos, no Dia Mundial da Juventude, no Domingo de Cristo Rei, fazermos uma Jornada Diocesana da Juventude. O que será? Não sei. Terão de ser os jovens a definir os seus contornos e a determinar o seu programa. Nada temos pré-fabricado. A sinodalidade terá de acontecer para mostrar que caminhamos com os jovens numa atitude de quem acompanha, lado a lado, suscitando responsabilidades e esperando que os caminhos sejam sempre propostos pelo Evangelho. Temos uma certeza a mostrar aos jovens: Cristo vive. É isto que lhe queremos oferecer e sabendo que Ele não vai restringir a liberdade ou proibir experiências festivas. Acreditando que Cristo vive sabemos que Ele quer-nos vivos. 

É esta nova vida que importa encontrar através da reflexão, da música, da arte, do contacto com a natureza. Todos os meios são adequados desde a presença afectiva aos circuitos das redes digitais. Durante estes anos de caminhada para as Jornadas Mundiais nenhum jovem a residir nos nossos espaços deveria ficar sem este apelo a descobrir a beleza da vida em Cristo. Maria será a nossa companheira. Ela partiu apressadamente ao encontro da sua prima Isabel. Nós temos pressa em mostrar o que verdadeiramente significa ser cristão esperando que abandonem ideias deturpadas, talvez comunicadas pela catequese. Cristo é muito diferente daquilo que a maior parte imagina. Que os sinos das torres das nossas igrejas e capelas toquem, através de grupos de jovens, para mostrar à juventude que seguir Cristo não só não retira nada quanto oferece o que procuram.

O Evangelho que ouvimos parece vir dizer-nos que Jesus Cristo não considerou os laços familiares. Tudo diferente. Reconhece a família de sangue mas inaugura um novo período na história da humanidade.

Em Cristo todos somos mães e irmãos de Cristo. Quando caminhamos numa amizade social, aberta à Humanidade, experimentamos uma fraternidade universal onde somos irmãos e irmãs. Muitos não querem compreender esta revolução trazida por Cristo onde só valia quem pertencesse a um grupo ou corrente de pensamento. Os outros eram marginalizados ou mesmo perseguidos. Hoje teremos de alargar o coração para colocar lá a Humanidade com os seus problemas de exclusão e marginalização. Não basta afirmar que a Igreja tem de fazer uma opção preferencial pelos pobres. Não bastam as declarações ou factos para eliminar a pobreza. Como cristãos, teremos de nos apaixonar pelos pobres e permitir que o nosso programa de viver intensamente a caridade não fique no olhar. Precisamos de olhar, de ver. Só que teremos de amar com gestos. Discernir juntos quais os gestos para amar hoje a Humanidade é o nosso Programa para o ano que se aproxima. Não bastam as respostas institucionais. O amor é para ser vivido por todos e cada um.

Termino pedindo à Senhora do Sameiro perdão por estar sempre a falar das mesmas coisas. Creio que foram ideias discernidas sinodalmente. Falo para estimular e reconhecer que o caminho percorrido pelas pessoas e comunidades é bonito e maravilhoso. Só que ainda não concretizamos os sonhos de Deus. Que Maria recompense com as suas graças aqueles e aquelas que já se apaixonaram por este modo novo de ser e viver em Igreja. São muitos, sacerdotes e leigos. Dou graças a Deus. Peço, porém, que a caravana aumente e que o protagonismo laical seja mais evidente no meio das famílias, dos jovens e dos pobres.

“Luz terna, suave, no meio da noite, leva-me mais longe… Não tenho aqui morada permanente: leva-me mais longe. Que importa se é tão longe, para mim, a praia onde tenho de chegar, se sobre mim levar, constantemente, poisada a clara luz do teu olhar. Luz terna, suave, no meio da noite, leva-me mais longe…

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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