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24 Jun 2021
Batalha da fraternidade
Homilia nas comemorações da Batalha de S. Mamede
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Sem absoluta certeza da data, recordamos a Batalha de S. Mamede que culmina sendo o primeiro Dia de Portugal.

Os tempos da pandemia, entre muitas outras coisas, mostraram que é imperioso interpretar, também hoje, uma difícil batalha. A sociedade moderna impôs os critérios do individualismo, do consumismo, do comodismo. Verificamos, agora, que a vida centrada em cada um não tem consistência. A insignificância de um invisível vírus mostrou a nossa estrutural debilidade e a mais inequívoca vulnerabilidade. Somos pequenos e nada conseguimos sozinhos. Diante de nós continua a imagem do Papa Francisco, sozinho na Praça de S. Pedro, a recordar, com veemência, que estamos todos, ricos e pobres, políticos e subordinados, na mesma barca. Ou nos salvamos juntos ou todos perecemos.

Todos suspiramos pela normalidade. As restrições não nos agradam. Sabemos, porém, que nada será igual. Importa que nos empenhemos responsavelmente por regressar à normalidade sabendo que o que acontecerá será um novo normal. Uma normalidade nova, diferente, que rompe com costumes e tradições. Não será fácil. Pois há rotinas entranhadas. Há uma batalha a empreender.

Trata-se da Batalha da Fraternidade. O Papa Francisco afirmou na Fratelli Tutti, uma encíclica sobre a fraternidade e a amizade social, que teremos de lutar por uma fraternidade aberta, capaz de reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da proximidade física, em qualquer lugar onde se vive ou nasceu.

Aí nos deixa um sonho que deverá comandar a nossa vida. “É importante sonhar juntos. Sozinho corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constrói sonhos.” Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (8).

Não sei se é atrevimento da minha parte. Quando o Santo Padre propõe a fraternidade como um verdadeiro paradigma social sublinha um caminho a seguir. Tem um horizonte religioso pois os cristãos devem ser os primeiros a mostrar que acreditam num Pai comum que necessariamente apela à fraternidade universal. Mas a fraternidade é um projecto para o mundo, para Portugal, para Guimarães. Sabemos que a sociedade dita moderna nasceu da trilogia da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

A liberdade está em todas as constituições e sistemas jurídicos. É proclamada e exigida. Estará a ser um direito de todos? Sabemos que não. A igualdade também entra nas aspirações de todos e todos os governos asseguram que ela será garantida. Creio, porém que, como nunca, existem desigualdades, verdadeiras exclusões sociais, marginalizações dentro dos cidadãos do mesmo país ou no encerrar fronteiras para que alguns possam saborear a vida. Não há liberdade e igualdade sem fraternidade. Só quando assumimos, teórica e praticamente, que somos todos, sem excluir ninguém, por critérios de qualquer espécie, irmãos, a sociedade será verdadeiramente livre e igual.

A fraternidade tem dois âmbitos a exigir concretizações diferentes. Um é a fraternidade humana que nos apresenta todo e qualquer pessoa como irmã. Há diferenças culturais, religiosas, políticas. Por detrás de cada um está um irmão ou uma irmã. Mas, também, uma fraternidade ambiental. Deus cria os homens e as mulheres, mas também cria a natureza numa variedade infinita de espécies. Ao jeito de S. Francisco são irmãos e irmãs e merecem um cuidado de atenção e preservação que não admite excepções. Cuidar da natureza é descobrir nela um irmão e amar com solicitude e nunca com interesses meramente económicos ou de gostos pessoais. 

É este o convite que deixo nestas celebrações. Participemos na batalha da fraternidade, nesta batalha o campo de S. Mamede não terá apenas alguns metros de largura e comprimento. Ele está em todas as casas, nas escolas, nas fábricas, nas empresas, no mundo da justiça e da saúde, nos programas da política. Não há lugar onde ela não deve ser combatida.

Também não terá algum D. Afonso Henriques a combater com estratégias e valentia. É para todos. Cada um à sua maneira. Não com armas de guerra, de morte, de críticas, juízos, perseguições. Mas de tolerância, aceitação do diferente, capacidade de saber perder, alegria do dar ou dar-se, sentido de entre-ajuda.

Em qualquer batalha os pequenos gestos tem uma importância primordial. Num jogo de futebol basta um pequeno deslize, talvez do melhor jogador que quase nunca comete erros, para que a derrota aconteça. É nas pequenas coisas que a batalha da fraternidade acontece. Não precisamos de terrenos especiais. O quotidiano das relações exige compromissos muito concretos.

A batalha da fraternidade exige heróis. A grande tentação dos tempos que correm é a indiferença e o ser com todos os outros. Precisamos de referências. Urge o testemunho de alguns que não tenham medo. Necessitamos de Gandi, Mandela, Madre Teresa, João Paulo II. Tantos e tantas que poderia elencar. Precisamos de pessoas que sejam sinais, que se tornem profetas corajosos. Isto nas comunidades paroquiais, nas autarquias, nas empresas, nas associações. Poderão parecer heróis anónimos. É por eles que as revoluções acontecem. 

Este dia comemorativo acontece, no calendário litúrgico, na Solenidade de S. João Baptista. Quem foi este homem? Sabemos muito pouco. Apenas que foi um percursor de Cristo, alguém que preparou os caminhos para a vinda de Cristo. Alguém que não se considerava digno de desatar as correias das sandálias. Foi grande pela palavra e morre por causa de se identificar com a causa de um homem a quem tinham roubado a mulher. Incomodou. Defendeu a causa da fraternidade, arriscando a sua vida. Se este dia é considerado o primeiro de Portugal rezemos, em eucaristia, para que a causa da fraternidade seja assimilada como projecto e causa de muitas concretizações a tornar o país um campo onde todos são verdadeiramente irmãos e, como consequência, livre e iguais.

À oração acrescentamos o compromisso pessoal de um trabalho pessoal nesta causa. Queremos uma sociedade diferente na vertente social. Poderemos ter muitas referências. Uma aposta séria na fraternidade, realizada por cada um e, particularmente, pelos políticos, mostrará que é possível um mundo diferente, melhor. Não permitamos que o covid nos vença. Podemos passar-lhe por cima, dando origem a uma sociedade que o vença, assim como a tantos outro enigmas que podem acontecer.

No sábado passado, o Papa Francisco declarou venerável R. Suleman. Foi um “sonhador da paz”, sofreu os horrores da 2ª guerra mundial e acreditou que os países podiam viver como irmãos. Passará à história como um dos pais fundadores da Europa, juntamente com Adenauer e De Gasperi. Acreditaram que também as nações poderiam ser irmãos e criaram o primeiro núcleo da Comunidade Europeia, que evoluiu para o Mercado Comum, Comunidade Económica Europeia e, hoje, União Europeia. É um sonho de uma Europa fraterna onde todos usufruem de uma dignidade e qualidade de vida, como se fossem, de verdade, irmãos.

Não sabemos quantos morreram no campo de S. Mamede. Sei que salvaremos muitas vidas quando nos alistarmos nas fileiras de um exército que, de um modo consciente e responsável, luta e trabalha por um mundo mais fraterno que se empenha numa ecologia integral para salvar a humanidade e a natureza. Portugal, neste dia primeiro da sua existência, nasceu para ser igual e livre. Só o será quando todos formos irmãos e amarmos a terra maravilhosa que Deus criou para embelezar a família humana.


† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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