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Ano Pastoral 2021+2022

"Onde há amor, nascem gestos"

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30 Jul 2021
A casa de Marta, protótipo de uma nova humanidade
Homilia na memória de Sta. Marta.
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A Casa de Marta, Maria e Lázaro era local onde Jesus procurava momentos para descansar. Podemos imaginar não um almoço mas muitos e não só para Jesus mas para todos os apóstolos.

Entre os três irmãos havia uma amizade profunda com Jesus. Aceitaram plenamente a sua mensagem. Basta ver a resposta que Marta dá a Jesus. Identificaram-se com a sua missão, para a qual colaboraram com todos os meios que tinham à sua disposição.

A sua casa era lugar de hospitalidade, acolhimento e serviço. Marta, particularmente, era modelo activo de quem acolhe. Torna-se, por isso, a santa padroeira dos hoteleiros, cozinheiros e nutricionistas. O seu nome em aramaico significa “senhora”, “dona de casa”.

Na lógica destes pensamentos, deveremos interpretar a missão que a Confraria de S. Maria Madalena deve assumir, tornando estes lugares, não só as igrejas, mas todos os espaços, lugares de acolhimento aprazível e de serviço à comunidade. Quem visita estes espaços deveria regressar ao seu ambiente de vida com atitude idêntica à de Sta. Marta. Num mundo de pressas e de concentração nos interesses pessoais, esta mensagem da hospitalidade e serviço reveste-se de uma grande actualidade. No nosso programa pastoral dizemos que queremos uma Igreja a caminhar com todos, servindo todos e cada um com os gestos que o amor sugere. Caminhar “com” é sinónimo de acolher não ficando nas desculpas e de servir para que o mundo se transforme numa verdadeira família de amigos e irmãos. Se este santuário deverá ajudar-nos a sermos mais acolhedores, hospitaleiros e serviçais, tudo deverá servir para esta finalidade: o culto e o património edificado ou natural. Somos detentores de um património que, sem deixar de ser religioso, terá de estar ao serviço da comunidade numa dupla perspectiva: educativa e de fruição. Os tempos actuais, com tantas catástrofes a acontecer dramaticamente no quotidiano do mundo, não nos podem deixar indiferentes. Santa Marta tinha uma casa que oferecia a Jesus e aos seus apóstolos. Nós temos este cantinho que é verdadeiramente parte integrante desta casa Comum constituída pela natureza. Os nossos antepassados legaram-nos um património que não pode ser meramente conservado mas que deve tornar-se lição à comunidade e compromisso a viver. Precisamos, por isso, de dar vida a diferentes iniciativas que ensinem o valor das coisas que possuímos. Não haverá uma ecologia harmoniosa sem uma consciência que motiva comportamentos.

É nesta linha que se explica a adesão das quatro confrarias que integram esta Coroa de Braga à Plataforma para a Ação Laudato si’. Oportunamente serão anunciadas iniciativas a concretizar nestes espaços. Estamos a fazer com que sejam Sacro-montes. Não se trata de juntar montes em zonas de protecção. A partir do sagrado, teremos de mostrar a beleza de um Deus criador que quer que os homens e mulheres aí descansem retemperando energias para o complicado viver.

Iremos assumir uma atitude de promover uma ética de sustentabilidade a partir de determinados princípios que estruturarão projectos e acções concretas a mostrar um autêntico compromisso ecológico. Não basta afirmações ocasionais sem fundamentação doutrinária. Tudo passa se não evidenciar exigências transversais a todos os programas.

Importará sempre proteger o ambiente e promover uma ecologia integral na lógica do pensamento do Papa Francisco que deverá implicar uma sustentabilidade económica, uma sustentabilidade ambiental e uma sustentabilidade social. Como resultado estaremos a testemunhar uma ecologia humana, onde o património e a cultura ocupam um lugar privilegiado e que envolve toda a humanidade na concretização da justiça e da dignidade de todos.

É tudo isto que está em questão. Não há verdadeira ecologia sem um autêntico humanismo e nunca existirá uma verdadeira sustentabilidade, hoje na moda dos programas políticos, sem uma envolvência de todos os homens e do homem todo. Há palavras que entram no léxico das preocupações. Permanecerão como palavras onde se gastam rios de dinheiro mas sem consequências práticas. Geram um pouco de bem-estar. Nós somos convidados a ter outros horizontes e acreditar que a felicidade pode ser mais exigente.

As Confrarias e Irmandades da Coroa de Braga irão procurar assumir estes compromissos, de um modo permanente, mas evolutivo de harmonia com as possibilidades humanas e económicas. Irão trabalhar por uma ecologia integral através de uma revolução espiritual e cultural que tornarão os espaços mais aprazíveis, seguros e reconfortantes, transformando-os em autênticos lugares de contemplação. Assim juntos criaremos um cantinho onde louvar a Deus é, também, crescer de um modo verdadeiramente humano.

As Irmandades e Confrarias tudo farão para que, nesta perspectiva, possam ser usufruídos por todos nunca esquecendo esta aliança entre o sagrado e o profano que os identifica e diferencia de muitos outros montes. 

Ontem foi celebrado o Dia da Conservação da Natureza e terminou na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, uma pré-cimeira sobre os Sistemas Alimentares. O Papa Francisco enviou um texto para a abertura. Aí o Santo Padre refere: “Temos a responsabilidade de realizar o sonho de um mundo onde o pão, a água, os medicamentos e o trabalho fluam em abundância e cheguem primeiro aos mais necessitados”. “Produzimos comida suficiente para todos, mas muitos ficam sem o pão de cada dia. Isto constitui um verdadeiro escândalo, um crime que viola direitos humanos básicos”. Para que haja pão em todas as mesas o Santo Padre propõe um futuro “ambientalmente sustentável”.

Neste dia em que olhamos para a casa acolhedora de Marta, Maria e Lázaro, onde nada faltava para eles e para quem os procurava, pego nas palavras de S. João que nos foram lidas na primeira leitura.

“Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus”. “Quem não ama não conhece Deus porque Deus é amor”. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito”. Precisaremos de mais doutrinas para tornar o cristianismo actual? No Seu amor, Deus criou o mundo que teremos de cuidar e proteger para que o Homem de todos os países e continentes experimente tudo o que é necessário para uma vida feliz e digna. Isto é o verdadeiro fundamento de uma ecologia integral a exigir uma sustentabilidade que só terá resultados práticos se partir desta clara certeza. Pode parecer uma utopia esta Humanidade com tudo para todos. Eu acredito e não me canso de convidar os cristãos das nossas comunidades para caminharmos juntos, com os olhos bem abertos e as mãos solicitas para cuidar samaritanamente de tantas feridas que não deveríamos aceitar. 

Não precisamos de considerações bonitas. Necessitamos de permanentemente extrair lições do tesouro da nossa fé, interpretando-a com gestos a mostrar que verdadeiramente somos amigos de Jesus como Sta. Marta o foi. Daí sai a mensagem de que teremos de ligar a interioridade da proximidade com Cristo, como Maria, com a exterioridade das acções, como Marta, de modo que pelo nosso fazer em prole da Humanidade todos reconheçam um Deus criador, maravilhoso e belo. Se a casa de Marta, Maria e Lázaro foi acolhedora para Jesus e os seus apóstolos tornemos estes lugares verdadeira Casa comum.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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