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13 Out 2021
Cuidar das feridas das comunidades para entrar na caminhada sinodal
Homilia na memória de Alexandrina de Balasar.
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  © DM

No próximo Domingo iremos iniciar, na nossa Catedral, a caminhada sinodal em sintonia com a Igreja Universal. O ano passado já fomos caminhando, descortinando as verdadeiras exigências para que a Igreja se apresente ao mundo com um rosto sinodal. Fizemos muito? Fizemos pouco? A pandemia impedia a concretização de iniciativas. Mas a semente ficou lançada. Queremos ser uma Igreja Sinodal e Samaritana. Não temos outro plano. Vamos prosseguir.

No próximo Domingo entraremos num processo universal. É o Santo Padre quem nos convoca para a oração, reflexão e partilha de Igreja para que a Igreja se desenvolva segundo o projecto que a identifica na tríplice perspectiva de comunhão, participação e missão. Será uma caminhada de todas as Igrejas particulares, do mundo inteiro, em unidade com o Santo Padre, que convocam a todos para que se coloquem na atitude de escuta do Espírito para ouvir o que dirá à Igreja nesta era de mudança.

A Igreja é sempre a mesma. Os tempos solicitam que se apresente ao mundo com sinais que o mundo entenda no sentido de lhe comunicar uma mensagem que é eterna mas tem de ser interpretada de modo que as pessoas entendam.

Sabemos a paixão da Beata Alexandrina pela Igreja. A sua vida foi imolada para que ela fosse manifestação do rosto amoroso da Santíssima Trindade. Convido-vos a que peçamos à Beata Alexandrina por todas as comunidades e pessoas que as compõem se coloquem nesta atitude de querer intervir nesta graça que não podemos desperdiçar. Acredito que vai surgir uma bonita cadeia de pessoas em introspecção e escuta para fornecer o seu pensamento ao Santo Padre, mas também para prosseguirmos os caminhos que estamos a percorrer para que as nossas comunidades paroquiais sejam verdadeiramente sinodais. Na verdade, não se trata de um exercício de meras respostas e questionários vindos de Roma. Rezando, escutando, partilhando ideias estamos a olhar para as nossas comunidades concretas que estão a necessitar de uma renovação que como temos vindo a dizer é inadiável. Com o Papa aterramos nos dinamismos das comunidades e vamos mudar muita coisa. A pandemia parece que nos colocou um pouco à deriva. Há novos horizontes que iremos acolher e apegar e costumes e tradições que deixaremos cair. A sinodalidade é o rosto da Igreja. Pode ela passar toda a sua vida. Vamos esperar o que o sínodo, a acontecer em Roma em 2023, nos vai trazer. Mas não podemos adiar. O Espírito Santo estará em acção nas nossas comunidades e não podemos permitir que muita coisa fique para depois.

Neste sentido, é interessante o tema desta festa à Beata Alexandrina. Dentro do programa geral de Cuidar das feridas do próximo, o dia de hoje deixa-nos o desafio de Alexandrina, cuidadora das feridas. São muitas as feridas que o nosso Programa Pastoral contempla. Olha, sobretudo, para o segundo aspecto que nos fala de cuidar das feridas das comunidades. Rezo, por isso, à Beata Alexandrina que nos ajude a cuidar das feridas das nossas 551 comunidades paroquiais.

O nosso Programa Pastoral é muito concreto. Diz que teremos de “pensar e agir em comunidade” correspondendo a um apelo do Papa Francisco. Só que isso significa “aproximar-se do outro, de não querer viver numa ilha, ignorando a existência, as necessidades e as legítimas expetativas de quem está ao seu lado.” É nas paróquias que nós caminhamos lado a lado, nos confrontamos com a vida e é aí que devemos aceitar de interligar as vidas em comunhão e concórdia. Acontece, porém, que aparecem muitas feridas das divisões que com facilidade destroem o corpo eclesial. Tudo acontece, quase sempre, sem grandes razões. Basta um pouco de amor próprio, de interesses pessoais, de visões subjectivas sobre os assuntos. Pequenos esquemas que nos deveriam envergonhar e que, na verdade, nega uma elementar sinodalidade.

Teremos, por isso, de iniciar a caminhada sinodal, de reconhecer que se impõe uma conversão sinodal. Não vale reunir-se e pensar responder a questões se os corações estão inundados por coisas que não têm razão de ser. Que a Beata Alexandrina nos ajude a graça de purificar os nossos olhares e tranquilizarmos os nossos corações para na concórdia e amor conseguirmos pensar não no que nos convém, mas naquilo que o Espírito sugere e que pode pedir conversão. Mudar corações para aceitar o outro, na sua diferença e originalidade, ter alegria de acolher quanto diz ainda que diferente do meu ponto de vista, é o que à luz do espírito acontecerá. Trata-se de uma verdadeira espiritualidade sinodal, que passa pela alegria e espontaneidade de dar a vida por aquele que estou a ouvir. Não lhe colocar restrições. Deixo falar e comunicar. O Espírito e só Ele saberá unir as diferenças se encontrar corações disponíveis.

Volto ao Programa Pastoral como urgência de cuidarmos das feridas como condição prévia para qualquer caminhada. Olhemos para a concorrência dos grupos ou frações e aceitemos a terapia do apóstolo Paulo que apela à imagem do “corpo”. O Corpo de Cristo que é também o Corpo da Igreja, não pode estar dividido, sob pena de ser disfuncional. Quando seguir Cristo é a meta dos discípulos então – lembra São Paulo – todos somos colaboradores e não adversários. Duas palavras que terão de nos questionar sempre e que infelizmente encontram muitas repercussões nas nossas comunidades.

O Programa Pastoral continua a enumerar as feridas que considera letais para as comunidades. O anonimato, insensibilidade, prioridades trocadas, falta de comunicação e de transparência, projectos falhados, feridas pessoais. Muitas outras poderiam ser elencadas. Sabemos ver e ouvir o que o Espírito sugere.

Se as feridas existem há comportamentos que devem ser assumidos e que este momento deve provocar. Perante tantas tensões e feridas existentes nas nossas comunidades, o perdão e a reconciliação apresentam-se como o caminho necessário e único. É exigente e muitas vezes custosos. Exige um sério exame de consciência, muita humildade e, particularmente, vontade de crescer na fé. Sabemos que o perdão é dom de Deus e que só com Ele ultrapassaremos muitas coisas.

Preparando-nos para o que poderá vir a acontecer a partir do próximo Domingo nas nossas comunidades com grupos a trabalhar o Documento Preparatório do Sínodo, senti que Deus nos acompanhará desde que nos congreguemos no seu amor e que, para isso, teremos de ultrapassar muitas feridas. O Papa Francisco fala de um “hospital de campanha” a acontecer em todas as comunidades para “cuidar as feridas e aquecer os corações dos fiéis”. Este é o ponto de partida. Sem feridas curadas e corações aquecidos corremos o risco de um confronto de ideias onde se expressam visões parciais e pessoais, símbolos de gostos e interpretações e nunca aquela voz que vem do interior e traz a carga da novidade de que a Igreja está à espera.

Poderemos entrar no período de grandes repercussões para a vida da Igreja. Antes de tudo teremos de rezar para que o trabalho não se resuma a recolher opiniões de pessoas ou de grupos. Importa que as paróquias falem por aquilo que são e eu na unidade, perdão, humildade, façam com que muitas pessoas não deixem de partilhar nesta consulta que o Santo Padre pretende que seja inclusiva, onde todos têm oportunidade de referir o que pensam, naturalmente, procurando descortinar o que o Espírito Santo quer dizer.

Rezemos à Beata Alexandrina para que iniciemos este processo de compreensão sinodal através da cura das feridas das nossas comunidades. Acompanhar-nos-à Maria a quem a Beata dedicava um amor particular e iremos conseguir que em todas as paróquias haja pessoas a rezar, reflectir e responder às perguntas do Documento Preparatório. Ninguém poderá caminhar sozinho. Entremos todos no Barco da Igreja e ousemos oferecer o contributo, por pequeno que seja, para uma Igreja verdadeiramente Sinodal. O Santo Padre quer que os simples, os marginais, os que estão fora da Igreja entrem neste jogo de comunhão de ideias. Que a Beta Alexandrina faça chegar este apelo de participação a todos os que ainda se consideram Igreja, sacerdotes convictos, afastados, hostis. O Espírito fala por todos. Não negligenciaremos o contributo de ninguém. 

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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