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3 Abr 2015
A morte nunca vence a vida
Reflexão na celebração da adoração da Cruz, na Sé Catedral, às 15h do dia 03 de Abril de 2015
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Avelino Lima

Por mais gestos de proximidade que possamos promover, ainda assim são muitas as pessoas que, infelizmente, não conseguimos alcançar e que se sentem a mergulhar numa espiral destrutiva. É o caso de muitos marginalizados da sociedade. Umas vezes fruto de circunstâncias adversas, como o desemprego, ou de não terem encontrado apoio humano em momentos fracturantes, como na velhice ou na doença. Outras vezes porque se deixam guiar por impulsos que os conduzem fatalmente ao consumo da droga, álcool e tantas outras dependências.

O abandono e os sintomas de morte denunciam as contradições da nossa sociedade. Fala-se de um país desenvolvido, da excelência da investigação científica, do mundo das comunicações globais e, ainda assim, assistimos, perplexos, a casos de fome, de abandono e a desigualdades sociais. O Papa Francisco, neste aspecto, tem sido a voz dos daqueles que por alguma razão não a possuem e não tem permitido que se esqueçam as pessoas descartadas e colocadas à margem de uma vida autentica. É esta realidade da morte e do abandono que recordamos, com sofreguidão, neste momento da adoração da cruz.

Hoje, na leitura da Paixão, ouvimos Cristo, em condições de extremo abandono, sussurrar “tudo está consumado”. Jesus deu-Se até ao fim e, pela sua morte, “desceu às regiões inferiores da terra” (Ef 4, 9) para que nenhum Homem tivesse de experimentar o sofrimento do inferno. Muitas pessoas parecem que também, como diz o Credo Apostólico, descendit ad inferna, isto é, desceram aos infernos e não encontram saída. Mas nem a morte tem a última palavra, nem podemos baixar os braços diante de qualquer drama humano.

Queremos e trabalhamos para um mundo novo. Pode parecer difícil mas não é impossível. Daí que, nesta hora, queira pensar em todos os agentes da nossa pastoral social e pedir-lhes que reorientem os seus trabalhos de forma a potenciarem uma atitude vocacional em detrimento de outra de tipo laboral. Olho para os profissionais da área social ou da saúde e acredito que, com generosidade e sacrifício, poderão dar sentido a muitas vidas. Olho também para o trabalho dos voluntários que vão ao encontro dos abandonados, dos seus abrigos, dos toxicodependentes, dos desempregados e peço que não tenham medo de se aproximarem destes dramas, que cruzem as suas vidas com a vida destas pessoas. Os voluntários e agentes da pastoral social podem ser, neste sentido, os santos dos tempos modernos. E, para isso, confio-lhes duas obras de misericórdia particularmente importantes neste contexto: 1. Sepultar os mortos; 2. Rezar a Deus por vivos e defuntos.

A obra de misericórdia sepultar os mortos não surge explicitamente no elenco bíblico de Mt 25, 31-46. Apesar disso, a exigência de proporcionar uma sepultura digna é um dado consensual na Sagrada Escritura. Ben Sira 7, 33, por exemplo, diz “não recuses o teu benefício a um morto”. Ou ainda Sir 38, 16 “Sepulta o seu corpo segundo o costume, e não desprezes a sua sepultura”. Um dos episódios mais recentes e comoventes no Novo Testamento é a atitude de José de Arimateia e Nicodemos que se dirigem a Pilatos pedindo o corpo de Jesus para o sepultar e rezar por Ele (cf. Mt 27, 57-66; Jo 19, 38-42).

Enterrar os mortos normalmente não é visto como uma tarefa da comunidade cristã no seu todo. No máximo, o sacerdote preside às exéquias em nome da comunidade. O funeral parece ser mais uma tarefa da família e das instâncias governamentais. Sabemos, todavia, que ainda existem casos a solicitar uma atenção especial. A comunidade cristã deve repensar como vive estes momentos: no acolhimento, no acompanhamento dos familiares e no esmero com que são preparadas as celebrações. Os funerais devem ser momentos onde a fé se faz carne e onde os enlutados encontram conforto na comunidade e na palavra de Deus.

Conscientes das “mortes” existentes na sociedade hodierna, para além do que poderemos fazer para as vencer, nunca podemos esquecer que só a oração consegue ultrapassar muitos impasses humanos. O dever de rezar pelos vivos e pelos mortos deve estar presente nas nossas intenções. Temos de ter tempo para rezar! Rezar como louvor a Deus e como prece pelas nossas intenções e pelas intenções dos outros. Tal como no amor, a oração também é uma obra e um trabalho.

Adoramos, nesta celebração, a cruz de Cristo. Na sua etimologia, interceder é interpor-se entre duas partes para construir uma ponte de unidade. É também esta a posição de Cristo na cruz: interpor-se, interceder, mediar o céu e a terra, Deus e os homens, os vivos e os mortos. Jesus rezou pelos seus discípulos e fez da sua morte a oração derradeira. Agora é a nossa vez de, sozinhos ou em comunidade, rezarmos uns pelos outros. Pode parecer que não podemos fazer nada ou muito pouco por tantas situações de vida desumana mas a oração e a entrega da vida a quem necessita são a nossa grande força.

+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz


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