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4 Abr 2015
Eliminar os sinais da morte
Reflexão na oração da Laudes de Sábado Santo, na Sé Catedral, às 10h, do dia 04 de Abril de 2015.
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Avelino Lima

A liturgia da manhã de Sábado Santo é muito peculiar. Está marcada pela ideia da expectativa de que a morte não vencerá. Durante estes dias, tenho procurado ajudar os cristãos e as comunidades a consciencializarem-se de alguns dramas da sociedade. Muitos olham à sua volta e dizem que estamos num beco sem saída. Apercebemo-nos de muito pessimismo e ouvimos muitos discursos derrotistas, daqueles para quem tudo está mal. Mas também é verdade que as pessoas sensatas apercebem-se de dramas e situações de desespero sem perspectivas de esperança. Quantas lágrimas choradas por causa de derrotas interiores e exteriores. Se há castelos de areia que se desmoronam, também há projectos consistentes – que em tempos recentes resultaram – que se esvaem do dia para a noite. E a comunicação social vai perpetuando e insistindo em assuntos dramáticos e dolorosos, contribuindo, por vezes, para um clima de desalento generalizado, com uma tonalidade demasiado sombria.

Estaremos nós condenados à resignação e a caminhar para um futuro sem esperança? Ouvíamos há breves momentos no livro de Oseias que “Ele nos fará viver de novo”. Aqui está uma afirmação clara de uma fé vivida que nos marca. Esperamos sempre a ressurreição de Cristo e sabemos que o sofrimento de hoje será, no amanhã, a alegria da Ressurreição.

Se o cenário parece catastrófico, importa situar-se no que importa fazer. A Sagrada Escritura, com a pedagogia que lhe é reconhecida, ensina-nos que o anúncio da boa nova do Reino de Deus é possível graças à dedicação de tantos colaboradores ou anunciadores. Todo o cristão deve, por isso, assumir-se como um regenerador da sociedade para colocar Cristo no coração da história humana. Esta é uma exigência que nasce da própria realidade da incarnação. Cristo incarnou, mergulhou nos dramas humanos do luto e da morte, da doença e da fome, e espera-se que todo o cristão seja, de verdade, um alter Christus (outro Cristo). E é-lo quando sai de si e entra nas feridas da humanidade, quando as toca com solicitude e as cura.

Ainda que consciente que se trata de uma tarefa transversal a todos os cristãos, gostaria, esta manhã, de pedir aos movimentos apostólicos que coloquem os seus carismas ao serviço da transformação do mundo. Peço-lhes que acordem da sua sonolência apostólica, que reconheçam o mundo como o local da sua verdadeira acção pastoral e que nunca se contentem com a simples beleza das suas reuniões e encontros. Como forças vivas devem assumir coerentemente a sua espiritualidade e agir em conformidade.

Na sequência das mensagens que proferi nos últimos dias, queria também recomendar duas obras de Misericórdia a todos os movimentos apostólicos: 1. Visitar os presos; 2. Corrigir os que erram.

Visitar os presos, na sua acepção mais profunda, significa fazer-se presente junto de quem vive na prisão. Quem se encontra nessa situação vive, infelizmente, enormes dramas interiores e, porque não o dizer, graves crises espirituais. A Igreja, na sua sabedoria milenar, sempre foi dizendo: condenar o pecado e cuidar do pecador. Nenhum pecador, por mais grave que seja o seu pecado, é um condenado à morte. Nem o deveria ser no sistema judicial e nem é, tão pouco, na justiça divina. Deus pauta-se, em todos os momentos, pelo critério da misericórdia e os movimentos apostólicos deverão ser o seu prolongamento na vida concreta dos reclusos.

Mas, ao mesmo tempo, é necessário ter consciência que existem diversos géneros de morte em consequência de se estar preso a realidades que não oferecem felicidade. O cristão deve ser o libertador dessas cadeias e descobrir por onde andam estas prisões. Talvez estejam bem perto de nós ou, quem sabe, nós mesmo nos tenhamos de reconhecer como presos a coisas, hábitos, rotinas, costumes de que nos devemos desprender. Visitar os presos é, assim, trabalho libertador que, quem sabe, tenhamos de suscitar a partir de nós mesmos.

Corrigir os que erram, a segunda obra de misericórdia que proponho, é um caminho sábio que pode impedir que muitos cheguem a situações de verdadeira morte. Não é fácil. Só uma atitude de grande humildade, no falar e no aceitar um alerta,  permite a vivência desta obra de misericórdia. Corrigir, do latim corrigere, significa literalmente dirigir juntos (cum-regere), ou seja, é o caminho partilhado e relacional, de uma ajuda mútua, para se encontrar a melhor solução e batalhar pela santidade.

Neste caminho de humanização da sociedade, de contínuo aperfeiçoamento, deveríamos agradecer as correcções fraternas e, ao mesmo tempo, exercitar a ajuda fraterna no caminho de uma verdadeira humanização. Um dos patrimónios espirituais da Igreja assenta na chamada “correcção fraterna”, a agradecer e a realizar com a máxima humildade. Para Jesus, a correcção faz parte da Sua preocupação em obedecer à vontade do Pai. “Desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38), disse Jesus.

Numa comunidade cristã, amparar e corrigir um irmão que cai no erro é uma responsabilidade de todos, pois todos são membros de um mesmo corpo (cf. 1 Cor 12, 12). Corrigir é uma arte. Requer discernimento, sensibilidade, para escolher o momento adequado para se falar, e estima pelo interlocutor.

Libertando os presos das suas cadeias e dos seus erros, estamos a colorir o mundo com cores de esperança. Acreditar que a vida humana pode ser diferente numa correcção mútua mostra como o mundo pode ser optimista num realismo que não atemoriza mas responsabiliza. A morte de Jesus exige que acordemos para estes comportamentos. Por isso, examinemos as nossas consciências para que a reconciliação suscite comportamentos diferentes.

+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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