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4 Abr 2015
Páscoa, plenitude da vida
Reflexão na Vigília Pascal, na Sé Catedral, às 21h, do dia 04 de Abril de 2015.
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Avelino Lima

Eis-nos chegados à “Noite das Noites”, a “Mãe de todas as vigílias”, como dizia Sto. Agostinho. É noite porque nos abre à aurora de uma vida renovada e nos encoraja, numa sociedade que procura a vida como água no deserto, a testemunhar a alegria do Cristo vivo. Com a Páscoa abrimos um novo capítulo, neste itinerário do Programa Pastoral, e verificamos que “servir generosamente o mundo”, na vivência das obras de Misericórdia, nos conduz à responsabilidade de testemunhar uma proposta séria e credível do Reino de Deus.

Neste sentido, e com esta finalidade, convido-vos a meditar nalgumas palavras da recente exortação apostólica Evangelii Gaudium. Diz-nos o Papa que “o Espírito Santo infunde a força para anunciar a novidade de Evangelho com ousadia (parresia), em voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo contracorrente” (EG 259). Força, anúncio, novidade do Evangelho, ousadia, voz alta, em todo o tempo e lugar, contracorrente. São palavras fortes que adquirem a sua vitalidade, paradoxalmente, na aparente contradição do sepulcro vazio, isto é, sem Cristo. Mas, Cristo não está lá porque está vivo. Ressuscitou! A Páscoa é a celebração da plenitude da vida.

A Páscoa é a plenitude da vida.  Acho particularmente interessante o costume de entre nós, no Minho, visitar as famílias com o compasso pascal. Crentes e não crentes abrem as suas portas à presença do ressuscitado. Uma vezes por convicção própria, outras por consideração à família. E porque a família é um património imaterial da Humanidade que importa acarinhar, nela quero pensar esta noite e confiar-lhe a tarefa de encerrar o itinerário das Obras de Misericórdia.

Ninguém ignora como as famílias são, hoje, alvo de pressões de vária ordem. Peço, por isso, às famílias cristãs que demonstrem como Cristo ressuscitado é imprescindível num projecto familiar de qualidade. É importante que Cristo “ressuscite” e esteja verdadeiramente presente na fidelidade entre os esposos, no amor fiel, nas alegrias e nas tristezas, que ressuscite entre os pais que acreditam numa educação segundo valores sólidos, que ressuscite na capacidade de evangelizar outras famílias, ressuscite na luta permanente por uma vida digna nas condições de habitação, na alimentação, nos cuidados médicos, no acesso a uma liberdade de ensino, que ressuscite numa oportunidade de trabalho com idênticas condições para homens e mulheres e, particularmente, que ressuscite na alegria da maternidade e da paternidade responsável.

Com esta convicção da urgência de Cristo presente nas famílias, elas devem ir às periferias existenciais e aí mostrarem o valor do sacramento do matrimónio. Parece existir um complexo de inferioridade face a outras modalidades de orientar os compromissos afectos da vida. Alguns, inclusive, querem passar a ideia de que a família é uma “espécie em vias de extinção”. Não condenamos ninguém, mas não aceitamos a disseminação de ideias confusas e equívocas como, por exemplo, aquelas que se referem à teoria do género.

Para propor a família como um suporte sólido da sociedade é necessária uma linguagem esclarecida, eficaz e verdadeira. E são as famílias que, em primeiro lugar, se devem propor à sociedade. O silêncio de várias famílias cristãs, em momentos quentes de debate público sobre questões estruturais, é, por vezes, ensurdecedor. Requer-se, cada vez mais, uma preparação adequada para o debate público e um trabalho sério, fiel ao Evangelho, e organizado a partir das paróquias e das universidades católicas. Onde estão os nossos professores universitários católicos? Não terão nada a dizer?

Se a família deve ser um anúncio corajoso, talvez contracorrente, ela não pode renunciar a tarefa de deixar a sua marca positiva na esfera social. Daí que, nesta noite de vigília pascal, queira propor as duas últimas obras de Misericórdia: 1. Vestir os nus; 2. Perdoar as injúrias.

Quando Adão e Eva fraquejaram e foram infiéis a Deus, diz o livro do Génesis que se esconderam porque estavam nus e sentiram vergonha (cf. Gn 1, 9-13). A nudez é apresentada, neste texto, como o cair da máscara, a percepção de que mentira não resiste à verdade. Quando alguém nos confronta com o nosso erro sentimo-nos nus, indefesos e sem “armas” para reagir. Daí que, vestir os nus, significa amparar a fragilidade, zelar pela vida, dar conforto. São muitas as famílias que necessitam de roupas para cobrir necessidades essenciais. As portas de muitas casas escondem muita coisa.

Por outro lado, uma das virtudes para o equilíbrio familiar está no perdoar as injúrias. Perdoar é dar um significado à ofensa do outro, sem que isso signifique atenuar responsabilidades ou promover injustiças. Perdoar não elimina o mal cometido mas pode, por outro lado, reequacionar a justiça segundo critérios da graça e da misericórdia. Por isso é que perdoar não se confunde com esquecimento. Cristo, por exemplo, disse na cruz “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34) mas as “marcas” da cruz permaneceram para sempre. Quando, porém, Jesus se encontrou com Tomé e este colocou o dedo nas suas mãos e no seu peito de Cristo (cf. Jo 20, 27), acabou por fazer uma das mais belas confissões do Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). O mesmo é dizer que a ferida, quando perdoada e curada, é ocasião para fortalecer o amor. Esposo, esposa, pai, mãe, filho e filha deveriam saber declinar ininterruptamente, e sem nunca se cansar, o verbo “desculpa!”.

Fixar os olhos em Cristo ressuscitado é sentir a alegria da vitória do perdão. É belo pensar que o acto do perdão não só cura aquele que ofende mas também o ofendido. Uma cultura sem uma memória reconciliada degenera para a lei de talião, onde o perdão não tem lugar. Pelo contrário, fixar os olhos em Cristo crucificado é descobrir que ser perdoado e perdoar significa sempre, para uns e para ouros, sentir-se amado sem medida, o que dá muita alegria e felicidade.

Durante a Semana Santa propus-me a falar das Obras de Misericórdia como respostas a males e necessidades hodiernas. Daí que, nesta Páscoa, e esperando que este texto faça parte da gramática da vida dos cristãos, gostaria de terminar com as palavras de S. Gregório de Nazianzo. Viver estas palavras é mostrar que a Páscoa não é uma simples rotina tradicional.

“Por isso, se me julgais digno de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, vistamos a Cristo, recebamos a Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-O à nossa mesa como Simão, não só ungindo-0 com perfumes como Maria, não só dando-Lhe o sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo ouro, incenso e mirra como os Magos; mas, uma vez que o Senhor do Universo prefere a misericórdia ao sacrifício, uma vez que a compaixão tem muito maior valor do que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amen.”

+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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