Arquidiocese

Ano Pastoral 2021+2022

"Onde há amor, nascem gestos"

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4 Abr 2022
A força desarmada da paz
Homilia na Peregrinação Penitencial ao Bom Jesus de Braga, a 3 de Abril.
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Senhor cónego Mário e membros da Mesa e da Confraria do Bom Jesus do Monte!

Senhor Cónego João Paulo e sacerdotes presentes e que neste Santuário prestam serviço pastoral.

Irmãs e Irmãos peregrinos!

1. Um simples risco no chão, transforma pedras em perdão. A sentença de Jesus põe fim ao julgamento popular de uma mulher indefesa, num crime público, e em direto, de que aliás, se desconhece o principal cúmplice. Em vez da justiça que vem da Lei, escrita em tábuas de pedra, Jesus escreve com o dedo no chão, e dita a sentença cordial: «Quem de entre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra» (Jo.8,7). Depois, a sós, com a mulher, Jesus não ignora o pecado, mas vê com amor toda a miséria e toda a sua dor. E por isso, a oferta do perdão, destina-se a abrir-lhe um caminho novo, a oferecer uma nova oportunidade, numa espécie de nova criação: «Nem eu te condeno. Vai e não voltes a pecar» (Jo.8,11). 

«Eis o que diz o Senhor: não torneis a recordar os factos do passado nem penseis nas coisas do passado» (Is.43,18) O perdão não ignora o pecado. Mas muda o pecador. Ao perdoar, Deus transforma-nos por dentro, faz-nos «outros», dá-nos um novo ser, uma outra e nova vida. Nesse sentido, perdoar é recriar. É transformar uma miséria do passado, em experiência enriquecedora do futuro. Por isso, não devemos ficar atados ao mal feito ou recebido. Mas por causa disso, sentirmo-nos mais preparados para aquilo que o futuro nos vier a pedir. «Esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente» (Fil.3,14), dizia o Apóstolo Paulo. «Vai e não voltes a pecar» (Jo.8,11), diz Jesus à mulher adúltera!

 

2. Voltemos ao Evangelho e reparemos em Jesus silencioso e a escrever no chão, que nos deixa aqui uma página tão bela como incómoda, sobre o perdão, que é no fundo, a prática do amor levado ao extremo (Jo.13,1). Jesus contrapõe ao amor duro da Lei a Lei pura do Amor. 

Irmãos e irmãs: Ninguém dá a si próprio o perdão, como a ninguém a si próprio dá a vida. Procuremos então, neste tempo quaresmal, o perdão de Deus, mediante o sacramento da Reconciliação, que a Igreja nos oferece, para recomeçar a nossa vida e torná-la mais limpa, mais leve e mais fresca. 

Deixemo-nos reconciliar por Cristo, para gozar mais intensamente a alegria que Ele nos comunica com a sua Ressurreição. Mediante o sacramento da Reconciliação, o Pai concede-nos em Cristo o Seu perdão e anima-nos a seguir em frente e a viver no seu Amor, que tudo perdoa!

Deixemos que, através do Sacramento da Confissão, Deus ponha uma pedra sobre o nosso passado de pecador, para daí fazer um alicerce para o futuro. É isto o perdão! 

 

4. O Senhor em vez de pedras, quer-nos dar hoje o pão e o perdão de sempre e a paz, mais do que nunca, ansiada! Precisamos todos de pão, de perdão e de paz! Não de pedras, ou mesmo será dizer de bombas destruidoras …! 

A força que nos deve lançar a todos na construção da paz é força “desarmada” do cristianismo, fruto de não ter outro interesse a não ser o da paz. Para os crentes esta força vem do imperativo de não ter inimigos; do sonho de que as espadas se podem transformar em foices, desarmando as mãos e os corações dos homens, ensinando o valor insubstituível e inviolável que representa a vida de cada pessoa. É a mesma força que levou a abolir a pena demorte, considerada «imoral e inútil», e sempre uma “grande derrota da cultura da vida», que deverá levar à abolição da guerra. Possamos dizer com verdade: “Nunca mais a guerra!”

 

5. Constatamos que, desde há algumas décadas, parece que a guerra passou a preocupar menos. Foi aumentando o desinteresse pela causa da paz, pensando que a guerra é sempre dos “outros”. Mas a guerra dos “outros” diz-nos respeito! Quer queiramos quer não, envolve-nos! Não esqueçamos que, preocupando-nos pela paz dos “outros”, acabamos por nos ocuparmos da nossa própria paz.

É preciso apaixonarmo-nos pela paz para sermos pacificadores! É preciso um conhecimento e participação mais ativa nos grandes temas internacionais. A cultura da paz deve tornar-se uma paixão partilhada e um tema relevante na educação das jovens gerações. Tudo isto, porém, pode amadurecer se recomeçarmos a seguir com interesse o mundo mais vasto para lá das fronteiras do nosso próprio país ou do nosso condomínio ou ainda do nosso quintal.

É hora de nos tornarmos pacificadores, visando sempre reconciliar os combatentes e remover as jazidas de ódio e ressentimento. 

Como crentes, ou como homens e mulheres de boa vontade, podemos influenciar a história com a força desarmada da paz. É uma força da qual o nosso tempo tem uma necessidade extrema. Uma força desarmada que nasce e se alimenta da oração e de mil gestos de amor e de partilha.

 

6. Já passou mais de um mês desde o início da invasão da Ucrânia, desde o início desta guerra cruel e insensata que, como todas as guerras, representa uma derrota para todos, para todos nós. 

É preciso repudiar a guerra, lugar de morte onde os pais e as mães enterram os filhos, onde os homens matam os seus irmãos sem sequer os ver, onde os poderosos decidem e os pobres morrem, como recorda insistentemente o Papa Francisco.

Diante do perigo da autodestruição, a humanidade deve compreender que chegou a hora de abolir a guerra, de cancelá-la da história do homem antes que seja ela a cancelar o homem da história. “Nunca mais a guerra!”

Como são proféticas as palavras do Papa Francisco proferidas ontem ao chegar a Malta:

Hoje é tão difícil pensar com a lógica da paz; habituamo-nos a pensar com a lógica da guerra. (…) E é triste ver como o entusiasmo pela paz, surgido depois da II Guerra Mundial, se debilitou nas últimas décadas, bem como o percurso da comunidade internacional, com alguns poderosos que avançam por conta própria à procura de espaços e zonas de influência. E assim não só a paz, mas também muitas questões importantes, como a luta contra a fome e as desigualdades, foram efetivamente canceladas das principais agendas políticas.

Mas a solução para as crises de cada um é ocupar-se das crises de todos, porque os problemas globais requerem soluções globais. Ajudemo-nos a auscultar a sede de paz das pessoas, trabalhemos por colocar as bases dum diálogo cada vez mais alargado, voltemos a reunir-nos em conferências internacionais pela paz, onde seja central o tema do desarmamento, com o olhar fixo nas gerações vindouras! E os enormes fundos que continuam a ser destinados para armamentos sejam aplicados no desenvolvimento, na saúde e na alimentação.

7. Cada de um de nós é chamado a ser artesão de paz, é hora de nos tornamos pacificadores. Trabalhemos seriamente pela paz! Rezemos pela paz sem nunca nos cansarmos e que do amor nasçam muitos gestos de partilha, acolhimento, cuidado e de perdão:

 

1.Deus da Aliança e da Paz, nosso Pai celeste:

deste-nos o Teu Filho único como Irmão: 

n’Ele, o Bom Jesus, fizeste-nos filhos Teus, 

e, por consequência, irmãos uns dos outros.

Ajuda-nos a habitarmos juntos 

e a construirmos esta Casa comum

sobre os sólidos fundamentos da memória agradecida 

e da fraternidade reconhecida e solidária.

 

2.Deus da Aliança e da Paz, 

que nos conheces pelo próprio nome 

e que em Teu Filho e nosso Irmão, o Bom Jesus,

nos reconheces a todos como filhos únicos:

abençoa-nos e vem em nossa ajuda,

com o dom e a virtude da esperança,

que nos dê asas para sonhar e construir a paz,

sobretudo quando os obstáculos 

nos parecem intransponíveis.

 

3.Deus da Aliança e da Paz, 

que em Teu Filho e nosso Irmão, o Bom Jesus,

nos ofereces o amor e o perdão sem condições:

faz-nos artesãos da justiça e da paz, 

percorrendo os caminhos do diálogo,

da confiança mútua, do perdão e da reconciliação,

para que toda a pessoa, que vem a este mundo, 

possa conhecer uma existência de paz 

e desenvolver plenamente a promessa 

de amor e de vida que traz em si.

Amen!

 

+Nuno Almeida

Bispo auxiliar de Braga

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