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18 Jul 2022
Lâmpada ardente e luminosa
Homilia de D. José Cordeiro na Solene declaração da Basílica de Torre de Moncorvo e dedicação do altar.
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  © Pe. Paulo Pimparel

1. Lugar do fogo

A «domus ecclesiae = Casa da Igreja» ou casa de Deus e da comunidade cristã foi sempre um dos principais sinais da santa Igreja, esposa de Cristo, que está presente e peregrina no mundo. A sua beleza e o ornamento, bem como a sua disposição adequada para as celebrações litúrgicas, foram ordenados nas diversas épocas culturais com as oportunas normas.

Entre as igrejas de uma Diocese tem o primeiro lugar e maior dignidade a igreja catedral, na qual é colocada a cátedra, sinal do magistério e da autoridade do Bispo, Pastor dessa Diocese e sinal de comunhão com a cátedra romana de Pedro. Seguem-se as igrejas paroquiais, que são as sedes das diversas comunidades da Diocese. Importantes são também os santuários, locais de peregrinação dos fiéis da Diocese ou de outras igrejas locais.

Damos graças a Deus e reconhecemos com profunda gratidão a todos e a cada um dos que colaboraram ativamente no processo para a concessão dada pelo Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos do título de Basílica Menor à bela e grande igreja matriz da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção de Torre de Moncorvo, Unidade Pastoral de São José, Arciprestado de Moncorvo: a Conferência Episcopal Portuguesa, a Diocese de Bragança-Miranda, a Direção Regional de Cultura do Norte, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.

A dedicação do novo altar e a bênção do ambão e da cátedra é também um motivo acrescido de enorme esperança para esta Basílica, constituindo-se um lugar privilegiado de encontro de fé, da escuta da Palavra, da celebração dos sacramentos e da oração para os fiéis e para quantos nos visitam.

O termo altar é composto por duas palavras: alta que tanto pode derivar do adjetivo latino altus/a/um e que estaria aqui a indicar uma estrutura alta, como pode ser o particípio do verbo alere (alimentar) que aqui indicaria uma estrutura destinada à função de nutrir. A segunda parte da palavra ara deriva do latim arere que significa arder, queimar. O altar seria então o lugar do fogo (Is 6,6; Ap 8,5), que arde e ilumina, onde todos se podem aproximar para se alimentarem da Eucaristia e encontrarem a salvação.

O altar cristão tem a sua origem específica na mesa da última ceia. É nesta mesa que Jesus coloca o seu corpo e sangue nas espécies de pão e vinho, qual realização do sacrifício profético do cordeiro pascal. Por isso, a mesa convivial é também sacrificial. Na mesa do Cenáculo é o próprio Deus que se oferece ao homem.

No início, os altares eram de madeira e móveis. Mas, já no século IV aparecem os altares de pedra e estáveis num lugar. A sua forma é tendencialmente quadrada e assemelham-se a cubos, representando uma cruz grega, isto é, com as hastes iguais, dobrada sobre si própria.

A memória agradecida na ligação íntima à Arquidiocese de Braga, à qual Moncorvo esteve vinculado até 1881, faz-nos evocar o grande São Bartolomeu dos Mártires.

2. O grande evangelizador

São Bartolomeu dos Mártires, inspirado pela figura de João Baptista, que Jesus dizia ser uma «lâmpada ardente e luminosa» (Jo 5, 35), elegeu dois verbos para o seu lema episcopal: “Arder e Iluminar”. 

O “Bracarense”, Padre Conciliar em Trento, encarnou o perfil de Bispo ideal por ele defendido em Trento e escreveu, entre tantas obras um livro, sob o desafiante título Stimulus Pastorum, que se tornou obra referencial até hoje. É um programa que abre à coragem da Esperança e sublinha no coração do Bispo: a caridade, a sabedora, a retidão e a justiça.

O Bispo torna-se “pai”, exatamente porque é plenamente “filho” da Igreja na confiança, qual dom de Deus. Confiança, com efeito, é o nome infinitamente nobre que o amor assume neste mundo, quando a fé e a esperança se unem para permitir-lhe de nascer. 

Quando o Santo Arcebispo foi confrontado em Trento e em outros lugares e circunstâncias acerca da sua autoridade bracarense de Arcebispo primaz respondia com fé humilde: «... porque a virtude da humildade não exclui o que pertence à autoridade da dignidade».

A caridade e o zelo do Bispo fazem dele um servidor da ternura e da misericórdia: «há feridas, cuja cura se não consegue lancetando-as, mas curam-se untando-as com bálsamo de azeite». O Santo Arcebispo não só ajudava os pobres, mas amava os pobres: «recordando-se do que o Salvador disse: “o que fizerdes a qualquer destes pequenos meus irmãos, é a mim que o fazeis” (Mt 25, 40), por isso não olhava aos pobres como pobres, mas à pessoa de Cristo, a quem representavam, e assim nunca se importunava com eles, como muitos fazem». Para ele, há uma regra decisiva: primeiro a prática e só depois a teoria.

A partir do dom e da santidade de Bartolomeu dos Mártires, «um grande evangelizador e pastor do seu povo» (Papa Francisco), somos interpelados à evangelização na sinodalidade.

3. Peregrinos da Esperança

No evangelho escutámos que «Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando e Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades». O ardor e a compaixão de Jesus, o nosso único, belo e Bom Pastor, impeliram a São Bartolomeu dos Mártires na Visita pastoral e continuam a desafiar-nos a nós hoje.

A evangelização só é possível quando se conhece aquele(s) a que se dirige. Gostaria aqui de citar o diário de Etty Hillesum, aquela jovem judia de Amesterdão que se ofereceu para o campo de concentração de Auschwitz: «não chega só pregar sobre ti, meu Deus, dar-te a conhecer aos outros, desenterrar-te dos corações dos outros. É preciso abrir nos outros o caminho que conduz a ti, meu Deus, e para isso é necessário ser um grande conhecedor da índole humana» (Diário, 289).

Numa carta que escreveu ao Vigário Episcopal de Moncorvo, a 12 de fevereiro de 1562, São Bartolomeu advertia: «E a verdade é que os homens que regem o mundo mais se perdem e desacreditam por palavras ásperas, que por justiças rigorosas. E sempre ouvi dizer a prudentes Prelados: «mãos longas e línguas curtas», porque são os homens tão delicados que mais sofrem demasia nas penitências que nas palavras: O caluniador não tenha assento sobre a terra, caia no infortúnio o homem violento (Sl 139,12); Não terá sobre a terra – dizia David – o homem de má-língua. Peço-lhe mui muito, pela honra de Deus e pela sua, que traga perpétua guerra consigo em reprimir ímpetos coléricos, e se determine nunca castigar ninguém com palavras sem primeiro as ter mastigado e contadas por peso e medida, nem creia sempre a seus serviços e zelos, porque muitas vezes lhe parecerá que tudo é zelo de Deus, e, na verdade, uma só faísca será disso, e tudo o mais será acendimento de cólera natural».

As palavras de Jesus que escutamos no evangelho: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos» (Mt 9, 38) continuam a desafiar-nos. Na proximidade e no dinamismo da JMJ-Lisboa 2023, São Bartolomeu dos Mártires, um dos padroeiros da JMJ, interceda par uma atualizada evangelização.

† José Cordeiro, Arcebispo Primaz

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