Arquidiocese de Braga -
2 janeiro 2026
Arcebispo de Braga entende que só com condições dignas se pode alcançar a plenitude da paz
DM - Francisco de Assis
O Arcebispo Metropolita de Braga presidiu ontem, na Sé Catedral de Braga, à festa da Solenidade da Virgem Santa Maria Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz. Na homilia da eucaristia solene, D. José Cordeiro partilhou com os fiéis presentes que só com condições para uma vida digna se pode alcançar a plenitude da paz. Até porque, só eliminando as injustiças da nossa sociedade se pode promover a verdadeira paz.
A eucaristia foi celebrada por D. José Cordeiro; e concelebrada por pelos cónegos José Paulo Abreu, Deão da Sé de Braga, Mário Martins e Eduardo Duque, bem como pelo padre Miguel Neto.
Ao dirigir-se aos fiéis presentes na Sé Primaz, D. José Cordeiro recordou que a Igreja ainda vive e celebra dia de Natal, neste caso a oitava. «Igreja, na sua milenar sabedoria, coloca à nossa meditação o mistério do Natal, ajudando-nos, com a liturgia da Palavra de hoje [ontem], a aprofundar um pouco mais esse mesmo mistério. A partir da primeira leitura, retirada do Livro dos Números, percebemos que o nascimento do Messias inaugura uma nova era de bênçãos para o povo de Deus: habitando no meio da humanidade e com a humanidade, Deus volta para nós a sua face, fazendo brilhar sobre nós a luz que nos abençoa e protege».
E o Arcebispo Metropolita de Braga acrescentou: «tal como Paulo anunciou aos Gálatas, a obra redentora de Cristo, que nos seus gestos e palavras veio anunciar que Deus nos olha como um Pai e nos resgatou da escravidão do pecado, marca a plenitude dos tempos e é nessa plenitude da graça que todos nós somos chamados a viver, tal como Maria, a mãe de Deus, que também hoje celebramos».
Eliminar as injustiças sociais é outra forma de promover a paz
Na sua homilia, o Arcebispo de Braga frisou que há muitos fatores que nos podem impedir de viver a plenitude da paz, e a incapacidade de ter as condições mínimas para viver de forma digna é uma delas.
E D. José Cordeiro apresentou alguns dados sobre a situação de social em Braga. Referiu que, em Braga, cidade e concelho, no ano que ontem terminou, aumentou o número de pessoas sem-abrigo.
Salientou que os dados mostram que em dezembro de 2025 viviam em situação de sem-abrigo 242 pessoas: 182 pessoas sem casa, acolhidas em locais de alojamento temporário, e 60 pessoas sem teto. «Este grande aumento em relação a 2024 explica-se, principalmente, pela escassez de casas disponíveis face à procura. Braga tem aumentado a sua população com os recentes fluxos migratórios, sendo, além disso, uma cidade muito procurada por turistas e por estudantes».
Criação de Albergue e Centro de Dia Ocupacional são soluções de emergência
O Arcebispo Primaz fez saber que o Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo de Braga identificou como prioritária a criação de um Albergue, enquanto resposta de alojamento temporário e de emergência, e a implementação de um Centro de Dia/Ocupacional, que permita um acompanhamento ajustado às necessidades individuais, promovendo atividades ocupacionais, desenvolvimento de competências pessoais e sociais, bem como o acesso a apoio social, higiene pessoal, alimentação, orientação e encaminhamento para respostas de saúde, emprego e habitação.
D. José Cordeiro garante que a Arquidiocese de Braga está totalmente disponível para, junto com as autoridades e serviços sociais para ajudar a encontrar soluções para uma vida digna. Citando o Evangelho de São Mateus, o prelado bracarense lembrou que são «bem-aventurados os que promovem a paz.
«E não podemos ficar apenas por pedir o fim da guerra. Para colaborarmos na promoção da verdadeira paz temos de trabalhar em conjunto para ir eliminando as injustiças da nossa sociedade, que contribuem para a falta de paz: a riqueza mal distribuída, com tanto nas mãos de tão poucos; as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde; as dificuldades em alugar uma casa; a falta de acolhimento aos migrantes; entre outras», elencou.
E para reforçar a sua “catequese”, D. José citou a mensagem do Papa para este LIX Dia Mundial da Paz que se celebrou ontem: «Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho», frisou.
Para o Arcebispo Metropolita de Braga, «a paz é a presença de Cristo em nós, e é um caminho que o próprio Cristo nos indica: os gestos concretos de bondade que cada um de nós põe em prática no dia-a-dia são os que constroem a paz que desarma», afirmou, antes de regressar à menagem do Santo Padre para o dia ontem.
«A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém.
E desafiou os presentes a questionarem: «o que eu posso fazer para a paz?» e não normalizar a ideia de que não se pode fazer nada.
«O caminho do discipulado não é isento de dificuldades»
No dia que a Igreja Católica celebra a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, o Arcebispo de Braga recordou que o caminho do discipulado não é isento de dificuldades. Pelo contrário. E deu como exemplos Maria e José, os pais de Jesus.
«Ela, que “conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração”, mostra-nos o caminho do discípulo: abrir-se constantemente à graça para em cada momento saber dizer “faça-se”».
E acrescentou: «O caminho do discipulado não é isento de dificuldades. Por vezes romantizamos o Natal, mas Maria e José passaram por muitas provações e dificuldades ao aceitarem a missão que lhes foi confiada. A fé, a esperança e o amor desta mulher e deste homem foram, porém, mais fortes que todas as dificuldades; confiando em Deus conseguiram ultrapassar todos os obstáculos, trazendo ao mundo o Salvador. Também nós podemos ser discípulos fiéis, como Maria e José».
O responsável máximo da Igreja Católica de Braga regressou ao dia 1 de janeiro, que se comemora igualmente o Dia Mundial da Paz. Para recordar que, na noite de Natal, no anúncio aos pastores, a multidão celeste cantou “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados”.
A paz vai muito além da ausência de guerra
«A tradição profética também chama ao Messias o Príncipe da Paz. O Messias ressuscitado dirá aos seus discípulos: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Podemos, por isso, afirmar que na Sagrada Escritura a palavra paz é um dos fortes referenciais, o qual não podemos ignorar. Assim, não é de estranhar que o nascimento do Messias seja associado ao dom da paz, porque a paz é exatamente isso: um dom divino que vai muito além da ausência de guerra. Basta pensarmos que muitas pessoas vivem em países que não estão em guerra, como o nosso, mas não conseguem viver a verdadeira paz, porque a verdadeira paz implica a harmonia de todas as vertentes da condição humana – física, psicológica e espiritual – e implica, sobretudo, a reconciliação com Deus através de Jesus Cristo».
Antes de concluir a sua homilia, o Arcebispo Metropolita de Braga leu uma citação de M. Gandhi que dizia: «Não há caminho para a paz. A paz é o caminho», afirmou, para deixar mais um apelo, em jeito de oração. «Não desistamos, por isso, de promover a paz, e que Maria, Mãe de Deus, nos guarde e confie ao Príncipe da Paz».
Cumprindo o belo gesto cristão, à semelhança do Dia do Natal, no final da eucaristia foi dado o Menino Jesus a beijar, iniciativa a que quase todos responderam, num sinal de comunhão para com o nascimento do Salvador.
A Eucaristia foi solenizada pelo Coro da Sé Catedral de Braga.
D. José Cordeiro desejou um Bom Ano de 2026 a todos os presentes, estendo os votos a todo o povo da «amada» Arquidiocese de Braga.
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