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DACS | 21 Dez 2017
2017 de malas feitas
Este foi o segundo ano mais viajado do Papa Francisco depois de 2014. Diminuíram as viagens internacionais, mas não o ritmo.
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Assim como 2016 foi apontado por muitos observadores como um ano de surpresas — com a eleição de Donald Trump, a decisão do Reino Unido abandonar a União Europeia e um referendo colombiano que recusou um acordo de paz —, 2017 pode ser visto como um ano de viragem, cheio de eventos e decisões que continuam a ter consequências num futuro próximo.

No caso do Papa Francisco, que é muitas vezes apontado como um jogador de xadrez com algumas jogadas de avanço, 2017 não foi “apenas mais um ano”.

Escolher as melhores notícias papais nos últimos doze meses não é uma tarefa fácil, mas é possível, pelo menos, identificar três grandes áreas nas quais Francisco esteve especialmente activo:

 

Relações e viagens internacionais

Reforma da Igreja

A procura da paz mundial

 

Embora tenha dado poucos sinais de abrandar o ritmo, Francisco cortou nas viagens internacionais, talvez por saber que a preparação de cada uma não constitui tarefa fácil. No ano anterior viajou para fora de Itália seis vezes: Cuba e México; Grécia; Arménia; Polónia; Geórgia e Azerbaijão, e Suécia. Em 2017 deixou o país quatro vezes rumo ao Egipto, Portugal, Colômbia, e Myanmar e Bangladesh.

Em três destes casos, o Papa teve que medir as suas palavras e actos com muito cuidado, sabendo que falar demais — ou muito pouco — poderia desencadear alguma violência contra cristãos num país maioritariamente muçulmano, como no caso do Egipto, levar a um fraco acordo de paz que poria fim a uma guerra civil de décadas na Colômbia, ou piorar ainda mais a situação de uma minoria muçulmana perseguida em Myanmar.


Egipto

A viagem ao Egipto aconteceu no último fim-de-semana de Abril e foi anunciada pela primeira vez em Março. Quando Francisco comemorava a Missa do Domingo de Ramos na Praça de São Pedro, um atentado terrorista mais uma vez lançou uma sombra sobre a Semana Santa, desta vez com uma explosão em duas igrejas cristãs coptas no Egipto que matou pelo menos quarenta e cinco pessoas e deixou mais de cem feridas.

Embora o Papa tenha estado no Egipto apenas pouco mais de 24 horas, a breve viagem ao sexto maior país muçulmano do mundo (e o maior do Médio Oriente) era perigosa na época e hoje é considerada uma das mais arriscadas do papado.

No entanto, Francisco terminou a viagem ileso e em grande. No primeiro dia, entregou a sua versão do famoso discurso de Regensburg do Papa Bento XVI (“Fé, razão e universidade: Recordações e reflexões”), fazendo um claro e poderoso apelo aos líderes religiosos — o que, no contexto egípcio, significa inequivocamente sobretudo ao Islão — para rejeitarem a violência em nome de Deus.

“Digamos, mais uma vez, um firme e claro «não»! A todas as formas de violência, vingança e ódio realizadas em nome da religião ou em nome de Deus. (…) Juntos, afirmemos a incompatibilidade da violência e fé, crença e ódio”, pediu.

No país do Médio Oriente com a maior população cristã, o Papa também transmitiu coragem aos cristãos perseguidos no Egipto, que representam entre 10 a 20% da população nacional.

 

 

Fátima

A viagem de Francisco a Fátima, em Portugal, a única com data já anunciada quando 2016 chegou ao fim, foi uma “brincadeira de crianças” em comparação à anterior. Teve lugar duas semanas depois do Egipto, a 12 e 13 de Maio, e o Papa evitou qualquer elemento político ao dirigir-se directamente a Fátima para venerar a Virgem Maria.

No entanto, apesar do tom predominantemente espiritual da viagem, esta dificilmente foi irrelevante.

As aparições de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos em 1917 continuam a ser das mais admiradas e controversas aparições marianas atestadas pela Igreja Católica. Os avisos que a Virgem fez às três crianças incluíram o Inferno, as duas Guerras Mundiais e a tentativa de assassínio do Papa João Paulo II em 1981, que aconteceu no dia da festa de Nossa Senhora de Fátima.

Sem papas na língua no que toca a desafiar o seu próprio rebanho, durante a homilia da canonização de Jacinta e Francisco, o Papa advertiu as centenas de milhares de pessoas presentes sobre o Inferno: “Mas Ela, antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno onde leva a vida – tantas vezes proposta e imposta – sem-Deus e profanando Deus nas suas criaturas, veio lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita e cobre, pois, como ouvíamos na Primeira Leitura, «o filho foi levado para junto de Deus» (Ap 12, 5)”.

 



Colômbia

O Papa tinha falado de uma viagem até à Colômbia praticamente desde o início do pontificado. Defendendo uma promessa feita várias vezes, a partir do momento em que o acordo de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e o FARC foi celebrado e a poeira assentou, Francisco adiantou que a viagem ia mesmo acontecer.

Um dos maiores receios sobre esta viagem de 6 a 11 de Setembro era que não fosse nada mais do que uma “volta da vitória” para o governo e o respectivo controverso acordo de paz com os rebeldes marxistas do país, deixando assim divisões mais profundas ao invés de uma reconciliação.

No fim de contas, no entanto, se a viagem foi uma vitória para alguém, não foi para Santos, mas sim para o povo colombiano.

O Papa visitou quatro cidades em cinco dias, onde milhões de pessoas participaram nas Missas que comemorou em Bogotá, Villavicencio e Medellín, já para não falar do meio milhão presente em Cartagena, que representou praticamente metade da população da cidade.

Bogotá, uma cidade que assiste a 3,4 mortes violentas por dia,
não viu nenhuma acontecer durante as primeiras 48 horas da visita.
O mesmo aconteceu com as outras cidades que o Papa visitou.
Os meios de comunicação locais descreveram
estes factos como um milagre.

Francisco pediu aos jovens para serem professores do perdão. Lembrou que “o ódio leva ao ódio, a morte até à morte”, pediu para a vida humana ser protegida em todas as fases, denunciou o machismo latino-americano e lembrou os católicos da Colômbia, que representam mais de 70% da população, que seguir Jesus é muito mais exigente do que seguir um conjunto de regras e estar paralisado por uma rigorosa interpretação da lei.

Mas, acima de tudo, os cinco dias foram uma prova tangível de que, apesar da divisão política que os acordos de paz geraram, a Colômbia é um país capaz de paz.

Bogotá, uma cidade que assiste a 3,4 mortes violentas por dia, não viu nenhuma acontecer durante as primeiras 48 horas da visita e o mesmo aconteceu com as outras cidades que o Papa visitou. Os meios de comunicação locais descreveram estes factos como um milagre.

Um outro fruto imediato da viagem o célebre líder rebelde Rodrigo Londoño, comandante das FARC e anteriormente conhecido pelo apelido “Timochenko”, ter enviado uma carta ao Pontífice enquanto ainda estava na Colômbia. “As suas repetidas mensagens sobre a misericórdia infinita de Deus levam-me a implorar o seu perdão por quaisquer lágrimas ou dor que tenhamos causado ao povo da Colômbia”, escreveu.


Myanmar e Bangladesh

Quando os Pontífices viajam, geralmente querem levar uma mensagem de justiça, dignidade e paz, ao mesmo tempo que fortalecem as relações com os governos anfitriões. Nesse sentido, a última viagem internacional de Francisco em 2017 foi uma espécie de campo minado.

A decisão de ir a Myanmar e ao Bangladesh foi de última hora e derivou do facto de a viagem original, à Índia, não poder acontecer. De acordo com o próprio Pontífice, a “papelada” demorava muito. No regresso a Roma, o Papa disse aos jornalistas ter a esperança de que uma visita à Índia possa decorrer num futuro próximo.

Grande parte da cobertura de 27 de Novembro a 2 de Dezembro foi reduzida ao dicionário: iria ou não o Papa usar a palavra “Rohingya” para se referir a uma minoria muçulmana perseguida actualmente em Myanmar? Cerca de 625 mil pessoas fugiram em direcção ao Bangladesh desde o final de Agosto e as Nações Unidas acusaram o governo birmanês de estar a perpetrar uma limpeza étnica.

O Papa foi aconselhado pelos bispos locais a evitar o termo “Rohingya”, já que temiam que as consequências espoletassem protestos violentos nas ruas. Myanmar não reconhece os “Rohingya” como cidadãos, apesar de eles viverem lá há gerações.

Francisco evitou a palavra até ao dia 1 de Dezembro, quando conheceu dezasseis refugiados “Rohingya” no Bangladesh, durante uma reunião inter-religiosa. Depois de cumprimentar cada um deles pessoalmente, emitiu uma observação improvisada que incluiu um pedido de desculpas pela “indiferença” do mundo perante o seu sofrimento.

Além dos seus apelos directos e indirectos a favor dessas e de outras minorias perseguidas em Myanmar, incluindo os cristãos, que representam 6% da população total, Francisco também demonstrou a sua estratégia inter-religiosa, que gira em torno do combate à violência religiosa.

Na lista de viagens que nunca existiram, o Sudão do Sul e o Congo estão no topo da pirâmide. Apesar das intenções do Papa, as crises devastadoras dos países tornaram-nas impossíveis. Francisco, no entanto, presidiu a um momento de oração na Basílica de São Pedro pela paz nas duas nações africanas rasgadas pelo conflito.

 

 

Artigo original de Inés San Martín, publicado em Crux.

Tradução e adaptação de DACS.

Todas as fotos: DR

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