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Ano Pastoral 2020+2021

"Uma Igreja sinodal e samaritana"

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19 Mar 2021
Com S. José, iniciemos um novo protagonismo na vida familiar
Homilia na Solenidade de S. José, esposo de Maria
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Estamos a celebrar a Solenidade de S. José. Todos os anos se reveste de um significado especial. Este ano temos um motivo particular para celebrarmos de um modo ainda mais festivo. O Papa Francisco instituiu, com a Carta Apostólica “Patris corde” – Com coração de Pai –, um ano comemorativo dos 150 anos da declaração, pelo Papa Beato Pio IX, de S. José como Padroeiro da Igreja Católica.

O Papa Francisco diz-nos que ele é, para todos e cada um, um intercessor a quem podemos confiar as preocupações, um amparo nos momentos de perplexidade e um guia a orientar o caminho da nossa vida. Ele é guia e modelo em muitos aspectos, mas um sobressai. É o homem que passa despercebido, o homem de uma presença quotidiana discreta e escondida, ainda que com um protagonismo sem paralelo na história da salvação. Esta é grande lição que devemos tirar. Pensamos que a História é construída por alguns mais dotados e com capacidade para elaborar bons discursos. Na Igreja somos todos convidados a ser parte activa e interventiva através de uma vida comum e simples, com as qualidades que temos. Ninguém está dispensado. Importa que o façamos ao jeito de S. José, talvez com alguns sacrifícios ao serviço do Reino. Poderemos pensar que temos pouco. Este pouco é imprescindível. Que S. José nos permita viver sempre a alegria de uma missão que se não for realizada por cada um não o será por mais ninguém.

Este trabalho terá de acontecer perante o projecto de salvação da Humanidade a realizar através da Igreja nestes tempos conturbados. Não esqueçamos que queremos ser uma Igreja sinodal onde caminhamos juntos, como experiência de comunhão fraterna, e onde vamos contribuindo com o nosso trabalho e a oferta dos nossos pensamentos para encontrar os melhores caminhos para evangelizar. Que S. José nos faça compreender que a Arquidiocese não é de alguns. Nela todos estão implicados. O seu trabalho pode ser discreto e escondido, longe dos reconhecimentos mas sempre semeando corresponsabilidade e infundindo esperança com toda a paciência e dedicação que o amor à Igreja pode sugerir. Rezarei para que esta paixão pela Igreja vá acontecendo naquele trabalho de renovação que temos sempre como programa. A Igreja pode ser diferente? Não só é possível quanto necessário e urgente.

Este trabalho de S. José para a história da salvação acontece a partir da família de Nazaré. Hoje celebramos o Dia do Pai e, agradecendo a todos aqueles que o têm sido em coerência e responsabilidade, deixo também o alerta que o Papa Francisco faz na mesma carta apostólica. Muitas vezes os filhos parecem ser órfãos de pais. Importa um compromisso sério para que a paternidade se vá completando e realizando quotidianamente, introduzindo os filhos na experiência da vida, com tudo o que isto implica, nomeadamente na formação cristã e na inserção na vida da Igreja. Os filhos devem ser capazes de fazer escolhas conscientes e nunca de mera mimetização ou cópia daquilo que a mentalidade corrente vai impondo ou propondo. Ser pai é tarefa para todos os dias e nunca está cabalmente realizada. Que o dia de hoje sirva também para um exame de consciência sobre o modo como os pais estão a exercer a sua paternidade. Gratidão e responsabilidade.

Com S. José entramos na necessidade de um novo protaganismo na construção de famílias com um projecto e sentido de vida. O Santo Padre quer que hoje se inicie um ano dedicado à família, a partir da reflexão e vivência da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, publicada há cinco anos. Começa hoje e terminará no dia 26 de Junho de 2022 por ocasião do Encontro Mundial das Famílias em Roma. Com esta iniciativa, pretende-se chegar a todas as famílias, por meio de várias propostas de carácter espiritual, pastoral e cultural, que devem ser realizadas nas paróquias, dioceses, nos movimentos apostólicos e em todas as associações familiares. 

A carta apostólica deverá ser dissecada e interiorizada, acolhendo toda a sua riqueza e tremenda actualidade. Sabemos que a família necessita de ser pensada e rezada para que não perca o encanto que a caracteriza. O projeto familiar não consiste em juntar pessoas que dizem amar-se hoje e que amanhã perante uma pequena contrariedade entram em ruptura com todas as consequências. O que é belo exige muito trabalho e sentido de entrega. A exortação apostólica foi quase que só interpretada como abertura da Igreja às pessoas que sofreram um fracasso matrimonial. São muitas as feridas e a Igreja tem o dever de acompanhar quem sofre. 

Importa entrar na Exortação na sua globalidade e mergulhar no essencial do sacramento do matrimónio, vendo-o como dádiva oblativa de quem se entrega desinteressadamente e com espírito de sacrifício pelo bem que se pretende alcançar, consciente das dificuldades que o amor acarreta mas sempre marcado por uma beleza capaz de ultrapassar todas as dificuldades. Trata-se de um amor quotidiano manifestado nas pequenas coisas e sempre pronto a perdoar e a recomeçar, de um amor concreto, permanente, a crescer constantemente, apaixonado, não só no sentido de paixão ou emoção mas como consistente e sólido. 

As diferentes iniciativas a realizar deveriam ser capazes de mostrar que o amor que se vive nas famílias é uma boa notícia para o mundo de hoje. Para alguns, ela pode parecer ultrapassada ou apenas um meio para viver em sociedade. Ela é muito mais. Nascemos para viver numa complementariedade de vidas e a felicidade constrói-se numa aventura de vidas que se unem por laços de sangue a que só o amor vivido dá verdadeiro significado. O sangue é um elemento constitutivo. Só o amor permite que ele una verdadeiramente para a vida toda e para toda a vida.

Nesta igreja catedral, dedicada a Sta. Maria de Barga, mãe do Salvador, na solenidade de S. José, Pai de Jesus, convoco a Igreja arquidiocesana para um ano de envolvimento total com a causa da família. Nos passos de S. José, espero um protagonismo responsável, com maior visibilidade da parte de alguns mas silencioso e empenhado da parte de todos, acolhendo este momento como uma graça para revitabilizarmos a nossa pastoral familiar.

Coloco nas mãos das famílias – pais, filhos, avós, netos - a Exortação Apostólica Amoris laetitia. Rezo para que peguem nela, a reflitam, a assumam em compromissos de renovação de vida. Diante de si devem colocar o projecto de uma Igreja doméstica na certeza de que continuarão a experimentar problemas e dificuldades, mas que o amor tudo transformará para uma experiência bela e feliz de viver em família. Será uma utopia esperar que famílias concretas, nos quatro cantos da Arquidiocese, trabalhem quotidianamente para vivenciar dentro das suas portas o que aconteceu nos primórdios do cristianismo, tornando-se autênticas igrejas domésticas? Eu acredito. Já vejo florescer este sonho em muitos lugares. 

Aos grupos de jovens, em caminhada para as Jornadas Mundiais da Juventude, solicito que não deixem de ir buscar à mesma exortação princípios e orientações formativos para que se preparem para uma experiência de vida familiar mas também para que dêem o seu contributo positivo às suas famílias, de modo a que cresçam dentro da novidade que a alegria do amor propõe. Gostaria, também, de ver os namorados e noivos a fazerem a sua preparação para a vida matrimonial servindo-se deste manancial a ser dialogado serenamente nos encontros de conhecimento mútuo e de elaboração de sonhos que vão tendo entre si. Namorar não é passar tempo. Supõe discernir juntos os pilares de uma vida matrimonial.

Às comunidades paroquiais e movimentos, no meio de tantas outras propostas de acção pastoral, agradeço que encontrem modos e maneiras para uma reestruturação de uma equipa de pastoral familiar. Também nos arciprestados deve acontecer um trabalho devidamente programado por uma equipa arciprestal para testemunhar a sinodalidade da Igreja. São propósitos velhos que devem ter uma concretização corajosa durante este período.

Ao Departamento para a Pastoral Familiar, agradeço todo o trabalho realizado e peço que continuem acreditando que este ano pode ser uma graça. Há iniciativas a organizar e a propor. Importa ir semeando muito para ir colhendo aquilo que Deus permitirá para nossa alegria.

Não posso, ainda, deixar de dirigir uma palavra aos sacerdotes e aos seminaristas. Acredito que a pastoral familiar terá de ser conduzida pelas famílias. Se os sacerdotes não colocarem o seu entusiasmo e a sua fé nesta causa, os resultados serão muito escassos. Importa acreditar que o futuro da Igreja e da sociedade passa pela família. Ela é a sua célula base. Dediquemos-lhe tempo e atenção.

Quero terminar com a conclusão que o Papa Francisco coloca na Amoris Laetitia. “Nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. Há um apelo constante que provêm da comunhão plena da Trindade, da união estupenda entre Cristo e a sua Igreja, daquela comunidade tão bela que é a família de Nazaré e da fraternidade sem mácula que existe entre os santos no céu. Mas contemplar a plenitude que ainda não alcançamos  permite-nos também relativizar o percurso histórico que estamos  a fazer como a  família, para deixar de pretender das relações interpessoais uma perfeição, uma pureza de intenções e uma coerência que só poderemos encontrar no Reino definitivo. Além disso, impede-nos de julgar com dureza aqueles que vivem em condições de grande fragilidade. Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos famílias; continuemos a caminhar! Aquilo que se nos promete é sempre mais. Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e de comunhão que nos foi prometida”. (A.L.325) 

Que estas palavras de realismo e de sonho do Papa Francisco nos acompanhem nesta aventura que iremos iniciar.

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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