Arquidiocese de Braga -

29 julho 2026

A Liturgia, vida da Igreja

Abertura do 50.º Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica - Fátima - 27-07-2026

Fotografia

A Igreja vive da Liturgia. Sim, «na liturgia sente-se bater o coração da Igreja» (A. Baumstark, Liturgia comparada). Esta é a sua dimensão decisiva, não exclusiva. A Liturgia é a primeira escola da fé e da vida espiritual. Nela, deixamos de falar sobre Deus para falarmos a Deus e agirmos em Deus. A Liturgia não é rito, nem mera execução de rubricas, mas ethos e, fundamentalmente uma arte da ação.

A Liturgia é a primeira e a grande escola duradoura da fé e da vida espiritual, porque aí a Igreja celebra sempre o mesmo e único mistério de Cristo. Educar para a participação, de modo a proporcionar uma experiência viva do Mistério de Cristo e da Igreja, é um enorme desafio. Trata-se de uma tarefa que exige rigor teológico e sensibilidade pastoral, tornando os ritos e as orações verdadeiramente comunicativos. A Igreja transmite a fé, celebrando a Liturgia.

Um monge beneditino bracarense, D. António Coelho, afirmou em 1926, nas origens do chamado Movimento Litúrgico em Portugal: «A Liturgia é a vida da Igreja», e acrescentava: «a Liturgia da Igreja é a música – prelúdio da sinfonia da glória; é poesia. E que sublime e variada poesia! (...) «A Liturgia é o cantar da Igreja. Sacudida pelo Sopro inspirador de Deus, a Igreja estremece, vibra, solta, envoltas em fórmulas e gestos que impressionam os sentidos exteriores do homem, as vozes interiores do Espírito».

Por isso, como afirmou a Conferência Episcopal Portuguesa, na Nota Pastoral – Liturgia, vida da Igreja: a «formação para a liturgia, com efeito, não se reduz a ensinar como se celebra, mas sobretudo a compreender a teologia da celebração, o que se celebra, o porquê e o para que se celebra na Liturgia. Educar liturgicamente é uma iniciação às orações e às atitudes fundamentais da celebração, isto é, à linguagem e ao simbolismo do louvor, da escuta, da ritualidade, do canto e do silêncio».

O Documento final “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” apela: «O aprofundamento da ligação entre liturgia e sinodalidade ajudará todas as comunidades cristãs, na pluriformidade das suas culturas e tradições, a adotar estilos celebrativos que manifestem o rosto de uma Igreja sinodal».

No passado dia 19 de junho, comemorou-se o primeiro centenário do I Congresso Litúrgico em Portugal, realizado na cidade de Vila Real, considerando o início do Movimento Litúrgico em Portugal.

Nestes dias comemoramos o cinquentenário do ENPL (Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica), realizado anualmente em Fátima. De facto, a receção da Reforma Litúrgica teve um impacto decisivo na vida e na formação litúrgica em Portugal, antes de mais, pelos documentos dos bispos, constituindo igualmente um espaço privilegiado de renovação do movimento litúrgico.

Os ENPL iniciaram-se no ano emblemático de 1974, aquando da Revolução dos Cravos, num contexto de renovada participação livre na sociedade. Juntos, damos graças a Deus pelos protagonistas vivos e defuntos, quais gigantes que nos carregam aos ombros: os Bispos presidentes e os membros da Comissão Episcopal da Liturgia, os secretários nacionais, os vogais, os mistagogos, os compositores, os músicos, os colaboradores e todos os participantes no desafiante e apaixonante percurso pastoral e litúrgico.

As linhas teológico-litúrgicas e pastorais dos ENPL evidenciam, entre outros temas: a liturgia, celebração do Mistério pascal, o Ano litúrgico, a celebração dos sacramentos, a assembleia litúrgica e os ministérios, a participação litúrgica, a música, a pastoral e a espiritualidade.

A Reforma Litúrgica deu cumprimento ao refrão do Movimento Litúrgico: «levar a Liturgia ao povo e trazer o povo à Liturgia». Com efeito, este labor inédito constitui um significativo contributo para a história da teologia litúrgica em língua portuguesa, no sentido de estimular o estudo da Reforma litúrgica para uma renovada pastoral litúrgica.

A Liturgia está na origem do desenvolvimento e da consumação da própria vida cristã. Esta é a vida segundo o Espírito, coerente com Ele. À Liturgia é dado o lugar de «culmen et fons» (Sacrosanctum Concilium, 10) da ação da Igreja. Da mesma Liturgia vem a santificação da humanidade em Cristo e a glorificação de Deus, que constituem a estrutura teândrica da liturgia, a atuação objetiva do evento salvífico.

A formação para a Liturgia e a formação pela Liturgia são lugar do encontro com Jesus Cristo e, simultaneamente, lugar de missão.

 

+ José Manuel Cordeiro