Arquidiocese de Braga -
29 dezembro 2025
A proximidade da Esperança sem condições
Homilia de D. José Cordeiro no encerramento do Jubileu da Esperança – 28.12.2025
1.Uma criança, esperança ou ameaça?
Continuamos a celebrar o dia de Natal, evocando e vivendo o nascimento do Salvador, ocorrido num lugar onde nenhum ser humano quereria nascer, e que, como percebemos pela passagem evangélica de hoje, além de ter nascido em pobres condições, tem logo de se refugiar no Egipto para evitar a inveja de Herodes, disposto a tudo, até a cometer os piores crimes, para preservar o poder nas suas mãos. O poder corroeu de tal modo a consciência deste homem que até uma indefesa criança surge como ameaça.
Em tantos momentos, também nós nos agarramos ao aparente poder que temos, esquecendo que enquanto discípulos de Cristo servir é o único poder a exercer, e que nada é mais importante do que partilhar a vida e o ser com aqueles que nos rodeiam, construindo verdadeira fraternidade entre os filhos de Deus.
Este é também o dia da Festa da Sagrada Família. Uma família deve ser o lugar onde cada pessoa pode viver a verdade da sua vida, deixando cair as máscaras que tantas vezes usamos; é o lugar onde cada um pode ser aquilo para o qual foi criado por Deus: para viver o amor eterno e incondicional.
Sabemos, porém, que muitas famílias não conseguem, por diversos motivos, viver deste modo. Há muitas famílias destroçadas pelo luto, pelas dependências, pelos abusos, pela incapacidade de amar. Como comunidade cristã, não podemos deixar de lutar pela cultura do cuidado, indo ao encontro, acolhendo e escutando todas aquelas pessoas em cuja família não podem viver a graça da compreensão, do amor e da verdade.
A família de Jesus, Maria e José é lugar da nossa esperançosa hospitalidade. Erri de Luca escreve, acerca de Jesus, no seu livro “Em nome da Mãe”: «O ano em que a sua mãe o deu à luz não era santo. (...) Não nasceu num momento de alegria, mas durante uma viagem, uma deslocação forçada. (...) Mas ele não nasceu numa peregrinação. Os seus deslocavam-se por um dever triste e insidioso: obedecer a um recenseamento. (...) assim partiram de Nazaré dois e em Belém tornaram-se três». O mistério do Natal é, simultaneamente, mistério pascal.
2. Alguns sinais de Esperança
E neste dia, encerramos também o Ano Jubilar dedicado à Esperança. Consenti que volte a recordar alguns dos sinais de esperança que este ano permitiu vislumbrar: a adoração eucarística nas comunidades cristãs em todos os dias do ano, concretizando uma das conclusões do 5.º Congresso Eucarístico Nacional; a peregrinação jubilar dos 13 Arciprestados à Sé Primaz; o Jubileu dos Jovens em Roma; a Visita Pastoral; os Conselhos Pastorais Paroquiais ou da Unidade Pastoral, como espaços de corresponsabilidade eclesial diferenciada em sinergia, onde “o todo é maior que a soma das partes”; a promissora segunda edição do Renovar, um providencial laboratório de discernimento sinodal; a reconfiguração da Pastoral das Vocações; mais igrejas abertas; a formação integral, contínua e partilhada com leigos, clero e consagrados para a missão em chave sinodal; a formação dos agentes pastorais “prevenir+proteger=servir” nos Arciprestados sobre a prevenção e a cultura do cuidado, para combater todo o tipo de abuso; a pastoral penitenciária; o início da preparação de um grupo de candidatos ao Diaconado Permanente; a instituição de leigas no ministério de leitor, acólito e catequista; o serviço da Cáritas, das Santas Casas da Misericórdia, dos Centros Sociais Paroquiais e de tantas outras obras católicas; os processos da cultura da transparência com a prestação de contas e avaliação, não só dos bens económicos, mas também da missão pastoral.
Poderia ainda referir tantos outros momentos, individuais ou comunitários, em que a graça jubilar foi procurada e alcançada por tantos fiéis, quer seja peregrinando a Roma, quer seja peregrinando às igrejas jubilares da nossa amada Arquidiocese: as seis Basílicas menores - Congregados, Nossa Senhora do Sameiro, São Pedro do Toural, São Bento da Porta Aberta, Bom Jesus do Monte e São Torcato - e o Santuário Eucarístico de Balazar.
Também neste ano fizemos memória do I concílio ecuménico, realizado em Niceia há 1700 anos. Igualmente neste mês de Dezembro ocorreu o aniversário redondo de um outro concílio ecuménico, o Vaticano II, que se concluiu há 60 anos.
3. A esperança está na proximidade
Além disso, cada um poderá dizer aquilo em que a sua vida foi transformada pela vivência deste Jubileu do ano 2025. Seria bom, que todos fizéssemos um balanço do que vivemos, para podermos perceber os sinais da graça e os sinais que nos dizem o que ainda falta percorrer, porque ainda que se encerre o jubileu, a porta da Esperança não se pode fechar, porque, como disse a Maria Rueff ao Clero da nossa Arquidiocese, no passado dia 17 de dezembro: “a esperança está na proximidade entre as pessoas”. Assim, sempre que nos fazemos próximos de alguém estamos a ser portadores e semeadores de esperança para o mundo.
E bem sabemos que precisamos de Esperança, de olhar o presente com outros olhos, para que, apesar das guerras, das divisões ideológicas que se acentuam, da crise habitacional, da falta de trabalho digno e tantos outros problemas da nossa sociedade, sejamos capazes de perceber onde e como Deus nos chama a servir, e a fazer crescer a certeza de que, em todos os momentos e circunstâncias, somos filhos amados e nunca abandonados pelo Senhor.
Sim, «a alegria é o segredo do que é santo» (Carlos P. Falcão); prossigamos juntos para sonhar em grande e concretizar o sonho de levar Jesus a todos e todos a Jesus. Só Jesus Cristo é a Esperança que não engana (cf. Rm 5, 5).
Por isso, cantamos jubilosos: «Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos. Em Vós espero, meu Deus, não serei confundido eternamente» (Hino Te Deum), e continuemos juntos, servidores criativos, no caminho de Páscoa rumo ao Jubileu de 2033.
+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
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