Arquidiocese de Braga -

26 fevereiro 2026

Opinião

Entre a estrela e o espelho: um mapa do deserto interior

Mons. Mário Rui de Oliveira

Há um pensamento que chega antes da palavra.

Antes da ação. Antes da culpa.

Os padres do deserto chamavam-lhe logismos. Pensamento maligno. Não um pecado, ainda — apenas um sussurro. Uma sombra que atravessa o coração como uma nuvem passa diante do sol. Evágrio Pôntico, esse cartógrafo rigoroso e inclemente da alma humana, foi o primeiro a nomeá-los com exactidão clínica, séculos antes de Freud: gula, luxúria, avareza, ira, tristeza, acédia, vanglória, soberba.

Oito leões. Oito modos de nos perdermos a nós próprios.

O deserto que trazemos dentro

Houve um tempo em que os monges fugiam para o deserto. Para as pedras e os escorpiões da Síria e do Egipto. Não para escapar ao mundo — para encontrá-lo onde ele realmente existe: no interior de cada coração.

Esse tempo é o nosso. O deserto não acabou. Mudou de endereço: está nos ecrãs que não largamos, na pressa que não cessa, no ruído que chamamos de vida. Os demónios de Evágrio — «fantasiosas aparições, inconsistentes: aplausos, queixumes, vozes, ouro e todas as tolices do mundo» — hoje chegam com wi-fi.

A Estrela e o Espelho nasce desta convicção: que a tradição espiritual dos Padres do Deserto não é arqueologia. É espelho. E o espelho mostra-nos, com incómoda clareza, o que preferíamos não ver.

Estrelas e espelhos

O título não é metáfora decorativa. É diagnóstico.

As estrelas chamam-nos para cima, para o que nos ultrapassa, para Aquele que nos supera e para aquilo em que nos superamos. Os espelhos voltam-nos sobre nós mesmos — amarrando-nos as mãos, amolecendo-nos o carácter, tolhendo-nos a força para lutar. Para as primeiras, o limite é graça. Para os segundos, o limite é prisão.

Vivemos, a maior parte do tempo, colados ao espelho. Incapazes de levantar os olhos. Demasiado ocupados a administrar a nossa própria imagem para contemplar qualquer coisa que não seja o rosto que construímos para os outros.

É desta tensão — entre a estrela e o espelho, entre a transcendência e o narcisismo, entre o combate e a rendição — que nasce cada um dos capítulos do livro.

Oito pensamentos, uma só raiz

Evágrio não condena. Ilumina. Cada logismos não é um vício estático mas uma relação deformada: com o corpo (gula, luxúria), com os bens (avareza), com o outro (ira, inveja), com o tempo (tristeza), com o espaço (acédia), com o agir (vanglória) e com Deus (soberba).

Esta leitura relacional é a novidade mais fecunda do livro. Os pecados capitais não são catálogo de falhas morais — são radiografias de um coração que perdeu o centro. Que esqueceu a direcção. Que confundiu o espelho com a estrela.

A soberba — raiz de todos os outros, segundo Gregório Magno — é a relação deformada com Deus: a hipertrofia do eu que se coloca no lugar do absoluto. «Um gigante surdo-mudo e cego, rei da sombra, herói na lama do próprio eu. Uma toupeira que se julga águia.» São palavras de Giancarlo Pavanello, o artista veneziano que assina as nove tábuas verbo-visuais do livro — e que transformam cada pecado em forma, em cor, em silêncio pintado.

Quando a palavra se torna imagem

Não é frequente que um livro de espiritualidade traga dentro de si uma exposição de arte. Este traz.

Os nove painéis de Giancarlo Pavanello — oito círculos e um quadrado, técnica mista, 40 cm cada — não ilustram o texto. Habitam-no. São a mesma reflexão numa linguagem diferente: onde o texto analisa, a tábua silencia; onde o texto argumenta, a tábua interroga.

A caligrafia enfática de Pavanello — tinta negra lançada sobre fundo cromático, palavras que se apertam como respiração contida — transforma cada pecado capital numa experiência sensorial antes de ser um conceito moral. A ira é uma seta dentada que corta o espaço. A luxúria é um campo vermelho-sangue onde o desejo se evapora em tristeza. A soberba é um vazio azul-noite que nenhuma palavra ilumina.

Arte e espiritualidade antigas aliadas. Como em Giotto. Como em Bosch. Como na tradição que este livro reinventa.

O combate que é de todos

«Não está em nosso poder que a alma seja ou não perturbada pelos pensamentos; mas que eles permaneçam ou não, e despertem ou não as paixões, isso, sim, depende de nós.»

Evágrio Pôntico, Practicus 6

Esta é a boa notícia que o livro guarda para o fim. Os logismoi não têm o poder que lhes atribuímos. São visitantes, não moradores. Chegam sem avisar — mas a porta está nas nossas mãos.

O combate espiritual não é pessimismo antropológico. É realismo esperançado. Conhecer os leões do deserto interior é o primeiro passo para não ser devorado por eles. Nomear é já resistir. Iluminar é já vencer.

A Estrela e o Espelho é isso: um mapa. Desenhado com o rigor de quem conhece o deserto e a ternura de quem não perdeu a esperança de sair dele.

 

 

A Estrela e o Espelho. Compreender hoje os pecados capitais, de Mário Rui de Oliveira, com nove ilustrações verbo-visuais de Giancarlo Pavanello. Paulinas Editora, Lisboa, 2026. ISBN 978-989-590-037-4.

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