Arquidiocese de Braga -

31 março 2026

Livro de Monsenhor Mário Rui de Oliveira suscita reflexão sobre os pecados capitais

Fotografia DM

DM - Luísa Teresa Ribeiro

Obra “A Estrela e o Espelho” apresentada com conferência na Capela Imaculada

O livro “A Estrela e o Espelho – Compreender hoje os Pecados Capitais”, da autoria de Monsenhor Mário Rui de Oliveira, foi lançado ontem, na Capela Imaculada, em Braga.

A apresentação da publicação decorreu numa conferência que suscitou uma reflexão interdisciplinar sobre os pecados capitais na atualidade.

Esta iniciativa integrou-se na programação da Semana Santa, decorrendo no mesmo local onde está patente a exposição “Os Loghismoí de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello”.

Na cerimónia, Monsenhor Mário Rui de Oliveira, chanceler do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, na Santa Sé, referiu que, ao longo dos tempos, os pecados capitais suscitaram «textos fantásticos, quadros importantíssimos na história da arte, e filmes muito interessantes». 

O autor revelou que convidou um «poeta visual» para traduzir de forma plástica as palavras que escreveu, mostra acompanhada por um católogo publicado pelo dstgroup, através da ZET.

O primeiro conferencista foi Guilherme Macedo, presidente da Organização Mundial de Gastrenterologia, a falar sobre o pecado da gula e as boas práticas do comer para uma saúde gástrica. O médico referiu que há «um vasto e complexo sistema de vias metabólicas, físicas e químicas» que estimulam gula, mas também fatores psicológicos e dinâmicas socais que podem condicionar o comportamento alimentar.

O especialista apontou o atual «fascínio do consumo», que nos torna em «consumidores predadores desesperados para suprir o vazio existencial». 

Em seu entender, a magreza tornou-se «sinal exterior de riqueza» dos que conseguem aceder a fármacos emagrecedores, numa época em que ser gordo é «uma nova cicatriz social».

Por seu turno, o CEO do dstgroup, José Teixeira, referiu que surgiram pecados capitais que «causam maior dano moral, social e económico» que os iniciais, alguns dos quais são hoje «relativamente inofensivos e tratáveis com terapia, farmacologia e poesia».

Na sua opinião, a corrupção e a burocracia são «os verdadeiros pecados contemporâneos». «A burocracia, nas suas várias dimensões, é o maior pecado capital da atualidade, pois bloqueia o progresso, a equidade, o acesso coletivo a bens comuns», afirmou ao DM.

O empresário referiu que «temos um ministro que está com umas ideias muitíssimo boas», mas sublinhou que o ponto fulcral é «a teia burocrática» e alertou para o surgimento da burocracia digital. «Se existisse uma censura social coletiva, os burocratas eram capazes de terminar», disse.

Acrescentou que a avareza é «um pecado sem perdão», um «mal social», que deve ser eliminado, tal como a pobreza ou a escravatura. «É preciso o Estado para controlar os avaros. O Estado existe para impor impostos progressivos, para corrigir os avaros», argumentou.

Já D. Nélio Pita, Bispo Auxiliar de Braga, começou por dizer que, «para muitos dos nossos contemporâneos, o tema do pecado é um assunto anacrónico.». «Na atualidade, a consciência moral, a sensibilidade espiritual parece conformada por um conjunto de valores, em grande medida contrários aos valores do Evangelho», alertou.

Doutor em Psicologia, o prelado abordou a temática “Evágrio Pôntico, o cartógrafo da alma e da psicologia humana avant Freud”, duas pessoas separadas por mais de 1500 anos, com cosmovisões diferentes, mas que têm traços em comum. 

Evágrio Pôntico formulou oito pensamentos que afastam a alma de Deus, que mais tarde estiveram na origem dos sete pecados capitais. Por seu turno, Freud, de uma forma diferente, também falou do conflito interior, que é a causa de neuroses e de doenças. «Com linguagens diferentes, ambos ocuparam-se da luta interior do sujeito», explicou, destacando que os dois apontam para a terapia pela fala, seja com um orientador espiritual ou um terapeuta.

A irmã Eliete Duarte, responsável editorial pela Paulinas Editora, revelou que publicar esta obra foi «um desafio» e que a forma como está a ser acolhida dá força para a continuação do seu apostolado. O moderador foi o padre Marcelino Paulo.