Arquidiocese de Braga -

2 abril 2026

Juntos, servidores do AMEN

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Homilia do Arcebispo, D. José Cordeiro, na Missa Crismal do dia 2 de abril de 2026

A peregrinação da Semana Santa que iniciamos no Domingo de Ramos na Paixão do Senhor tem nesta manhã a etapa da Missa do Crisma, a qual é marcada pela consagração e bênção do azeite e pela renovação das promessas sacerdotais. Os bispos, presbíteros, diáconos e todos os membros do Corpo eclesial reunidos à volta do mesmo altar, “coração pulsante” da Arquidiocese bracarense, querem manifestar a comunhão fraterna entre si, unidos a Jesus Cristo, Cabeça, Pastor, Servo e Esposo da Igreja.

Não olhemos para esta celebração e para o encontro que se lhe segue, como mais uma data do calendário ou um protocolo obrigatório na vida de cada um de nós. Espero que seja autênticomomento de harmonia, de renovação do ardor missionário e das razões vocacionais que nos levaram a decidir pela entrega total a Jesus Cristona Sua Igreja. Muitos outros momentos de formação integral são necessários para o presbitério, como o Simpósio do Clero, que este ano se realiza de 31 de agosto a 3 de setembro em Fátima, e para o qual faço o apelo à vossa participação.

 

1.Um serviço ativo e criativo

A segunda leitura, retirada do livro do Apocalipse, mostra o sacerdócio como qualificação própria do cristão, mas dependente do único sacerdócio de Jesus Cristo: «Àquele que nos ama e que com o seu sangue nos libertou dos nossos pecados, fazendo de nós um reino e sacerdotes para Deus, seu Pai: a Ele, a glória e o poder pelos séculos dos séculos! Ámen» (Ap 1, 5-6).

O que é dito às sete igrejas vale para a Igreja de cada tempo e lugar. As sete igrejas (relevante o simbolismo do número sete, das 88 vezes que aparece na Bíblia, 55 são do Apocalipse) são comunidades cristãs na atual Turquia: Éfeso (Ap 2,1-7); Esmirna (Ap 2,8-11); Pérgamo (Ap 2,12-17); Tiatira (Ap 2,18-29); Sardes (Ap 3,1-6); Filadélfia (Ap 3,7-13); Laodiceia (Ap 3,14-22).

A justaposição reino-sacerdotes, indica um serviço ativo e criativo de mediação doado por Jesus Cristo e que orienta para o Pai, no Espírito Santo. Dar glória a Deus é servir com disponibilidade e inteireza do coração. Um coração grato é um coração que vê e que escuta em Jesus Cristo, acolhendo a formação integral e contínua em todas as dimensões: humana (afetiva e relacional), espiritual, intelectual, pastoral, sinodal e missionária.

Jesus Cristo ressuscitado é definido como o “Amen”. Já em Is 65,16, “Ámen” emerge como um nome divino. Com o Amen se conclui o livro do Apocalipse e igualmente o Catecismo da Igreja Católica.

Desde os inícios da Igreja que se pronunciou o Amen na Liturgia hebraica e cristã. Também, Jesus usa amiudadamente o Amen. Até vemos a duplicação “Amen, Amen” tanto no Evangelho de João como nos Sinóticos, conferindo um absoluto de verdade. Santo Agostinho dizia: «o vosso Amen é a vossa assinatura». A palavra Amenexprime na sua raiz a ideia de: firmeza, fidelidade e certeza, indicando reconhecimento de validade e aceitação. «Jesus ressuscitado-amen seria a realização plena das promessas divinas (movimento descendente) e o assim seja de resposta da comunidade eclesial a Deus (movimento ascendente)» (Padre Ugo Vanni).

 

2.Toda vida é Páscoa

Ao Senhor prometemos cantar eternamente a sua bondade, porque Ele mesmo nos afiança: «a minha fidelidade e bondade estarão com ele» (Sl88,25). O Amen recebeu a unção e no-la comunicou pela imposição das mãos na Sua Igreja, conforme o início do Seu ministério numa Sinagoga e não no Templo: «o Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres» (Is e Lc).

Expresso um profundo agradecimento a todos os presbíteros pelo seu testemunho e dedicação que, em todas as partes da nossa Arquidiocese: doam a vida, celebram bem a Liturgia, especialmente a Eucaristia, o Batismo, a Reconciliação, a Santa Unção e o Matrimónio, rezam e pregam a Palavra de Deus, e se dedicam, diariamente, com amor e compaixão aos seus irmãos e irmãs.

É muito significativo aquilo que pregou o Padre Karl Rahner: «No dia da missa nova tem lugar um sacrifício especial de eterna ação de graças. Com efeito, celebramos o momento em que um homem ordenado sacerdote de Jesus Cristo, pela primeira vez faz aquilo que de ora em diante – sublime divina monotonia –, ele deve fazer todos os dias, até ao dia em que a sua vida se consumir totalmente no sacrifício que diariamente celebrará e em cuja aceitação toda a realidade terrena encontra a sua aceitação junto da infinita majestade de Deus. Porque celebramos este dia? Acaso a Igreja leva os seus fiéis a oferecerem, de certo modo, louros antecipados a um jovem que ainda nada fez senão oferecer a Deus o seu coração e a sua vida, quando só pode ser louvado o sacrifício consumado? Não, nós não celebramos um homem. Celebramos somente o sacerdócio de Jesus Cristo. Celebramos a Igreja, a Igreja inteira de todos os redimidos, santificados e chamados à vida eterna. Celebramos aquela, à qual todos pertencemos, quer sejamos sacerdotes ou “só” os fiéis e santificados. Com efeito, todos nós pertencemos de tal modo ao Corpo de Cristo, que aquilo que é concedido a um em graça, dignidade e poder, beneficia e leva a todos, o serviço e a vocação de um manifesta a dignidade santa de todos».

Cada sacerdote (bispo, presbítero) é chamado a ser servidor criativo do Amen, ou como escreveu Santo Agostinho: «dispensador do vosso Sacramento» (Confissões 10,30), experimentandoque: «todo o instante é Páscoa, toda a vida é passagem, toda a vida é eucaristia» (José A. Mourão).

Não termos em conta que também somos discípulos, e não apenas pastores, pode fazer de nós homens desligados da vida das pessoas aos quais fomos enviados a servir. Esquecer que também temos algo a aprender com o Povo santo de Deus, pode tornar-nos homens em que abunda a sobranceria, embriagados de um falso poder moral, que nos leva a cair na tentação de impormos a todo o custo as nossas ideias, procurando destaque e prestígio, desligando-nos até da comunhão com a Igreja, o bispo e os restantes presbíteros.

 

3.Uma fidelidade futurante

Escreveu o Papa Leão XIV na Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro”, publicada no passado dia 8 de dezembro: «Os presbíteros são chamados também hoje a uma fidelidade que gera futuro, na consciência de que perseverar na missão apostólica oferece a possibilidade de nos interrogarmos sobre o futuro do ministério, ajudando outros a experimentar a alegria da vocação sacerdotal» (n.º 1). Uma fidelidade futurante!

O documento refere cinco pilares essenciais no exercício do ministério sacerdotal: fidelidade e serviço, que nasce do encontro pessoal com Cristo; fidelidade e fraternidade, onde cada membro do colégio presbiteral está unido aos outros por laços de caridade apostólica, ministério e fraternidade; fidelidade e sinodalidade que implica a relação com o bispo, com o presbitério e com os fiéis leigos; fidelidade e missão, sublinhando que “a identidade dos presbíteros constitui-se em torno do seu ser para” e é indissociável da sua missão; fidelidade e futuro, recordando que não há futuro sem cuidar de todas as vocações.

Hoje, renovamos as promessas sacerdotais do dia da ordenação presbiteral. A promessa compreende cinco respostas a cinco perguntas e, ainda, a promessa de reverência e obediência. As interrogações e as respostas que manifestamos diante do povo de Deus, sucedem da seguinte maneira: cooperação com o Bispo; pregação do Evangelho e a exposição da fé católica, celebração dos mistérios de Cristo, ampliada pela acentuação do Sacrifício da Eucaristia e do sacramento da Reconciliação, mandato da oração pelo povo e a união a Cristo e com Ele consagrar-se a Deus para a salvação dos seres humanos. A cada pergunta respondemos: “Sim, quero” e na última acrescentamos: “Sim, quero com a ajuda de Deus”.

Somos, deste modo, servidores do Amen – Jesus Cristo, nossa Páscoa. Na ordenação sacramental canta-se o antigo hino Veni creatorSpiritus. O Espírito criador torna-nos criativos no caminho quotidiano de Páscoa.

Todavia, no ministério e na vida dos presbíteros existe o grande perigo de reduzir a sacramentalidade a mero sacramentalismo, funcionalismo, ativismo ou distração, sem dedicação centrada em Jesus Cristo. Assim, o tríplice ministério da Palavra, dos sacramentos, do serviço da caridade e «a vocação e a missão que recebemos do Senhor e que herdámos dos nossos antecessores não admitem seguidores ou servidores “distraídos”. O Senhor continua a chamar irmãos e amigos para seguirem o seu Filho, pessoas que estejam dispostas a dar tudo pelo seu sonho de salvação para toda a humanidade. A tarefa continua a ser tão imensa e desafiante como sempre. A resposta, também, deve ser total, concentrada, tão centrada como sempre ou até mais» (Padre Adolfo Nicolás).

Caríssimos bispos, presbíteros e diáconos, o mundo complexo e em mudança acelerada, que parece querer arrastar-nos na voragem da novidade contínua, pode ser opressor para nós que tentamos viver o tempo de Deus nos caminhos do mundo.

Temos de discernir e decidir novos modos de sermos Igreja que caminha unida neste território bracarense. E ainda que haja tanta vitalidade de fé que devamos preservar e revalorizar, ainda que haja tantos lugares no mundo e em Portugal, onde a situação da Igreja seja mais difícil que a nossa, não podemos esperar mais. Partimos com atraso, porque não quisemos enfrentar a realidade, a qual se está agora a impor de forma inexorável, mas ainda é possível renovar.

Ainda somos, felizmente, um presbitério com muitos sacerdotes, mas a realidade diz que somos cada vez mais velhos, permanecendo ativos até idades bem avançadas; e ainda que tenhamos a grande graça de ordenarmos alguns novos padres, estes dados não são suficientes para a renovação geracional do presbitério bracarense.

Sei que muitos de nós se sentem no seu trabalho pastoral cada vez mais cansados, sobrecarregados até, porque estamos a tentar manter um estado de coisas que exige muito mais recursos do que aqueles que temos disponíveis atualmente.

Caríssimo Padre, como encaras as tuas fragilidades? Como cuidas do descanso pessoal, da oração, das relações familiares e de amizade significativas? O que podes fazer para uma relação mais saudável entre o presbitério, que seja fonte e meta de um ministério mais feliz, frutuoso e humana, espiritual e pastoralmente realizado?

Por isso, temos de continuar o caminho de Páscoa, que passará pela cruz, mas chegará à ressurreição, o qual nos levará a uma Igreja mais ministerial, onde pastores e fiéis leigos, cada um com o seu ministério específico, trabalham em conjunto na administração e realização das diversas áreas da pastoral. Com os diáconos permanentes, com os acólitos, leitores e catequistas instituídos, e outros ministérios que o Espírito Santo pode suscitar, podemos ajudar-nos mutuamente para evitar situações limite, em que a administração colocada nas mãos e ombros de uma só pessoa leva ao esgotamento físico, mental e espiritual dessa pessoa.

Do elenco dos santos da nossa Arquidiocese, cujo calendário próprio foi aprovado em 2024, e hoje apresentamos os textos da Liturgia das Horas recentemente reconhecidos pelo Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, colhemos testemunhos de homens e mulheres que no seu tempo souberam discernir os modos de fazer fermentar na sociedade o eterno Evangelho. Isso também está ao nosso alcance. Não andemos distraídos, mas dedicados em Jesus Cristo.

O traço essencial do ministério ordenado não é o de poder celebrar sacramentos, mas de se tornar sacramento de Jesus Cristo, isto é, epifania do mistério. Hoje, é um belo dia para revisitar a história da vocação, as suas raízes, os seus temores e, sobretudo a confiança e a alegria do dom da Graça.

Muito obrigado por serem padres! Bem-hajam pelo “Sim” ativo e criativo ao AMEN!

 

​​​​​​​+ José Manuel Cordeiro

Arcebispo Metropolita de Braga