Arquidiocese de Braga -
4 abril 2026
Testemunhas da Páscoa
Homilia do Arcebispo, D. José Cordeiro, na Vigília Pascal na Noite Santa
1.Testemunhas do Ressuscitado
Celebramos a mãe de todas as vigílias, a Vigília Pascal, na qual proclamamos solene e jubilosamente que Jesus Cristo morto na cruz, ressuscitou e está vivo.
«Não tenhais medo; sei que procurais Jesus, o Crucificado. Não está aqui: ressuscitou» (Mt 28,5-6). Não há forma de provarmos a Ressurreição de Jesus, ainda que muitos tenham tentado explicar esse evento cientificamente. Mas a verdade é que nada podemos dizer sobre a Ressurreição, porque ninguém testemunhou esse acontecimento. O sepulcro vazio é apenas um sinal de que algo aconteceu, mas não é prova de nada.
Não há testemunhas da Ressurreição; há, sim, testemunhas do Ressuscitado: «o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos, o que tocámos com as nossas mãos acerca do Verbo da Vida, é o que nós vos anunciamos» (1Jo 1,1), escreveu João na sua primeira carta.
Assim, a Ressurreição do Senhor é algo que só podemos acreditar pela fé e pelo testemunho que nos foi sendo passado de geração em geração: nós acreditamos e proclamamos que Jesus Ressuscitou porque os primeiros apóstolos e discípulos viram o Senhor ressuscitado e relataram esses acontecimentos uns aos outros, primeiro oralmente e depois por escrito, naquilo que chamamos de Novo Testamento.
Os primeiros discípulos de Jesus viveram de forma trágica a Paixão do seu Mestre. Traíram, negaram e abandonaram o Senhor, com exceção de algumas mulheres corajosas, que estiveram com Cristo até ao fim e que logo que podem vão ao sepulcro. Mas chegando ao sepulcro nada está como pensavam encontrar: a pedra foi removida, o sepulcro está vazio.
Até que o Senhor se lhes manifesta, e elas O reconhecem e adoram prostrando-se a seus pés. O impacto deste encontro tem uma magnitude tal que abala profundamente as vidas dos discípulos. Do medo passam ao anúncio desassombrado, nada receando, nem sequer a morte, porque o amor de Deus que os habitava os conduzia e guiava.
2. Encontro pessoal com Jesus Cristo
Passados mais de dois mil anos que sentido faz continuar a anunciar a ressurreição? Porque é que hoje Cristo continua a tocar corações, como o das oitos pessoas que hoje se tornaram seus discípulos pelo batismo?
É assim porque o Cristianismo não é um conjunto de regras que cumprimos para nos dizermos cristãos. Antes de tudo e acima de tudo, o Cristianismo é um encontro pessoal e vital de Cristo com cada ser humano. E nos dias de hoje há pessoas que se deixam tocar por Cristo, e a partir desse momento se tornam missionários de Cristo, não descansando enquanto não partilharem com os outros o tesouro que encontraram.
Jesus Cristo ressuscitado é a resposta a todos os anseios da condição humana: «Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti» (Sto. Agostinho). No nosso coração está inscrita uma sede que só Deus pode saciar, e quanto mais Ele nos vai dando a água-viva, mais sede nós temos, até ao dia em que estaremos com Ele face-a-face e finalmente a sede acabará.
Então, que implicações concretas tem na vida de cada um de nós dizer que Cristo ressuscitou e que é a resposta para os dilemas da condição humana?
«Não está aqui: ressuscitou» (Mt 28,6). Jesus Cristo não está no sepulcro porque nada pode aprisionar o Senhor. Para encontrarmos Deus não O podemos procurar entre os que estão mortos. Para encontrarmos Deus temos de O procurar entre os vivos, isto é, na vida de cada dia, na vida que habita cada um de nós.
3. Páscoa missionária
«Ide avisar os meus irmãos que partam para a Galileia. Lá Me verão» (Mt 28,10). A Galileia é o lugar do primeiro encontro com Cristo; é o lugar onde com Ele partilharam a vida, a mesa, os sonhos e as desilusões. Deus está sempre à nossa frente no caminho, para nos ensinar o caminho da Páscoa, o caminho da vida. Páscoa é passagem, por isso ser discípulo de Cristo é ser alguém a caminho. A fé cristã não é para pessoas que preferem parar e ficar estagnadas na vida, não é para pessoas que preferem as meias medidas. Para sermos testemunhas do Ressuscitado temos de dar tudo, tal como Ele se dá todo a cada um de nós.
Por isso, acreditar na Ressurreição de Cristo é acreditar que a vida é vida quando nos damos uns aos outros, imitando o Mestre. Acreditar na ressurreição é ir pelo mundo, anunciando Cristo vivo, procurando que nele haja mais justiça, mais paz, mais harmonia com a criação, mais fraternidade, mais solidariedade, rumo a uma nova terra e a novos céus.
+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
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