Arquidiocese de Braga -
13 abril 2026
Palavras de Abertura do Presidente na 214.ª Assembleia Plenária ordinária da Conferência Episcopal Portuguesa
Assessoria de comunicação da CEP
A Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa se realiza em Fátima, de 13 a 16 de abril
Saudação
Estimados irmãos Bispos, Membros desta Assembleia, convidados da CIRP (Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal) e da CNISP (Conferência Nacional dos Institutos Seculares de Portugal): a todos dou as boas-vindas à 214.ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, com uma palavra de especial saudação a D. Andrés Carrascosa Coso, novo Núncio Apostólico em Portugal, que, embora já tivesse estado presente na Assembleia Plenária extraordinária de 27-02-2026, só hoje toma parte numa Assembleia Plenária ordinária, com a presença de todos os seus membros. Seja muito bem-vindo, Senhor Núncio, e que a sua presença e ministério, ligado ao papel do Papa para toda a Igreja, possa ajudar-nos a viver a sinodalidade eclesial, na qual nos encontramos todos empenhados. Endereço também uma saudação e uma palavra particular de boas-vindas a D. Pedro Fernandes, novo Bispo de Portalegre-Castelo Branco, desejando-lhe um fecundo ministério como Pastor desta diocese e como membro do Colégio Episcopal da Conferência Episcopal Portuguesa.
Saúdo ainda os profissionais dos órgãos de comunicação social que nos acompanham neste início dos trabalhos: agradeço o serviço que prestais em prol de uma sociedade mais informada e participativa.
Esta é uma Assembleia particularmente significativa para a vida da nossa Conferência, com as eleições para os órgãos do próximo triénio. Reunidos neste Tempo Pascal, na alegria de Cristo Ressuscitado, invocamos o Espírito de Deus para nos iluminar neste momento que vai para além de uma mera substituição de nomes ou renovação de funções. Trata-se, antes de mais, de um serviço de escuta, discernimento espiritual e eclesial, que deve ser vivido em liberdade interior e em sentido de comunhão para o caminho e o serviço da nossa Igreja.
Nestes últimos seis anos em que presidi a este Colégio episcopal, vivemos períodos particularmente exigentes para a Igreja e para o país. Foram anos de aprendizagem e de purificação, mas também de alento e de esperança. Quero, por isso, agradecer a confiança e sobretudo a participação sinodal dos irmãos bispos no serviço que juntos fomos chamados a exercer em favor da Igreja em Portugal. Em seguida, menciono alguns pontos que me parecem mais relevantes destes seis anos, não tanto em termos de balanço, mas sobretudo evocando processos que marcaram a vida da Igreja em Portugal neste período, em permanente atenção e discernimento desta Assembleia.
Pandemia e outras crises
A pandemia Covid-19 e o período que se lhe seguiu alteraram os nossos hábitos, puseram à prova as nossas comunidades e exigiram adaptações pastorais. Num tempo de incerteza, de sofrimento e de isolamento, a Igreja procurou sempre estar junto das pessoas, mas tivemos de nos reinventar para encontrar novas formas de proximidade. Era fundamental que o sentido de pertença comunitária permanecesse, apesar de estarmos fechados em casa e de estar limitado o acesso às nossas igrejas.
Houve sinais muito belos de generosidade, de solidariedade com os mais carenciados e solitários, de serviço e de criatividade pastoral, com a participação de muitas e renovadas caras. Mas houve também fragilidades que ficaram mais expostas, como, por exemplo, a perda de ligação concreta à comunidade e ao ritmo habitual da vida de fé. Aprendemos, por isso, que não basta simplesmente retomar o que existia antes e que é fundamental trabalhar e acudir participando nos dramas e nos sonhos do mundo em que vivemos.
Noutras crises naturais ou económicas, com graves consequências sociais, como as tempestades que assolaram várias zonas do país, atingindo especial gravidade na região Centro, no início deste ano, com consequências e feridas que vão demorar ainda a ser saradas, testemunhámos igualmente a generosa vaga de solidariedade para acudir, intervir e participar na necessária obra de reparação. Foram milhares os voluntários, entre os quais muitos jovens, que puseram “mãos à obra”, entre as quais as instituições da Igreja. Esta mobilização, como a silenciosa e continuada atenção aos mais desfavorecidos, constitui, aliás, um dos campos bem presentes na ação da Igreja, que tem de ser mais bem coordenado para ir ao encontro de quem mais precisa.
Num tempo de aceleradas mudanças culturais, em que a linguagem digital impera e os ritmos sociais são reconfigurados, a missão da Igreja e a fidelidade ao Evangelho pedem-nos um constante discernimento e conversão sobre a forma como agimos e evangelizamos. A memória viva deste período crítico para toda a humanidade não deve ser esquecida, mas valorizada nos seus problemas, também na criatividade, nas novas parcerias e caminhos de relação e solidariedade que se geraram na Igreja e na sociedade.
Sinodalidade
É neste contexto que o caminho sinodal iniciado pelo Papa Francisco, e continuado agora no pontificado do Papa Leão XIV, se assume como um momento crucial na vida da Igreja onde o Povo de Deus possa caminhar junto, escutar, discernir e partilhar responsabilidades na missão. A sinodalidade não é apenas um método organizativo, mas é a forma de a Igreja se compreender e viver a partir do Evangelho. Trata-se de um caminho que exige conversão pessoal e comunitária, na escuta do Espírito de Deus e uns dos outros, para discernir e tomar decisões em corresponsabilidade.
Estamos na fase de receção e implementação do Documento Final do Sínodo nas comunidades locais rumo à Assembleia Eclesial de 2028. Esta é a oportunidade para fazer uma avaliação sincera do que é apropriado ou não à missão evangelizadora da Igreja em Portugal e concretizar reformas. O caminho que está a ser feito nas Dioceses do país e a coordenação e reflexão a nível nacional, através dos representantes diocesanos, mostram um percurso a aprofundar e tornar mais explícito e congregador. Foi neste espírito que procurámos também reorganizar alguns aspetos da ação pastoral da Conferência Episcopal. A reorganização das Comissões Episcopais decidida na Assembleia Plenária de novembro passado não é uma mera alteração administrativa, mas o sinal de que as estruturas só têm verdadeiro sentido quando ajudam a Igreja a responder melhor aos desafios reais do seu tempo e da sua missão. No entanto, tanto a nível desta Conferência, como de cada Igreja Local (Diocese), há que prosseguir o caminho que leva à afirmação de uma verdadeira comunhão, participação corresponsável e missão aberta ao mundo diversificado em que vivemos.
JMJ Lisboa 2023
Gostaria de recordar também a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023, como um dos momentos mais significativos deste caminho, que não pode ficar fechado na memória de um “grande evento”. Foi, sem dúvida, um tempo de alegria, de vigor e de renovada visibilidade da Igreja, mas foi também mais do que isso: toda a preparação da Jornada, a mobilização das dioceses, a dedicação de tantos voluntários e o encontro com jovens de tantas proveniências mostraram-nos que a Igreja, para ser fiel à sua missão, precisa de escutar mais profundamente os jovens e de levar mais a sério o lugar que eles têm na vida eclesial.
Os jovens não são apenas destinatários da pastoral. Eles são parte ativa de uma comunidade que também se deixa renovar pelo seu entusiasmo, pelas suas perguntas e pela sua sede de esperança. O dinamismo e as redes de comunhão e ação que a JMJ gerou não podem perder-se. A JMJ recordou-nos que a Igreja não pode viver fechada sobre os seus ritmos habituais, como se bastasse repetir formas conhecidas. É chamada a ser mais hospitaleira, mais missionária e mais capaz de integrar a diversidade sem medo, porque na Igreja todos são chamados e cada um deve encontrar lugar no caminho da fé. O diálogo e a participação corresponsável dos jovens continuam a ser um dos desafios fundamentais para a Igreja e para a sociedade em geral.
Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis
Se houve tema em que a Igreja em Portugal teve compromisso particularmente determinado nos últimos anos foi o da Proteção de Menores e de Adultos Vulneráveis. Não podemos olhar para este tempo sem reconhecer a dor das vítimas de abusos sexuais e a gravidade do mal que lhes foi causado, e as marcas profundas que esse mal deixou nas suas vidas. Agradeço a cada pessoa que encontrou coragem para testemunhar e renovo o nosso pedido de perdão.
Este foi, e continua a ser, um caminho de purificação e de reconciliação com o passado. Um caminho doloroso, mas necessário, que expôs feridas profundas e nos obrigou a uma consciência mais séria da responsabilidade da Igreja perante os mais vulneráveis.
A Comissão Independente, com o estudo sobre a realidade das últimas décadas, ajudou-nos a compreender melhor o fenómeno e a sua amplitude. O Grupo VITA, as Comissões Diocesanas e a sua Equipa de Coordenação Nacional, numa perspetiva de intervenção direta, têm permitido que a Igreja em Portugal dê passos concretos no acolhimento e acompanhamento das vítimas, na prevenção e na formação.
Estamos também a terminar uma etapa do processo de compensações financeiras às vítimas de abusos. Não se trata de pagar a dor, porque a dor não se paga. Trata-se de reconhecer um mal injusto e de colaborar, tanto quanto possível, na reparação e no refazer de vidas profundamente dilaceradas.
Renovo a todos os profissionais que trabalharam e continuam a trabalhar neste processo, bem como aos membros das Comissões Diocesanas e da Equipa de Coordenação Nacional, a mais profunda gratidão. Sem o vosso rigor, competência e generosidade, não teria sido possível este percurso.
A decisão final sobre as compensações é da competência da Conferência Episcopal Portuguesa e dos Institutos de Vida Consagrada, como estabelecido no Regulamento para esta iniciativa livre e autónoma destas duas instituições da Igreja em Portugal. Essa decisão sobre os montantes a atribuir a cada uma das pessoas que fez o pedido teve lugar na Assembleia Plenária extraordinária de 27 de fevereiro passado e só foi possível graças ao trabalho das Comissões de Instrução do processo e da Comissão de Fixação da Compensação.
Como tem sido noticiado, nessa Assembleia fez-se uma revisão dos montantes propostos, que se traduziu numa redução destes, tendo em conta a jurisprudência dos tribunais portugueses nesta matéria, a comparação com idênticas iniciativas da Igreja noutros países europeus e a situação concreta do nosso país e da nossa Igreja.
Neste como noutros casos, os membros da Assembleia exprimem-se livremente na diversidade legítima dos seus pontos de vista, mas tem sido sempre possível chegar a uma solução que passa a ser a decisão da Assembleia. Esse é o nosso modo de trabalhar, que me parece normal em qualquer órgão colegial e sinodal. Polemizar sobre posições individuais dos membros da Assembleia, sem respeito pela realidade e a verdade dos factos, como aconteceu nos últimos dias, é lamentável e injusto, tanto para as vítimas como para os visados, e não ajuda a uma correta informação.
Admito que nem sempre a intencionalidade subjacente a todo este processo, que tem também o propósito de ajudar a uma nova cultura e proteção e cuidado na sociedade portuguesa, tenha sido convenientemente expressa ou sentida e que haja soluções que tenham ficado aquém das expectativas de algumas pessoas. Foi um percurso complexo e sensível, mas sempre assumido com seriedade e responsabilidade, tendo as vítimas no centro do nosso pensamento e ação, no intuito de contribuir para a superação possível dos dramas vividos por quem foi vítima de abusos e para a reconstrução das suas vidas.
Mas o caminho não termina aqui nem pode voltar atrás. A Igreja em Portugal precisa de consolidar uma verdadeira cultura de proteção e cuidado. Não se trata apenas de responder ao passado, mas de mudar práticas, reforçar a prevenção e tornar a Igreja num lugar seguro e mais coerente com aquilo que professa. A “tolerância zero” tem de ser mais do que uma fórmula dita: tem de tornar-se critério permanente de coerência evangélica e de responsabilidade institucional. Estivemos, estamos e estaremos sempre empenhados nesse propósito, na prevenção de todos os tipos de abuso e na promoção da formação necessária à proteção aos mais frágeis e agradecemos a todos os setores da sociedade que ajudaram e se manifestam disponíveis para colaborar nessa promoção da cultura do cuidado e do respeito pela dignidade de todas as pessoas.
Depois deste caminho, a Igreja em Portugal sabe que tem ainda muito a aprender, mas sabe também que adquiriu uma experiência que pode ser partilhada com outras instituições da sociedade, ao serviço do bem comum, na prevenção, no cuidado e na proteção dos mais vulneráveis.
No país e no mundo
Num mundo marcado por conflitos e num país em que as fragilidades sociais se evidenciam, a Igreja precisa de ser sinal da esperança e da reconciliação que nasce do Evangelho e se traduz numa presença concreta junto das pessoas.
A guerra, a instabilidade internacional e as suas consequências sobre o nosso dia-a-dia, a pobreza crescente, a fragilidade de tantas famílias, as dificuldades de acesso à habitação e à saúde, o desencanto de muitos jovens e o sofrimento silencioso e solitário de tantas pessoas idosas interpelam-nos e recordam-nos que a Igreja deve permanecer junto das feridas e esperanças da sociedade.
No plano social e político crescem formas de desilusão, de protesto e de radicalização que não podem ser lidas superficialmente. Há cansaço e desconfiança, e isso abre espaço a populismos e a formas de fazer política que se alimentam mais do medo e da manipulação do que da busca sincera de soluções.
O aumento do número de migrantes é também um desafio crescente. Regular os fluxos migratórios é necessário, mas nada pode justificar processos desumanos, tempos de espera humilhantes ou formas de integração insuficientes. Uma sociedade justa reconhece nos migrantes pessoas concretas que têm um rosto, que procuram um futuro de esperança e dignidade e que estão a dar um contributo fundamental para a sustentabilidade deste país. Legitimar a exclusão, a hostilidade ou o desprezo são atitudes que contradizem o Evangelho e que não contribuem para a afirmação de uma sociedade justa, aberta e a pensar num futuro melhor para si e para o mundo.
Diante destas realidades, que sejamos capazes de oferecer presença, acompanhar vidas e contribuir para a reconciliação social e para uma esperança concreta, capaz de tocar a existência real das pessoas.
Vivemos dias pautados por novas mediações culturais e tecnológicas, em que a inteligência artificial entra no quotidiano, reconfigura a forma como acedemos à informação, como comunicamos e nos relacionamos. Neste mundo marcado por aceleração e ruído, a missão da Igreja passa também por aprender a falar todas as novas linguagens, sem perder a verdade do Evangelho, para continuar a ser capaz de oferecer ao mundo a palavra serena e transformadora de Jesus.
Ao iniciar esta Assembleia, de carácter eletivo, peçamos ao Senhor que nos dê lucidez para discernir, humildade para servir, coragem para continuar a caminhar juntos e confiança para acolher aquilo que o Espírito pede à Igreja no nosso tempo.
Fátima, 13 de abril de 2026
† José Ornelas Carvalho
Bispo de Leiria-Fátima e Presidente da CEP
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