Arquidiocese de Braga -
4 maio 2026
Procissão mostra comunhão de todos os barcelenses à volta da Festa das Cruzes
DM - Francisco de Assis
Após a apoteótica “Batalha das Flores”, que mobilizou uma multidão nas ruas, com barcelenses e turistas nacionais e estrangeiros, a Festa das Cruzes de Barcelos viveu ontem o seu dia de maior exposição pública, sobretudo do ponto de vista religioso, numa procissão que contou com as 89 cruzes das 89 paróquias do arciprestado de Barcelos.
O Bispo Auxiliar de Braga, D. Nélio Pita, foi o convidado para presidir à procissão das Cruzes de Barcelos que, na prática, concluiu a festa das Cruzes. Na sua intervenção, D. Nélio Pita confessou que, apesar de já ter ouvido falar muito e bem da festa das cruzes, superou as suas expetativas, e enfatizou que a cruz de Cristo deve mobilizar e unir o povo de Deus.
Como é hábito, a procissão fez-se desde a igreja Matriz até ao templo do Senhor da Cruz. Além das 89 cruzes, representando as 89 paróquias do imenso Arciprestado de Barcelos, no cortejo religioso seguiram-se muitas outras cruzes, nomeadamente a Pietá, as três cruzes do Monte Calvário ou a Cruz da Ressurreição.
Por outro lado, centenas de figurados, vestidos de vermelho e branco, transportaram andores, cruzes e tochas, num colorido que despertou a atenção de milhares de pessoas que se posicionaram ao longo do trajeto. Na procissão foram ainda as autoridades, os padres, comunidades religiosas, confrarias e crianças de catequese, mostrando precisamente a união.
Afinal, é uma procissão que diz algo a todos os barcelenses, precisamente porque a sua cruz e o seu orago participa na procissão. Surpreendido pela «grande manifestação de fé, o Bispo Auxiliar de Braga falou ao povo cristão, que se aglomerou no largo e à volta do templo, proporcionado um final sempre entusiasmante e unificador de todos os barcelenses, o Bispo Auxiliar de Braga, explicou o sentido e a história da Cruz.
«Alegro-me e dou graças a Deus pelo vosso espírito de devoção, centrado na cruz», elogiou.
D. Nélio recordou que o povo faz festas religiosas por várias razões, em devoção em honra de Nossa Senhora, em honra de muitos santos. «Mas a principal festa, aquela que nos deve de facto unir e mobilizar como povo de Deus, é a cruz de Cristo. Porque é a cruz que distingue os batizados de outros irmãos que não são batizados».
O prelado reconhece que a Cruz para algumas pessoas já não está na moda. Recordou que, antigamente havia uma cruz em todos os cantos, inclusivamente nos espaços públicos. «As pessoas não tinham medo de andar com uma cruz ao peito e nas suas casas havia sempre um lugar de destaque para a cruz. Hoje, mesmo em casas católicas, em famílias religiosas, nem sempre é evidente essa devoção à cruz», lamentou.
D. Nélio explicou a transformação do significado da cruz. De um símbolo de castigo para o pior dos bandidos, o pior dos criminosos, para o símbolo de amor, de salvação, sobretudo a partir do século IV, com o imperador Constantino, que oficializou o cristianismo, como religião oficial.
Ora, aqui que parecia ser uma coisa boa, acabou por permitir a banalização da cruz.
Para o Bispo Auxiliar de Braga, o cristianismo sem cruz «é um cristianismo oco, falso», disse, recordando o trajeto dos primeiros cristãos, que eram postos à prova. E acabou por desafiar os presentes em Barcelos a dizer o que os candidatos ao batismo professavam. Ou seja, voltado para o Ocidente, as renúncias; e, voltado para o Oriente, a Profissão de Fé. «A vida cristã era uma vida orientada, isto é, virada para o Oriente, virada para a Luz, era uma vida que procurava fugir das trevas do pecado».
O apelo foi no sentido de conhecer o Evangelho, seguir os passos de Cristo, mas sobretudo viver em conformidade, que é a parte mais difícil.
Organização envolve milhares de pessoas
Visivelmente satisfeito pela forma como decorreram as festas, o presidente da Câmara de Barcelos considerou que a procissão das cruzes mostra o verdadeiro espírito de união e envolvimento de todos os barcelenses naquela que é a primeira grande romaria do Minho.
Em declarações ao Diário do Minho, Mário Constantino Lopes falou num momento de comunhão dos barcelenses, em momento único. «Porque estão reunidas 89 cruzes das paróquias de Barcelos, o que é uma envolvência da comunidade absolutamente incrível. A Batalha das Flores permite que as associações se envolvam, aqui são as comissões fabriqueiras, é a população, é a comunidade. Por isso é que a festa das cruzes tem este brilho que contagia a todos, porque os barcelenses dedicam-se e envolvem-se na festa das cruzes», declarou, com satisfação.
Para o autarca de Barcelos, «é um orgulho muito grande ver a majestosa procissão e perceber o quão apreciado é por quem nos visita. Porque percebem que nós nos damos e entregamos à festa das cruzes. Isto depois também tem reflexo na alegria que transmitimos».
Mário Constantino Lopes, que este ano teve a companhia do autarca de São Domingos, da ilha de Santiago em Cabo Verde, frisou também o reforço do espírito comunitário. «Vemos isso nos Arcos de Romaria, nas festas da Batalha das Flores e hoje [ontem] na procissão, toda a comunidade se envolve».
O presidente destacou ainda a quantidade de pessoas envolvidas na organização da festa das cruzes, talvez milhares. «O que torna cada barcelense como um responsável das festas e por isso, naturalmente, que depois resulta muito bem, porque todos estamos empenhados em dar o melhor de nós», disse o autarca, confessando que são dias de felicidade. «Nós vermos a organização e vermos depois a participação das pessoas, para nós é um motivo de muito orgulho e de muito regozijo».
Mário Constantino deixou uma palavra final de agradecimento aos trabalhadores do município de Barcelos, «que põem sempre em termos de segurança, em termos de limpeza, em termos de higiene, todas as condições para nos proporcionarem uma vivência da festa das cruzes muito boa. E depois também em termos de mobilidade, a organização este ano superou-se. Tivemos 23 parques periféricos que permitiram uma fluência e um trânsito muito fácil dentro e fora da cidade, o que é muito importante para o brilho que as festas tiveram», afirmou, em jeito de elogiou.
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