Arquidiocese de Braga -
20 julho 2026
Opinião
A família como lugar onde aprendemos a ser humanos
Cón. Eduardo Duque
Vivemos um tempo paradoxal. Nunca se falou tanto da importância da família e, simultaneamente, nunca ela foi tão frequentemente descrita como uma instituição em crise. Talvez porque a crise não seja apenas da família. Talvez seja, antes de tudo, uma crise da própria condição humana, da nossa dificuldade em permanecer, em confiar, em construir vínculos que resistam ao tempo.
Foi precisamente sobre esta realidade que o Arcebispo, D. José Cordeiro, refletiu na conferência de encerramento do ciclo dedicado à Família, promovido pela Pastoral da Cultura da Arquidiocese de Braga. A sua intervenção não procurou alimentar nostalgias nem apresentar um discurso defensivo. Pelo contrário, propôs um olhar simultaneamente teológico, cultural e profundamente humano sobre aquilo que continua a fazer da família um dos maiores patrimónios da nossa civilização.
Enquanto sacerdote e sociólogo, chamou-me, particularmente, a atenção o facto de a conferência não reduzir a família a uma questão religiosa. Antes de ser uma realidade confessional, a família aparece como um bem social fundamental. Não por acaso, D. José Cordeiro recordou a expressão do Papa Leão XIV, segundo a qual a família constitui “um bem social primário”. A formulação é feliz porque desloca o debate para aquilo que verdadeiramente está em causa. Quando uma sociedade fragiliza a família, não perde apenas uma tradição. Perde uma das primeiras escolas da confiança, da reciprocidade e da responsabilidade.
Na sociologia sabemos que nenhuma comunidade subsiste apenas através das leis. A coesão social nasce de realidades muito mais discretas. Nasce da aprendizagem quotidiana do cuidado, da capacidade de reconhecer o outro, da experiência da gratuidade. É na família que essas competências humanas começam a ser adquiridas, muito antes de qualquer contrato social ou de qualquer instituição pública.
Foi, igualmente, significativa a insistência de D. José Cordeiro em apresentar o matrimónio como uma linguagem. Recuperando uma expressão de Walter Kasper, afirmou que o matrimónio é a gramática através da qual se exprimem o amor e a fidelidade. A imagem possui uma rara profundidade. A gramática não limita a linguagem. Torna-a possível. Também o compromisso não empobrece o amor. Dá-lhe forma, continuidade e inteligibilidade. Sem a gramática as palavras dispersam-se e sem o compromisso também as emoções se dispersam.
Esta perspetiva contrasta com uma cultura marcada pela instantaneidade. Vivemos num tempo em que quase tudo se tornou provisório. As relações, o trabalho, as pertenças e até a própria identidade parecem, frequentemente, sujeitas à lógica da permanente revisão. Não admira que também o amor seja, por vezes, reduzido à intensidade do sentimento ou à satisfação imediata. A conferência recordou oportunamente a advertência do Papa Francisco na Evangelii Gaudium. A fragilidade dos vínculos familiares constitui uma das expressões mais evidentes da atual crise cultural, precisamente porque a família continua a ser a célula básica onde se aprende a viver com a diferença e a pertencer aos outros.
Mas talvez a ideia mais fecunda da conferência tenha sido outra.
O arcebispo recusou olhar para a família apenas como destinatária da ação pastoral. A família foi apresentada como o lugar onde a própria Igreja acontece. Uma verdadeira igreja doméstica. Independentemente da adesão religiosa de cada um, existe aqui uma intuição que merece ser valorizada também do ponto de vista sociológico. As grandes instituições vivem da qualidade das pequenas comunidades. Uma sociedade será tanto mais sólida quanto mais conseguir preservar espaços onde as pessoas aprendam a escutar, a partilhar, a perdoar e a esperar umas pelas outras.
Outro aspeto relevante foi a leitura feita da exortação Amoris Laetitia. Em vez de classificar as famílias entre perfeitas e imperfeitas, regulares e irregulares, o Papa Francisco propôs um caminho de acompanhamento, discernimento e integração. É uma mudança de linguagem que traduz igualmente uma mudança de olhar. Antes de perguntar onde alguém falhou, importa perguntar como pode ser ajudado a crescer. Esta talvez seja uma das maiores contribuições da reflexão contemporânea da Igreja para uma sociedade, frequentemente, dominada pelo julgamento imediato.
Há ainda um ponto que merece destaque. Quando o Sr. Arcebispo falou da preparação para o matrimónio como um novo catecumenado, não está simplesmente a defender mais formação religiosa. Está a afirmar que amar exige aprendizagem. Num mundo que investe anos na preparação para uma profissão e praticamente nenhum tempo na preparação para construir uma vida comum, esta é uma interpelação que ultrapassa claramente o universo eclesial. Também a sociologia mostra que as relações duradouras não sobrevivem apenas da espontaneidade. Exigem competências, maturidade, comunicação e capacidade de enfrentar conflitos.
No final da conferência ficou a sensação de que falar da família é, afinal, falar da esperança. Não da esperança ingénua que ignora as dificuldades, mas daquela que acredita que o ser humano continua a ser capaz de construir relações estáveis num mundo acelerado.
Talvez seja precisamente isso que a família continua a oferecer às sociedades contemporâneas. Um lugar onde cada pessoa pode descobrir que não vale apenas pelo que produz, pelo que possui ou pelo sucesso que alcança, mas simplesmente porque é amada.
Num tempo em que quase tudo se mede pela utilidade, esta continua a ser uma das mais discretas e, simultaneamente, das mais revolucionárias lições da família. E talvez seja também por isso que, apesar de todas as transformações sociais, ela permanece, como lembrou D. José Cordeiro, um bem fundamental da humanidade.
Cón. Eduardo Duque
Pastoral da Cultura da Arquidiocese de Braga
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