Arquidiocese de Braga -

10 setembro 2026

Bispos franceses: grande sede espiritual e expectativa pela chegada de Leão XIV

Fotografia Vatican News

Vatican News - Salvatore Cernuzio

O cardeal Jean-Marc Aveline, presidente da Conferência Episcopal Francesa, não quer atribuir a si os méritos e fala continuamente em trabalho de equipa. Mas, se o Papa Leão XIV estará na França de 25 a 28 de setembro, país onde se regista “uma enorme sede espiritual”, isso certamente se deve também à sua perseverança e à capacidade de aproveitar a oportunidade. “Propus muito cedo ao Santo Padre a ideia de uma visita à França”, contou o cardeal durante uma conferência sobre a viagem apostólica, realizada na manhã desta terça-feira, 8 de setembro, na sede da Conferência Episcopal Francesa. “Eu conheço-o porque, durante dois anos, ele foi, por assim dizer, meu superior, quando era prefeito do Dicastério para os Bispos. Eu disse-lhe: ‘Pense numa viagem à França?’. Creio que havia um interesse pessoal. O problema era encontrar uma data.”

Disseram a Aveline que 2026 seria muito cedo e que a agenda do Papa já estava lotada. “Falava-se de 2027 ou até mesmo do início de 2028. Mas 2027 apresentava outras dificuldades, inclusive por causa da situação política francesa. Por isso, insisti na possibilidade de 2026”, explicou aos muitos jornalistas presentes na sala e aos que acompanhavam a conferência por streaming. “Era um desafio enorme: apenas quatro meses para preparar tudo. Fui conversar com a pessoa responsável pela agenda do Papa e, em determinado momento, abriu-se uma semana porque uma viagem prevista ao Peru havia sido cancelada. Eu disse: então, nada de Peru, vamos à França. Do resto, cuido eu.”

Prazos apertados e grande organização

Foi assim que nasceu a quinta viagem apostólica do pontificado de Robert Francis Prevost e a terceira a um país europeu. É também por isso que “os prazos são tão apertados”: quatro meses para organizar tudo, reforçar a segurança dos principais locais de Paris, preparar a vigília em Saint-Denis, organizar os espaços públicos e reservados de Lourdes e administrar as pequenas praças e igrejas de Metz. E, sobretudo, garantir nos três locais a melhor acolhida possível. Um grande trabalho: “Mas parecia-me melhor aproveitar a oportunidade do que adiá-la”, afirmou o cardeal.

A origem do lema: uma mensagem em favor da vida

Durante a conferência, Aveline também explicou a origem do lema da viagem: Para que o mundo tenha vida. A expressão é inspirada no Evangelho de João e foi interpretada por alguns como uma referência ao debate sobre o projeto de lei sobre o suicídio assistido, aprovado em julho pelo Parlamento francês. Aveline afastou qualquer interpretação política, mas não negou que o lema seja uma mensagem em defesa da “dignidade da vida humana”.

De todo modo, o lema é fruto de uma longa reflexão. “Na verdade, não sabíamos muito bem o que propor ao Papa. Havíamos começado a refletir sobre a paz, porque ele falou muito sobre isso. Pensávamos então em Justiça e paz se abraçarão, mas percebemos que esse era o lema do Líbano.” Depois, durante uma visita a Roma, surgiu a inspiração: “Deixámos a ideia amadurecer e, à noite, escrevi ao Papa um breve e-mail: ‘Eis a ideia que tivemos’. Na manhã seguinte, o Papa respondeu-me: ‘Sim, esta é boa’.”

Ao ler a encíclica Magnifica Humanitas, destacou o cardeal, “percebe-se que se trata da defesa da dignidade da vida humana em todas as situações nas quais essa dignidade pode ser ameaçada. E hoje são muitas. A defesa da dignidade da vida humana está no centro da mensagem do Papa Leão”. Como essa mensagem será desenvolvida na França? “Veremos, mas já sabemos que a questão da vida e do respeito pela vida, não apenas do ponto de vista ético, mas de muitas outras maneiras, está fortemente ligada à mensagem do Evangelho.”

Números elevados de orçamento e participação

A viagem de Leão XIV à França deverá ser intensa, tanto pela organização e pelos conteúdos quanto pelos grandes números de participantes e pelos custos. O orçamento total estimado para a visita é de cerca de 27 milhões de euros. “Estamos a tentar administrar o projeto com a máxima atenção aos gastos. Até agora arrecadámos cerca de 5,5 milhões de euros e a arrecadação continua”, explicou Sylvain Guillebaud, secretário-geral adjunto responsável pelos recursos da Conferência Episcopal, referindo-se também às doações realizadas por meio do site oficial.

Inicialmente, o valor previsto era inferior, mas “talvez tenhamos ido além do que podíamos prever inicialmente”, também em razão do número de fiéis esperados. Entre reservas e inscrições, já se fala em um milhão de pessoas, não apenas da França, mas também de países europeus vizinhos, especialmente em Metz, de diferentes idades, origens e, em alguns casos, religiões. “Há um entusiasmo enorme, mas também um grande desafio organizacional e logístico: acolher cada fiel e cada pessoa que deseja ver ou encontrar o Papa da melhor maneira possível”, afirmou o cardeal Aveline.

A laicidade

O arcebispo de Paris, monsenhor Laurent Ulrich, também falou num “desafio gigantesco”: “Desde que a viagem foi anunciada, em maio, tivemos quatro meses, incluindo o período de verão, para organizar a visita do Santo Padre”. O arcebispo disse estar “entusiasmado” e “absolutamente tranquilo” com o andamento dos trabalhos, graças também à equipa de voluntários e colaboradores e ao apoio da agência Gel Evans, especialmente contratada para a ocasião. Certamente não é fácil, mas todos os esforços serão feitos para “acolher cada pessoa que vier, para que possa ver o Papa não num ecrã gigante, mas ao vivo”.

Para Paris, afirmou o arcebispo, foram escolhidos “os lugares mais emblemáticos”, incluindo dois símbolos da cidade, a Place de la Concorde e a Champs-Élysées. A escolha provocou algumas críticas por parte dos defensores mais rigorosos da laïcité do Estado, entre políticos e outros setores da sociedade.

“É importante lembrar que estamos numa República laica. O Estado não reconhece nenhum culto, mas garante que as diferentes confissões possam expressar publicamente a sua fé”, destacou o cardeal Aveline. “Quando se organiza uma manifestação religiosa no espaço público, é necessário solicitar autorização às autoridades competentes. Nós seguimos o procedimento previsto e não estamos a ultrapassar nenhum limite.”

Um encontro especial com vítimas de abusos

Acima de tudo, os bispos fazem questão de destacar a dimensão do encontro que caracterizará a viagem do Papa. Haverá encontros públicos e privados: com as multidões no adro de Notre-Dame, no Stade de France, durante a Missa na Place de la Concorde e também com pequenos grupos em momentos mais reservados. Entre eles está o encontro em Lourdes com doentes e com um grupo de vítimas de abusos sexuais.

Sobre esse último compromisso, o bispo Pierre Antoine Bozo, porta-voz dos bispos e coadjutor de La Rochelle, forneceu detalhes: “Desde o início, pareceu que o Papa queria encontrar as vítimas de abusos sexuais. É necessário cuidar dessas vítimas e, ao mesmo tempo, permanecer extremamente vigilantes em relação à prevenção, para que a Igreja seja a casa segura que desejamos”.

Diante do contexto da Igreja e da sociedade, era “óbvio”, segundo o bispo, que haveria um encontro desse tipo; a questão dizia respeito sobretudo à “forma”. “O que determinou a escolha foi o desejo do próprio Santo Padre de que fosse um encontro realmente interpessoal; isso exigia um número reduzido de participantes e, por isso, foi escolhido um grupo de sete pessoas.”

Essas pessoas foram selecionadas pela Conferência Episcopal Francesa e pela Conferência dos Religiosos e Religiosas da França, depois de contactos com cerca de quarenta interlocutores, entre grupos e indivíduos. Todos apresentaram algumas ideias para a realização do encontro, que “durará cerca de uma hora” e “terá grande importância”. “As pessoas foram selecionadas de maneira particularmente equilibrada, porque há homens e mulheres que foram vítimas de abusos tanto quando eram menores quanto quando eram adultos, em ambientes escolares e paroquiais”, explicou monsenhor Bozo.

Buscou-se garantir “a representação mais justa possível”, mas inevitavelmente “gerou-se alguma frustração entre aqueles que não foram selecionados”. O objetivo principal, porém, foi privilegiar “a qualidade do encontro com o Santo Padre, para que possa haver uma verdadeira troca”. Com um número maior de participantes, isso seria difícil. De todo modo, qualquer pessoa entre os grupos e indivíduos contactados pelo Serviço de Proteção de Menores que quiser comunicar algo ao Papa poderá fazê-lo enviando “um texto escrito que será entregue ao Santo Padre”.

Peregrino em Lourdes

Embora o desejo dos bispos seja que todos possam ter a oportunidade de entrar em contacto com o Papa durante esses quatro dias, existem alguns “limites”. É o caso também de Lourdes, como destacou o bispo Jean Marc Micas. Ele, ao recordar a “grande efervescência” em torno dessa etapa, na esteira das visitas de João Paulo II, em 1983 e 2004, e de Bento XVI, em 2008, lembrou que “Lourdes é um lugar limitado pelos espaços restritos de uma cidade montanhosa, por um rio que corre aos pés da gruta; todas essas condições impõem limites de capacidade, licenças e autorizações”.

“Nós fazemos o máximo para permitir que aqueles que desejam vir possam fazê-lo nas melhores condições possíveis.” Somente no fim de semana, cerca de 50 mil pessoas irão a Lourdes, e espera-se um número ainda maior por ocasião da visita do Papa. Prefeitura, autoridades administrativas, forças de segurança e voluntários das equipas do Santuário estão “a arregaçar as mangas para acolher toda essa gente em excelentes condições, para que possa viver uma experiência de peregrinação com um peregrino especial: o Papa”.

Sim, porque Leão se apresentará justamente como um peregrino no famoso santuário mariano. Assim que desembarcar do avião, irá à Gruta de Massabielle: “Tocará a rocha, beberá a água, acenderá uma vela, ajoelhará e rezará em silêncio, como fazem os peregrinos em Lourdes”. Depois, como “pastor”, presidirá à procissão mariana das velas e celebrará a Missa.

A dimensão inter-religiosa

Será um momento de profunda intensidade espiritual, mas que não pretende ser o centro da viagem, que contará com muitos outros acontecimentos. Também será forte, por exemplo, a dimensão inter-religiosa.

“Além dos círculos dos fiéis, a viagem já é algo magnífico apenas pela sua preparação e pelo entusiasmo que despertou em tantas pessoas”, afirmou o bispo de Pontoise, Benoit Bertrand, coordenador da viagem pela Conferência Episcopal Francesa.

Já Etienne Guillet, bispo de Saint-Denis, diocese localizada na periferia norte de Paris, onde fica o Stade de France que receberá a vigília dos jovens, informou que quase 80 mil rapazes e moças de todo o país se inscreveram para participar da noite. Esses mesmos jovens convidaram amigos judeus, muçulmanos, sikhs, budistas e hindus. “Eles convivem durante todo o ano e sentiam o desejo de partilhar este grande momento.”

“Estamos muito atentos para que nenhum jovem seja excluído deste encontro”, afirmou Guillet. Nas arquibancadas estarão também doentes, jovens que vivem em situações de vulnerabilidade social, estudantes de escolas católicas e também jovens provenientes de ambientes menos religiosos. Cerca de trinta artistas de um circo itinerante — “cristãos e não cristãos” — também estarão presentes para prestar a sua homenagem ao Papa.

De Metz, uma mensagem para a Europa

Ainda no âmbito inter-religioso, será igualmente importante o encontro em Metz com representantes das diferentes religiões. “As religiões que dialogam podem contribuir para a construção da paz”, destacou o bispo Philippe Ballot. “Por isso, sentimos que o dia de Metz, embora tenha uma dimensão local e nacional, assume uma dimensão europeia e internacional.”

Metz é realmente o “coração” da Europa, tanto pela sua localização geográfica quanto pela sua história, que se entrelaça com a de um dos pais fundadores da União Europeia: Robert Schuman, homem declarado venerável pelo Papa Francisco, que viveu “a complexidade de pertencer a diferentes nacionalidades e o drama de ver essas nacionalidades combaterem entre si”.

“Por isso, a reconciliação esteve sempre no centro da sua vida”, afirmou o bispo. Em nome da reconciliação, o Papa Leão prestará homenagem a Schuman, lançando uma mensagem para toda a Europa.

“Quando um Papa visita um país, a sua visita não diz respeito apenas àquele país, mas pode oferecer algo à Igreja universal”, afirmou Aveline. “Por isso, devemos estar atentos, ouvir o que o Papa terá para nos dizer e compreender o que somos chamados a mudar. Podemos receber das suas palavras uma espécie de linhas-guia.” Válidas para a França, para a Europa e para o mundo.