Arquidiocese

Ano Pastoral 2021+2022

"Onde há amor, nascem gestos"

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11 Nov 2021
Pobreza evangelizadora
Texto do Cón. Roberto Rosmaninho Mariz (Vigário Episcopal para o Desenvolvimento Humano Integral), a propósito do Dia Mundial dos Pobres.
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  © Rick Bowmer/AP

Ao celebrarmos o V Dia Mundial dos Pobres, o Papa Francisco convida-nos a repensarmos a nossa posição perante os pobres e a pobreza.

Pobres – Pessoas integrantes da Comunidade

“Jesus não só está do lado dos pobres, mas também partilha com eles a mesma sorte. Isto constitui também um forte ensinamento para os seus discípulos de todos os tempos. As suas palavras – «sempre tereis pobres entre vós» – pretendem indicar também isto: a sua presença no meio de nós é constante, mas não deve induzir àquela habituação que se torna indiferença, mas empenhar numa partilha de vida que não prevê delegações. Os pobres não são pessoas «externas» à comunidade, mas irmãos e irmãs cujo sofrimento se partilha, para abrandar o seu mal e a marginalização, a fim de lhes ser devolvida a dignidade perdida e garantida a necessária inclusão social. Aliás sabe-se que um gesto de beneficiência pressupõe um benfeitor e um beneficiado, enquanto a partilha gera fraternidade. A esmola é ocasional, ao passo que a partilha é duradoura” (Mensagem do Santo Padre Francisco para o V Dia Mundial Dos Pobres, 3).

Um caminho sinodal entre aqueles cujas vidas estejam a ser mais fáceis e aqueles cuja vida tem sido mais “sofrida”. Um caminho conjunto e constante. Não o “nós” e os “outros”, mas todos formando uma única comunidade unida e interligada.

 

Pobres – Agentes de evangelização

“Os pobres de qualquer condição e latitude evangelizam-nos, porque permitem descobrir de modo sempre novo os traços mais genuínos do rosto do Pai. Eles «têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles. O nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro, considerando-o como um só consigo mesmo. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo de procurar efetivamente o seu bem»” (Ibidem, 2).

O caminho sinodal integrador dos pobres será potenciador de uma evangelização dos agentes da pastoral da comunidade e da comunidade no seu todo, levando a percorrer de um outro modo o caminho da formalidade das ações em direção à “lei maior da bondade para com o outro”.

 

Pobres – Ação concreta para erradicar as causas da pobreza

“Entretanto permanece de pé uma questão, nada óbvia: Como se pode dar uma resposta palpável aos milhões de pobres que tantas vezes, como resposta, só encontram a indiferença, quando não a aversão? Qual caminho de justiça é necessário percorrer para que as desigualdades sociais possam ser superadas e seja restituída a dignidade humana tão frequentemente espezinhada? Um estilo de vida individualista é cúmplice na geração da pobreza e, muitas vezes, descarrega sobre os pobres toda a responsabilidade da sua condição. Mas a pobreza não é fruto do destino; é consequência do egoísmo. Portanto é decisivo dar vida a processos de desenvolvimento onde se valorizem as capacidades de todos, para que a complementaridade das competências e a diversidade das funções conduzam a um recurso comum de participação. Há muitas pobrezas dos «ricos» que poderiam ser curadas pela riqueza dos «pobres», bastando para isso encontrarem-se e conhecerem-se. Ninguém é tão pobre que não possa dar algo de si na reciprocidade. Os pobres não podem ser aqueles que apenas recebem; devem ser colocados em condição de poder dar, porque sabem bem como corresponder” (Ibidem, 6).

Não podemos ficar nas meras reflexões, nem nas meras objetivações que indiciam a dimensão estrutural das causas da pobreza que nos impedem de agir. Urge sermos agentes transformadores da situação atual, não meramente construindo ações para os pobres, mas edificando com eles.

Necessitamos de ações concretas que vão transformando a vida das pessoas.  “ «Uma Igreja pobre e para os pobres» não é aquela que lança às urtigas o seu património, mas que – sem entrar em lógicas económico-financeiras de puro lucro – dele verifica continuamente a efetiva finalidade pastoral e assistencial, para esteja sempre ao serviço da missão evangélica: anúncio do Evangelho, celebração dos mistérios do Senhor, caridade e justiça a partir dos mais carenciados” (D. Erio Castellucci).

 

Dados atuais da pobreza no nosso país – Não nos podem deixar indiferentes

De 2019 (Fonte: Pordata)

Taxa de intensidade da pobreza – 24,4%.

Mais de 1,6 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza, com menos de 540 euros por mês, realidade que afeta famílias numerosas, mas também quem vive sozinho, idosos, crianças, estudantes e trabalhadores.

Dados objetivos que necessitam de ser refletidos:

- Ter um emprego não é garantia de não se ser pobre em Portugal (9,5% da população empregada em Portugal é considerada pobre).

- Ter filhos potencia o aumento da pobreza (quase 40% das famílias compostas por dois adultos e três ou mais crianças estavam em risco de pobreza, por oposição aos 26% entre as famílias com um adulto e uma ou mais crianças).

- Viver sozinho também é um fator de vulnerabilidade, variando com a idade (o risco de pobreza chegava aos 28% entre os idosos com 65 ou mais anos, mas ficava-se pelos 18% entre os adultos com menos de 18 anos).

O Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza nota que, no que refere aos grupos com maior vulnerabilidade e taxas de risco de pobreza ou exclusão social, mantêm-se os mesmos grupos sociais: as mulheres (22.2%); as crianças (22.3%); as famílias monoparentais (43%); as famílias com dois adultos e três ou mais crianças (36.2%); as pessoas isoladas (31.3%); os desempregados (59.9%); os outros inativos (40.7%); as pessoas com apenas o ensino básico (27.3%); as pessoas com grau de incapacidade severo (31.4%) ou com algum grau de incapacidade (27.8%); os estrangeiros de países extracomunitários (31.7%); os arrendatários com rendas a preço reduzido ou gratuita (38.5%); os arrendatários com renda a preço de mercado (28.7%); e a população das áreas pouco povoadas (25.5%).

As famílias sem crianças dependentes mantinham, em 2019, um risco de pobreza ou exclusão social (21.4%) inferior ao das famílias com crianças dependentes (21.7%). Dentro das famílias sem crianças dependentes, quanto maior o número de adultos, menor o risco desta vulnerabilidade social e económica. Assim, enquanto 17.6% das famílias com três ou mais adultos estavam em risco de pobreza ou exclusão social, para as pessoas que viviam sozinhas este risco sobe para 31.3%. De facto, sem uma proteção social forte que previna situações de pobreza material (e de privação material severa) nas situações de desemprego e de inatividade, o isolamento torna-se num fator de vulnerabilidade.

Mais de um quarto das famílias com apenas um adulto e com crianças dependentes estão em risco de pobreza apesar do adulto estar inserido no mercado de trabalho (26.4%). Ter a cargo crianças dependentes é efetivamente um fator de risco para os trabalhadores. Os agregados com crianças dependentes têm um risco de pobreza 26% mais elevado do que os agregados sem crianças dependentes. Se é verdade que quanto menor a intensidade laboral do agregado familiar, maior o risco de pobreza dos trabalhadores, também é verdade que mesmo nos agregados com intensidade laboral muito elevada existe vulnerabilidade à pobreza. Segundo os dados do ICOR2019, 6.2% dos trabalhadores em agregados com intensidade laboral muito elevada estão em risco de pobreza. Este risco sobe para 7% quando esse trabalhador tem a seu cargo uma ou mais crianças dependentes.

Muitas são as formas de pobreza, fragilidade e sofrimento, e diversos os âmbitos que impõe a nossa ação: económica, fisiológica, psicológica, mental, prisões, doentes, violência doméstica, vítimas de assédio, etc.

Este ano, o lema tema pastoral é “onde há amor, nascem gestos”. Partilhamos alguns dados e números da ação concreta da nossa Arquidiocese em prole das pessoas com fragilidades.

 

Cáritas Arquidiocesana de Braga

O serviço de atendimento da Cáritas tem atuado com o objetivo de sinalização e apoio das pessoas e das famílias nas mais variadas carências.

Tem existido um aumento de solicitações diárias, muitos/as são os/as que nos procuram para a recolha de cabazes de bens alimentares, e embora sejam entregues, temos investido na entrega de vales de apoio alimentar, no sentido de devolver dignidade aos agregados familiares.

No dia 14 de Novembro, Dia Mundial dos Pobres, será feita a apresentação pública da operação “10 Milhões de Estrelas – Um Gesto Pela Paz”, com o objetivo de sensibilizar para os valores da paz como vivência cristã do Natal e ajuda financeira para os diferentes serviços de apoio social e comunitário. 

Com a necessidade de ir ao encontro de pessoas em situação de sem-abrigo, isolamento social ou qualquer outra forma de exclusão social, será retomada a Oração de Rua no início do ano de 2022. 

No presente ano, até ao momento foram realizados 6817 atendimentos, apoiadas 3231 pessoas e entregues 20.768 refeições, 623 cabazes alimentares (12.460kg), 5.100€ vales alimentares, 6.333,03€ em apoio para medicamentos e 40.618,64€ em outros apoios.

 

Conferências Vicentinas

Têm uma presença capilar em grande parte da Arquidiocese de Braga. Centenas de pessoas voluntárias prestam este serviço caritativo por toda a geografia da Arquidiocese. Ao longo do persente ano já foram disponibilizados os seguintes apoios: 165.007,69€, sendo em ajuda alimentar 88.632,15€, no apoio a situações de doença 27.714,15€ e na ajuda à habitação 29.646,49€.

Totalizam três mil pessoas atendidas, com 5.422 atendimentos realizados.

 

IPSS Canónicas e Misericórdias

Muitas são as Instituições sociais e caritativas que agem em prole de uma sociedade mais justa e fraterna. Todas as nossas Instituições eclesiais (equipas sócio caritativas, IPSS Canónicas, Fundações, Misericórdias) compõem, de mãos dadas com todas as outras Instituições da sociedade civil que assumem a mesma causa e são um exército de bem-fazer silencioso.

A nossa imensa gratidão a todos/as os/as que dão forma e expressão à proximidade e cuidado com os mais fragilizados.

O Departamento Arquidiocesano para as IPSS Canónicas e Misericórdias, que integra esta comissão, refere que devido à crise pandémica, acentuaram-se em muitas das IPSS Canónicas e Misericórdias dificuldades acrescidas às já antes sentidas. Os fiéis e muitos beneméritos, que são o suporte local destas instituições, quer pelo seu voluntariado, quer pela sua generosidade financeira, também começaram a enfrentar múltiplas dificuldades, que merecem a nossa atenção e apoio.

Neste tempo de pandemia, que continua a abalar a estabilidade das instituições e dos seus utentes, o departamento tem agido como congregador de vontades, apresentando propostas alternativas a nível de gestão e de planos de ação para as IPSS Canónicas e Misericórdias, tendo como objetivo último este: que os mais pobres não sejam afetados nas ajudas continuadas que lhe são proporcionadas por estas instituições de solidariedade social e cristã.

Este departamento não pretende competir com ninguém. Deseja implementar e reforçar parcerias, acrescentando mais valor às ações já em curso. Tomando o lema do ano pastoral (2021-2022) “onde há amor, nascem gestos” desejam concretizar e encorajar todos os que continuam a ter a ousadia de não desistir nesta hora de “vendavais e desconfianças”.

 

Fundo Partilhar com Esperança

O Fundo Partilhar com Esperança da Arquidiocese atribuiu este ano o valor de 32.772,93€, tendo sido concedidos 79 apoios que abrangeram 171 pessoas. Cerca de 90% do apoio foi para habitação.

 

Centro de Escuta

A Arquidiocese de Braga, através do Departamento para a Pastoral da Saúde, disponibiliza o Centro de Escuta para acolher todos aqueles que precisam de ser apoiados nas diversas fragilidades emocionais, afetivas e espirituais. São centenas de atendimentos que são realizados ao longo do ano, sendo que no presente ano já se realizaram 426 atendimentos de pessoas vindas de todos arciprestados da Arquidiocese de Braga, tendo-se disponibilizado 30.384€ para os atendimentos internos e apoio externo. 

 

Migrações e Minorias

O Departamento Arquidiocesano para as Migrações e Minorias expressa que a pobreza imaterial é mais difusa e preocupante, afetando diversas fachas etárias. É percebida a angústia vivida por jovens em resultado da frustração existencial focada na realização de vida amorosa e afetiva. Uma realidade muito presente em jovens estudantes dos 27 aos 35 anos, com níveis de mestrado e doutoramento.

As depressões arrastadas pela pandemia vão sendo manifestas: angústias advindas de situações de isolamento que quebraram rotinas como relações internacionais e viagens; situações que só com o “caminhar junto” se poderá ajudar a desbloquear. Há necessidade de Cireneus nesta dimensão da pobreza. 

 

Deficiência

O Departamento para a Pastoral das Pessoas com Deficiência tem um acompanhamento mais próximo com os Surdos, integrando-os na vivência evangelizadora e litúrgica, e com a Fraternidade Cristã dos Doentes Crónicos e Deficientes Físicos.

 

Prisões

O Departamento Arquidiocesano para a Pastoral Penitenciária alerta para a necessidade do sistema prisional português ter dois objetivos fundamentais: proteger a sociedade de condutas criminosas e proporcionar aos reclusos uma hipótese de reabilitar as suas vidas. Devíamos, por isso, implementar medidas pedagógicas de sociabilização, tais como a re-leitura da história pessoal, a aquisição de competências de trabalho, a restauração de laços afetivos, a implementação de terapias de combate a doenças como o álcool, drogas e outras adições bem como proporcionar um caminho espiritual de redescoberta de valores da vida em sociedade. Os direitos constitucionais do exercício da liberdade religiosa estão muito mal tratados nas prisões portuguesas. A dimensão espiritual não cabe nos esquemas daqueles que acham que o sistema é para reprimir. A lei 252/2009, que regula a assistência espiritual e religiosa nos estabelecimentos prisionais, está de quarentena desde que foi criada: nunca foi regulamentada nem parece inquietar as instituições que deveriam assumir isso como sua missão. Os Estabelecimentos Prisionais de Braga e Guimarães não têm Assistentes Espirituais e Religiosos oficializados pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.

 

Comissão “Justiça e Paz”

O Departamento da Comissão “Justiça e Paz” de Braga agrega toda a reflexão e inquietação da Comissão “Justiça e Paz” Nacional, focando as inquietações com a dignidade da pessoa humana, a proteção da vida, valorização do trabalho e cuidado com as minorias. Presentemente sobressai a necessidade da proteção do clima e da biodiversidade, realidade tão gritante e reconhecida como necessidade de um cuidado a ser agarrado por todos, onde a ciência e a fé rumam na mesma direção. 

 

Equipa Arciprestal para o Desenvolvimento Humano Integral no Arciprestado de Guimarães 

V Dia Mundial dos Pobres – A constituição e formalização da Equipa Arciprestal para o Desenvolvimento Humano Integral no Arciprestado de Guimarães com o apoio da Cáritas. Este momento formal no Dia Mundial dos Pobres visa ser um estímulo para os outros arciprestados também concretizem as Equipas Arciprestais para o Desenvolvimento Humano Integral.

 

Para finalizar: “Os pobres estão no meio de nós. Como seria evangélico, se pudéssemos dizer com toda a verdade: também nós somos pobres, porque só assim conseguiríamos realmente reconhecê-los e fazê-los tornar-se parte da nossa vida e instrumento de salvação” (Mensagem do Santo Padre Francisco para o V Dia Mundial Dos Pobres, 9).

 

Comissão para o Desenvolvimento Humano Integral 

Cón. Roberto Rosmaninho Mariz (Vigário Episcopal para o Desenvolvimento Humano Integral)

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