Arquidiocese de Braga -
23 setembro 2025
Declínio religioso nas famílias leva à erosão dos valores tradicionais
DM - Joaquim Martins Fernandes
Um estudo académico publicado pelo professor Eduardo Duque, da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais do Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa, sinaliza que o declínio da vivência religiosa no seio das famílias está a abalar os valores tradicionais e a promover o individualismo e «mudanças estruturais mais amplas» em que a importância da vida profissional começa a colidir com os valores familiares.
O estudo intitulado “A Família no Espelho: Valores e Atitudes Geracionais dos Portugueses em Relação à Família”, versão portuguesa, acaba de ser publicado na versão inglesa pela editora suíça MDPI – Multidisciplinary Digital Publishing Institute. No trabalho académico em que contou com a colaboração de José F. Dyrán Vásquez, docente do Departamento de Sociologia, Ciência Política e Gestão e Filosofia da Universidade de Vigo, Espanha, o sacerdote da Arquidiocese de Braga analisa «a família portuguesa contemporânea, sob a ótica das mudanças na transmissão dos valores familiares, com foco particular na esfera religiosa».
Tendo como ponto de partida 3634 entrevistas realizadas entre famílias portuguesas, Eduardo Duque sublinha que «os resultados mostram que os valores atuais estão cada vez mais orientados para o individualismo, a emocionalidade, a expressividade e o empoderamento», em detrimento dos valores que passavam para o ambiente familiar através da religião. Destaca Eduardo Duque que «o declínio religioso na esfera familiar tem acompanhado a erosão dos valores tradicionais, posicionais e hierárquicos – mesmo entre indivíduos com crenças religiosas nos quais o sentido de pertença está a enfraquecer – favorece valores individualistas e expressivos relacionados com o trabalho, educação e o lazer». «A análise revela diferenças geracionais significativas na perceção da família, indicando um processo contínuo de transformação social, que reflete mudanças estruturais mais amplas na sociedade portuguesa», destaca o também investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Universidade do Minho.
Valores familiares em profunda alteração
O trabalho evidencia que «as gerações mais jovens demonstram uma adesão mais forte aos valores individualistas e um apego mais fraco aos padrões hierárquicos tradicionais». Os dados obtidos também «sugerem uma profunda reconfiguração dos fundamentos de valores da família, com implicações importantes para as políticas familiares e para a compreensão das dinâmicas familiares contemporâneas no contexto português». O estudo revela ainda que, «embora a maioria das pessoas se declare religiosa, apenas 14% afirmam frequentar cultos religiosos semanalmente, em comparação com 19% que o fazem raramente e 31% que nunca ou quase nunca o fazem. Conclui ainda a pesquisa que, enquanto 24% relatam rezar diariamente, 30% afirmam nunca rezar e 11% o fazem uma vez por semana. A pesquisa também destaca «um claro declínio nas práticas religiosas em comparação com a infância e a adolescência dos participantes» e evidencia uma dado cada vez mais preocupante: «menos pessoas, por exemplo, sentem o dever de cuidar dos mais velhos ou de ter filhos em prol da continuidade familiar ou da perpetuação de uma identidade coletiva». É que «a crescente proximidade emocional das famílias modernas tem sido acompanhada pelo declínio das normas e valores morais que antes faziam os indivíduos se sentirem parte de uma ordem superior destinada a perdurar».
A investigação de Eduardo Duque sinaliza ainda uma tendência de alterações significativa na vivência da religiosidade em família. «Em relação à idade, os jovens entre 15 e 22 anos demonstram uma clara preferência por entretenimento, sendo a visualização de filmes ou séries (16%) e as viagens ou férias (26%) muito valorizadas. Para a faixa etária de 23 a 49 anos, as refeições em família surgem como a atividade mais priorizada (33% para os de 23 a 29 anos e 27% para os de 30 a 49 anos), embora viagens e férias continuem populares. Enquanto isso, os adultos com 50 anos ou mais valorizam cada vez mais as atividades religiosas, tendência que é mais pronunciada no grupo de 65 anos ou mais, onde a participação em cerimónias religiosas (13%) e a oração (9%) apresentam os valores mais elevados».
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